segunda-feira, janeiro 29, 2007

Dois.

"Ainda se enfiam agulhas de tricô" em pleno centro do Porto

"Tenho a consciência tranquila, sabe? Porque se não tivesse ajudado aquelas mulheres elas iam meter agulhas até ao útero para abortarem. Há quem pense que isto das agulhas já não existe, que o raminho de salsa [enfiado na vagina até ao colo do útero] já não existe. Existe, pois! Todos os dias acompanho gente que vive em bairros de miséria. Essas pessoas não vão a Espanha! Nem tomam Cytotec. Enfiam agulhas de tricô, sim. Atiram-se pelas escadas abaixo, sim."As palavras, como rajadas, pertencem a José António Pinto, assistente social da Junta de Freguesia da Campanhã, Porto, um dos envolvidos no famoso julgamento da Maia, que sentou 43 arguidos no banco dos réus, e em que uma enfermeira-parteira foi condenada a oito anos de prisão. José Pinto confessou que sim, encaminhava as mulheres para aquela morada. "Mulheres que viviam no limiar da condição humana. Que não podiam ter mais um filho porque já nem comer tinham para dar aos outros." Foi absolvido, os magistrados não acreditaram que angariasse mulheres e recebesse dinheiro pelos abortos. As próprias mulheres confessaram que José Pinto as tentava demover, mas que a vida já tinha decidido por elas.Por conhecer tão bem a pobreza, indigna-se quando ouve os movimentos pelo "não" assumirem-se "pela vida". Como se quem aborta fosse "pela morte". "Eu também sou pela vida! Mas pela vida em abundância, pela vida desejada e com condições." Hoje, as mulheres procuram-no menos, para pedir esse tipo de ajuda. "Têm medo de me prejudicar." E, por isso, vão a uma conhecida senhora de um bairro no centro do Porto (igual a tantas outras de outros bairros) que lhes abre as pernas e enfia ramos de salsa. Ou então, as que podem pagar, vão a uma ainda mais conhecida clínica perto de Aveiro. A clínica, essa clínica do centro do país, é aquela a que mais mulheres portuguesas recorrem, logo depois da Clínica dos Arcos, em Badajoz. As contas apontam para 500 a 600 abortos por ano. Cá fora, no parque de estacionamento, há rapazes e raparigas que se olham, quem sabe procurando ainda outras soluções. Alguns são muito novos, as borbulhas tão acesas como as hormonas, os corpos quase infantis. Há meninas de olhar assustado acompanhadas pelas mães.A clínica tem muitas especialidades, mas há um vai-e-vem de mulheres que, na conversa com o psicólogo, explicam as razões para a inviabilidade daquele filho. O director da clínica garante que as interrupções são feitas à luz da lei, que possibilita o aborto nos casos em que a gravidez seja uma ameaça à saúde física ou psíquica da mulher. E ali, o factor psíquico é determinante. Uma carta do psicólogo atesta o perigo. A ecografia (feita sem o cuidado de ocultar a imagem do embrião dos olhos de quem o carrega) certifica as semanas de gravidez. O procedimento é feito, numa sala sem luxos nem sofisticações, numa marquesa com estribos e uma tina de metal no meio. Paga-se um mínimo de 550 euros, e trocam-se poucas palavras, muito poucas palavras. No final, uma enfermeira vem para acariciar os cabelos, ajeitar os cobertores, "sim, o frio é normal", e carregar na barriga, "para ajudar a limpar o útero". Sai--se uma meia hora depois, com uns comprimidos para tomar e uma vida para prosseguir.

41 comentários:

Marx disse...

Pois... interessante seria ouvir a resposta de José António Pinto, herói anónimo de uma batalha muda, à questão referendária da moda. Hoje. Porque amanhã poderá ser outra. «Deverão os progenitores ter responsabilidades idênticas na decisão sobre abortar ou não?».

