segunda-feira, maio 01, 2006

Velharia sobre trabalhadores no dia deles.

Stress ( I )



Domingo o JN falava dele. À noite, na SIC-Notícias, reportagem sobre trabalhadores do Leste em Portugal. O professor de Antropologia Médica espreguiçou-se cá dentro, abordo os dois temas nos diálogos com os alunos. Quando eu estudava, o stress tinha um estatuto modesto, quase mecânico. O organismo reagia aos estímulos e nós à espreita. Mas sobretudo atentos a variáveis fisiológicas, como se aguentavam as hormonas e o aparelho cardio-respiratório? Aos poucos, o combate foi-se deslocando corpo acima, fechou atrás de si as portas do pescoço e invadiu os neurónios. A questão passava a ser como lidávamos psicologicamente com as dificuldades: se resistíamos, deprimíamos ou lançávamos mão de drogas para nos mantermos à tona. E até os discursos acerca do stress iam mudando - especialistas e leigos passaram a empregar a palavra com uma pitada de suspeita e receio na voz, como se ele pairasse sobre a cidade e nos caísse em cima à menor distracção. Uma vez feridos, o substantivo dava lugar a verbo cheio de um desalento passivo, “ando stressado”. A besta roendo-nos as entranhas, como cancro imune a qualquer cirurgia.
Muitas das sugestões terapêuticas referidas na reportagem (massagens, yoga, programas em unidades hoteleiras) denunciam a habitual importância dos cifrões, estão fora do alcance da maioria das bolsas. Já os medicamentos são receitados assaz democraticamente. Também porque os mais desfavorecidos transformam o stress em queixas de sólida aparência física ou nervoso miudinho, em qualquer dos casos a pastilha assume o estatuto de candeia ao fundo do túnel. Para aguentar a corrida sem diminuir a passada, pois toda uma sociedade aceita o frenesim como inevitável. Se repararem, a maior parte das intervenções preconizadas sugere que podemos aprender a suportar melhor os efeitos do stress, não a diminuí-lo. Como se nos resignássemos a combater efeitos e não causas.
A ter eu alguma razão, desse “pecado” estavam inocentes os imigrantes dos países de Leste, se algo os unia era a impotência perante as agressões do meio, da sorte e das mafias que enriquecem à custa do desespero. Portugal sabe o que isso é. Por trás das famosas histórias sobre o talento dos lusitanos para o desenrascanço no estrangeiro, apoiado em reconhecida arte para fintar as armadilhas linguísticas, escondem-se lágrimas e saudades; trabalho duro. Recordo chegada a Paris vindo de Inglaterra, o Sud-Express ainda adormecido, havia tempo para um último capricho. Era manhazinha e as ruas acolhiam, gratas, os jactos de água que as alindavam para os turistas. Fiel à tradição de regressar teso a casa, enchi o peito e disse ao taxista para seguirmos devagar, saboreando a fresca. Ele proporcionou-me curta visita guiada, passei por alguns dos ex-libris parisienses com a distracção criminosa dos personagens de um filme de Tati. De súbito: “regardez, les portugais”. Os que não tinham dinheiro para táxis! Lá estavam, “les portugais”… Em bicha enorme e cinzenta dobrando a esquina, à espera de um milagre em forma de papéis e carimbos oficiais.
Os portugueses sabem o que é partir para calar a fome na boca das crianças ou por se recusarem à mordaça. E por isso conhecem o isolamento, a insegurança face ao desconhecido, a eventual rejeição por parte de quem exige mão de obra, mas franze o sobrolho às pessoas. Das consequências físicas e psíquicas de tais situações falarei para a semana, o apelo para que demonstremos solidariedade a quem nos procura em busca de uma hipótese de sobrevivência deixo-o hoje.

12 comentários:

TsiWari disse...

Pena ser assim...


aquele "regardez, les portugais" é desolador.

andorinha disse...

Boa noite (sem stress):)

"Para aguentar a corrida sem diminuirem a passada, pois toda uma sociedade aceita o frenesim como inevitável".
E não é?:(((
Quem reduz a passada fica para trás neste nosso mundo tão competitivo. Para que isso não aconteça, lá vai muita gente atrás da pastilhinha...

Angie disse...

O stress, não é? Esse polvo.
Dizem-me que há um certo "bom stress"... Nunca hei-de destrinçá-los, devo ser vítima dos dois...
Só a música, a água onde imergir e fundir-me e um daquels abraços malucos dos meus rebentos me fazem ter consciência de o espantar sem retorno (imediato).
Até temos um Instituto do Stress, não é? Com convénios no Caramulo, naquele hotel bem ao pé da Fundação. Em suma: isto está oficializado!

.....
Uma short story:
- Prédio daqueles dos anos 60, grande Lisboa, com rendas dessa época, estáticas e estatizadas... Ao todo dariam mensalmente o quê? Nem para 2 diárias num hotel.
O costume...
A certa altura, morre um dos inquilinos. Deus nos perdoe, festa da grossa!
Procura-se novo arrendatário, não muito exigente
(o prédio não está famoso...não havia como manter aquilo para além do aceitável)
e pronto a pagar um justo valor de renda, aí umas 10 vezes mais do que o falecido pagava...
Entra em cena um imigrado de leste. -Há problema? Não, for Christ's sake! Porquê? Se o contrato seguir as vias habituais, porque teria de haver?
A loira criatura tomou posse das chaves.
Com a família atrás. Só ele e os filhos falam português.
No dia 1 de cada mês, religiosamente, cai a renda.
-A porta do prédio, que já não fechava? Consertou-a. - A caixa do correio, que já não tinha chave? - Manufacturou uma. - Passou a varrer o hall de entrada diariamente, consertou uma gelosia perra de muitos anos, e plantou flores nas floreiras convertidas em caixotes do lixo pelos restantes habitantes, todos nacionais.
A varanda do 1º até "alegretes" viu aplicados,e o andar topa-se à distância.

