quarta-feira, março 12, 2014

Vocês dirão se toda esta gente preconiza um caminho para o agravamento por sugerirem "vias mais fáceis", para citar o senhor Primeiro-Ministro.

Manifesto: Preparar a reestruturação da dívida para crescer sustentadamente (na íntegra)

Nenhuma estratégia de combate à crise poderá ter êxito se não conciliar a resposta à questão da dívida com a efectivação de um robusto processo de crescimento económico e de emprego num quadro de coesão e efectiva solidariedade nacional. Todos estes aspectos têm de estar presentes e actuantes em estreita sinergia. A reestruturação da dívida é condição sine qua non para o alcance desses objectivos.
O que reúne aqui e agora os signatários, que têm posições diversas sobre as estratégias que devem ser seguidas para responder à crise económica e social, mas que partilham a mesma preocupação quanto ao peso da dívida e à gravidade dos constrangimentos impostos à economia portuguesa, é tão-somente uma tomada de posição sobre uma questão prévia, a da identificação das condições a que deve obedecer um processo eficaz de reestruturação.
O que a seguir se propõe tem sempre em atenção a necessidade de prosseguir as melhores práticas de rigorosa gestão orçamental no respeito das normas constitucionais, bem como a discussão de formas de reestruturação honrada e responsável da dívida no âmbito de funcionamento da União Económica e Monetária, nos termos adiante desenvolvidos.
 A actual dívida é insustentável na ausência de robusto e sustentado crescimento
A crise internacional iniciada em 2008 conduziu, entre outros factores de desequilíbrio, ao crescimento sem precedentes da dívida pública. No biénio anterior, o peso da dívida em relação ao PIB subira 0,7 pontos percentuais, mas elevou-se em 15 pontos percentuais no primeiro biénio da crise. No final de 2013 a dívida pública era de 129% do PIB e a líquida de depósitos de cerca de 120%. O endividamento externo público e privado ascendeu a 225% do PIB e o endividamento consolidado do sector empresarial a mais de 155% do PIB. A resolução da questão da dívida pública não só se impõe pelas suas finalidades directas, como pela ajuda que pode dar à criação de condições favoráveis à resolução dos problemas específicos do endividamento externo e do sector empresarial, que são igualmente graves.
 A dívida pública tornar-se-á insustentável na ausência de crescimento duradouro significativo: seriam necessários saldos orçamentais primários verdadeiramente excepcionais, insusceptíveis de imposição prolongada.
A nossa competitividade tem uma base qualitativa demasiado frágil para enfrentar no futuro a intensificação da concorrência global. É preciso uma profunda viragem, rumo a especializações competitivas geradas pela qualidade, pela inovação, pela alta produtividade dos factores de produção envolvidos e pela sagaz capacidade de penetração comercial em cadeias internacionais ou nichos de mercado garantes de elevado valor acrescentado.
Trata-se certamente de um caminho difícil e de resultados diferidos no tempo. A sua materialização exige continuidade de acção, coerência de estratégias públicas e privadas, mobilização contínua de elevado volume de recursos, bem como de cooperação nos mais diversos campos de actividade económica, social e política. Será tanto mais possível assegurar a sustentabilidade da dívida, quanto mais vigoroso for o nosso empenho colectivo no aproveitamento das oportunidades abertas pela reestruturação no sentido de promover esse novo padrão de crescimento.
É imprescindível reestruturar a dívida para crescer, mantendo o respeito pelas normas constitucionais
Deixemo-nos de inconsequentes optimismos: sem a reestruturação da dívida pública não será possível libertar e canalizar recursos minimamente suficientes a favor do crescimento, nem sequer fazê-lo beneficiar da concertação de propósitos imprescindível para o seu êxito. Esta questão é vital tanto para o sector público como para o privado, se se quiser que um e outro cumpram a sua missão na esfera em que cada um deles é insubstituível.
Sem reestruturação da dívida, o Estado continuará enredado e tolhido na vã tentativa de resolver os problemas do défice orçamental e da dívida pública pela única via da austeridade. Deste modo, em vez de os ver resolvidos, assistiremos muito provavelmente ao seu agravamento em paralelo com a acentuada degradação dos serviços e prestações provisionados pelo sector público. Subsistirá o desemprego a níveis inaceitáveis, agravar-se-á a precariedade do trabalho, desvitalizar-se-á o país em consequência da emigração de jovens qualificados, crescerão os elevados custos humanos da crise, multiplicar-se-ão as desigualdades, de tudo resultando considerável reforço dos riscos de instabilidade política e de conflitualidade social, com os inerentes custos para todos os portugueses.
Por outro lado, a economia sofrerá simultaneamente constrangimentos acrescidos, impeditivos em múltiplas dimensões do desejável crescimento do investimento, da capacidade produtiva e da produtividade, nomeadamente pela queda da procura e desestruturação do mercado, diminuição da capacidade de autofinanciamento, degradação das condições de acesso, senão mesmo rarefacção do crédito da banca nacional e internacional, crescente liquidação de possibilidades competitivas por défice de investimento e inovação. Por maioria de razões, o ganho sustentado de posições de referência na exportação ficará em risco e inúmeras empresas ver-se-ão compelidas a reduzir efectivos.