Pelo relato, algo me diz que JAP considerará isso uma questão marginal...

andorinha disse...

Boa tarde.

Pois...é muito triste que em pleno século XXI ainda se continuem a verificar casos desses.
A dada altura JAP afirma: "Mulheres que viviam no limiar da condição humana. Que não podiam ter mais um filho porque já nem comer tinham para dar aos outros."
São dramas terríveis, de facto.
Mas há uma coisa que me faz confusão: ninguém aconselha essas mulheres a fazerem planeamento familiar? Não são informadas acerca dos diversos métodos contraceptivos?
Têm necessariamente que engravidar ano após ano?
De quem é a "culpa"?
E como podem elas viver uma sexualidade gratificante se estão sempre com o receio de engravidar?
E depois ainda há quem diga que estas são as mulheres objecto...

andorinha disse...

OMS defende aborto seguro

"IVG ou aborto a pedido da mulher, um problema de saúde pública maior quando é feito sem segurança, higiene ou por pessoal sem preparação. A OMS diz que é nestas condições que são realizados mais de metade dos 46 milhões de abortos que todos os anos são efectuados no mundo e que provocam a morte de mais de 68 mil mulheres. Mas é assim que algumas ainda são obrigadas a abortar em Portugal.
(....)
Que fazer, então, para impedir o aborto inseguro? A OMS apela aos governos de todos os países para implementarem as medidas aprovadas na Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento de 1994, no Cairo. A declaração, que também foi subscrita por Portugal, proclama, além da melhoria dos cuidados contraceptivos, " o acesso aos cuidados pós-aborto e a serviços de aborto seguro, tendo em conta o máximo permitido pelas leis locais."

Excerto de um artigo da NM de ontem.

É a OMS quem o diz, não sou eu:)
Isto parece-me de um tal bom senso, que tenho imensa dificuldade em perceber que pessoas cultas e inteligentes estejam em desacordo com o que é aqui defendido.

Julio Machado Vaz disse...

marx,
A verdade nua e crua é que a última palavra será sempre da mulher, na ausência de assimetria da relação.

compilas disse...

Ontem na dois o Juiz Laborinho Lúcio dizia que vai votar no sim porque a "questão aborto" não é uma questão jurídica nem de Estado

lobices disse...

...vejam este site:
http://www.worldometers.info/
...
...vejam a contagem dos nascimentos e das mortes
...nascem 4 em cada segundo no mundo
...morrem 3 em cada segundo no mundo
...dêem uma vista de olhos pelos outros itens
...vale a pena

AQUILES disse...

Paulo

Respondo à pergunta que me fez dois post’s atrás. Sou anti-aborto, porque sou pela vida, mas plenamente a favor da despenalização total. Já aqui (http://divagan.blogspot.com/2006/11/j-ando-irritado-com-esta-discusso-do.html) expliquei a minha posição sobre esta temática.
Quanto à picardia que aqui venho “picando”, para além de me classificarem, e muito bem :):), de pessimista, não há emissão de nenhum comentário.

Marx disse...

Caro Prof.,

Manifestei essa mesma opinião no seu post anterior. «2». Considero absolutamente intransmissível a decisão de abortar, única, da mulher. Questão que, de repente, parece ter-se transformado na caixa de Pandora dos movimento referendários. Dando azo, inclusivè, a manifestações de algum marialvismo.

A analogia com o caso que aqui transcreve, do funcionário da Junta José António Pinto, serve para priorizar o debate. Tal como o perspectivo. O testemunho de JAP será, sempre, mais categórico do que qualquer intermitência que entre na liça. Não haverá análise moral, sociológica, médica, cívica, cultural que altere o que JAP viu/vê no seu dia-a-dia. E a questão colocada no Referendo terá, creio, de ser vista nesta perspectiva. Será essa a resposta para este flagelo? Esta é, reitero, na minha perspectiva, a única questão fundamental. Tudo o resto será, então, marginal.

blogico disse...

aquiles

em relação à sua questão anterior, se a abstenção ganhar, como está previsto na constituição, o referendo não é vinculativo, o que passa a batata quente para o parlamento legislar como entender (para isso é que lhes pagamos)

o referendo anterior, por lei, não foi vinculativo, mas parece que ninguém sabe o que é isso de uma tal constituição. Decretou-se que venceu o "não" e o parlamento acobardou-se. espero que a história não se repita

moon disse...

