quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Dois em um:).

Quatro horas de animado debate
Por Pedro Guerreiro
Helena Roseta, Zita Seabra, Joana Amaral Dias e o psiquiatra Pedro Afonso protagonizaram esta quarta-feira um aceso debate no Instituto Superior de Psicologia Aplicada, em Lisboa


«Como o Futebol Clube do Porto a jogar na Luz». Foi assim que a social-democrata Zita Seabra se sentiu quando soube que ia defender o 'não' no Sócrates Café.
A autora da actual lei de interrupção voluntária da gravidez, de 1984 - quando era ainda militante comunista -, afirmou naquele bar do ISPA que «se há coisa que evoluiu desde então foram os métodos contraceptivos» e que considera «absurdo estar ainda a discutir o aborto neste momento».
Do lado do 'sim', contudo, a socialista Helena Roseta declarou-se «impressionada» com o facto de Zita Seabra «estar agora do mesmo lado dos que a atacavam em 1984». Para a deputada do PS, os métodos contraceptivos «não foram tornados facilmente disponíveis», e o actual incumprimento da lei «põe em causa o Estado de Direito».
Roseta citou Simone de Beauvoir para afirmar que «se há lei e ela não é cumprida, ou se muda a lei ou o Estado de Direito é uma anedota». A deputada de 59 anos declarou que «não gostava de morrer sem ver este problema [da despenalização do aborto] resolvido».
Já o psiquiatra Pedro Afonso citou Martin Luther King para defender a necessidade de «uma lei que garanta o direito à vida». «A Lei não pode obrigar um branco a amar-me, mas pode evitar que ele me linche», lembrou.
De seguida, Pedro Afonso citou uma série de dados provenientes de estados norte-americanos em que a interrupção voluntária da gravidez foi despenalizada. «64 por cento das mulheres são coagidas a abortar. 67 por cento não teve qualquer apoio antes de decidir abortar. 54 por cento não está segura da sua decisão», afirmou o psiquiatra citando um estudo sobre a relação entre o aborto e o desenvolvimento de doenças psiquiátricas na mulher.
O psiquiatra do Hospital Júlio de Matos disse que, apesar de «não haver uma relação causa-efeito (...), há risco acrescido de depressão, disfunção sexual e suicídio» na mulher que aborta.
No âmbito da saúde reprodutiva e infantil, Pedro Afonso lembrou que o estado não comparticipa a nova vacina contra o papilomavírus – que causa o cancro do colo do útero – nem a alimentação láctea para crianças alérgicas. O psiquiatra recordou ainda que «não existe nenhum espaço que possa acolher e proteger em menos de 24 horas uma mulher coagida a abortar».
Novamente do lado do 'sim', a psicóloga Joana Amaral Dias declarou que «nenhum dos estudos citados [por Pedro Afonso] tinha validade científica».
A deputada do Bloco de Esquerda, que afirma que «quem não tem argumentos fala em números», disse ser «de uma enorme sobranceria e arrogância dizer que se sabe quando começa a vida», em resposta a Pedro Afonso, que afirmara que «a vida começa no momento de concepção».
Joana Amaral Dias disse haver, no entanto, «um relativo consenso científico sobre a diferença entre um feto pré-consciente [até às 12-20 semanas, sem sistema nervoso central] e um feto consciente [com sistema nervoso central]».
A bloquista considera apropriado o prazo de 10 semanas pois este «corresponde ao tempo que uma mulher precisa para saber que está grávida e depois tomar uma decisão rápida».
Tanto Joana Amaral Dias como Helena Roseta afirmaram que «o prazo de 10 semanas é uma questão prática» assim como «o limite de velocidade na auto-estrada é de 120 e não de 121 km/hora».
A deputada do Bloco afirmou que «os defensores do 'não' caem numa contradição insanável», uma vez que «o direito à vida em absoluto» já é posto em causa com a lei de 1984. «Um filho de um violador é menos vida? Um feto com trissomia 21 é menos vida?», questionou a psicóloga.
«Eu sou contra o aborto, a favor dos métodos contraceptivos, mas os humanos não são máquinas, são falíveis, tal como os contraceptivos», declarou Joana Amaral Dias, que diz que «quem anda à chuva molha-se».
«Quem anda à chuva molha-se? Usem o guarda-chuva!», respondeu Zita Seabra, para quem «o aborto não é um direito cívico». «Temos a responsabilidade e a obrigação de o evitar», afirmou.
A social-democrata referiu que a perseguição e julgamento das mulheres que abortam é «um problema de polícia que corresponde a uma situação de justiça miserável», posição que foi satirizada por Helena Roseta e Joana Amaral Dias, que recordaram o sketch dos Gato Fedorento (ver vídeo), em que os humoristas ridicularizam o tempo de antena de Marcelo Rebelo de Sousa no Youtube (ver vídeo). Zita Seabra respondeu ao afirmar que «o aborto é uma bandeira política de uma esquerda que já não tem nada a dizer».
A deputada do PSD disse ainda que «concordou com o PCP» quanto à não convocação do referendo, mas que considera que o respeito e a ausência de insultos «estão a marcar a campanha».
Algo que a católica Helena Roseta desmente, ao lembrar momentos em que foi «apontada dentro da Igreja» por defender a despenalização e em que foi «chamada de assassina».
A deputada socialista afirma que «o aborto já está legalizado, mas da pior maneira possível», e que «a lei deve dizer que o aborto é feito a pedido da mulher, pois é ela que se confronta com a decisão de ser mãe».
Após um animado período de perguntas por parte de uma plateia jovem em que o 'sim' levava alguma vantagem sobre o 'não', Joana Amaral Dias disse numa última intervenção que «a montante estão todos de acordo. O que nos divide está a jusante, quando todos os métodos falham. É isso que vai a referendo. Damos a mão e o melhor que o Estado pode oferecer ou deixamos apodrecer a um canto?».
pedro.guerreiro@sol.pt