Há que encontrar outros caminhos que nos permitam progredir. Esses caminhos passam pela desejável reestruturação responsável da dívida através de processos inseridos no quadro institucional europeu de conjugação entre solidariedade e responsabilidade.
Há alternativa.
A reestruturação deve ocorrer no espaço institucional europeu
No futuro próximo, os processos de reestruturação das dívidas de Portugal e de outros países – Portugal não é caso único – deverão ocorrer no espaço institucional europeu, embora provavelmente a contragosto, designadamente dos responsáveis alemães. Mas reacções a contragosto dos responsáveis alemães não se traduzem necessariamente em posições de veto irreversível. Veja-se o que vem sucedendo com a Grécia, caso irrepetível, de natureza muito diferente e muito mais grave, mas que ajuda a compreender a lógica comportamental dos líderes europeus. Para o que apontam é para intervenções que pecam por serem demasiado tardias e excessivamente curtas ou desequilibradas. Se este tipo de intervenções se mantiver, a União Europeia correrá sérios riscos.
Portugal, por mais que cumpra as boas práticas de rigor orçamental de acordo com as normas constitucionais – e deve fazê-lo sem hesitação, sublinhe-se bem –, não conseguirá superar por si só a falta dos instrumentos que lhe estão interditos por força da perda de soberania monetária e cambial. Um país aderente ao euro não pode ganhar competitividade através da política cambial, não lhe é possível beneficiar directamente da inflação para reduzir o peso real da sua dívida, não pode recorrer à política monetária para contrariar a contracção induzida pelo ajustamento e não tem banco central próprio que possa agir como emprestador de último recurso. Mas se o euro, por um lado, cerceia a possibilidade de uma solução no âmbito nacional, por outro, convoca poderosamente a cooperação entre todos os Estados-membros aderentes. A razão é simples e incontornável: o eventual incumprimento por parte de um país do euro acarretaria, em última instância, custos difíceis de calcular, mas provavelmente elevados, incidindo sobre outros países e sobre o próprio euro. Prevenir as consequências nefastas desta eventualidade é, de facto, um objectivo de interesse comum que não pode ser ignorado.
 Após a entrada em funções da nova Comissão Europeia, deverá estar na agenda europeia o início de negociações de um acordo de amortização da dívida pública excessiva, no âmbito do funcionamento das instituições europeias. Na realidade, esse processo já foi lançado e em breve iniciará o seu caminho no contexto do diálogo interinstitucional europeu, entre Comissão, Conselho e Parlamento. É essencial que desse diálogo resultem condições fundamentais para defender sem falhas a democracia nos Estados-membros afectados, como valor fundacional da própria União.
Três condições a que a reestruturação deve obedecer
A Comissão Europeia mandatou um grupo de peritos para apresentar, designadamente, propostas de criação de um fundo europeu de amortização da dívida. O seu relatório será publicado antes das próximas eleições para o Parlamento Europeu. Essas propostas juntar-se-ão a várias outras formuladas nos últimos quatro anos. Recorde-se que a presente tomada de posição visa apenas a questão prévia da identificação das condições a que deve obedecer um processo eficaz de reestruturação. Serve-nos de guia o exposto sobre a dívida portuguesa, mas pensamos que as condições adiante sugeridas defendem também os melhores interesses comuns dos países do euro.
Tendo presente que a capacidade para trazer a dívida ao valor de referência de 60% do PIB depende fundamentalmente de três variáveis (saldo orçamental primário, taxa de juro implícita do stock de dívida e taxa nominal de crescimento da economia), identificam-se três condições a que deve obedecer a reestruturação da dívida.
1) Abaixamento da taxa média de juro
A primeira condição é o abaixamento significativo da taxa média de juro do stock da dívida, de modo a aliviar a pesada punção dos recursos financeiros nacionais exercida pelos encargos com a dívida, bem como ultrapassar o risco de baixas taxas de crescimento, difíceis de evitar nos próximos anos face aos resultados diferidos das mudanças estruturais necessárias. O actual pano de fundo é elucidativo: os juros da dívida pública directa absorvem 4,5%. do PIB. Atente-se ainda no facto de quase metade da subida da dívida pública nos últimos anos ter sido devida ao efeito dos juros.
2) Alongamento dos prazos da dívida