Hello!

Bolas... Até me doeu o fundo da barriga só de ler...:((((((

Julio Machado Vaz disse...

marx,
Peço desculpa se não comentei na altura. Quero deixar bem claro que o Sim não é, para mim, "a" resposta. Se quiser, pela deformação profissional de quem trabalha na toxicodependência, trata-se de uma estratégia de redução de danos que jamais substituirá um trabalho preventivo que, obviamente!, também nunca será 100% eficaz.

moon disse...

P.S. No sábado estive na Almedina do Arrábida Shoping. Que pena não ser dia 22 de Fevereiro...:))))
Adivinhem quem vai lá estar??!!

Marx disse...

Caro Prof.

Estou plenamente de acordo quanto à ineficácia d'«a» resposta. Isso não me impedirá de acreditar na eficiência do Sim.

Li, algures num blog, uma piada que ilustrará essa inevitabilidade. Uma miúda, com os seus 13 anos, recebe um postal dirigido à mãe. E logo o berra para a cozinha. «Mamã está aqui um postal da maternidade do hospital a dizer para ires à consulta que marcáste há treze anos atrás»...

maria estrela disse...

O nosso problema enquanto país é o conjunto grande de coisas que se "resolvem" no vão de escadas.A corda desfaz-se sempre do lado dos mais fracos... estas mezinhas irão continuar a existir. Se a par da vitória do sim não houver mjudança de mentalidades muitas mulheres continuarão a ter vergonha de recorrer a instituição pública. Há que crescer e saber acabar também com a censura de costumes, o olhar também mata!

Julio Machado Vaz disse...

marx,
Somos dois:)

CêTê disse...

(Paulo,
a minha resposta à sua reacção está no post onde "postou".)

thorazine disse...

JMV 3.51
Prof, fui eu que dei um nó na lingua ou queria dizer "ausência de simetria"?

Eu penso ser este ponto um dos mais difíceis de delinear. Por exemplo, se um pai com de condições, desde económicas às emocionais, quiser ter o filho porque razão não terá a mulher que proseguir forçosamente a sua gravidez? Não se trata de ser uma vida humana, trata-se de existir alguém que quer aquele filho! É verdade que poderão ser 9 meses penosos para a mulher, mas irá tb ser penoso psicológicamente para um pai não ter o filho pois nenhum impedimento exitia para este não o criar na totalidade e obviamente, a mãe ilibada de qualquer responsabilidade!

Outro caso difícil, penso eu, seria o que aconteceria Às mulhereres abortantes às 10 semanas e 1 dia, mas o Dr. Mario Sousa Dias já deu a noção como a contagem dos dias poderá ser flexivel!

CêTê disse...

Prof., empenhado como está na Luta pelo "SIM" pode colocar aqui no blog um programa para fazer a sua mini-sondagem na tendência de voto dos visitantes do blog.
Eu não sei como se faz, mas deduzo que seja fácil ;))


Quanto ao post- muito bem escolhido.

Boa noite

thorazine disse...

Ahh...não conhecia essa técnica do raminho de salsa.Por acaso tenho ali um canteirinho com uns pézinhos! Se o não vencer.."ó sócio, já temos negócio!!" ;)))

JFR disse...

A crueza deste post, tem um efeito similar, embora de sentido contrário, às imagens com origem em ecografias que, os partidários do não, utilizam para defenderem os seus pontos de vista.

