terça-feira, abril 11, 2006

De tristeza em tristeza até ao desespero final:(.

Idoso matou a mulher a tiro e suicidou-se
Bruno Simões Castanheira

Casal vivia só mas recebia apoio diário de familiares e vizinhos


Telma Roque

Atormentado com a doença da mulher, que há anos definhava com Alzheimer, um homem decidiu ontem empunhar uma caçadeira e matar a companheira. Depois, foi para a rua e disparou sobre si próprio. Familiares e vizinhos do casal idoso ficaram em estado de choque. Garantem que nada fazia prever um desfecho tão trágico.

Tudo aconteceu cerca das 9 horas, numa vivenda situada na pacata localidade de Polima, em São Domingos de Rana, Cascais. No rés-do-chão da casa, a idosa, de 80 anos, repousava na sua cama, refém da doença. O marido deambulava pelas outras divisões do piso térreo da vivenda.

No andar de cima, uma nora e uma neta adolescente conversavam. A certa altura, o ruído de um disparo deixou-as aterradas. A nora correu para a janela e viu o sogro sair para o quintal com a caçadeira. Não teve tempo para evitar mais uma morte.

"Esta tragédia foi o culminar de dois longos anos de sofrimento", desabafou, abalado, ao JN um amigo da família. "O senhor deve ter pensado que aquilo não era vida para ele, nem vida para ela. Foi o desespero e o desgosto", reforçou uma vizinha.

Naquela manhã, um dos filhos do casal esteve na vivenda para saber se os pais estavam bem. O idoso, de 74 anos, não terá desabafado o que lhe ia na alma, apenas aguardou que o filho se fosse embora para, sozinho, acabar com a vida.

A mulher foi encontrada na cama, já sem vida com ferimentos na cabeça. O marido foi encontrado no quintal da vivenda. Primeiro sentou-se, prendeu a arma entre os joelhos, encostou os canos ao queixo e disparou.

No local, estiveram os bombeiros, a delegada de saúde, uma patrulha da GNR e elementos da Polícia Judiciária, a quem compete investigar crimes que envolvem armas de fogo. Os corpos foram retirados da casa cerca das 13 horas.

JN.

25 comentários:

tb disse...

Dramas da vida real, num país cada vez menos real...

AQUILES disse...

DESENCANTO

Maite disse...

Há momentos de completo desespero, em que a única saída parece ser acabar com tudo de vez. Eu acredito, porém, que há sempre uma réstia de esperança algures...não para o caso da senhora, mas do marido. Guardar tudo, as suas angústias e tristezas, dentro de si talvez tenha sido o seu maior erro.

Boa tarde

maloud disse...

Há túneis que não acabam.

RAM disse...

Já tinha lido a notícia e lembrei-me...
Lembrei-me que nem todos lidam da mesma forma quando a vida lhes coloca um crepúsculo no regaço...

Aspásia disse...

Decerto essa decisão já tinha sido muito pensada... esse senhor praticou, não um homicídio e um suicídio, mas duas eutanásias... esperemos que estejam em paz...

AQUILES disse...

Aspásia,
Concordo, eutanásia.

Pamina disse...

Boa noite.

Um acto tresloucado ou uma grande prova de amor? O desfecho poderia ter sido outro se ele se sentisse mais apoiado e/ou se tivesse desabafado com o filho? Terá pesado mais a sobrecarga de trabalho devido aos cuidados constantes que a mulher necessitava ou o facto de a ver assim? Não sei. São situações muito difíceis. Infelizmente, neste momento ninguém lhe poderia dar o que ele realmente desejaria: a saúde da mulher. Como diz a Aspásia, esperemos que estejam em paz.

andorinha disse...

Boa noite.

A falta de apoio que há para casos destes conduz muitas vezes a desfechos semelhantes. As pessoas não conseguem lidar semanas e meses a fio com situações de tal forma dolorosas e difíceis, tanto fisica como psiquicamente.
Como pergunta a Pamina, terá sido um acto tresloucado ou uma prova de amor?
Só ele saberá...também espero que finalmente tenham os dois encontrado a paz.

Fora-de-Lei disse...

Sobre o cerne da questão, já quase tudo foi aqui dito. O que, eventualmente, não tenha ainda sido dito, está - por certo - na cabeça de muitos...