A segunda condição é a extensão das maturidades da dívida para 40 ou mais anos. A nossa dívida tem picos violentos. De agora até 2017 o reembolso da dívida de médio e longo prazo atingirá cerca de 48 mil milhões de euros. Alongamentos da mesma ordem de grandeza relativa têm respeitáveis antecedentes históricos, um dos quais ocorreu em benefício da própria Alemanha. Pelo Acordo de Londres sobre a Dívida Externa Alemã, de 27 de Fevereiro de 1953, a dívida externa alemã anterior à II Guerra Mundial foi perdoada em 46% e a posterior à II Guerra em 51,2%. Do remanescente, 17% ficaram a juro zero e 38% a juro de 2,5% Os juros devidos desde 1934 foram igualmente perdoados. Foi também acordado um período de carência de cinco anos e limitadas as responsabilidades anuais futuras ao máximo de 5% das exportações no mesmo ano. O último pagamento só foi feito depois da reunificação alemã, cerca de cinco décadas depois do Acordo de Londres. O princípio expresso do Acordo era assegurar a prosperidade futura do povo alemão, em nome do interesse comum. Reputados historiadores económicos alemães são claros em considerar que este excepcional arranjo é a verdadeira origem do milagre económico da Alemanha. O Reino Unido, que alongou por décadas e décadas o pagamento de dívidas suas, oferece outro exemplo. Mesmo na zona euro, já se estudam prazos de 50 anos para a Grécia. Portugal não espera os perdões de dívida e a extraordinária cornucópia de benesses então concedida à Alemanha, mas os actuais líderes europeus devem ter presente a razão de ser desse Acordo: o interesse comum. No actual contexto, Portugal pode e deve, por interesse próprio, responsabilizar-se pela sua dívida, nos termos propostos, visando sempre assegurar o crescimento económico e a defesa do bem-estar vital da sua população, em condições que são também do interesse comum a todos os membros do euro.
3) Reestruturar, pelo menos, a dívida acima de 60% do PIB
Há que estabelecer qual a parte da dívida abrangida pelo processo especial de reestruturação no âmbito institucional europeu. O critério de Maastricht fixa o limite da dívida em 60% do PIB. É diversa a composição e volume das dívidas nacionais. Como é natural, as soluções a acordar devem reflectir essa diversidade. A reestruturação deve ter na base a dívida ao sector oficial, se necessário complementada por outras responsabilidades de tal modo que a reestruturação incida, em regra, sobre dívida acima de 60% do PIB. Nestes termos, mesmo a própria Alemanha poderia beneficiar deste novo mecanismo institucional, tal como vários outros países da Europa do Norte.
Os mecanismos da reestruturação devem instituir processos necessários à recuperação das economias afectadas pela austeridade e a recessão, tendo em atenção a sua capacidade de pagamento em harmonia com o favorecimento do crescimento económico e do emprego num contexto de coesão nacional. Se forem observadas as três condições acima enunciadas, então será possível uma solução no quadro da União e da zona euro com um aproveitamento máximo do quadro jurídico e institucional existente.
A celeridade da aprovação e entrada em funcionamento do regime de reestruturação é vital. A única maneira de acelerar essa negociação é colocá-la desde o início no terreno firme do aproveitamento máximo da cooperação entre Estados-membros, de modo a acolher o alongamento do prazo de reestruturação, a necessária redução de juros e a gestão financeira da reestruturação, tendo em atenção as finalidades visadas pelos mecanismos de reestruturação.
Cada país integraria em conta exclusivamente sua a dívida a transferir e pagaria as suas responsabilidades, por exemplo, mediante a transferência de anuidades de montantes e condições pré-determinadas adequadas à capacidade de pagamento do devedor. As condições do acordo a estabelecer garantiriam a sua estabilidade, tendo em conta as responsabilidades assumidas por cada Estado-membro. Deste modo, a uma sã e rigorosa gestão orçamental no respeito das normas constitucionais acresceria o contributo da cooperação europeia assim orientada. As condições relativas a taxas de juro, prazos e montantes abrangidos devem ser moduladas conjugadamente, a fim de obter a redução significativa do impacto dos encargos com a dívida no défice da balança de rendimentos do país e a sustentabilidade da dívida pública, bem como a criação de condições decisivas favoráveis à resolução dos constrangimentos impostos pelo endividamento do sector empresarial público e privado e pelo pesado endividamento externo.
O processo de reestruturação das dívidas públicas já foi lançado pela Comissão Europeia. Fomos claros quanto a condições a que deve obedecer esse processo. A sua defesa desde o início é essencial. O nosso alheamento pode vir a ser fatal para o interesse nacional
A reestruturação adequada da dívida abrirá uma oportunidade ímpar, geradora de responsabilidade colectiva, respeitadora da dignidade dos portugueses e mobilizadora dos seus melhores esforços a favor da recuperação da economia e do emprego e do desenvolvimento sustentável com democracia e responsabilidade social.
Por quanto ficou dito, os signatários reiteram a sua convicção de que a estratégia de saída sustentada da crise exige a estreita harmonização das nossas responsabilidades em dívida com um crescimento duradouro no quadro de reforçada coesão e solidariedade nacional e europeia.
Estes são os termos em que os signatários apelam ao debate e à preparação, em prazo útil, das melhores soluções para a reestruturação da dívida.

