sexta-feira, outubro 27, 2006

Colisão.

Maria,
Hoje, dois javardos inconscientes entraram pela traseira do táxi onde eu seguia. A acelerar, Maria, a acelerar! A porra da fila estava parada e eles enfiaram-nos uma trancada que me transformou a cabeça num relógio de pêndulo. Saíram do carro enfastiados, nem sequer perguntaram a nenhum de nós se estávamos bem, debruçaram-se com ternura egoísta sobre a frente do carro deles. "Temos a declaração amigável", disseram. E isso apaga tudo, Maria? Assinar um papel e perder um prémio de seguro permite conduzir (?) assim? Fiquei zonzo. E o motorista preocupou-se, "está bem, doutor?". Chamou um colega, não queria aceitar dinheiro pela corrida interrompida, meti-lhe o dinheiro na mão. O outro chegou e não se fez rogado - "não vai à Urgência? Olhe o Seguro, já vi porradas dessas darem para o torto, os gajos ficam a rir-se, vá por mim..." E eu fui. A jovem colega disse o óbvio - "vou chamar um ortopedista". Depois abriu um sorriso e declarou-se minha aluna no Abel Salazar. Pedi-lhe desculpa por não recordar face e nome e ela soltou riso largo, como poderia eu recordar tantas faces no escuro dos anfiteatros? É verdade, Maria, ensino há trinta e quatro anos. Cada vez mais tropeço em gente que me trata com a deferência que se reserva a um velho conhecido. E o "conhecido" leva a palma ao "velho", instalo-me nos colos deles com gratidão.
Maria, estamos no fim de Outubro e o anfiteatro já se veste de ausências nas minhas aulas. Mas os que ficam sorriem, enlevados, quando lhes recito Ramos Rosa ou Amalia Bautista. Como tu, quando nos conhecemos. Nas suas faces, ávidas de cultura e não apenas do conhecimento necessário para o triste exame, revejo a tua. E nela, estampado até ao ridículo, o meu desejo envelhecido, que transformaste num amor de meia-idade que não envergonhava a juventude que irradiavas. Quantos dias me ouviste no escuro antes de entrar na minha vida? Ah, Maria, nem os dias felizes que vieram depois me farão perdoar-te os desperdiçados antes; tu sabias.
Maldita sejas por adiares um amor inevitável, definitivo.

P.S. A que horas chega o teu avião na Sexta, querida?

34 comentários:

Fora-de-Lei disse...

Deixe estar que essa hipotética dor de pescoço vai passar-lhe mais depressa do que imagina. Tudo depende do resultado de amanhã no Dragão... ;-))

Aspásia disse...

Júlio

Fiquei preocupada com o sucedido. A arrogância ao volante, nos dias que correm é a causa do triste record português de mortes na estrada.
O automóvel para muitos é uma droga pior que a cocaína... e como é legal, vá de usar e abusar... passando por cima dos outros se for caso disso... desde que o nosso pára-choques não perca o brilho...ou náo fique com alguma mancha vermelha...

POis lembro-me... tu estavas na ribalta e eu lá atrás na última fila do anfiteatro...local que escolhia criteriosamente, precisamente para te observar melhor, sem ser observada...
depois fui tirando as minhas conclusões... e por causa disso vim para Londres.
Compreendi que só assim o nosso amor poderia florescer.
Cada um na sua vida e em comum um recanto de sonho onde não deixaremos entrar a cinza dos dias...

Aspásia disse...

Mas não julgues que somos caso único...
há outros que compreendem que o melhor amor é o que está longe... é de onde a perspectiva mais o favorece...
e depois há pequenos fios invisíveis que se vão entretecendo a cada conversa ou telefonema, constituindo um laço cada vez mais forte...

Não chego na 6ª... houve um falso alarme em Heathrow e vários voos foram cancelados. Chego sábado pela tardinha.

Cuidado, trata esse mau-trato e toma qualquer coisita para relaxares.

Fica bem, querido.

Beijinhos,

Maria

andorinha disse...

Júlio,

Nem sei o que comentar primeiro, se a beleza e enorme ternura do post, se a forma despudorada e totalmente irresponsável como se conduz no nosso país.
Essa gente tem uma "lata", realmente!
Mas não se magoou, é o mais importante.

E amanhã o maralhal também lhe dá colo e miminhos (totalmente merecidos, mesmo sem acidente):)

Fique bem:)

andorinha disse...

Fora de lei(12.14)
"Tudo depende do resultado no Dragão.."
E muito mais do maralhal, ora essa!
Eu bem te digo que tu não tens sentimentos.Loooooooooooooooool

Maite disse...

Caro Professor

Estava aqui a pensar nas colisões (frontais). Claro que é melhor evitarem-se as da estrada (são as piores), mas no amor porquê evitá-las?! Será para fugir às dores que provocam? ou pior, para não se chegar à conclusão que aquilo que se pensáva que seria "uma grande desilusão" por o ter muito perto, afinal se revelou uma grande perda de tempo (tempo esse em que podem estar juntos e felizes)?!

