sexta-feira, abril 01, 2005

O velho senhor de branco

O velho senhor de branco recusou voltar ao hospital e morre em casa, olhos e inteligência bem abertos. Esqueço por momentos o Papa, cujas decisões aplaudi sem preconceitos e condenei sem caridade, seguindo os falíveis ditames da minha consciência. Fica o homem. E esse mostrou coragem exemplar face ao aguilhão do tempo e das doenças. Aceito que a fé em Deus e na sua querida Mãe do Céu o tenha ajudado, se não a ele, a quem? Mas acredito que a crença em causas estritamente humanas - como a justiça e a solidariedade, por exemplo - também podem tornar-nos capazes de vencer fraquezas, na busca de uma transcendência que dê sentido às vidas que esculpimos. Recuso-me a acreditar que apenas possamos "ir para além de nós" com a ajuda do divino. E penso que muitos crentes concordarão, por acreditarem que a liberdade com que foram presenteados tanto pode conduzi-los à ignomínia mais abjecta como à devoção mais admirável.

Nota - Também eu considero que a Assembleia da República poderia ter legislado sobre a despenalização do aborto (sem prejuízo do direito de cidadãos solicitarem depois uma consulta popular sobre a matéria...). Mas o referendo fez-se. Não me interessa se as sondagens favoráveis, as praias de areias convidativas e as promessas de educação sexual por parte de alguns (que a não desejam) afastaram votantes - o resultado foi um não. Escasso, mas legítimo. E por isso é imperiosa a realização de outro referendo, para confirmar ou infirmar esse resultado. Tudo o resto soaria a inaceitável "batota na secretaria". Farei de novo campanha, votarei de novo. E se perder a consciência não me apontará o dedo. Poderá dizer o mesmo quem se afirma contra os julgamentos, mas fica em casa por preguiça ou para não sujar as mãos no processo decisório?

19 comentários:

lobices disse...

...já "falei" sobre o aborto mas ainda não "teci" considerações sobre o homem do manto branco...
...não sei, sinceramente, o que dizer do homem que "dirigiu" a Igreja Católica nestas últimas décadas...
...não sei que posição tomar perante alguém que admiro, não por eu ter sido nado e criado sob o manto da igreja católica apostólica romana, mas porque para além de "me" ter dado um exemplo de dedicação à mensagem de Jesus ter sido um homem de força, de pujança, de rectidão humana...
...não sei quem vai seguir os seus passos mas o único caminho é o do Ecumenismo, o único que pode admitir todos os Deuses numa única caminhada para a Espiritualidade (tal como dizia o Prof. Agostinho da Silva) na esperança de que de uma vez por todas o Homem se pacifique...

chOURIÇO disse...

Aguardemos serenamente. Tanto a resposta uma como a outra questão.

Tão só, um pai disse...

Homem notável. A Fé, move montanhas. A dele, varreu o mundo. A minha Fé, ao pé da dele, não vale o ar que respiro. E a Igreja, tem, ainda, um longo caminho pela frente, no retornar às suas origens, o Homem.

monalisa disse...

O velho senhor de branco vai acabar como viveu a vida..quando eu era miúda havia uma peça de teatro que acabava com a frase apropriada - "de pé como as árvores".
Estando eu em desacordo com muitas das posições que tomou em nome da igreja,não posso deixar de admirar quem quiz e teve a força de levar a sua missão até ao fim,quem não se escondeu,num mundo em que só o belo e o saudável têm lugar de destaque,num mundo em que todos olhamos para o lado quando vemos o que nos desconforta.Não creio que esta posição seja contrária (antecipando já quem esteja pronto para me acusar do que quer que seja)à minha defesa da eutanásia - a diferença essencial está na consciência,na vontade da pessoa.
Quanto ao aborto..pois é Professor,já na altura do outro referendo,toda a gente defendia a despenalização mas quando chegou o momento da verdade,a praia ou a comodidade falaram mais alto,veremos como será desta vez; mas é urgente que o problema se resolva porque esta situação é por demais hipócrita...parece que muitos se esquecem que por haver uma despenalização,não quer dizer que todas as mulheres grávidas corram ávidamente para o fazer.Lá está - a vontade e a consciência de cada um,devem aqui também imperar e eu sei do que falo porque a vida já mo pôs na frente e com grandes custos pessoais não foi esse o caminho que segui...mas não nego a nenhuma mulher a liberdade de decidir por si própria.

noiseformind disse...

