terça-feira, maio 02, 2006

Prosseguindo...

Stress ( II )


Eisenbruch fala de uma verdadeira “perda cultural” quando se refere a indivíduos permanentemente afastados do seu meio de origem. Perda mais grave ainda nos casos de partida não voluntária, como a dos refugiados resultantes de catástrofes naturais ou de quem é empurrado para o exílio por recusar ver de joelhos o pensamento. O vazio que arrastam consigo é inundado pelos estímulos de uma outra cultura e desse choque, se não amortecido, resultam “inflamações e abcessos” que geram diversos sintomas. Por exemplo:
Cassell estudou as variações de tensão arterial em trabalhadores negros que trocavam o Sul americano pela cidade de Chicago. À medida que a estadia se prolongava, também o braço ia amuando e disso dando conta ao aparelho - a tensão subia. Os mesmos resultados foram obtidos quando se comparou cabo-verdianos emigrados para a costa leste dos Estados Unidos e a população que ficara no arquipélago. Aceitando embora a mais do que provável influência de factores como a alimentação e o estilo de vida, os investigadores salientam a importância da desadequação entre o antigo sistema de valores e a nova realidade que abraça – ou sufoca? – estas pessoas. Não se trata apenas de olhar em volta e não reconhecer o mundo, mas sim de descobrir que os instrumentos mentais aprendidos para o entender se revelam, de súbito, ineficazes. Como se da realidade antiga sobrasse a moldura e esta não conseguisse abarcar a nova.
Fechado o aparelho de tensões, demos a palavra às tentativas de suicídio. Burke salienta dois factos: os imigrantes asiáticos em Birmingham apresentavam uma taxa desse comportamento muito superior à do seu país de origem, mas tal diferença era sobretudo visível nas mulheres. Surpreendidos? Mas é preciso lembrar que, em geral, elas tinham viajado para Inglaterra seis a oito anos depois dos maridos, já adaptados. De certa forma, as “fadas do lar” eram imigrantes nas suas próprias casas, porque aí se esperava que ficassem, agravando-lhes o isolamento social. Que não as impedia de espreitar pela janela (por exemplo, televisiva!), abrir a boca de espanto perante as diferenças da condição feminina e começar a embalar sonhos e ressentimentos.
Quando as escutavam, queixas surgiam sem esforço: empregos mal remunerados e inseguros; medo de não sobreviver economica ou afectivamente; dificuldades com o alojamento; saudades do apoio da família alargada num meio urbano sentido como hostil. E os especialistas contam-nos história curiosa, para quem não tenha o hábito de pasmar em face dos caprichos do espírito: se a ajuda efectiva é importante, basta que alguém a sinta ao dispor e a sua resistência à adversidade aumentará. Como as crianças, a quem um olhar de soslaio aos pais chega para desafiar o escuro.
As conclusões diziam respeito aos imigrantes de primeira geração. Os filhos demonstravam, sem surpresa, melhor adaptação à sociedade que, afinal, era já a deles. Não raras vezes, o stress espreitava-os quando os pais propunham fazer as malas e “regressar” definitivamente a países que, nas mentes jovens, estavam apenas associados a férias grandes e avós ternurentos.
Perguntas surgem, imperiosas. Que traços culturais dos migrantes os podem proteger, como potenciá-los? E eu, português típico, penso logo num cantinho onde a seguir à bacalhoada se jogue uma sueca batoteira, à mistura com intermináveis discussões sobre o futebol indígena. Sou prosaico? Claro, as ilhotas da cultura de origem só proporcionarão porto acolhedor quando o mar da de acolhimento for chão e a brisa fagueira. Em resumo: sejam quais forem as tentativas de criação de uma rede de suporte por parte de quem chega, nada funcionará sem a solidariedade institucional de quem acolhe. A Portugal, como Estado, cumpre a obrigação de dar o exemplo aos portugueses como indivíduos. Sob pena de trairmos passado e presente. E comprometermos o futuro.

14 comentários:

axadresado disse...

não só a um lupo de politicos cabe a responsabilidade de dár um volt face a todo este marasmo.
a nós sociedade também.
as grandes decisões estão nas nossas mãos, porque hoje até o presente está comprometido.

gostei muito de o ler
um abraço

Carlos Sampaio disse...

Nesses comportamentos, creio existir uma enorme diferença entre um enorme diferença, não referida, entre o emigrar do "Sul para o Norte", que é o mais frequente na emigração económica, e do "Norte para o Sul".
Os emigrantes económicos normalmente não são felizes. A relativa prosperidade sai-lhes muito cara. O momento mais feliz é provavelmente quando vão a caminho da 'terra'.
Já repararam na cara dos magrebinos ao descer as auto-estradas do Sudoeste de França no mês de Julho com os carros pejados de tralhas? Acho que raramente se vê gente tão feliz.
Só na ida. Uma vez chegados vão estar impreparados para lidar com um choque com os que ficaram. As 'fífias' dos emigrantes em férias são fundamentalmente uma manifestação de insegurança e de desconforto gerida de forma infeliz por quem é 'meio estrangeiro' em todo o lado. Já reparam na cara dos que aterram de regresso em Bruxelas, Paris ou Frankfurt sob um céu de chumbo depois do Natal na Terra? Uma boa imagem para angústia.

