quinta-feira, maio 22, 2014

O acusado.

Maria,
A queixa, entre o cansaço e o riso – “és um velho”. E eu invocava o BI para concordar sem me pôr em causa, tu enterravas mais fundo a adaga – “sempre foste”. Acusação à míngua de rigor científico, embora pobre existiu vida antes de ti. Que uma vez por outra despertava a tua irritação, o meu silêncio nada tinha de saudoso, pedia segurança ao ciúme que fantasiava (?), “se o passado a assombra, o amor de agora é de carne e osso”. Nada o garante, mas um tipo agarra-se a tudo quando receia perder quase nada na multidão que nos oprime, uma pessoa que planta uma clareira solar à nossa volta.
Era a rotina a escandalizar-te. E no entanto, desta vez comecei bem, sabes? Na portagem o homem escancarou sorriso e disse-me que um dia enviara graça para O Amor é..., eu tinha-a papagueado e depois agradecido, somos “amigos” no Facebook. Apeteceu-me provocar um engarrafamento, sair do carro, dar dois dedos longos de conversa e em número pífio de ilusionismo fazer desaparecer as aspas, tornadas inúteis por bitoque, imperial, bica e arroz doce, mas que língua falam os lisboetas, meu Deus?
Foi sol de pouca dura em fim de tarde que não lhe pôs a vista em cima. O hotel, o carro nas mãos de quem mo acolhe há anos e anos, a reprimenda carinhosa na recepção – “pensei que estava zangado connosco!”. O quarto. Uma última vista de olhos pela comunicação de amanhã, a gentileza do “meu menino” anfitrião – “precisa de alguma coisa?”. (Tu sugeririas dose dupla de genica...). Eu quase me senti orgulhoso por não chamar o room service, sabia a resposta – “o costume, doutor?”. Que desconfio semelhante no restaurante ao lado, como as mesmas coisas nos mesmos sítios, tu respeitavas a fidelidade às gentes, mas pedias uma réstia de coragem face à lista. Em honra da tua sombra comi frango e não bife no hotel mas não no quarto – vinte e três andares de distância, querida! -, juro que vi um suspiro desalentado espreitar nos olhos do chefe, não admira, tu divertes-te a habitar os ecrãs que me rodeiam, no filme de terror que é o teu vazio.
O puto que me serviu era gentil, protegeu-me da corrente de ar, aproveitei para falar do internamento do McCartney no Japão e ele foi peremptório – “não são do meu tempo, mas adoro a música deles”. Imaginas o que se seguiu – ele aguentou, estóico, o meu desfiar de recordações longínquas e medos actuais, não estou pronto para chorar outro Beatle. Muito menos sem o teu colo a olhos de semear, envelhecer é navegar entre lutos reais e temidos, até que outros sejam obrigados a lidar com o nosso, quantas vezes me pergunto se já aliviaste o teu...
Descansa em paz, querida.

7 comentários:

andorinha disse...


Resta saber se justa ou injustamente:))))))))


Uma delícia! Como sempre que escreve à Maria. As pinceladas de humor são fascinantes!


Comentei no Face, não tinha visto aqui...
Lá vai a Anfy dizer que ando a correr de cá para lá ou vice versa:)
Who cares???

Fique bem:)

bea disse...

Bom descanso ao senhor professor que está muito alto. Quanto amor a um grupo musical! Não conheço ninguém assim. Pronto, tá bem, também não conheço o professor.

Porém,as cartas a Maria são uma ternurinha. Nem que a senhora esteja a aliviar luto do canário, há-de gostar.

andorinha disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
andorinha disse...


O humor brilhante e corrosivo de RAP

http://entreostextosdamemoria.blogspot.pt/2014/05/visao-2252014-p106.html

andorinha disse...


"Nem que a senhora esteja a aliviar luto do canário, há-de gostar."


Tu és tão tolinha, Bea:)


Bom soninho.

Eleven Eondoic Set disse...

Bea? Não te irrites! Que o juiz de caminha. Absolve sempre...

Eleven Eondoic Set disse...

Bea? Vou ver! Se os encontro. Que façamos bons caminhos...