Adriano Moreira
Adalberto Campos Fernandes
Adriano Pimpão
Alberto Ramalheira
Alberto Regueira
Alexandre Quintanilha
Alfredo Bruto da Costa
André Machado
António Bagão Félix
António Capucho
António Carlos Santos
António Eira Leitão
António Sampaio da Nóvoa
António Saraiva
Armando Sevinate Pinto
Artur Castro Neves
Boaventura Sousa Santos
Carlos César
Carlos Moreno
Constantino Sakellarides
Diogo Freitas do Amaral
Eduardo Cabrita
Eduardo Ferro Rodrigues
Eduardo Paz Ferreira
Emanuel Santos
Esmeralda Dourado
Eugénio Fonseca
Fausto Quadros
Fernanda Rolo
Fernando Gomes da Silva
Fernando Rosas
Francisco Louçã
Henrique Neto
João Cravinho
João Galamba
João Vieira Lopes
Joaquim  Gomes Canotilho
Jorge Malheiros
Jorge Novais
José Almeida Serra
José Maria Brandão de Brito
José Maria Castro Caldas
José Reis
José Silva Lopes
José Vera Jardim
José Tribolet
Júlio Mota
Luís Braga da Cruz
Luís Nazaré
Luís Veiga da Cunha
Manuel Carvalho da Silva
Manuel  de Lemos
Manuel Macaísta Malheiros
Manuel Porto
Manuel Sobrinho Simões
Manuela Arcanjo
Manuela Ferreira Leite
Manuela Morgado
Manuela Silva
 Mariana Mortágua
Pedro Adão e Silva
Pedro Bacelar de Vasconcelos
Pedro Delgado Alves
Pedro Lains
Pedro Marques Lopes
Ricardo Bayão Horta
Ricardo Cabral
Ricardo Paes Mamede
Rui Marques
Teresa Pizarro Beleza
Viriato Soromenho-Marques
Vítor Martins
Vítor Ramalho

