terça-feira, janeiro 30, 2007

Por "sugestão" do Paulo:).

Traquejo



A pequena tempestade provocada há duas semanas pela intervenção da Secretária de Estado da Educação entristeceu-me. Desde logo pela injustiça para com a APF: se a Associação, a que me orgulho de pertencer, prevaricou, deve ser chamada à pedra. Mas é pungente ver utilizar o facto para enlamear uma instituição que se bate há longos anos por objectivos que governos decretaram seus, mas continuam a vegetar em tinteiros ou planos anunciados com pompa e circunstância e escondidos nas gavetas. Adiante.
Afirmou Mariana Cascais, acerca dos professores, que a sua falta de ética sobre a educação sexual é generalizada. Para tirar a seguinte conclusão: “Entendemos que as escolas portuguesas, os professores e os conselhos directivos não têm preparação para o fazer. Cabe ao Ministério da Educação definir critérios orientadores com base naquilo que consideramos ser a ética e moral que devem presidir a estas situações”. Explicação da própria para o ocorrido: falta de traquejo na Assembleia da República.
No concreto, que significa a expressão? Parece lógico assumir que, se pudesse voltar atrás, não teria a Secretária de Estado produzido as mesmas afirmações. Por não traduzirem o seu pensamento, eventualmente nublado pelo nervosismo? (Sei do que falo, trinta anos de anfiteatros deram-me a conhecer o nó na garganta, as mãos húmidas, as pernas bambas, a vertigem ocasional, todo o arco-íris de sintomas que nos invadem perante o público que ouve. E o outro, bem mais cruel!, que cá dentro avalia o nosso desempenho). Talvez, mas não é a única hipótese a considerar, Mariana Cascais pode ter dito aquilo em que acredita piamente. Com maior traquejo tê-lo-ia calado ou envolto em “politiquês”, tão asséptico ou vago que não desencadearia o protesto de ninguém.
De qualquer forma, surge a dúvida: se falta preparação – e falta! – a muitos agentes educativos, quais são as intenções do Governo? Supri-la, acelerando programas de formação, ou refugiar-se nela para justificar um teórico monopólio das famílias em tal matéria? Famílias essas, de resto, sem qualquer competência adicional na área em causa, apenas consideradas mais capazes “porque sim”, o afecto parental é uma faca de dois gumes. A vetusta e patética oposição família-escola parece espreitar de novo. Para não falar da reivindicação de superioridade ética por parte do Ministério. Baseada em quê? No “consideramos” acima citado? Tal postura apenas traduz arrogância no exercício do poder.
O “traquejo político” visto como ciência da dissimulação tem virtudes explicativas, atitudes incompreensíveis passam a fazer sentido: o Dr. Barroso estava ciente de não poder cumprir as ditirâmbicas promessas feitas durante a campanha?; António Guterres sabia a fuga menos relacionada com “o pântano” do que com o seu futuro político?; Paulo Portas reconhece que não se conduz de acordo com os princípios que atirou à cara de tantos outros? E depois? São homens com traquejo! Este tipo de imagem da actuação dos políticos contribui para a existência de tanta gente desiludida com este Governo e sem saudades do anterior. É difícil imaginar situação mais melancólica...
Uma última palavra sobre ética. Das palavras da senhora Secretária de Estado retiro uma ideia que tem muitos adeptos: para discutir sexualidade com os nossos filhos é necessária uma “solidez ética” superior à utilizada no processo educativo geral, atendendo ao carácter específico e delicado do tema. Não estou de acordo. A vivência da sexualidade implica, ideal e basicamente, o respeito pelo outro e por nós próprios. Recuso-me a pensar que os professores responsáveis, juntamente com a família, pela caminhada de meus filhos rumo à cidadania se regiam por uma ética menos exigente do que essa. Quem o fizer é mau docente, e não apenas inadequado para falar “daquilo”.
Dediquei grande parte da minha vida à formação. Também dos professores, muitos dos quais a pagavam do seu bolso, enquanto o Ministério assobiava para o ar. Precisam de mais? Venha ela!, sempre a exigi. Mas não me calarei quando forem ofendidos gratuitamente, embora saiba – ó, ironia! – que não lhes falta traquejo na matéria...

11 comentários:

lobices disse...

...tem toda a razão, Professor

Paulo disse...

Ohh… que delícia… LOLOLOLOLOLOL
Não sei como me escapou este artigo, na altura…
Mas o que mais me impressiona é que não se aprende com os erros do passado, pois o actual “ministério da educação”, continua a ser tão mau ou pior que o anterior… E então neste tema continua a meter a “cabeça na areia (bem…cabeça, deve ser coisa que eles não têm… por isso…)…
Se bem que com o tipo de politicas que eles têm posto em prática, se calhar o melhor mesmo é que não façam nada e a gente espera mais um "bocadinho" para que venha alguém e o faça e melhor do que eles o fariam…

Paulo disse...