Morais da história:
-O cliente ficou feliz, felicissimo!
-O conselheiro, feliz por assim ter aconselhado.

........
Que lição de integração e civismo...
Dele para NÓS...claro!!!!

Pamina disse...

Boa noite.

Quanto à 1ª parte do texto, infelizmente, também acho que não há volta a dar a estes Modern Times e que se manterá (ou aumentará) a tendência para se "combater efeitos e não causas".
Relativamente aos imigrantes de Leste, na zona onde vivo há muitos, no geral, bem "aceites". Sei que é um tema muito complexo e não pretendo discutir aqui quotas de autorização de residência, etc. O post faz apelo a uma atitude de humanidade para com quem estava ainda pior do que nós e aqui procura mudar de vida (lembram-se do filme do Paulo Rocha?). Só o posso secundar.

noiseformind disse...

Boss, em relação aos estranjas... venham elas, as russinhs todas, as ucranianas mais giras, as brasileiras mais carnavalescas e as colombianas mais calientes ; )))))))
Garanto-te que com estas aquisições para a nossa selecção o stress passava logo ; ))))))))

noiseformind disse...

Quanto ao ritmo que nos é imposto, penso que é mais profundo do que apenas tempos e horários. A malta trabalha para pertencer a classes, e portanto não tem noção de que pode perfeitamente ser mais feliz com menos coisas e menos dinheiro. Mas dizer isto assi é muito geral e estou demasiado cansado para explicitar melhor. : )))))) vou-me aos lençois ; ))))))))

Fora-de-Lei disse...

noiseformind 12:40 AM

"A malta trabalha para pertencer a classes e, portanto, não tem noção de que pode perfeitamente ser mais feliz com menos coisas e menos dinheiro."

E alguns até riem para não ter que chorar...

Vanda Baltazar disse...

Balões de oxigenio, precisam-se!!

...às vezes pergunto-me quando é que nesta sociedade de consumo(e que stress o ter que ter para poder consumir!!!!), nos lembraremos de lutar por mais tempo para consumirmos com nós proprios, os filhos, os livros, sei lá, as pessoas e as coisas que nos dão realmente prazer e que são o unico anti stress natural que conheço!

Processo que adivinho lento, cada vez o sucesso e a gloria profissionais estão mais interiorizados...os topos de carreira e os brilhos inerentes, parecem ser o novo ópio...a adrenalina que os faz moverem-se...quase automatos, mas bem vestidos e de postura confiante...daí à necessidade de um Instituto do Stress vai um passinho!!!!

Ou nao, Professor?

noiseformind disse...

Não vou referir nomes, mas li uma vez um texto de um tipo que depois de 15 minutos a contemplar o sol numa esplanada de Cascais já estava de recaída sonhando apressar textos para o Jornal de Notícias. Uma verdadeira reincidência whorkhaolica ; )))))

Rui disse...

Isto é uma coisa que me preocupa: volta e meia não consigo afinar a minha experiência pela dos meus companheiros comentaristas. Muito bem. Eu sou um tipo stressado, de Fevereiro a Março fui-me mesmo abaixo, mas pílulas nunca... quer dizer, pastilhas nunca. :)))
A chatice é que não obedeço ao perfil do clássico stressado, pois não é que tenho objectivos e princípios de vida extremamente modestos? Não desejo quaisquer cargos ou promoções, não quero nem preciso de ganhar mais dinheiro (porque consumo pouquíssimo comigo e cada vez menos), também não pretendo notoriedade, ...
... O PROBLEMA É QUE NÃO ME DEIXAM EM PAZ A FAZER O MEU TRABALHO!!! Estão sempre a solicitar-me: a minha directora, a minha chefe de departamento, os meus colegas, os meus alunos e o meu patrão magno, o Ministério (este é o pior de todos, porque faz tudo o que pode para que eu não ensine ou que ensine mal).
Ah, penso que também ajuda o facto de, ao vir cá para fora, só ouvir falar mal da minha classe.
O meu médico diz-me que eu devia fugir para o estrangeiro. O que me levaria à tal fila dos portugas? E a outros stresses?

andorinha disse...

Rui,
Compreendo-te perfeitamente, basta ser colega de profissão.:)
Temos uma das profissões mais estressantes, que podemos nós fazer?
O meu problema é o mesmo que o teu: muitas vezes não me deixam em paz a fazer o meu trabalho.
Quanto à Excelentíssima Senhora Ministra, nem me fales...
Quanto à péssima reputação que temos junto da opinião pública também não me fales...
Deixa lá, piores dias virão:)))))))

Rui disse...

Obrigado pela solidariedade, Andorinha! Por acaso também costumo dizer-me a mim mesmo que há-de vir pior pelo que, antes que isso aconteça, devo é aproveitar bem o presente!