Na minha mente, aflorou-se a seguinte questão: porque será que, neste país, há tanta gente com armas em casa ?

noiseformind disse...

E pensar que não enviei esta música para o Boss ontem por a achar muito pesada:

JOHNNY CASH LYRICS

"Delia's Gone"

Delia, oh, Delia Delia all my life
If I hadn't have shot poor
Delia I'd have had her for my wife
Delia's gone, one more round Delia's gone

I went up to Memphis
And I met Delia there Found her in her parlor
And I tied to her chair
Delia's gone, one more round Delia's gone

She was low down and trifling
And she was cold and mean
Kind of evil make me want to Grab my sub machine
Delia's gone, one more round Delia's gone

First time I shot her I shot her in the side
Hard to watch her suffer
But with the second shot she died
Delia's gone, one more round Delia's gone

But jailer, oh, jailer Jailer,
I can't sleep 'Cause all around my bedside
I hear the patter of Delia's feet
Delia's gone, one more round Delia's gone

So if you woman's devilish
You can let her run
Or you can bring her down and do her
Like Delia got done
Delia's gone, one more round Delia's gone"

Pamina e Andorinha,
Acto de amor? Jamais! Entre o Amor e o disparo não podemos esquecer sempre que esteve presente à cabeceira do Pensamento a Loucura e o Desespero. Podemos chamar-lhe uma forma de eutanásia violenta? Sim, mas o Amor com pressa de acabar com a coisa amada sempre que ela deixou de poder retribuir Amor cheira-me sempre a interesse em seguir em frente e conformar egoísmos. Posso perfeitamente desculpar o acto com a m%#$%#$ de cuidados paliativos que temos em Portugal. Mas o acto em si foi de Desespero e Loucura. O criminoso aqui foi o país que não teve meios de tomar conta de uma pessoa num estade de alienação tão extremado.

"Esta tragédia foi o culminar de dois longos anos de sofrimento", desabafou, abalado, ao JN um amigo da família. "O senhor deve ter pensado que aquilo não era vida para ele, nem vida para ela. Foi o desespero e o desgosto", reforçou uma vizinha."

Fora-de-Lei disse...

noiseformind 12:28 AM

99,99% de acordo!

noiseformind disse...

Fora-de-lei,
Nisso tens razão... a malta tem armas demais e muito pouco siso para as usar, não haja dúvidas disso ; ((((

Mas mesmo assim desculpo. Se não fosse um tiro de caçadeira era uma almofada ou uma corda ou remédio de escaravelho. As armas a mais são em muitos casos, mas aqui parece-me que foi um factor incidental ; (((((((

(esta conversa não dá mesmo para ; ) mas todas as conversas fazem falta malta )

Lusco_Fusco disse...

É difícil lidar com situações dessas e a idade do senhor já não era a melhor.
É uma doença desgastante para pessoas com saúde e com metade da idade do senhor. Pelos choques contínuos de conversas aparentemente normais que no seu desenrolar se tornam meros devaneios ou retornos ao passado sem linha condutora de ideias. Dói demais a quem vive isto dia a dia consciente e vê definhar quem ama. Os lapsos podem ser menos contínuos medicados. O pior de tudo é algumas vezes (ainda bem que poucas) tomarem consciência das acções que praticam ou das palavras que "levianamente" deixaram escapar.
Ainda não percebi, nesta doença, como podem sofrer pelo que disseram ou fizeram se estavam como que sonâmbulos (já que a linha de raciocínio não é uniforme); como retêm na memória imagens e sons do devaneio que descodificam "ao acordar" e pedem perdão de seguida.
Quem vive consciente estes dois mundos assistindo-os, sofre duas vezes (a "agressão" imerecida e a humilhação vivida por quem ama no pedido de perdão) Não é fácil aceitar a quem os viu motores do seu mundo tornarem-se peças dependentes.
Mas, como tudo na vida, há o lado positivo.
Dá alegria ver os olhos deles ao reverem locais que acarinham na mente; viver com eles as lembranças que deles brotam como água e tantas vezes repetidas no vazio enquadradas em cada cantinho conhecido; fazê-los juntar peças com lembranças que os marcam e trazê-los um pedacinho até nós; ler um livro que os estimula a juntar raciocínios...(e os seus Mahatma têm esse dom. Obrigada também por isso).
A doença é complicada, temos de nos moldar a ela já que ela não se molda a nós.:(

andorinha disse...