Ohh… que delícia… LOLOLOLOLOLOL
Não sei como me escapou este artigo, na altura…
Mas o que mais me impressiona é que não se aprende com os erros do passado, pois o actual “ministério da educação”, continua a ser tão mau ou pior que o anterior… E então neste tema continua a meter a “cabeça na areia (bem…cabeça, deve ser coisa que eles não têm… por isso…)…
Se bem que com o tipo de politicas que eles têm posto em prática, se calhar o melhor mesmo é que não façam nada e a gente espera mais um "bocadinho" para que venha alguém e o faça e melhor do que eles o fariam…

a disse...

A minha irmã teve uma professora de ciências no ciclo que na altura em que era suposto dar o aparelho reprodutor disse envergonhada enquanto passava as páginas do livro para o capítulo seguinte:"vocês dão isto em casa com os vossos pais!"!!!!!!!!!!!!!!!!!

Uma vergonha!

CêTê disse...

a,
Muahahahauhauhaha (gargalhada XXL)

CêTê disse...

O primeiro partido que no governo tenha a iniciativa de impôr um número máximo de alunos por turma abaixo de 20 e coloque técnicos de saúde nas escolas... tem a minha promessa de tatuar o simbolo do seu partido no antebraço direito.
(Porque não chega a formação! Muito embora importantíssima.)

maria estrela disse...

ex-secretária de estado...ex...
mas os que estão em funções...valha-me Deus.
Já passou o tempo em q os professores( faça-me a honra de pensar que apenas alguns)evitavam o assunto da educação sexual. Actualmente as escolas têm protocolos com os centros de saúde e em conjunto abordam-se as várias temáticas (este objectivo consta inclusivamente do Projecto Educativo da minha escola.
Já há casos relevantes de boas práticas. À escola compete muito mas não tudo. Há franjas que escapam à intervenção da escola e a chamada escola paralela tem muito que se lhe diga.
Como mãe, professora, cidadã (a ordem não é relevante)entendo que a escola deve formar, desenvolver o maior número de competências possível. Daí não recusar nunca o desafio de chegar aos mais jovens.

andorinha disse...

Boa noite.

Boa sugestão, a do Paulo:)
Não tive conhecimento das afirmações dessa senhora...mas isto passou-se quando?

A classe política cada vez me merece o maior descrédito.
E somos sempre o bode expiatório: não temos competência para nada, já irrita.
Só quem está no poleiro é que tem ética (deixa-me rir....):)))), nós só iríamos corromper as mentes dos meninos...
Estou saturadíssima destes discursos da treta....

Paulo,
"Mas o que mais me impressiona é que não se aprende com os erros do passado, pois o actual “ministério da educação”, continua a ser tão mau ou pior que o anterior… "

Aprender com os erros do passado? Isso dá muito trabalho:)
Quanto ao resto, concordo 100% contigo.

a,
Isto é um país do Terceiro Mundo...

Ameninadalua disse...

Boa noite

Professor

Estas suas palavras conseguem claramente dar muito bem a noção, dentro do enquadramento educacional e político, quais os diferentes protagonistas que podem ser responsaveis pela dita educação sexual assim como os critérios e valores envolvidos..

Parece-me e tambem concordo que determinados "preciosismos" acabam por impedir e servir de desculpas para emperrar e impossibilitar que duma vez por todas seja enfrentada a questão da educação sexual nas escolas...

A situação é diferente entre o não ser feito absolutamente nada, que se arrasta há anos e alguma coisa ser garantida, até porque a experiência permite sempre aperfeiçoamentos futuros...

Paulo disse...

a (5:47 PM)
Era preferível a professora da sua irmã usar uma técnica de alguns professores, que era ir atrasando o programa, para nunca lá chegar… E depois, “Ohh, não tivemos tempo para terminar…”… Pelo menos evitava que os alunos ficassem com uma ideia errada do tema…
Mas ainda há gente desta a dar aulas??? No 2º ciclo o tema a abordar não é apenas a morfologia dos aparelhos reprodutores? É que no 3º ciclo e secundário estes temas são mesmo abordados e um pouco mais além…

CêTê (6:04 PM)
Sabes muito… lolololololololol
Prometes isso porque já sabes que não vais ter que correr o risco de fazer tal, pois não existe ninguém competente o suficiente para propor tal coisa… :-)
Mas quem sabe… Já estou a enviar esta tua promessa aos diferentes partidos, só para poder “ver” esse teu antebraço tatuado… lololololololololol
Quanto à formação, embora não chegue, é pouca… E agora com o novo estatuto ainda vai ficar pior…

Andorinha (7:20 PM)
A gente agora até já nem devia impressionar-se tanto com o que outros governantes fizeram com a educação… Depois do que estes fizeram e estão a fazer, pior deve ser difícil… Mas sei lá… É melhor ficar calado…

andorinha disse...

Paulo,
Tens toda a razão. Nunca vi tão pouca gente fazer tantos disparates em tão pouco tempo.
Pior do que isto também penso ser impossível...