António Rilo
Os católicos pecam, confessam-se e tentam corrigir-se. Em relação ao preservativo, contudo, é a própria noção de pecado que está ausente
O uso do preservativo com o objectivo de obter prazer sexual sem procriar é um pecado para a Igreja Católica mas não para a esmagadora maioria – 84,2 por cento, ou seja, mais de oito em cada dez – dos católicos praticantes inquiridos no âmbito da sondagem realizada pela Aximage para o Correio da Manhã.
Embora não tão expressiva é ainda uma maioria clara de católicos praticantes – 70,7 por cento – a afirmar que a Igreja deveria deixar de ser contra a utilização do preservativo em todas as situações e não apenas em algumas circunstâncias, nomeadamente quando um dos membros do casal é seropositivo ou doente de sida, hipótese que merece actualmente a reflexão de um grupo de teólogos do Vaticano.
A diferença, constatada na sondagem, entre o sentimento dos católicos e a doutrina da Igreja acerca do uso do preservativo, não surpreende Maria João Sande Lemos, do movimento católico internacional ‘Nós Somos Igreja’, que reclama a possibilidade de as mulheres serem ordenadas sacerdotes.
“As pessoas seguem a sua consciência com o objectivo de evitar um mal maior. O uso do preservativo evita infecções, a propagação da sida ou uma gravidez.” No entender de Maria João Sande Lemos, “a nossa consciência é o último juízo e, em consciência, as pessoas decidem que não podem ter mais filhos sobretudo por razões económicas e não por egoísmo”.
Fernando Castro, presidente da Associação das Famílias Numerosas, também usa a palavra “consciência”, mas para sublinhar o dilema de católicos praticantes em oposição às directrizes da Igreja, que “devem resolver com os respectivos directores espirituais”. Reconhecendo a “enorme distância” entre o que fazem os católicos e determinadas leis da Igreja “inspiradas no Espírito Santo”, Fernando Castro observa que “por isso existe a noção de pecado”.
Uma noção que, no caso do preservativo, é inexistente para a esmagadora maioria dos católicos praticantes. “Estão errados”, diz Castro.
Uma maioria ainda mais absoluta – 94,1 por cento – de inquiridos autodenominados católicos não praticantes entende que não é pecado usar o preservativo, embora menos entre eles – 86,3 por cento – reclamem o fim da interdição em qualquer caso.
OS NOVOS PECADOS
Que passar tempo demais a ler jornais, a ver televisão ou na internet diminua a fé cristã, como recentemente declarou o cardeal do Vaticano que tem o cargo de penitenciário-mor, merece aprovação de apenas 29,1 por cento dos católicos praticantes inquiridos, enquanto 67,5 por cento discorda. Trata-se contudo de uma diferença menos expressiva do que a observada em relação ao uso do preservativo.
Também são menos os católicos não praticantes – 71,3 por cento – que entendem não ser pecado ler jornais, ver televisão e navegar na internet em comparação com a percentagem dos que aprovam o preservativo sem reservas. O método do ritmo – que consiste em evitar relações sexuais no período fértil do ciclo da mulher e envolve uma série de cálculos – é o único (embora não infalível) compatível com as orientações da Igreja Católica em matéria de contracepção.
Ontem, num congresso dedicado à família e ao casamento, o Papa Bento XVI defendeu mais uma vez a família tradicional baseada no casamento, distinguindo-a das uniões civis, de homossexuais ou heterossexuais. “A necessidade de evitar a confusão com outros tipos de uniões fundadas num amor fraco assume actualmente uma urgência especial”, disse.
PECADO E A COR POLÍTICA
Todos os inquiridos do Bloco de Esquerda e do PCP afirmaram que usar o preservativo não é pecado. Entre os eleitores do PS, 90,1 também recusou a ideia do pecado, enquanto 84,7 e 84,2 por cento dos que votaram respectivamente no PSD e no PP disse o mesmo. De uma análise por regiões conclui-se que a associação do preservativo ao pecado ‘colhe’ mais no Interior. Entre os inquiridos são as mulheres, as pessoas mais idosas e com menos escolaridade que aceitam o pecado com mais facilidade.
