quarta-feira, junho 04, 2014

Maria,
Jantei com amigo nosso, de origem teu, partidário de nenhum, antes houvesse campo de batalha a separar-nos e não canal manchado, qualquer fímbria de nortada seria suficiente para trazer voo de gaivota, lençol a corar sem vergonha, palidez medrosa de meu ou teu vilão ou nobre, papel de carta virgem desta pena exausta por não se cansar de te pedir o regresso a capella; um branco dos mil possíveis. E eu declará-lo-ia indiscutível pedido de tréguas e nelas mergulharia com a esperança de serem a antecâmara dos teus braços...
“Ela já tinha ido embora antes de partir”, disse ele. E todo o jantar se tornou em moldura de frase que colocava outras na mesa, indiferentes a baixela não de prata  que pesava como chumbo e garfadas impotentes perante o nó de marinheiro em terra seca e bordejando as lágrimas que me estrangulava a partir de dentro e resistiu com galhardia a vinho bebido sem gozo por medicinal, trouxe o nevoeiro à alma mas não a paz ao corpo inteiro.
As nossas frases. Sibilinas, para não lhes colar adjectivo que rimaria e arrepia – será que nos desejámos de tantos modos que só restava erotizar a separação?  Silêncios nostálgicos de outros, cúmplices. Garras de fora nascidas de unhas que se cravavam nos corpos, “vem”.

Ele tem razão - separámo-nos juntos. E tu fugiste para não dizer adeus. Ou disseste-Lhe? Não acredito, afinal fomos...

16 comentários:

AQUILES disse...

Ninguém se vai, verdadeiramente, embora. O corte absoluto com um passado é sempre impossível. Ausentam-se as dores, mas as ressacas do medicamento moem a alma e exudam pelas memórias.
Isto digo eu, que só sei ...

AQUILES disse...

Parece que o amor anda no ar com tanto romantismo musical, ultimamente.

andorinha disse...

Belo! Triste, também...

"...trouxe o nevoeiro à alma mas não a paz ao corpo inteiro."
O corpo nem sempre se deixa enganar pelo nevoeiro...

Fugir para não dizer adeus?
Sei, as despedidas custam...


Aquiles,

"Ninguém se vai, verdadeiramente, embora."

Ó homem! Ai vai, vai...
Felizmente! Para a vida poder continuar de forma menos atribulada.
Isto digo eu...:)

AQUILES disse...

Andorinha
Partem, saíram, e em definitivo, sim. Tiveram de deixar espaço para que a vida continue, espaço que possa ser ocupado por outrem. Mas embora mesmo, não sei não.

Graciosidade na música:

https://www.youtube.com/watch?v=1KhUo66Nj7w

AQUILES disse...

E continuando na graciosidade:

https://www.youtube.com/watch?v=tu5XohUR3Pg

AQUILES disse...

E a graciosidade de um tropel:

https://www.youtube.com/watch?v=gEsTYZz4wfA

andorinha disse...


Aquiles,

A ouvir/ver o primeiro link que deixaste. Belo, suave...
Os outros deixo para amanhã.

Abraço

Pedro Costa disse...

Olá Aquiles

Concordo. Mesmo quando alguém sai da nossa vida e vai embora definitivamente... não vai.
Há uma marca que fica em nós. Seja agradável ou não. Caso contrário esse alguém não teria entrado.

Moon disse...

...

:)

Anfitrite disse...


Ninguém entra e sai impunemente. Ficam sempre marcas, sejam de que espécie for. Ou então nós não existimos.

Anfitrite disse...

As despedidas são tristes. Pior é quando elas não se chegam a fazer e perdemos o rasto da existência.
Eu até sou coleccionadora de lutos por fazer. Não cheguei a enterrar os meus entes mais próximos, nem sei onde eles se encontram. Só há um, que eu estou à espera que o coveiro me informe, para reduzir os ossos a cinza. Não sei se será isso que me tem mantido viva...

Eondoic You disse...

Vou ler a escrita do senhor? Respeito! A concorrência. "..."

Eondoic You disse...

Aquiles e Moon? Estamos todos! Com saudades. Do amigo imaginário...

andorinha disse...


Sim, gente, há marcas mas algumas são tão pequenas que quase não se dá por elas...:))))
Depende da importância que as pessoas tiveram nas nossas vidas.



“Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.”

Aqueles que importam/importaram...


Vou...

AQUILES disse...

Hum...
Marcas pequenas? Até sinal piquinininho é potencialmente perigoso, quiçá letal.Será que terei de começar a citar Camões e Florbela Espanca?

bea disse...

Não é preciso, Aquiles. Sobes um degrau e pronto:) é o que vou fazer. Já mesmo.

Não

Senhor professor, senhor professor, está ficando muito melancólico....