terça-feira, março 11, 2014

De novo pela mão de minha Mãe...

http://youtu.be/57tK6aQS_H0

segunda-feira, março 10, 2014

Minha Mãe cantava-me isto...

domingo, março 09, 2014

É pra já!

Sai a pedido do Ímpio!:).

sábado, março 08, 2014

Boa noite, gente.

http://m.youtube.com/results?q=vaya%20con%20dios%20what's%20a%20woman&sm=1

quinta-feira, março 06, 2014

Um trio abençoado...

quarta-feira, março 05, 2014

Boa noite, gente, fiquem bem.

terça-feira, março 04, 2014

quinta-feira, fevereiro 27, 2014

terça-feira, fevereiro 25, 2014

segunda-feira, fevereiro 24, 2014

quarta-feira, fevereiro 19, 2014

Pat Metheny - And I Love Her

terça-feira, fevereiro 18, 2014

segunda-feira, fevereiro 17, 2014

The Beatles Because (A CAPELLA)

domingo, fevereiro 16, 2014

Good Night from Abbey Road:).

sábado, fevereiro 15, 2014

sexta-feira, fevereiro 14, 2014

quinta-feira, fevereiro 13, 2014

Dia de Namorados.

Maria,

Não consigo evitar rima coxa... - que dia:(. Exames médicos e horas de voz cambaleante, faço zapping e em todos os canais aparece em pano de fundo a mesma palavra, exaustão. E em rodapé, aviso da sociedade de consumo - amanhã é Dia dos Namorados. Sabes como aprecio a lenda de São Valentim e odeio o aproveitamento da data pelo capitalismo. Bref, se gostas de alguém..., compra-lhe alguma coisa! Estivesses tu aqui e dir-te-ia ao ouvido, durante passeio por corpo inteiro, que dias destes vivemos ao longo de todo o ano, a minha prenda seria um beijo à tua escolha, de casto a maroto, a tua fantasia ao volante dos meus lábios. Mas tu não estás:(. E por isso descobri florista em Londres, que, fleumática, dissertou sobre a necessidade de as rosas evitarem números pares, que sei eu disso?, entregue-lhe dezanove! Cinco, disse ela, será crime? Seja. Admitindo que te chegam à porta e as aceitas, faz-me um favor - Maria, entrega-as à Maria. Não todas, seria injusto. Guarda uma para ti, sei que o teu amor azedou sem deixar de ser amor. Mas afastou-nos. Oferece as outras ao pedaço de ti - onde ouvi eu isto? - que, lá no fundo, ainda ama sem reservas e gostaria de se enroscar nos meus braços. Não voltará à superfície? Paciência. Mais uma razão para as rosas a emoldurarem, não a imagino sozinha. Ou sem mim, para ser franco...
Boa noite, fica bem.

quarta-feira, fevereiro 12, 2014

terça-feira, fevereiro 11, 2014

O derby.