"NÃO É A IDEIA QUE TENHO. O RESULTADO SURPREENDE-ME "
D. Jorge Ortiga, arcebispo primaz de Braga e presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), manifestou-se “surpreendido” com o resultado desta sondagem do Correio da Manhã.
“Do contacto com as comunidades, essa não é a ideia que tenho, por isso, esse resultado surpreende-me”, disse o prelado, sublinhando, no entanto, que “sondagens são uma coisa e a realidade outra, por vezes bem diversa”.
No final da última reunião plenária da Conferência Episcopal, há duas semanas, a Igreja Portuguesa admitiu, pela voz do bispo de Bragança-Miranda, D. António Montes, o uso do preservativo, segundo a teoria do mal menor.
O facto foi entendido como um passo “progressista” da Igreja nesta matéria, apesar de nada alterar ao nível da posição de princípio.
Nessa altura, D. Januário Torgal Ferreira, bispo das Forças Armadas, disse ao CM que “a teoria do mal menor não é nova e que, para todos os efeitos, é sempre preferível o látex ao aborto”.
Apesar destes avanços, a Igreja Católica Portuguesa continua a defender os princípios do casamento e da fidelidade como a “única forma eficaz e moralmente aceitável” de evitar doenças graves como a sida.
O padre João Alberto Correia, professor de teologia, diz que “a Igreja não pode vacilar nos princípios, sob pena de arruinar toda a estrutura moral”.
TESTEMUNHOS
"CORRIGIR O PECADO" (FERNANDO CASTRO)
“Estão errados os que se dizem católicos praticantes e defendem exactamente o contrário do que postula a Igreja Católica. Quanto ao pecado, o que há a fazer é confessá-lo e tentar corrigi-lo.”
"NÃO É EGOÍSMO" (MARIA JOÃO SANDE LEMOS)
“O uso do preservativo para evitar uma gravidez não pode ser visto como uma atitude egoísta. As pessoas têm toda a razão quando evitam ter um filho, porque não têm dinheiro para concretizar a gravidez. A nossa consciência é o último juízo.”
"É PRECISO COERÊNCIA" (MARINA MOTA)
“Fui educada dentro da Igreja Católica e abandonei-a precisamente por causa por causa do que defende em matérias como o uso do preservativo, a homossexualidade ou a interrupção voluntária da gravidez. É preciso ser coerente.”
"PREVENIR DOENÇAS" (MIGUEL VIEIRA)
“Sou católico e penso que usar preservativo não é pecado. A postura da Igreja contribui para a propagação de muitas doenças e pode vir a ser uma catástrofe.”
BISPOS ACEITAM
No final de Abril, os bispos portugueses aceitaram o uso do preservativo para evitar o contágio da sida.
VATICANO RECUA
Já este mês, o cardeal Alfonso Trujillo disse que o Papa não alterou a sua posição sobre o uso do preservativo.
SONDAGEM: FICHA TÉCNICA
OBJECTIVO: Utilização do preservativo e posição da Igreja Católica.
UNIVERSO: Indivíduos inscritos em cadernos eleitorais em Portugal em lares com telefone fixo.
AMOSTRA: Aleatória e estratificada por região, habitat, sexo, idade, instrução e voto legislativo, polietápica e representativa do universo, com 550 entrevistas efectivas (289 a mulheres).
COMPOSIÇÃO: Proporcional por reequilibragem amostral.
RESPOSTAS: Taxa de resposta de 83,1 por cento. Desvio padrão máximo de 0,022.
REALIZAÇÃO: 4 e 5 de Maio, para o Correio da Manhã pela Aximage, com a direcção técnica de Jorge Sá e Luís Reto.
Isabel Ramos/João Saramago com S.C.C./Secundino Cunha