sexta-feira, janeiro 12, 2007

Segundo movimento...

Pensava eu... Levantei-me bem disposto, quase enérgico. Verificar os últimos pormenores. Pus as lentes entre mim e o sol prometedor lá de fora, afinal ia guiar umas centenas de quilómetros. Sujas, como de costume. Limpei-as vigorosamente. Tão vigorosamente que uma delas se lançou em voo picado rumo à catástrofe! Do mal o menos, aterrou na cama, talvez ainda sonolenta. Que fazer? Pergunta idiota por académica, teria de passar pelo oculista. Rangi os dentes. E se – para não falar do atraso... - as boas senhoras não me resolvessem o problema? Seria obrigado a levar as minhas velhas cangalhas, em pleno gozo de reforma bem merecida.
Mergulhei no quarto de banho, imerso num desânimo irritadiço. Talvez com o fito de o descarregar, servi-me da máquina de barbear como de punhal apontado à garganta de um inimigo. As consequências foram imediatas e ardentes – o meu queixo entrou em pé de guerra. Fiquei estarrecido. Conheço de ginjeira essas infecções preguiçosas que acabo por vergar com antibióticos auto-prescritos, à revelia de opinião médica responsável. Quase investi para o saco em busca da embalagem. Mas..., e se me atacasse a vesícula? Apavorou-me a hipótese de avançar para as minhas queridas e sexy tapas espanholas já inferiorizado! Fazendo figas, telefonei à colega dermatologista que no ano passado me salvou de uma alergia desesperante. Foi por um triz, também estava a caminho de férias. Ouviu-me com paciência evangélica. E divertido escândalo - “antibiótico?!?!” -, acusou-me de matar moscas com balas de canhão que poderiam ser necessárias um dia mais tarde. Cada vez mais tarde me via eu a partir!, o remédio que gentilmente sugeriu acrescentava a farmácia ao oculista...
Acelerei para a garagem, tentando calcular a dimensão do futuro atraso. Não me ocorreram maus presságios sobre a mecânica, guio carro filho da orgulhosa eficiência germânica. Uma luz vermelha resistiu ao apagar de todas as outras no painel dos instrumentos. Pareceu-me tarde para manifestação de solidariedade com a última – salvo seja! - vitória do Benfica e cedo para triunfalismo referente à próxima jornada. A minha lendária ignorância empurrou-me para o livro de instruções. Folheei-o apreensivo, seria grave? Não, apenas uma lâmpada fundida. Apenas... Já imaginava a polícia espanhola – importa-se usted de pôr o pé no travão para nosotros vermos se as luces de los mismos funcionam? Depois a multa, eu sem euros que chegassem, todos a caminho do multibanco mais próximo, o tempo perdido, o bolso emagrecido...; além do oculista e da farmácia passaria pela BMW.
As técnicas estranharam o meu modo brusco, pedi-lhes desculpa e dei um pulo à farmácia mais próxima. A senhora que esperava pelos seus anti-reumáticos perguntou-me se tencionava regressar ao pequeno ecrã, mas respondeu por mim – “eles só querem lá mulheres nuas!”. O que definitivamente me exclui. Voltei ao oculista. Questão de parafusos (já me têm acusado de ter alguns a menos!). Se voltasse a acontecer, em qualquer lugar do mundo me resolveriam o problema. Sorriso amarelo, esperava bem que não. Voei para a oficina. Uma estranha calma e o guarda tristonho, “estamos fechados para férias”. Alternativa? Dar um pulo a Valadares, nos arrabaldes de Gaia. Rangi os dentes e decidi recorrer a mão de obra perto de casa. A garagem a abarrotar de carros alheios e eu rastejante, “vou para Espanha, se me desse uma ajudinha...”. O mecânico, sobrolho franzido - “travões? Isso leva tempo!” Expliquei laboriosamente que o malfadado livrinho falava das luzes dos travões e não deles mesmos. O rosto permaneceu fechado. Exibi a teimosia vermelha no painel. Desprezo espantado – “por que falou de travões? São os stops, homem!” Stop, Júlio, olha a tensão arterial! Engoli a resposta furibunda e fui recompensado - em cinco minutos o problema estava resolvido. Despedi-me da tribo em derrapagem mais ou menos descontrolada, e avancei para a estrada com um terrível pressentimento. Nem o espectáculo maravilhoso do fim da tarde alentejano o abanou – as férias estavam amaldiçoadas.

26 comentários:

andorinha disse...

É mesmo supersticioso!:)
Achei o relato hilariante, tem passagens deliciosas.
Com tantos percalços faz jus ao ditado "Uma desgraça nunca vem só".
Acontece-lhe "uma" e já está à espera da seguinte...é lógico que tem que acontecer....
Pensamento positivo, hombre:)

alquimista disse...

Professor:

Já reparou que, se nada disso lhe tivesse acontecido não nos teria podido brindar com este naco de prosa Kafkiana?

Já agora, pode-se saber ondubai?

Boas férias

thorazine disse...

LOL

Professor,
foi o texto mais cómico que li seu! :))

"O que definitivamente me exclui".
LOLOL

moon disse...