Fora de lei e Noise,

Olha, olha...os machos a unirem-se.:)))))))))

noiseformind disse...

Em União de facto, Andorinha, União de facto ; )))))))))

Angie disse...

Professor:
Estou quase a acabar o seu livro.
Bem sei que não são as opiniões como a minha que lhe interessam…
Mas não posso deixar de vir dizer: ultrapassou tudo o que previa.
Já lhe conhecia, claro, as excelências da escrita. Logo, esse aspecto não foi novidade.
Mas foi a trama da sua “auto génese” que me apanhou desprevenida e me deixou “comblée”.
Na verdade, verdadinha, ainda não tenho palavras. (Mesmo imperfeitas, não me costumam faltar).
Por agora, o efeito ainda é o do silêncio, ocupado na digestão da iguaria e na assimilação dos “inputs”. Tudo muito sincrético e muito mágico.
Não posso portanto estragar o efeito tentando verbalizar tanta coisa sem nome, umas concretas, outras difusas.
E por último, duas coisas:
-Um recado: por favor NÃO OUSE abrandar a tarefa da escrita. Deve isso a si próprio. E não pode privar-nos desse enriquecimento.
- Um statement (e sabendo já de antemão o que alguns eventualmente me vão chamar, mas tenho que lho dizer): é uma pessoa extraordinária.
P-e-s-s-o-a, repito.
É impossível não se ficar profundamente tocado com a simplicidade desarmada (e desarmante) da sua introspecção. Como pode invejar a grandeza do eu Pai e não a ver em si?

yulunga disse...

Boa noite maralhal.
Isso faz-me lembrar uma notícia que deu num programa faz uns anos, sobre um toxicodependente que após ter feito várias curas recaía sempre. O pai, e segundo palavras do mesmo, por ver o filho num “definhar” que mais tarde ou mais cedo o haveria por matar, resolveu matá-lo por amor. Poupá-lo a mais sofrimento.

A frio sou contra, lógico.
Mas há dramas que não conseguimos avaliar. Acredito até que essas pessoas não hajam sob o efeito de qualquer tipo de desequilíbrio, mas sim sob uma assustadora lucidez.

Este é um tipo de julgamento bem tramadito.

Julio Machado Vaz disse...

Angie,
Que boa surpresa matinal:). Obrigado. É simples: ele era um petit grand homme:))))))).

Ameninadalua disse...

Impressionante!

Mas neste caso não tanto pelo homicídio mas sim pelo estado perturbador e de sofrimento do senhor!

Quase que me vi a pensar: coitadinho do senhor!
Ele apenas se podia ter morto a ele próprio mas parece-me que o seu acto é como acabar com a desgraça pela raiz ( a sua e a da mulher)pois nesta geração os casais estão unidos para o bem e para o mal para toda a vida...


Professor

Claro que tambem já comecei a ler o seu "O Tempo dos Espelhos"...e tambem me estou a reservar em comentários para o fim mas eu estou com um dilema; é que eu não quero que ele acabe:)))

chapa disse...

Apesar dos avanços do conhecimento, o homem é sempre imprevisível.

b' disse...

bom dia,

tenho a sensação que casos destes acontecem com mais frequência quando o elemento do casal doente é a mulher...
estou certa?

será por as mulheres terem maior capacidade de sofrimento?

será que seríamos tão benevolentes se fosse a mulher a assassinar o marido?

@:)

Aspásia disse...

Boa Tarde

Também já lavei os olhos no azul sereno da capa de O Tempo dos Espelhos, onde a Maria Clara e o Dr. Júlio Vaz olham, não um para o outro, mas na mesma direcção... que bom que tenham ficado retratados num momento e paisagem tão belos.
Estou ansiosa por iniciar a leitura. O belo comentário da Angie ainda mais me abriu o apetite...

Até mais logo.

Julio Machado Vaz disse...

b',
Boa questão, as mulheres foram sempre consideradas cuidadoras "por natureza"!

Aspásia,
Tem razão, eles olharam na mesma direcção durante 50 anos:).

Gotinha disse...

Uiii... tristeza desamparada...