Sabemos que somos um país de emigrantes e estamos a descobrir que lidamos mal com os imigrantes que nos chegam. Temos uma diversidade genética de culturas tal que ainda muito recentemente pouco se notavam cá os imigrantes. Vamos comparar a 'visibilidade' dos magrebinos em França ou na Bélgica com a sua visibilidade cá? Por outro lado, tendemos a descair para um primarismo epidémico em situação de crise.

É fácil ser intolerante com quem é diferente; é fácil ser inconveniente em ambiente diferente. É lamentável evoluir para a segregação que se auto-alimenta e amplifica como já se vê nalguns países da Europa Ocidental. Será enriquecedor cruzar experiências e culturas e resistir à tentação de que a “culpa” é do diferente e que, quanto mais diferente, mais óbvio que é culpado.

Fora-de-Lei disse...

"Em resumo: sejam quais forem as tentativas de criação de uma rede de suporte por parte de quem chega, nada funcionará sem a solidariedade institucional de quem acolhe. A Portugal, como Estado, cumpre a obrigação de dar o exemplo aos portugueses como indivíduos. Sob pena de trairmos passado e presente. E comprometermos o futuro."

Correctíssimo ! Neste aspecto concreto, a política do Estado português tem sido a "cova da moura" da nossa vergonha.

Pamina disse...
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Pamina disse...

Boa noite.

Também gostei de ler a continuação do outro post. Revela aspectos muito interessantes relativamente ao binómio imigração/perturbações da saúde. No ano passado, foi aqui focado o facto de se verificar uma taxa mais elevada de doenças mentais nas comunidades imigrantes em Inglaterra e deixada a pergunta se esta "propensão" se deveria a características inatas desses imigrantes ou, pelo contrário, à influência do meio (não sei exactamente em que mês está, mas não deve ser difícil de encontrar nos arquivos).
Ao ler este texto, recordei-me de alguns aspectos dessa discussão, especialmente quando fala da maior taxa de tentativas de suicídio entre os imigrantes asiáticos de Birmingham, com relevo para as mulheres. O texto pergunta "surpreendidos?" A explicação aparece-nos tão lógica. Também neste contexto, as mulheres obviamente mais sacrificadas do que os seus companheiros. Gostei muito de toda esta parte que começa em "fechado" e vai até "escuro".
Também interessante, a parte que foca o verdadeiro terror que pode assaltar os filhos, quando os pais sugerem o regresso ao país de origem. Vi isto acontecer na Holanda com filhos de portugueses. Agora imagine-se, se, ainda por cima, no país dos pais existir um regime ditatorial ou, esp. no caso de filhas, as mulheres possuírem menos direitos.
Gostaria ainda de salientar o último período. Não me parece exagerado o alerta. Relativamente a este ponto, na minha opinião, a palavra de ordem é educação. Espero que os governantes, sejam de que partido forem, estejam conscientes da necessidade de investir a sério na educação dos jovens imigrantes/filhos de imigrantes e que, por uma vez, não se faça jus ao proverbial desenrascanço português, mas se planeie a longo e médio prazo.

andorinha disse...

Boa noite.

Ser-se imigrante não é fácil, toda uma adaptação a um país estrangeiro, com gentes e costumes diferentes, convenhamos que será um factor desencadeante de stress.
Como é referido no post existe, na maior parte das vezes, uma desadequação entre o antigo sistema de valores e a nova realidade que abraçam. Não é fácil as pessoas sentirem que se afastam das suas raízes e que não conseguem construir outras.
Concordo com o Carlos Sampaio, os emigrantes económicos não são felizes, a luta por uma relativa prosperidade sai-lhes cara, é o desenraizamento, puro e duro. Isto em relação aos imigrantes de primeira geração.
Em relação aos filhos, muitas vezes já nascidos no país de acolhimento, a situação também nem sempre é tão linear. Será um facto que alguns nem querem pensar em regressar ao país natal, mas outros sentem-se divididos entre dois mundos.
No 12º ano é leccionada em Alemão uma unidade temática que aborda precisamente o mundo dos emigrantes e os seus problemas.
Nesse contexto costumo abordar com os meus alunos um poema escrito por um jovem grego emigrante na Alemanha que transcrevo aqui traduzido.

Cresci junto de ti
Aprendi a tua língua
Esqueci a minha
Dia após dia
Adoptei os teus costumes
Chamas-me estrangeiro
Comporto-me de forma diferente
Os "meus" chamam-me estrangeiro

Este "puto" tem dezassete anos e sente-se assim, perdido entre dois mundos, é estrangeiro no país de acolhimento e estrangeiro no seu próprio país.
Penso que é a pior situação de todas.
É evidente que as coisas nunca funcionarão sem a solidariedade institucional de quem acolhe.
Têm a palavra os nossos governantes.

