quinta-feira, novembro 23, 2006

A vertigem sensorial:).

"Mas eu tinha-me convencido que a nossa inteligência apenas filtra até nós um magro resíduo dos factos: interessava-me cada vez mais pelo mundo obscuro da sensação, noite negra onde fulguram e revoluteiam sóis que cegam".

Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano.

14 comentários:

Ameninadalua disse...

"interessava-me cada vez mais pelo mundo obscuro da sensação, noite negra onde fulguram e revoluteiam sóis que cegam".

A Marguerite Yourcenar até aqui falando do clima de "vertigem sensorial" não deixa de ter a inteligência e a superioridade de pensar que tanto a caracterizava...
sim porque os sóis cegam-nos porque nós somos "planetas" ciosos e carentes dessa luz e não vale a pena fugir para outras galáxicas...é a nossa natureza.

Adorei tudo ou quase tudo escrito por ela...

DarkViolet disse...

"Que horror!"...Como podem pessoas viverem sem sóis? Estou chocado e repleto dum tom sarcástico:)

thorazine disse...

Há uem lhe chame "válvula redutora da consciência". As sensações dão cor aos espaços em branco...

iuri disse...

"Quando todos vão dormir, é mais fácil resistir. Quando a noite está a chegar, é difícil não chorar..." (Pedro Abrunhosa)

lembrou-me :)

andorinha disse...

Boa noite.

Belo naco de prosa!
"...a nossa inteligência apenas filtra até nós um magro resíduo dos factos."
Claro, nem tudo se apreende através da inteligência, seria muito redutor se assim fosse.
Não concordo com a conotação negativa que Yourcenar dá ao mundo das sensações.
As sensações fazem parte integrante da vida e seríamos todos seres muito mais pobres se não as vivessemos.
Há sensações que inebriam e nos deixam em extase e isso é mau?
Um certo descontrole sensorial de quando em vez não prejudica ninguém, é a minha opinião.
Aliás, aquelas pessoas muito "controladinhas" são normalmente muito enfadonhas:)
E os sóis só cegam se os fixarmos directamente durante muito tempo...

andorinha disse...

Thora,
Tinha-me escapado o teu comentário.
Assino por baixo:)))

Fora-de-Lei disse...

Uma prosa algo depressiva e bastante marcada pela orientação (homo)sexual da senhora, a qual teve a infelicidade de ficar muito cedo sem qualquer referencial feminino pelo facto de ter perdido a sua mãe à nascença.

O seu maior “pecado” foi querer ser Adriano – ser um grande homem – e ter agido como tal. Não sei se era assim que sentia Grace, a sua possessiva companheira, que morreu em 1979 vítima de cancro.

Marguerite Yourcenar, uma fufa com muita categoria e para quem a vida foi muitas vezes madrasta, massacrando-a com azares atrás de azares. Isto marcaria a sua escrita, inapelavelmente.

AQUILES disse...

noite negra onde fulguram e revoluteiam os nossos demónios!
Com os quais lutamos. Acabamos sempre por ser os melhores adversários de nós próprios.

marina disse...

Ainda bem que a nossa inteligência tem estes filtros. Embora por vezes os filtros precisem de ser limpos....

CêTê disse...

Boa noite!
Não conheço nem a obra nem a escritora, mas suscitou-me interesse. O que pode estar para além do que é tido como um facto é para mim mais interessante do que o próprio. Tão interessante como de olhar distraído analisar o jogo de adivinhação de quem o pratica. ;p

Há muitos anos (pelos 16) li em pouco tempo uma triologia desconcertante: "Psicopatologia da vida quotidiana" , "O significado dos sonhos", e outro sobre o(s) significado(s) da linguagem gestual. Beeeeeeeeeeeeeeeeem ;]]]]]] foi um misto de terror e de encantamento a forma como passei a olhar para mim e para os outros. Passou com o tempo, outros interesses surgiram. Mas por vezes, dou por mim a espreitar, nas pontas dos pés, mais do que devo debruçada sobre os outros. Sobre mim...também: nós somos um conceito mútavel que também depende da forma como os outros nos vêem. Pelo menos é assim que eu acho que seja.
Bem...
Fiquem bem.
abraços

CêTê disse...

LOL, as Bodas de Fígaro ir-me-iam divertir muito mais. ;]]]]]]

alquimista disse...

Doutor JMV
"O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós mesmos"
Pode esta frase, atribuída a Yourcenar, ser compatível com o texto do post?

Fdl,
A ser verdade que Yourcenar tinha uma orientação homosexual, não terá sido por acaso que escolheu Adriano, ele próprio amante de Antinoo...

Henrique Doria disse...

A propósito das MEMÓRIAS DE ADRIANO e desta sua citação, apetece-me recordar o início do fabuloso poema do própio Adriano que M Yourcenar colocou na fronte do seu imortal romance:
"Pobre almita tão brandita
do meu corpo sociazita..."
Um grande abraço, professor.

Tomé Duarte disse...

O meu tio Gustavo bem me dizia que tenho de ser mesmo muito ESTÚPIDO para querer ser fotógrafo. O:)