Quer um caso, quer o outro, dão uma feroz realidade à discussão.

Prof. JMV:

Como não está indicado, gostaria de saber onde está publicado o texto integral que aqui reproduz. Obrigado.

JFR disse...

O Prof JMV expôs aqui, várias vezes, que o seu apoio ao SIM é motivado por uma estratégia de redução de danos. Ou seja: a teoria do mal menor. Aceitando que há ocasiões em que essa é a melhor solução, não creio que os políticos (e, para grande parte deles, o aborto é, infelizmente e acima de tudo, um problema político), tenham feito tudo o que deviam, na preparação do referendo para limitar ao máximo os danos que um qualquer resultado deste referendo provocará.

A preparação do referendo poderia e, em meu entender, deveria, ter criado um quadro legislativo completo e regulador dos problemas do aborto, directos e indirectos, para o qual todas as forças políticas poderiam contribuir apresentando as suas propostas. Como é habitual, a AR aprovaria uma proposta final (na qual poderiam ter sido introduzidas alterações). Com a maioria hoje existente, o PS teria condições para fazer aprovar as linhas fundamentais da sua proposta.

O referendo seria então realizado, não sobre uma qualquer pergunta, sempre incapaz de responder a todas as dúvidas e problemas, mas sobre um conteúdo legislativo que permitiria a todos os eleitores votar sem grandes dúvidas sobre o que, a partir desse momento, seria o conteúdo legislativo regulador do aborto em Portugal. Era também um SIM ou NÃO. Muito mais esclarecido. Muito menos manipulável, no futuro.

É por isso que, reduzir danos, é, em meu entender uma estratégia que tudo pode justificar. Basta que não se façam as coisas certas na hora certa. Infelizmente, esse é um dos grandes problemas de Portugal. Do Portugal “desenrasca”.

lobices disse...

...eu não sabia; fiquei a saber: o INCESTO não é crime!...
...
...agora, reparem, num exemplo triste mas possivel:
...um pai engravida uma filha de maioridade
...esta descobre que está grávida do seu próprio pai e decide abortar
...por razões diversas apenas para ilustrar este exemplo, o aborto é feito com 11 semanas
...a filha é penalizada pela lei
...o pai dela...não
...incrivel, né????

Julio Machado Vaz disse...

jfr,
Na área da toxicodependência a redução de danos traduz uma realidade simples: em termos éticos (cidadania) ou pragmáticos (saúde pública) não posso deixar de ajudar alguém por se manter a consumir. Se não fosse a epidemia do VIH ainda agora estaríamos à espera de aprovação dessas estratégias - que resultaram! - porque alguns iluminados decidiram que isso era "incitamento ao consumo", "rendição" e outras cretinices. Vê-se que nunca estiveram integrados numa equipa de rua:(. Enfim...

CêTê disse...

Lobices,
A ver vamos como a nova lei vai proteger os violadores? Porque se agora "arriscam o pêlo" e perdem capital estando sempre sujeitos a chantagens... depois como é que se apanham? É preciso acautelar...

andorinha disse...

Thora (7.22)
Até já corriges o Prof. e tudo...saíste-me cá um descarado:)))) Looooooooooool

Quanto ao teu post, miúdo, não havendo consenso, a decisão que deve prevalecer é a da mulher.
Já te disse isto montes de vezes, não leste????:)
Agora fora de brincadeiras, já imaginaste o que seria uma mulher ser obrigada a transportar dentro de si durante 9 meses algo que rejeita?
A violência psicológica que isso representaria?
Isso seria fazer da mulher o quê?
Um receptáculo sem vontade própria?
E nem isso seria benéfico para o bebé como já aqui foi referido.

E agora já é a minha mente perversa a trabalhar: imagina que durante a gestação, o pai mudava de ideias e dizia que nunca tinha querido o filho?
O seguro morreu de velho...
A última palavra tem que ser sempre da mulher.

