quinta-feira, dezembro 07, 2006

O trio maravilha:).

CLANDESTINO


BRIAN WILSON

Bush é um tipo simpático e a cor do cabelo da mulher só lhe diz respeito a ela, mas não deixo de estranhar que em menos de trinta anos passássemos de símbolos californianos para exportação a trunfos eleitorais da Nova Direita. Não discuti o assunto com os outros. Desde 1967 tornou-se difícil discordar sem vir de imediato um palavrão psiquiátrico e a pergunta estafada – “Tomaste os remédios?” Não me agarram, neste corpinho não entram mais drogas; prefiro engordar por comer alarvemente. Mas durante o concerto na Casa Branca tive dúvidas se não os deviam internar a eles. Talvez a loucura me estivesse reservada, a mentira, essa, abençoou-nos a todos. Já o nome era de morrer a rir - só Dennis amava praia e mar – por isso foi justo que não suportasse terra e jazigos… – e nenhum de nós punha na beira do prato raparigas que não pudessem alegar serem nadas e criadas à beira do Pacífico. O som dos Beach Boys era uma sonoridade construída em estúdios mergulhados na penumbra, a forma elevada ao extremo da perfeição (perdoe-se-me a imodéstia!). Maior culpado? Este vosso humilde servo. Ainda os outros se maravilhavam com sucessos durante e após o palco e já eu preferia acariciar mesas de mistura. O tempo não importava, seis meses souberam a pouco, Good Vibrations podia ter saído ainda melhor.
Ou talvez eu não fosse suficientemente rápido. Smile devia ter ficado pronto em 65 ou 66, mas a culpa não foi minha. Eles não entenderam o que estava em jogo, os discos de platina e o dinheiro chegavam-lhes, quando lhes chamei a atenção…, responderam que cantávamos melhor do que os Beatles! E eu não tinha ouvidos? Ringo entrava mudo e saía calado, a voz de George não aguentaria uma rabanada de vento, e mesmo a “divina parelha” não estava à nossa altura. O problema não estava aí - era preciso dar o salto, explorar outras paragens, mesmo à custa do top-ten. John e Paul pressentiram-no. Strawberry Fields Forever e Penny Lane eram verdadeiras obras primas, por isso não venderam tanto e os Beatles nunca mais se arriscaram fora dos álbuns. Nem eu, mas o bichinho roía. Uma carreira frenética, não para chegar primeiro, mas para também chegar. É falso que tenha deprimido por inveja de Sgt Pepper’s, fui-me abaixo porque soube que nunca conseguiria algo de semelhante sozinho. É verdade que destruí o trabalho de meses, e depois? Era o meu trabalho. Os arabescos vocais dos outros desenhei-os, os sucessos que ainda hoje lhes mantêm piscinas e automóveis fui eu que os compus, quando lhes pedi a viagem riram-se-me na cara. Hipotecaram o futuro e o seu crime transformou-se em diagnóstico meu - nunca deixarei de ser paranóico em remissão. Loucos são eles; a cobardia é a sua religião; contam carneiros para viver.
A culpa não foi minha, só era impossível. John e Paul não seriam capazes um sem o outro, o talento aprimora-se ao espelho. O resultado está à vista: somos patéticos. Dennis morreu e nós exibimos barrigas e calvícies, canções quase balzaquianas, já nem lhes mostro o que componho. Traíram-me, não lhes darei a satisfação de acabar num asilo. O que sei e vejo, guardo-o comigo: espero que Bush não seja eleito; não acreditei numa palavra acerca do assassínio de John; o duplo de Paul que por aí anda só pode enganar papalvos, mesmo sozinho ele não faria aquelas xaropadas! Escondem-se, atrapalhados! E é compreensível, tantos anos não chegaram para compor um disco superior a Sgt. Pepper’s. Um dia perceberão que apenas eu os posso ajudar.
Os três juntos faremos a música dos anjos.

16 comentários:

Fora-de-Lei disse...

"Brian Douglas Wilson (born June 20, 1942, in Hawthorne, California) is an American pop musician, best known as the lead songwriter, bassist and sometimes lead-singer of the former American rock band The Beach Boys (of which he is also a founding member and the main producer, composer, and arranger).

Although changing trends in music sometimes rendered Wilson's earlier work unfashionable, he is now acknowledged as one of the most significant and innovative musicians and composers of 20th century popular music."

Luís Galego disse...

Hipotecaram o futuro e o seu crime transformou-se em diagnóstico meu - nunca deixarei de ser paranóico em remissão


este texto deixou-me sem palavras...porque raio o Woody Allen não lê isto? Parabéns....

Viva disse...

Eu cá apenas tenho pena de nunca chegar a ouvir a "música dos anjos".

Para quem acredita na vida depois da morte, para esses, os que forem escolhidos, talvez tenham essa oportunidade.

Até já

CêTê disse...

Não tem nada a ver ;)))))

Mas faz/em um programa delicioso- prof!!!- estou a referir-me ao "Amor é"

bjnhs
Ainda bem que o partilhou aqui!;]

SOL disse...

Cantem enquanto os pardais esvoaçam e fujam quando dispararem os primeiros tiros.
Revolucionem o acto de amar!
Façam-no na relva do jardim!
Reproduzam-se.

marakoka disse...

gostei e gostei e gostei de ler

jocas maradas

andorinha disse...

Boa noite.

Relendo e re-saboreando:)

E concordo com a Cêtê, quanto ao Amor é...
Às horas "indecentes" da madrugada a que era transmitido era-me de todo impossível ouvi-lo.:)

CêTê disse...

Andorinha, lol,
não achas a Judite com mau feitio?
Já reparaste bem nas jornalistAs que temos?
Andam todas a tomar o quê? Papita Sol-cratees?
bjcus

andorinha disse...