:)))))))

Sabe uma coisa, Professor?
É um castiço!:))

thorazine disse...
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thorazine disse...
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thorazine disse...
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Marx disse...

Deliciosa escrita, a parecer-se com o argumento de um filme neo-realista italiano. Boas férias!

AQUILES disse...

Quando nos deixamos dominar pela obsessão do tempo ….

Ameninadalua disse...

Aquiles

Quando nos deixamos dominar pela obsessão do tempo... mas tambem pelo azar:)...decididamente concordo com o professor as férias estavam amaldiçoadas:))).

Há dias que duma forma obsessiva as coisas nos correm continuada e encadeadamente mal...penso que podem traduzir stress, pressão do tempo mas que nos soam tambem a demasiadas coincidências onde até parece que as vontades dos deuses se conjugaram para nos "tramar"...

Nessas alturas convem pensar que "não há bem que predure nem mal que sempre dure"; assim basta deixar que o tempo passe:))

lobices disse...

...e deu um pulo a Valadares!... à minha terrinha?... e...que veio cá fazer?... ver o óleo dos travões?... LOL...
...um abraço

andorinha disse...

Bom dia.

Aquiles,
Não acho que seja obsessão do tempo, mas sim obsessão por algo que tem forçosamente que correr mal:)
"Assim, quando o mundo parece disposto a conceder-me o gozo, adivinho-o ameaçador pronto a fazer-me pagar pelo prazer que não mereço. Exemplo desse receio de pescador clandestino?
A partida para férias."

JMV dixit

Portanto, estes azares são todos previamente preparados pelo subconsciente do Júlio.
Quem antecipa "desgraças", tem-nas:)
Isto é uma tentativa de explicação muito simplista, eu sei.
Só um psi poderá dar uma explicação cabal:))))))))

Fiquem bem e aproveitem o fds:)

CêTê disse...

Povoado de mulheres serviçais nas mais variadas áreas!? ;)
OLhe que até fiquei com dúvidas sobre quem terá feito o correcto diagnóstico da avaria do carro... LoL

Quanto a aparecer mais despido no TV é uma questão de testar as audiências nas produçóes independentes. (toma os antibióticos antes da gripança) Não acham pessoal?

Era bem feita (lol) que tivesse de levar os óculos de massa. (mai Nada)

bjtus

Isto é uma velharia, ou anda mesmo assim?;]

AQUILES disse...

Andorinha

Eu, pessimista militante, e azarento convicto, sei que a pressão do tempo influi directamente, e na proporcionalidade qb, nos pequenos acidentes e azias sequentes. Porque não se para para descansar, para dar tempo a que o pequeno turbilhão do caos de reordene, e as coisas possam, então continuar com serenidade e livre de maleitas. Quando há pressão de tempo urgente de manhã, há também, nos homens, mazelas não só nos queixos, mas também nas faces, sobretudo na zona das patilhas e no lábio superior, para quem não tem bigode. As pressas nunca foram boas conselheiras, nem adiantam caminho.

PAH, nã sei! disse...

chefinho... essa paciência por onde anda???

beijocas para todos

NARNIA disse...

Que post GIRISSIMO (alegrou a minha tarde) :)))

Marés disse...

Prof.

Não julque que é o único a sofrer perseguições do destino... tb eu ainda agora ao montar uma porta num guarda fato me caiu um parafuso e foi cá um sumiço! Agora ficou a porta em risco de desabar, mal presa...

Qdo for caso destas velharias, podia por o nome do respectivo book a q pertencem...
eu creio q esta é do Domingos, Sábados e outrs Dias, será?

Bom f d s
:))

Marés disse...

Narnia

Por acaso tb alegrou a minha... já estava farta de limpezas e arrumações! E depois qd se acabam estes tabalhos caseiros já estamos é cansados para ir para a rua... este texto descontraiu-me...

:)

alquimista disse...
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alquimista disse...

Para evitar confusões alquimicas ou eventuais crises de identidade, passo a transportar comigo o cartão de visita que ao lado se exibe.
Desde já previno que, para salvaguardar futuras decepções, me encontro bastante favorecido :)

Aspásia disse...

ALQUIMISTA

ACHO ÓPTIMO QUE ISTO A GENTE NUNCA SABIA SE ESTAVA DO LADO DA SOPA DE PEDRA FILOSOFAL OU DO SUBLIMADO DE ASA DE MORCEGO!

MAS ESSE SEU ÍCONE MAIS PARECE UM PAI NATAL AO SERVIÇO DE SATAN !!! ENFIM... UM "SANTA DO MAL"...

;))

Aspásia disse...

Ó ALQUIMISTA...

NÃO ME DIGA!! SE ASSIM ESTÁ FAVORECIDO... MAS OLHE, A BELEZA INTERIOR É QUE CONTA!

:))

alquimista disse...
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alquimista disse...

UPSS!!!

Pior ainda...

andorinha disse...

Aquiles,
Eu sei que a pressa nunca foi boa conselheira. O meu comentário foi mais uma provocaçãozita ao nosso psi:)))

CêTê disse...

"Domingos, Sábados e outrs Dias, será?"-raios! onde pára o livro?- ;[[[[