Julio Machado Vaz disse...

jfr,
Peço imensa desculpa:( JN.

andorinha disse...

Lobices (8.43)
Também não sabia que o incesto não é crime.
Mas se vamos colocar todos os cenários possíveis e imaginários, por mais aberrantes que sejam, não saimos daqui.

"...um pai engravida uma filha de maioridade."
Das duas uma: se é violação, é crime e o prazo para fazer um aborto é nestes casos mais alargado, já nem sei quantas semanas são porque já ando perdida com tantas datas:)))
Mas o pai seria sempre criminalizado.

Se o fazem de comum acordo, tomem precauções ou assumam as consequências...
Não vamos agora passar a ver as mulheres como umas "coitadinhas"...e mais uma vez estamos a fugir do essencial:(

andorinha disse...

"O que somos chamados a decidir é se pessoas que tomaram uma decisão de foro íntimo na esmagadora maioria dos casos dilacerante, têm ou não de enfrentar um período difícil com ajuda profissional e sem a palavra crime e suas consequências à espreita. A escolha com que nos deparamos é esta e só esta."

Júlio Machado Vaz na Conferência do PS.

É "só" isto que está em questão no dia 11.

JFR disse...

Prof JMV:

Sempre entendi o seu ponto de vista. Sei, também, o quanto de amor ao seu semelhante, está por detrás dessa estratégia. Mas...

Os países e as organizações não podem considerar tudo como uma solução de recurso. Um estado desenvolvido (e de direito) não é o que espera pelo incêndio para o provenir. Pela epidemia para a combater. Isso, é aceitável nos casos excepcionais. Como o do VIH. Não no caso do aborto. Há décadas que se discute. Há oito anos que se esperava por um outro referendo. Então...

Aos políticos competiria ter encontrado uma solução que não se confinasse a uma pergunta, para cuja resposta, um SIM ou um NÃO é sempre muito deficitário.

Fora-de-Lei disse...

Uma descrição que - na óptica dos desfensores do NÃO - será vista como uma estória de faca e alguidar do tipo "andava a desgraçadinha no gamanço...". Mas também pouco edificante para mim, que até me inclino para votar SIM.

Paulo disse...

Aquiles (4:48 PM)
Obrigado pela resposta

CêTê (7:20 PM)
Obrigado…
Já vi e já respondi, :-)

Andorinha…
Também já te respondi no “post” em causa… ;-)

Quanto ao tema debatido neste “post” para já estou a assistir de “camarote”…

Pamina disse...

Boa noite.

Acho o debate que aqui se tem verificado fundamental, mas várias vezes me apeteceu dizer o mesmo que a Andorinha escreveu hoje no final do seu comentário das 9.27:
"...mais uma vez estamos a fugir do essencial:("

Não sei se em alguns casos se tem tratado de pura estratégia de quem tenta lançar a confusão (não me refiro a esta questão específica sobre a qual ela escreveu o comentário, mas no geral). Quero acreditar que não, quero acreditar na honestidade intelectual da maioria das pessoas e que todas as questões levantadas realmente preocupam quem as coloca. Mas, podemos discutir o sexo dos anjos (não é piada ao programa, o que aqui seria de muito mau gosto) até à exaustão, mais uma vez citando a Andorinha, referindo-se ao texto do Prof. JMV:"É "só" isto que está em questão no dia 11."