Angie disse...

Atenção!
Nos últimos dias aconteceu um facto (jurídico) importantíssimo: a nova Lei da Nacionalidade.
Ums passinhos em direcção ao "ius soli" (direitos de cidadania conferidos pelo território de nascimento, versus direitos conferidos pelo sangue).
Importantíssimo, trouxe esperança a muita gente.

Sites especialmente relevantes sobre os imigrados e a sua inclusão: o ACIME e o SOS-RACISMO

Obs: não vale a pena centrarmo-nos só-só nos recém-chegados. Para além dos palop, a questão dos ciganos está longe de ser pacífica. Sobretudo no Norte e no Alentejo, ao que me consta.

Mário Santos disse...

Esta questão é absolutamente fundamental. No caso dos africanos o drama ainda me parece maior, uma vez que me dá a sensação que ficam completamente desenraízados e com uma enorme dificuldade em educar os filhos que crescem muitas vezes ao Deus dará. E o que acho dramático é que parece que estes problemas só merecem atenção quando já descambaram em marginalidade ou em coisas como o que aconteceu em França.

Já não vejo estes problemas na comunidade Hindu, por exemplo, que me parece bastante unida e capaz de manter a sua identidade.

Carlos Sampaio disse...

Algumas notas adicionais.

Emigrar corresponde sempre a um desenraizar mais ou menos profundo e traumático conforme o contexto. Já fui “emigrante” por 4 anos num país europeu. Mesmo sem ter o “estigma” de ser emigrante económico, há diferenças fundamentais em “pequenas” coisas como, só por exemplo, a forma como se olha e se lida com as crianças.

Duas anedotas, reais:
1. "Lá em Portugal, as vossas casas ainda têm chão de terra batida?"
2. Em convívio social: “Há são portugueses? Que engraçado, a nossa mulher a dias também é portuguesa…!”. “Não diga! É mesmo curioso porque a nossa é belga!”

Acho que o esforço sério mesmo onde investir é em evitar a emigração económica, criando condições para as pessoas se realizarem no seu ambiente. No caso concreto de Africa é claro que em muito do inferno que lá se vive há responsabilidades de quem não quer ver os africanos cá. Pensamos somente, para simplificar, no petróleo em tudo o que se passa à sua volta.

Carlos Sampaio disse...
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Angie disse...

Mais um anedotário:
Também vivi em Paris uns meses, quando o PREC reinava e as universidades fecharam as novas entradas, inventando o serviço cívico (que no 1º ano nunca funcionou na prática).
Resolvi ir arejar e ter com um irmão que estudava na Sorbonne, embora ele estivesse na Casa de Portugal da Cité Un. e eu numa Pousada de Juventude no Marais.
Tempos inequecíveis.

1- "Lá em Portugal toda a gente se veste de preto, não é? É que as fadistas, os anúncios turísticos, e até os do vinho do Porto, mostram sempre homens e mulheres de negro..."

2- A da bonne e da concierge portuguesa, pois claro. Clássico. Mas um dos que gozava dos serviços de uma nossa conterrânea acrescentava: " -Certa vez fui a Portugal ao baptizado do filho da empregada, e houve 1 coisa que me deixou encantado e achei um sinal de evolução: os filmes estrangeiros que passam na vossa TV são todos legendados e conseguem portanto vê-los na língua original. Um privilégio!" (desde aí passei a valorizar esse pequeno subdesenvolvimento...)

3- Conheci 1 portuguesa que fazia 1 doutoramento em Paris e tinha 2 filhos pequenos, a quem pintava o cabelo de loiro para que eles não se sentissem descriminados no colégio onde andavam... Verídico e completamente louco. Mas dizia ela que resultava porque eles discriminavam liminarmente os morenos...

Fora-de-Lei disse...

Querem mais stress do que isto ?!

Já viram, por acaso, a mal-intencionada fotografia que a edição online do DN (http://dn.sapo.pt/) apresenta para ilustrar a notícia sobre o cerco policial ao Bairro da Torre ?

Não está certo ! Estou a ficar super-stressado... ;-))

Bastet disse...

Só para dizer que também gosto de uma jogatana de sueca mas, porque passei a infância aos pulos, já prefiro uma muambada ao bacalhau. :)

Nelson Santos disse...

Não conheço estatísticas sólidas que confirmem ou infirmem a ideia tradicional que temos uma boa capacidade de absorção de outras culturas. A partir de uma visão empírica e do estudo agora publicado no DN: http://dn.sapo.pt/2006/05/04/sociedade/se_portugal_fosse_marca_muito_poucos.html, tendo em atenção que nós próprios não achamos bom aquilo que é nosso, pode-se talvez acreditar que seremos capazes de aceitar bem culturas que sejam percepcionadas como superiores ou equivalentes à nossa, que tenderão, por sua vez a não se misturar mas também a não pôr em causa alguns dos valores sociais tradicionais.
Por outro lado é mais provável a existência de xenofobia perante culturas que por dificuldades de integração no "mainstream" geram culturas "anti-sistema".
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