Um bom fim de semana para si
E um óptimo jantar com o Maralhal (penso que seja hoje)

rosalina disse...

Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Pra poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes.

Sophia

CêTê disse...

rosalina- coisa linda que postou!

professor,
atreva-se a publicar em livro as suas cartas a Maria, POR FAVOR.
Arrisca-se a ver-me na fila para os autógrafos, mesmo que no Porto, com um cartaz como uma soviética a pedir-lhe um beijo seu! ;]]]]]- A Maria que se cuide!lol
Fique bem.

E bom convívio para todos. Que seja uma noite memorável.

PAH, nã sei! disse...

"Que o amor, de olhos vendados,
encontre o caminho para a sua vontade!"
(Shakespeare)

Ti disse...

Eu não sou ninguém, mas confesso que vinha aqui para fazer um protesto ao Prof. Júlio Machado Vaz (que me habituei a ver na televisão, na rádio, nos livros, ...).

O meu protesto era nem mais nem menos que o reclamar do brilhantismo que reconheço ao professor, mas que ultimamente me parecia apagado (a julgar pela crónicas matinais da Antena 1).

Além de arrogante, o meu protesto era completamente despropositado e pretensioso, pelo que me retirarei em silêncio e com os olhos no chão, voltando para o buraco de onde nunca deveria ter sequer laivos de sair.

Mas antes disso, num repelão de coragem e redenção, aproveito para felicitar o brilhantismo (afinal nunca perdido) do Professor e felicito-me pela redescoberta de uma mente que espalha pérolas com tanta generosidade...

Bem haja professor!

Fell me(na) disse...

Parece que estamos num labirinto poético e quase encantatório, sustentado pela criatividade das palavras em forma de post :))

AQUILES disse...

O amor da meia idade é muito gostoso. Sem reparos ao tempo,é delicioso. Não deve ao passado,não exige em exorbitância ao futuro,é, simplesmente, para ser saboreado no presente.

Aspásia disse...

TI MINHA CARA VAI-ME PERDOAR POR ESTA OUSADIA....

FUI AO SEU BLOG E VEJO-ME NA OBRIGAÇÃO MORAL DE AQUI COLOCAR ISTO.

MUITOS PARABÉNS!!!

VOCÊ É ALGUÉM!!!!

É mesmo.

Ela não estava inspirada,
ele também não.
estavam ambos cansados,
gastos,
abatidos

O professor mandou fazer um trabalho de grupo.
Eles calharam juntos
sem que (dessa vez) fizessem alguma coisa por isso

O namorado dela pareceu ficar chateado,
mas não podia fazer nada.
A namorada dele ficaria mesmo chateada,
mas não era da turma deles.

Eles estavam os dois cansados,
vencidos pela vida
Talvez por isso não ficaram esfuziantes de felicidade pela oportunidade de estar juntos
ficaram só felizes
com aquela felicidade cansada que produz o sorriso mais generoso

Nessas duas horas que estiveram embrenhados no trabalho
e um no outro
acabaram por produzir um trabalho mediano,
muito abaixo do que era hábito e das suas potencialidades

...

mas foi bom
estiveram em paz
estiveram até em perfeita sintonia.
não se deixaram afectar pelo habitual turbilhão de hormonas
ao contrário do que sempre acontecia não se desejaram
nem se importaram se o outro desejava ou não
nem se outros achavam que eram amantes secretos
nem se o trabalho estava bem ou mal feito
nada, nada os afectou n'aquelas quase duas horas
que, talvez por isso, pareceram um bocadinho de céu

no fim,
olharam-se no fundo dos olhos
as almas sorriram-se
entregaram o trabalho
e foram embora
sem saber quando se voltariam a ver

...talvez para a semana, na próxima aula
isto se ele não mudar de escola...

posted by Ti @ 3:06 AM

Aspásia disse...

TI

ESPERO O CASTIGO COM CONFORMAÇÃO...

;)))

Aspásia disse...

E FAZ ME O FAVOR DE BRILHAR MAIS VEZES!!!

TENHO DE IR...

HASTA...

Não pesco nada disto disse...

A alguém menos atento, recomendo leitura atenta deste post, nomeadamente da última afirmação.

Lembrete: "Maldita sejas por adiares um amor inevitável, definitivo."

chato disse...

VEJAM O MEU POST DE HOJE

Julio Machado Vaz disse...

ti,
Pondo de parte o "brilhantismo", fruto da sua gentileza, é bom recordar que os contextos são diversos: O Amor é... aspira apenas a falar de coisas sérias com um sorriso... em 5 minutos!:). Aqui a cadência é outra e os objectivos também.

Lusco_Fusco disse...