Era para te mandar isto por mail Éme, mas sendo este um daqueles pensamentos de utilidade pública (vulgo PUP) resolvi posta-lo aqui na tua caixa de comentários.
Todas as semanas (não vou ser mauzinho ao ponto de dizer que será todos os dias) me aparecem pacientes com vaginismo de graus mais ou menos graves. Feito o diagnóstico (através de douto colega da especialidade de ginecologia), tenho sempre este escolho na segunda sessão: a opinião de douto colega ginecologista a dizer que não, que apesar de a paciente dele sentir dor no exame pélvico, ao ponto de muitas vezes a recolha para o exame PapaNicolau ser feita deficientemente, a minha paciente não tem vaginismo. Ou seja, a paciente fica aqui entre dois saberes, dois campos que de repente se antagonizam por uma diferencialidade nos padrões do diagnóstico: para um ainda não é suficientemente grave e ter-se-á que procurar outras explicações, para outro já é bastante grave e ter-se-á que aplicar terapia.

Normalmente triunfo eu, com o argumento racional e lógico que se um exame pélvico de um dedo é complicado de fazer, imagine-se um membro que em muito ultrapassa o diâmetro do dígito. Mas fica-me cá o remoque. O ginecologista não é apenas um verificador de estado de saúde de um útero e órgãos adjacentes. E o vaginismo não começa logo por um grau 5 de certeza. Ou seja, o paternalismo médico, mesmo sem sintomatologia endócrina, também pode ser uma forma do agravar efectivo da qualidade de vida do paciente. É que depois de ultrapassado o vaginismo sou informado de que a paciente mudou de profissional… para encontrar a mesma atitude noutro. Por um lado sinto-me culpado por estar a recomendar este ou aquele colega como “sex friendly”, mas por outro o mercado é para isso mesmo, para estabelecer quem tem o melhor desempenho.
Ou seja, do alto do seu pedestal são os próprios profissionais que acabam por se prejudicar na sua interpretação extremamente restrita do seu próprio saber.

Talvez incluindo umas horas de Comunicação Interpessoal pura e dura nas especializações de gin-ob se caducasse este problema, mas na minha curta carreira parece-me que é um daqueles problemas do tipo “pudor mútuo”: tanto o ginecologista como o paciente são vítimas do seu próprio contexto sexual.

Calvin disse...

Finalmente, o Papa terá a paz que lhe foi negada nos últimos dias de vida, dos quais o Vaticano fez um pornográfico e despudorado reality show exibindo o sofrimento do Sumo Pontífice para que as devidas parábolas divinas se possam traçar. Lamento que não o tenham deixado morrer como um Homem, pois merecia-o.

noiseformind disse...
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Anónimo disse...

"O Livro é, em si mesmo, um produto como os outros. Ou terremos que tratar qualquer 'casca de árvore processada' como se fosse relíquia sagrada" . Ratinho Blanco in "Escrever em Papel Higiénico sobre o Meu Filho que Felizmente não nasceu"

www.riapa.pt.to

noiseformind disse...

Sendo católico praticante não calei nunca a minha indignação em relação áquilo que me pareceu a anacronia da Igreja sob a égide deste papa. Igrejas cada vez mais vazias, cada vez menos padres, o que foi dando cada vez mais poder aos padres que iam ficando ( e mais canseiras, obrigando a certos padres terem 5 paróquias sob o seu cuidado), e portanto fez com que a hierarquia fosse mais e mais condescendente com filhos bastardos, enriquecimento, desvio de missionários no estrangeiro para tarefas paroquiais. Mas o ponto em que me pareceu que este padre mandou para o Lixo o vaticano II foi quando começou a orientar a Igreja de novo no sentido da defesa intransigente dos GRANDE VALORES esquecendo aquilo que nos faz verdadeiramente únicos: a capacidade de "comunicar com outras idealogias numa base de melhoria da existência comum", que era premissa basilar do Vaticano II.