Maria,
O Benfica marca passo em vez de golos e a criança dentro de mim enovela-se para chorar. Vivemos numa sociedade que suporta com ligeireza os danos colaterais – nas guerras a céu aberto ou nas reuniões discretas da alta finança é dado adquirido que muitos ficarão pelo caminho, debaixo de cruzes ou nas sarjetas, em prol de um futuro melhor para todos (os outros). Contigo descobri o conceito de “benefício colateral”. O Benfica encarniçava-se contra mais uma parede, o mundo fugia dos pés da criança, a cor da face do seu filho adulto, que a custo mantinha as aparências até mergulhar em longa insónia, mais tabuleiros houvera e em mais eu perderia, o sonho de um desprendimento sábio nunca se realizou. Entraste na minha vida e não escondeste a surpresa perante o que consideravas um desperdício  - sofrer por noventa minutos de bola cá, bola lá, homens feitos de calções perseguindo-a e não desprezando en passant canelas adversárias, rostos ingénuos e escandalizados – “quem? eu?” – prontos a emoldurarem mãos postas na direcção  de juízes vestidos de negro, filhos de mães que ninguém no improvisado tribunal  conhece mas são alvo de gritos e dedos certos da sua má conduta, toda(s) a(s) cena(s) emoldurada(s) por milhões de euros em país que alega não os ter para fazer cantar um cego, comer um pobre, ficar um emigrante, investigar um universitário, trabalhar as gentes. É revoltante, dizias. E no entanto... Nesses momentos o amor levava a melhor sobre as dúvidas quanto à minha sanidade mental e  oferecias ombro solidário ao adulto e colo terno à criança, que da sua  tristeza funda chamava o filho grande e ainda renitente por arrogância superficial, encontrávamo-nos a meio caminho, no silêncio acolhedor do teu peito. Ao som regular do teu enorme coração o miúdo adormecia e eu acordava para outros jogos, em que (me) perdia, fascinado por esse prazer longínquo e vertiginoso, de que as mulheres têm o segredo e os homens a nostalgia orgulhosa de quem participa nos bastidores. E assim, a cada novo tropeço do Benfica, o túnel não ficava menos escuro, mas a certeza da tua luz diminuía-lhe minutos, lágrimas e imprecações, o sofrimento fazia sentido, vezes houve em que desconfiei ser o preço a pagar pelo esplendor do que vivíamos, este meu fundo judaico-cristão...
P.S. E não é que ganharam? Cinco minutos de alegria aliviada. E como a águia em voo picado sobre a carne – mas sem milhares a asssistirem! – assalta-me consciência da injustiça das  palavras. Por incompletas... Eles ganhavam e tu sorrias, divertida, dos nossos risos, ainda incrédulos mas já prontos para festejos menos recatados. Seguias-nos, vigilante, rumo a cervejaria ou casa de amigos, aceitavas de bom grado os festejos, mas qualquer brisa de exagero enfunava as velas do teu sobrolho, o sorriso não esmorecia e no entanto abrigava a cautela, órfã dos caldos de galinha, mas severa – “Júlio, como é aquela frase que me ensinaste? Il faut garder la mesure?”. E eu e o puto não guardávamos bandeiras, cachecóis, finos, bifes, gargalhadas ou abraços de compinchas; apenas isso – la mesure.  Além da muito pouco secreta esperança de terminar, perdão!, começar a noite no teu peito.
Maria, tu adoçavas as derrotas e vestias de cores ainda mais garridas as vitórias, não há fim de jogo do Benfica em que os meus olhos não busquem a porta, supersticiosos. Nada. E pluribus unum. De todos, um? Tempos houve em que sim, de nós os dois nascia um, tal a cumplicidade, que não anulava nenhum e enriquecia ambos. Agora só partilhamos um meridiano. E outro silêncio; estéril. Ponho Dark Side of the Moon. Um coração bate, mas não é o teu. E o grito não chega a Londres...

Boa noite. Fica bem.    

segunda-feira, fevereiro 10, 2014

domingo, fevereiro 09, 2014

Boa noite.

sábado, fevereiro 08, 2014

sexta-feira, fevereiro 07, 2014

Schubert "Serenade"

quinta-feira, fevereiro 06, 2014

quarta-feira, fevereiro 05, 2014

Esta voz...

terça-feira, fevereiro 04, 2014

Boa noite, gente.

segunda-feira, fevereiro 03, 2014

Boa noite, gente.

domingo, fevereiro 02, 2014

Boa noite, gente.

sexta-feira, janeiro 31, 2014

terça-feira, janeiro 28, 2014

RIP, Pete.

segunda-feira, janeiro 27, 2014

sexta-feira, janeiro 24, 2014

O egoísta.