Cêtê,
Não sei, não vi o programa, cheguei agora a casa.
Mas não me espanta nada, anda tudo com um mau feitio do caraças:)
Deve ser do tempo. Loooool
Aproveita bem estes três diazinhos que eu vou tentar fazer o mesmo.
Beijocas

Klatuu o embuçado disse...

Você sabe melhor do que eu como o imaginário sexual - e concomitantes práticas - muito dizem das expectativas de felicidade e sonho de cada época... Nos anos 70 o sexo oral era o grande símbolo da libertação sexual... hoje é a merda da BDSM, com tudo o que tem de masmorra inquisitorial e das clivagens sociológicas e políticas senhor/escravo... Não preciso de leituras mais elaboradas. O que se faz na cama - ou o que se anseia fazer - tudo me dizem acerca da alma dos meus contemporâneos!

Abraço.

P. S. Fora isso, ainda temos a estética: o Bush é feio que nem um penico! :)

PAH, nã sei! disse...

Boa noite !!

(mais uma vez, passagem tipo Rosa Mota)

PROFESSOR,
´
isto até parece TPC ;).
Duas postagens e pufffftttt!! (concorrência ao Harry Potter? :)


ANDORINHA,

sempre há a hipótese de ouvir (Amor é...) às 9.20h - da madrugada! Belos temas de conversa para as nossas aulinhas, não? :)))

CÊTÊ,

definitivamente! O mau humor instalou-se neste, não muito solarengo país...
Sempre podemos imitar "umas e outras andorinhas" e dar um pulo a terras mais amistosas :)

Lord of Erewhon disse...

P. S. Ocorreu-me uma ideia perversa...
Como ninguém sabe quem eu sou... quando estiver farto desta porra, passo a pasta ao Professor... Você diz que é o Lord Klatuu de Nenhures e marca uma jantarada arábica com as malucas todas que andam pelos meus blogs: vai ser uma morte santa! Vai entrar aos Portões do Além cá com um speed... que até os anjinhos vão pensar que você em vida foi piloto de fórmula 1! :)=

Maria disse...

ola!
sou a maria filha da gabriela queria perguntar-lhe como poe musicas no blog?
diga-me por favor no meu blog que e thegreenblue.blogspot.com

thorazine disse...

Nostalgia telivisiva; http://www.misteriojuvenil.com/piratas_momentomagico.htm

;)))))))))))))))))))9

aquarela disse...

"O Amor É", de 8 de Dezembro de 2006

porque... Dia da Mãe, é sempre que um filho quiser!
porque... quando sentimos emoções positivas, ficamos melhores, logo, o mundo fica mais bonito, logo...

Obrigada!

noiseformind disse...

Boss,
Agora venho assim, pela calada, correndo em fundo. Na situação actual do blog prefiro estes termos de conversa ou então, “conversa” :))))))). Coisa de ano e meio aqui no blog cometi uma gaffe monumental de dizer que Paul Simon era um ex-Beach Boys. A frase mostrava uma dupla ignorância. Em relação ao início da carreira de Paul Simon e suas origens e em relação aos próprios Beach Boys. Como é que depois de tanto download e de tanto ouvir ambos os grupos me podia ter dado para tamanho disparate? Desculpo-me ainda hoje com o processo de gravação. Ambos usavam a Wall of Sound de Spector e à falta de mais conhecimento limitava-me a ouvir ambos com prazer e sem grandes especulações. Como atenuante invoco a minha atitude devoradora em relação a tudo o que vai saindo diariamente para os escaparates da FNAC e demais locais de perdição de melómanos ; ))))) esta fixação no presente resulta numa falta de atenção por vezes no passado. Descobri por exemplo os Flaming Lips quando fui atrás das influências dos Radiohead (por essa altura fui ao encontro tb dos Smiths). Pink Floyd era para mim a banda indisputável dos anos 60, 70 e 80 e com isso cobria a minha ignorância. Mas pronto, já passou, dois livros depois já percebia o grau de ignorância de que estava então acometido (a ignorância é doença com medicamento sempre disponível quando há um computador online por perto… e então se houverem uns livrozitos digitalizados… tanto melhor!!!). Acabei por perceber melhor o teu texto, depois de conhecer os intervenientes mais a fundo (na altura tb os Beatles para mim eram um gigantesco mito do qual só tinha Sgt Peppers e a coletânea ONE onde me assentar). Não esquecer que a reflexão de Brian n está muito longe da verdade. Se Pet Sounds era referido pelos Beatles (ou melhor, foi-o por Paul e George que isto dos Beatles convém sempre dizer quem disse o quê) como o álbum que os inspirou ao monumental Sgt. Peppers, se God Only Knows é ainda hoje a música favorita de Paul, pq n haveria Brian de estar orgulhoso e inflamado? Realmente abdicou dos tops, mas só dos tops de vendas. Em termos de influência junto da fornada de músicos que aí vinham n seria nunca um álbum menor (album fundador para Elton John, por exemplo). Com tanta gente a dar-lhe tanta importância do lado de dentro do palco (Eric Clapton, outro exemplo…) como não haveria ele de estar pouco importado com as vendas. Ao vivo sempre teve multidões à espera dele, o álbum Smile envelheceu tanto que ao ser lançado era apenas mais um álbum datado. Se calhar, olha Boss, até foi bom n o ter lançado. N conseguiria incorporar as suas experiências com o LSD sob o peso do tribunal dos irmãos e primo, n o conseguiu fazer sequer em 2004.

Em relação à tua frase final. Será que o “teu” Brian se refere aos dois já falecidos Beach Boys ou então está a ser mais megalómano e está-se a referir a fazer pandilha com Lennon e McCarthy? ; )))))))