Ou seja, por causa dos grandes valores pode-se pactuar com um ditador sendo ele católico e não se pode pactuar com uma democracia permitindo ela o aborto, criando interpretações absolutamente dúplices que esmagaram o exemplo puro de Jesus: fazer o bem sem olhar a quem e sem ingerências na política. Cristo não se interessou uma vez que fosse pelas leis de Roma nem as infrigiu UMA SÓ VEZ. Porém, a Igreja, política desde que o Papa Teodósio negociou a não destruição da cidade na primeira invasão bárbara, foi-se apropriando de uma certa ideia de agenda politico-moral que qualquer bom católico deve ter apenas apoiada em valores seculares, precisamente os valores dos fariseus que em tantas parábolas Jesus arrasou. O drama do aborto só me provoca atenção pelas mulheres sobreviventes a essa escolha difícil, nem sequer faço juízos sobre a moralidade dela, nem sobre a eutanásia, nem sobre o prazer que as pessoas sentem ou não no sexo. Estou ali para ajudar e essa acção activa é que me interessa, não as leis do Estado, sendo ele de Direito. Mas não é isso que se vê. Na campanha para o referendo andaram para aí a bater no peito e a prometer tudo o mais alguma coisa e nada fizeram. A lei para mim foi indiferente quando decidi ajudar pessoas a abortarem em Espanha para não passarem pelo drama de um aborto clandestino e cheio de estigma social. E os que são contra o aborto que ajudem as mães que não abortam na sua escolha. Para mim o dilema católico resume-se a isso e a mais nada. quanto a leis os políticos que as façam.

noiseformind disse...
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PortoCroft disse...

Não sendo crente, a imagem que este Papa me deixa é a de ter sido o maior Diplomata de que me recordo a Igreja haver tido. E em tempos extremamente difíceis.

Por tudo o que fez e significou para milhões no Mundo, assentar-lhe-ia como uma luva o cognome: Papa Perene.

E daí, talvez não. Com tantos PP's à solta, a sua imagem saíria deslustrada.

Ruvasa disse...

Viva!

“Recuso-me a acreditar que apenas possamos "ir para além de nós" com a ajuda do divino.”

Concordo consigo, se me permite. Até porque sou apologista de que o Homem é, a montante da circunstância que o envolve, produto de si próprio.

Se me permite também, contudo, sempre direi que me parece que, não obstante essa constatação, o divino é indispensável para que resulte coerente a passagem do ser humano por este estádio terreno, que também não pode ser único, sob pena da completa desarmonia universal.

Reconheço que poderá soar estranhamente esta tese. No entanto, não consigo ultrapassar os limites que a balizam.

Cumprimentos

Ruvasa disse...

"E penso que muitos crentes concordarão, por acreditarem que a liberdade com que foram presenteados tanto pode conduzi-los à ignomínia mais abjecta como à devoção mais admirável."

Porque no comentário anterior me esqueci de me referir a esta parte do seu post, aqui volto.

Simplesmente para sugerir/perguntar:
Embora aceite sem grande oposição, não será a questão do livre arbítrio humano mais controversa do que a uma primeira vista parece? Então e a circunstância envolvente?

renovo cumprimentos

Anónimo disse...

Estórias de Encantar sobre Paço de Arcos

História nº 7

O Dogma da Transmutação

Um documento da Terrugem levanta um debate teológico sobre uma questão fracturante: a presença do Comandante Guélas no pão e no vinho consagrados. Um monge Paço Arquiano da Ordem de São Bajoulo, que gostava de se encharcar de caracóis do "Papagaio", começou um dia a vacilar na fé que lhe assegurava que o cheiro das cuecas do Bajoulo estava sempre presente em Paço de Arcos de Cima. A sua convicção era assaltada diariamente quando elevava a garrafa de cerveja acima dos olhos, para ver se o Velhinho não lhe tinha mijado lá para dentro, como na festa do Clube Velho, e interrogava-se da autenticidade da sua doutrina. Mas numa manhã, ao proferir as palavras da consagração - "Esta é a minha cerveja, aquilo é o cheiro das cuecas do Bajoulo" - ele viu a imagem do Comandante Guélas a substituir o Rótulo da Garrafa.
O milagre teve lugar na Aldeia da Terrugem, onde ainda se guardam as relíquias de tão inusitado fenómeno: uma garrafa velha e as cuecas que o Bajoulo levava quando ia na "Deusa" para Cascais.