Mas não é bem assim, tenho lido. E depois, se o sim vencer? Seguem-se cenários derrotistas. Se o sim vencer, pergunto eu, será assim tão difícil agir em conformidade, ou seja, elaborar uma boa lei nova e criar as condições para que seja bem aplicada? Porque é que isto não há-de ser possível? Parece que nunca foi feito antes. Já referi noutro post vários aspectos da lei holandesa que me parecem muito positivos. Não há que ter falsos orgulhos, porque não copiar o que é bom, ou melhor, porque não estudar o que é bom, comparar ideias e determinar o que melhor se adapta às situações concretas do país?
Ah, mas mesmo que isto seja feito, depois não há condições para aplicar essa lei, dizem os velhos do Restelo, portanto vou votar não. Não posso aceitar este tipo de argumentos. Porque é que não vai haver condições? O sistema nacional de saúde não aguenta, faltam fundos, falta isto, falta aquilo? É tudo uma questão de vontade política. Um chavão, mas nem por isso menos certo. O que se quer feito, faz-se, ou, pelo menos, trabalha-se na direcção de se fazer.

E já agora, ANTES da solução de emergência aborto, lembro que a mesma vontade política pode ajudar a evitar isto:"Cá fora, no parque de estacionamento, há rapazes e raparigas que se olham, quem sabe procurando ainda outras soluções. Alguns são muito novos, as borbulhas tão acesas como as hormonas, os corpos quase infantis. Há meninas de olhar assustado acompanhadas pelas mães."

Terrível.

Julio Machado Vaz disse...

jfr,
Por alguma razão me bato há 30 anos pela educação sexual:).

Pamina,
O Sim não é um fim em si, como a redução de danos não é uma desistência da abstinência. O Estado deverá, por exemplo, assegurar-se de que a escolha é verdadeiramente livre. Em termos gerais terá de implementar as políticsa a montante. PORQUE O OBJECTIVO DE TODOS TEM DE SER REDUZIR DRASTICAMENTE O NÚMERO DE ABORTOS! Fazê-lo desaparecer seria uma afirmação demagógica e isso não faço.

lobices disse...

...o debate dos Prós e Contras durou das 23 até às 02.15
...esgrimiram-se sem argumentos
...mas
...fiquei, apesar disso, mais esclarecido para votar sim
...é que, na verdade
...a lei que existe, se o não ganhar, vai ficar tudo na mesma
...se o sim ganhar, algo (para melhor) vai acontecer
...o não defende sempre (tipo cassete) a vida do feto mas aceita que esta lei permita a morte do feto às 12, às 16 e às 24 semanas
...logo, defendem a vida e não defendem (é apenas uma questão de conveniência ou de moralidade?)
...Vital Moreira, pragmático eu sei, mas foi esclarecedor quanto ao que, verdadeiramente, está neste referendo
...e
...neste referendo a resposta só pode ser um sim

Maroska disse...

Só vejo uma razão para o não mas vejo muitas para o sim. A vida não é linear. Há muita miséria por aí, muita mesmo. Coisas que eu nem quero descobrir porque sei que não vou conseguir dormir de noite, na minha almofada imaculada, na minha cama quente. Não é justo dizer a quem tem muitos filhos que não deveria ter engravidado, que há planeamento familiar, pílulas e preservativos. O planeamento familiar não chega a todos, a saúde não chega a todos. Temos de ser realistas pois no nosso mundo imperfeito o aborto, feito nas devidas condições, é realmente o menor dos males. Com muita tristeza minha...

Paulo disse...

Júlio Machado Vaz (10:51 AM)
Professor… Para além da “carolice” de alguns professores e alguns técnicos de saúde, que entretanto foram remando “contra a maré”… Que grandes alterações houve no comportamento dos diferentes governantes, para que essa educação sexual chegasse a todos???
Apesar da necessidade de regulamentar de uma forma mais justa a problemática do aborto na nossa sociedade, não estamos mais uma vez a tentar resolver apenas os problemas a jusante em vez de antes os tentar evitar a montante? Aliás como diz a boa prática médica é sempre “melhor prevenir do que remediar”…
Eu fiquei espantado quando uma (desculpe o termo) besta que se intitulava deputada/secretaria de estado disse no parlamento que os professores não tinham “qualidade” para “dar” educação sexual, o que coloca todos o professores no mesmo saco… São estes os governantes que temos… Para além de por as escolas em polvorosa e provocar um desanimo brutal no corpo docente, que atitudes positivas e concretas é que viu vir ao de cima deste ministério da educação (inclusivamente na problemática da educação sexual)???