15 comentários:

a disse...

com este espectáculo todo, espero que a abstenção seja inferior a 50%.

andorinha disse...

Os seus colegas psis são lixados:)
Continuam a bater na tecla do suicídio, das depressões, da marginalidade...

"...se há lei e ela não é cumprida, ou se muda a lei ou o Estado de Direito é uma anedota."

Está tudo dito:)

Salto Angel disse...
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Salto Angel disse...

“«Um filho de um violador é menos vida? Um feto com trissomia 21 é menos vida?», questionou a psicóloga.”

- Correcção: uma licenciada em psicologia (com «P» minúsculo)! Se fosse Psicóloga saberia utilizar os neurónios que tem! Ou será que a senhora em causa nunca possuiu um só neurónio? Parece-me ser esta a verdadeira razão para ter pronunciado tamanha baboseira! Cambadas de totós!! Eles vão-se juntar todos, para abrir clínicas abortivas!! Vão aproveitar-se das «desgraçadas» para encherem os seus próprios bolsos!! E andam aí, a apregoar argumentos falaciosos! Mereciam ir todos para a cadeia, pois COMETE CRIME, PUNIDO POR LEI, QUEM SE APROVEITA DA IGNORÂNCIA DOS OUTROS PARA OS PREJUDICAR!

Nos países em que se pode abortar a torto e a direito, também há crianças abandonadas, maltratadas, violadas, colocadas a «render» nas ruas, etc., etc., etc. O aborto livre não resolve nada destes problemas!! Não seria mais produtivo canalizar esses milhões de Euros para tratar, DE RAÍZ, este flagelo? Ou será que é melhor esse dinheiro todo ir para meia dúzia de pessoas sem escrúpulos, que não são médicos, mas sim licenciados em medicina??!!

Até às 10 semanas a mulher carrega uma COISA. Às 10 semanas e 1 dia ela já tem um ser vivo dentro dela. Querem fazer crer que os portugueses são acéfalos, que não se dão conta das vossas ideias sem nexo?