Mahatma
Espero que esteja bem, depois desse susto (ainda bem que foi só susto). O miminho da Maria nessas horas é fundamental ;-) Não use sopinhas de letras, um telefonema onde a voz seja a sotura da alma, não é melhor?!...
Sei que, hoje, terá muitas Marias a consolar de perto e com vozes amigas, compensando um pouco essa "ausência" da Maria Mor.
Desejo-lhe um óptimo jantar e o calor humano que sempre está presente.
Um abraço

A vocês Murcónicos militantes, que vão ao jantar
Muita alegria, boa disposição e que a noite seja inesquecível
Um abraço e tudo de bom.
MJ

thorazine disse...

Aqui o prof consegue, com uma artimanha, converter sentimentos e estados de espírito para palavras. Coisas que eu nunca consegui..!
Como disse Benigni num dos seus últimos filmes, há pessoas que passam a vida à procura da "palavra certa".. ;)

Bem, boa jantarada para todos! Tenho pena de não puder ir, espero conhecer a malta numa próxima oportunidade! :)

Fora-de-Lei disse...

andorinha 1:13 AM

"E muito mais do maralhal, ora essa! Eu bem te digo que tu não tens sentimentos."

Mas tu queres comparar uma "folha seca" do Simão, por exemplo, com as vossas mimalhices ?! Sejamos razoáveis... ;-))

lobices disse...

...tal como informei o Noise e o Viktor, lamento não poder estar presente no jantar murcónico que se encontra neste momento a realizar...
...motivos de ordem pessoal ligados ao problema de minha mãe impedem a minha deslocação neste momento...
...um bom repasto para todos, que a alegria paire no ar e para todos os meus
abreijos

lobices disse...

...não estou no jantar mas estou "aqui" com todos vós
...venho festejar a vitória do Porto por 3-2 e dizer ao Profe e à Andorinha para terem paciência
:)))

Su disse...

jocas maradas deste lado do mar para esse

CêTê disse...

Acabadinha de chegar e já de saída,

Não disse mas poderá ler-se nas entrelinhas que sorvi cada palavra do post mas tb gostei o que a aspásia postou

"no fim,
olharam-se no fundo dos olhos
as almas sorriram-se
entregaram o trabalho
e foram embora
sem saber quando se voltariam a ver"
E esta hein?;P



Que todos regressem bem e bem dispostos a casinha. ;P

e façam o favor de partilhar as pérolas!;]]]]]]

CêTê disse...

lOBICES, Então faltou ao Jantar? Imperdoável!

Parabéns pela vitória do Porto! É cá dos meus (também sou simpatizante do FCP e ontem adorei o "abaixa-orelhas" dos leões. ;]]]]]])

CêTê disse...

Desculpe, não tinha lido o seu post anterior;(: as melhoras de sua mãe.

Aspásia disse...

LOBICES

TAMBÉM NÃO ESTIVE PRESENTE, EMBORA MEU PAI ESTEJA DE MELHOR SAÚDE QUE EU... MAS É UMA IDADE AVANÇADA E O PORTO É UM BOCADO LONGE.

MELHORAS RÁPIDAS PARA A TUA MÃEZINHA.

BJS

Aspásia disse...

RECITAL "ESPECIAL JANTAR DO MURCON"

P.S. - DEVEM PEDIR JÁ A TÁBUA DOS QUEIJOS.... PARA PROTEGER OS TÍMPANOS!!!

:))))

aquarela disse...

"Seu/dela" - e, se me permite, um pouquinho "meu/nosso/de quem o lê" - subsistente Sedutor! :)
Um beijo e,
bom Domingo.

andorinha disse...

Fora de lei(6.34)
Mimalhices?????
Chamas mimalhices a gestos de ternura com alguém de quem se gosta?!:)

Lobices,
Tenho imensa pena de não te ter podido reencontrar.
Desejo-te sinceramente as melhoras da tua mãe.

Ni disse...

(...)tu sabias.
Maldita sejas por adiares um amor inevitável, definitivo.»

Ela sabia. Ele também.
Adiar é uma ponte para eternizar. Talvez a única. Horizontes emotivos tangíveis tornam-se, no exacto momento do 'para sempre', perecíveis. Efémera é a essência do afecto. Até do nosso. Que cremos definitivo. Como todos os que se querem. Na palavra, dita e não dita, há uma viagem de ida e volta a nós.E a viagem é isto. Um tempo e um espaço. Definitivos no trajecto. Só não sei se não terei parado a meio da viagem...
Afinal, és tu que me chamas a fugir de tudo o que não preciso...»

N*

(Porque em todas as mulheres há uma Maria... )

Sorriso

Ti disse...

Pronto, eu confesso, de facto existo. Nem que seja pelo inchaço no ego provocado pela Aspásia.
E claro que também já contei a toda a gente que o Professor Júlio Machado Vaz escreveu cinco linhas só pra mim! (Pronto, está bem, quatro e meia).

O que é certo é que o meu ego cresceu de tal maneira que agora até me julgo no direito de reclamar o meu verdadeiro sexo, que é masculino.
Enfim, a continuar assim, não tarda nada e fico um convencido!

Ti disse...

Pronto, eu sei que a minhas 4,5 linhas são uma mais que merecida reprimenda, mas mesmo assim são minhas!