Guélas Nobiscum Domine

Este documento obriga voluntariamente os Paço Arquianos a aceitarem a "concepção fisicista e coisicista do Comandante Guélas". A Terrugem mandou ontem publicar um decreto de concessão de indulgências a quem participa no seguinte conjunto de actos devocionais, em honra do Dogma da Transubstanciação:

1º- Ir, pelo menos uma vez por mês, jogar Flippers no "Manel da Leitaria";
2º- Gamar, pelo menos 1 vez por mês, uma carcaça quentinha do triciclo;
3º- Gritar, pelo menos 1 vez por mês, o nome do Ligóia;


www.riapa.pt.to

Carlos disse...

O Faz Tudo e João Paulo II


Quer se goste, quer não se goste das atitudes e orientações de João Paulo II, o mundo reconhece que foi um interveniente activo do pensamento, com coragem, fé e enorme determinação.
Um comunicador de alto gabarito, com uma vontade indomável de intervir na paz, no mundo.
Também esteve ao lado do povo de Timor, quando foi necessário.
Foi Ele que comandou de facto a Igreja, como poucos dos seus antecessores o conseguiu.
Foi de facto o Homem do leme da Igreja Católica!
Assim ficará conhecido para sempre.
Está naturalmente perto de encetar a "viagem".
O Faz Tudo como sempre tem defendido, deseja-Lhe que quando partir, o faça sereno e tranquilo.

posted by Solrac @ 00:08 1 comments

http://faztudo.blogspot.com

peciscas disse...

Quanto ao homem vestido de branco, teremos de começar por dizer um lugar-comum: foi um homem de convicções e lutou por elas. Mesmo a forma como está a terminar os seus dias o confirma. Aquilo que muitos dirão que é uma despudurada exibição que o Vaticano promove, entrando um pouco na política dos reality shows ( e até poderá ser um pouco assim), será mais a afirmação da vontade do próprio João Paulo em seguir os passos de Cristo na agonia.E tentar, com a sua própria morte, apontar caminhos de redenção.
Mas é claro que não se pode esquecer que, sob o seu comando, a Igreja fechou-se perante questões que não se compadecem com imobilismos de carácter doutrinal. Sob o risco de a própria Igreja ficar desfasada com o seu próprio povo. Por exemplo, a questão do planeamento familiar e do aborto.
Questões complexas que não podem ser encaradas a partir de dogmas imutáveis. A própria história da Igreja mostra como os próprios dogmas taambém de se abatem.
E chegando à "nossa questão do aborto" subscrevo, por inteiro, o que ouvi dizer ao Júlio um destes dias na Antena 1. Voatrei sim,mas não festejarei uma eventual vitória.
Sairemos todos dessa vitória com ums certa sensação de falta de plenitude que o alívio que possamos sentir por termos posto fim a poderosas injustiças não irá preencher de todo.

eraduasvez disse...

este meu comentário podia ser colocado em qq post seu, mas por acaso (ou não!) foi colocado aqui....
hoje comprei dois livros seus (sexo dos anjos e muros) porque uma amiga me recomendou... e por ter a consciência incondicional que gosto do que diz e escreve.

hoje, acho que vou fazer asneira...
se sei que vou fazer asneira, porque faço então? porque quero, porque me apetece. mas se escrevo isto é porque quero o consentimento de alguém, talvez seja, mas quem não quer? quem neste mundo não quer aceite? quem não quer ser amado? quem não quer ser querido? quem?!?!?!?!?

o senhor de branco transmite-me coisas boas... se calhar ajudou a eu ter tomado uma decisão... se calhar, quem sabe?... não sei...
mas é tranquilizante pensar nele.

Anónimo disse...

O velho senhor de branco no meu meio seculo de vida já nao eh este o primeiro papa a que eu assisto a´ sua partida mas nao com este mediatismo o papa quse que nos morre dentro de casa esta overdose dada pelos media faz com que fiquemos quase indiferente a quem apesar de nao ser catolica praticante tenho sentimentos de fé a que me agarrei mais depois da aparição de uma doença rara 'porfiria' mas realmente choca-me esta sobrecarga de sofimento ao vivo e a cores deste senhor de branco e da sua 'viagem'quase em directo

a torres ferreira http://atorresferreira.hi5.com disse...

O velho senhor de branco. A história reservou um lugar de destaque para este homem-instituição. Mas o homem-homem é tudo como nós. E na velhice, e perante o estertor da morte, um homem pede paz.