A VIDA começa desde a fecundação! Duas células dão origem àquilo que somos! Qual é a diferença entre o desenvolvimento (durante nove meses) no seio materno e fora dele (durante cem anos, ou o tempo que for!)? Alguém me explica, como se eu fosse muito burro?

Ah!, antes que alguém volte a afirmar pela enésima vez, anuncio que NÃO HÁ MULHER ALGUMA NA CADEIA, NEM UMA, PARA AMOSTRA, POR TER ABORTADO! :-)

Saudações.

mp disse...

realmente o prof marcelo...
gostei das posições da arq.helena roseta, parece ser uma mulher muito integra.
acho que é muito preciso ver-se quando a lei for aprovada se a mulher está a abortar por decisão própria ou se está a ser coagida a fazê-lo por terceiros,isso é importante cabe á mulher decidir do seu corpo e da sua vida , tudo bem que é bom termos alguem que nos apoie e dê força nas nossaa decisões mas isso não deve significar coação

Migmaia disse...

Boa noite,

Então e o Pai? Se uma mulher ficou grávida, algum Homem contribuiu. E querem dar à mulher o Direito exclusivo de decidir se quer ser Mãe. Que ouçam os “expertise”, inteiramente de acordo, mas não se prescinda do Pai. Pelo menos, no plano do Direito, Ele ainda tem alguma preponderância (como se viu no triste caso da moda, Esmeralda penso ser o seu nome). E isto, fazendo um pouco de ficção. Pois a única “coisa” que está em causa neste referendo politicamente hipócrita, é IVG. Ainda não ouvi nada de concreto, em relação ao que se possa seguir se o sim vencer, só intenções…e porque das boas está o mundo cheio, continuo pelo NIM. Com todo o respeito.

Ps: A analogia dos 120 km/h e das 10 semanas, parece digna do Prof. Carreira das Neves. Tanto estudo para descobrir que a soma de diferentes frutas tem como resultado a respectiva salada, que nada tem a ver com aritmética…

a disse...

"A VIDA começa desde a fecundação! Duas células dão origem àquilo que somos! Qual é a diferença entre o desenvolvimento (durante nove meses) no seio materno e fora dele (durante cem anos, ou o tempo que for!)? Alguém me explica, como se eu fosse muito burro?"

Caro salto angel:
Nesse caso, a pílula do dia seguinte tb está a matar uma vida!

O que ainda ninguém percebeu é que esta lei é principalmente para as mulheres pobres. Porque abortos sempre se fizeram e continuarão a fazer, as mulheres ricas vão a espanha fazê-los... as pobres enfiam objectos dentro delas ou comprimidos e morrem!

A lei precisa de ser mudada, estas mulheres têm de ter condições para fazerem os abortos, serem acompanhadas, aconselhadas e terem acesso a consultas de planeamento e a contraceptivos. Para n voltarem a fazer.

alice disse...

Há muito que visito este espaço.

Há muito que o meu voto nesta matéria é pela despenalização do aborto até às 10 semanas ou mesmo até às 12, já que os limites temporais, de acordo com o que se conhece sobre a vida intra-uterina, não são fáceis de definir, como muito bem explicou ontem o Professor Quintanilha, reconhecendo, com uma imensa honestidade intelectual as muitas dúvidas que a ciência ainda não esclarece, antes coloca.
(No entanto pergunto-me se daqui a pouco não virão alguns senhores defender os direitos dos espermatozóides e dos óvulos ou se virão mesmo a proibir o corte de árvores nas matas – não são elas também seres vivos?)

Estou completamente à vontade para assumir que voto sim e, tal como Helena Roseta, não aceito que me chamem de assassina. Como também não aceitaria que chamassem o meu pai de assassino, ele que me confessou ter feito abortos a prostitutas de Cabo Verde, num Centro de Saúde que mantinha (e não venham os fundamentalistas procurá-lo para o acusar. Já morreu, o meu pai). É que o tom inquisitório com que alguns senhores conduzem a campanha pelo não, não deixa margem para dúvidas: eles acham que é preciso proibir e como tal julgar, penalizar. Não seria mais cristão (já que muitos agem em nome de Deus todo poderoso) deixar a esse mesmo Deus a onerosa tarefa do julgamento e da punição?