Julio Machado Vaz disse...

paulo,
A quem o diz:(. Escrevi um artigo de jornal sobre a intervenção dessa senhora, se o encontrar faço um post. Nos últimos 22 anos o comportamento dos diversos governos foi deplorável e deixou a área quase exclusivamente nas mãos da carolice e das lideranças carismáticas. Admiráveis, mas por definição de uma fragilidade aterradora. Basta ver que os professores fartaram-se de pagar do próprio bolso formação nessa área!

Miguel disse...

Lobices, quanto ao seu post das 8:43 PM, entendo que no seu cenário hipotético se refere a uma violação. No entanto, permita-me só fazer a pequena correcção de que às 11 semanas a lei actual prevê a IVG (na verdade, permite até à 16.ª semana, nestes casos). Mas no seu post seguinte percebi que entretanto ficou a par dos "números". Mas de modo algum estou a desvalorizar o seu cenário! Compreendo onde quis chegar. :)

Às 12:10 PM diz "[...] o não defende sempre (tipo cassete) a vida do feto mas aceita que esta lei permita a morte do feto às 12, às 16 e às 24 semanas. logo, defendem a vida e não defendem (é apenas uma questão de conveniência ou de moralidade?)". Acho bastaste pertinente esse seu reparo, porque parece-me que a actual lei é mais polémica do que talvez se julga. Sobretudo no ponto que se refere à IVG às 24 semanas, pois podemos já estar a falar de um feto viável (o professor Júlio Machado Vaz que me corrija se estiver enganado!).

Por fim, e ainda a propósito da viabilidade dos fetos, deixei uma questão no ar num post anterior, a qual acabou por não ser abordada. Admito que talvez não tenha sido colocada no post mais adequado, mas como não creio que alguém tenha já discutido sobre isso decidi dar o primeiro passo.

Paulo disse...

Júlio Machado Vaz (2:49 PM)
Professor… Se encontrar esse artigo realmente agradecia que os “postasse” pois esse eu “perdi-o” ou seja não soube dele…
Sabe… Eu já nem ponho em causa pagar do meu bolso formação que seja válida para melhorar a minha qualidade como profissional… Já o fiz muitas vezes… Assim houvesse mais formações com interesse… E não apenas formações só para “ganhar créditos”…
Bom… Agora a coisa fica mais difícil, porque para quem esteve atento aos movimentos do actual chamado “ministério da educação” deve ter verificado que actualmente fazer formação ficou ainda mais difícil… E em alguns casos, principalmente aos professores do interior, tornou isso quase impossível…
Lembro-me com agrado da formação que fiz em Maio de 95 no Instituto Superior de Engenharia do Porto, o Seminário “Educação Sexual: Balanço e Perspectivas” com o workshop “Formação de Professores em Educação Sexual”, no qual o Senhor Professor foi um dos formadores… Mas quantos mais e com a mesma qualidade houve nos últimos tempos em Portugal??? Os dedos das mãos sobram nessa contagem (e já lá vão 11 anos)…

Paulo disse...

Opsss… Só agora é que vi que já "postou" o referido artigo… ;-)

andorinha disse...

Paulo (2.35)
Assim é que é falar!:)
Subscrevo na íntegra.

"Para além da “carolice” de alguns professores e alguns técnicos de saúde, que entretanto foram remando “contra a maré”… Que grandes alterações houve no comportamento dos diferentes governantes, para que essa educação sexual chegasse a todos???"
É o que eu digo, fala-se, fala-se, debate-se o que se vai fazer...e pouco ou nada se faz:(

Não sabia que essa Senhora deputada tinha feito semelhante afirmação.
Tudo isto é de bradar aos céus:(((