Não tem razão Zita Seabra quando afirma ser esta uma bandeira da esquerda – atente-se nas opiniões, baseadas em argumentos jurídicos, de Laborinho Lúcio e de José Miguel Júdice e de tantas personalidades que recusam ser rotuladas como de esquerda.

Chega de hipocrisia. As senhoras de bem com posses para o fazer podem continuar a ir a Espanha resolver o seu “problema”, se não quiserem “sujeitar-se” ao serviço nacional de saúde para o fazer. Ninguém as impedirá. Mas, se não se importam, se não é pedir muito, deixem as mulheres sem recursos, para quem já é castigo bastante a vida que levam (ainda que Zita Seabra de repente tenha deixado de ver esta parte da realidade do país – talvez fruto de ter substituído o convívio com essas mulheres pelo convívio com a realidade dos cabeleireiros citadinos) decidir sobre a sua vida e a dos seus, apoiem-nas nessa sua decisão já de si tão penosa e parem de, caridosamente, deixá-las morrer fazendo de conta que não sabem sequer, que elas existem. Será pedir demais?

alice disse...

E já que estou com a mão na massa e há pouco me esqueci, acho o teor de um certo livro adoptado na escola da minha filha, para a disciplina de formação cívica, 7º ano, sobre a questão do aborto, verdadeiramente vergonhoso e tendencioso, já para não falar da campanha “eleitoral” que em certas escolas alguns meninos andam a fazer, pelo não. Nunca permitiria que um filho meu com 12 anos andasse de autocolante ao peito “pela vida” ou fosse lá pelo que fosse. Pais que o permitem deviam ter vergonha!

CD disse...

Compreende-se a Zita Seabra quando diz que é:"absurdo estar ainda a discutir o aborto neste momento».

Direi mais, para ela será absurdo e penoso discutir o sexo neste momento.

Aqui para nós, ela nunca teve hipótese do o discutir na clandestinidade- mas isso seria outra história muito mais complicada.

CD disse...

«Quem anda à chuva molha-se? Usem o guarda-chuva!»
Mais uma vez Zita Seabra explica como resolve os seus esporádicos momentos libidinosos- ou dá com ele na cabeça ou noutro sítio

CD disse...

Tanto Joana Amaral Dias como Helena Roseta afirmaram que «o prazo de 10 semanas é uma questão prática» assim como «o limite de velocidade na auto-estrada é de 120 e não de 121 km/hora».

Aqui para nós, acho que vou ter de lhes mostrar como é que se anda na auto-estrada à maneira

andorinha disse...

Alice,
Assino por baixo os teus dois comentários.
Estou em sintonia total contigo.
Em relação a esse manual de que falas, só pergunto como se pode adoptar uma verdadeira e sã política de educação sexual nas escolas, se as coisas se processam assim.
Para haver informação tendenciosa é preferível que não haja nenhuma.
A culpa é de quem adopta os manuais muitas vezes sem sequer os analisar.:(

alice disse...

Olá andorinha!
eu própria só deitei o olho ao manual há dias! mea culpa e foi a miúda que me disse que falava sobre o aborto...
sobre madeiras, arvores e outras coisas, em manuais do meu filho, lembro-me de descobrir imensos erros, mas aqui é pior, no meu entender.
cd:
obrigado pelas boas gargalhadas que me fizeste dar sobre a dona Zita - a senhora realmente tira-me do sério (é que a conheci noutros tempos). mas cada um tem direito aos seus odiozinhos de estimação, caramba e eu também tenho os meus!

Su disse...

um pa´si miseravel...........com gente quadrada..............tantos






jocas maradas com de.pressão