Maria,
Chamar-te doce no enlevo do amor físico. Espantar-me com a tua surpresa - "nunca ninguém me chamou isso". Defender a classe - "seguramente porque só conheceste homens pré-diabéticos ou com deficiências congénitas nas papilas gustativas". O teu sorriso. O meu egoísmo silencioso - "espero que não conheças  outros".

segunda-feira, janeiro 13, 2014

Aniversário.

Maria,
Homem de hábitos teimosos, passe a redundância - Franganito. O Sebastião festejava os 56 anos. Um abraço mais forte do que o costume. E a nostalgia por lhe ver a família toda à mesa, de carne e osso. A minha, fantasmagórica, rodeia-me, sobrolho franzido - desculpa o beijo apressado, por simples higiene mental preciso de calar a televisão. E ouvi-los a eles.

quarta-feira, janeiro 08, 2014

Durmam bem.

quinta-feira, janeiro 02, 2014

2014.

Maria,

 Ontem fui velório do senhor António. Não descobri a porta certa e atravessei a igreja para chegar à casa mortuária. Sem nenhuma razão, dei comigo a notar silêncio e vazio. E o agnóstico, triste por mais um lugar ocupado à mesa das recordações, não resistiu ao amuo fácil dos humanos em busca de respostas - "por que não está Deus na Sua casa para que tudo o resto faça algum sentido?". A mulher abraçada a mim, contando aos netos a história de um doutor sentado no passeio, jornal desportivo na mão, gozando o sol. É verdade. O senhor António afadigava-se à volta do cabelo que antecedia o meu, "está quase...", e eu gozava uma ausência de pressa que hoje me faz negaças. Ao longo de anos e anos acolheu um imigrante nascido e crescido no Bonfim e em Santo Ildefonso, que desconhecia os apelidos que ele recebia há gerações, depois passou a perguntar pelas mais jovens dos Machado Vaz. Os garotos crescem, mudam de voz e de país, no processo também de barbeiro, ele compreendia. Eu nem tanto, as saudades abrigavam uma pitada de amuo envergonhado... Sorrindo, ele invertia a história de Sansão e Dalila - o cabelo juncava o chão mas a alma ficava um bocadinho mais forte, ouvindo-o falar dos "meninos" com absoluto desprezo por bilhetes de identidade e distância, quase os adivinhava de regresso. Quase; o suficiente para sair mais apaziguado...
Maria, despedi-me de um amigo no primeiro dia do ano. E o ditado popular em refrão obsessivo - o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita. Para mim, 2014 será culpado e visto de soslaio até provar a sua inocência. Quem for vivo, verá.  

segunda-feira, dezembro 23, 2013

Magistral:).

quarta-feira, dezembro 18, 2013

Back home.

Quando um filho parte fechamos um quarto - grande! - do coração. E um dia ele aterra, bolsos cheios de histórias e projectos cumpridos e sonhados, nós escutamos, a rebentar de alívio e nostalgia. Como foi possível resistir à ausência? Por que escreveu o que deixámos no tinteiro da nostalgia? Pouco importa, a inveja não resiste ao orgulho. E de novo as janelas abertas de par em par, o faqueiro bom à mesa, sorrisos que baixam a tensão arterial, um novo alento da rega no jardim, ternura no olhar da velha ama, master John is back:).

terça-feira, dezembro 17, 2013

O alívio.

Como os de minha Mãe. Abraçada a meu Pai sobre a lareira. Ambos me sorriem, ela tem flores na mão. Chegou de viagem e os seus homens esperavam-na. Por cima está o quadro favorito dele, um dos netos falou-me e disse - "estou na igreja do quadro do Avô". Outra vez fê-lo da sociedade recreativa lisboeta em que ela começou a cantar. Os meus netos conhecem-lhe as melodias e o horror dele a toda a música que não tivesse a sua impressão digital. As memórias estão vivas e são contadas. Dou um passo atrás e miro a lenda familiar - está pronta. Logo, eu também.

Eram extraordinários...

segunda-feira, dezembro 16, 2013

Boa noite, gente.

O vento em fúria dilacera todas as velas. Depois, tem de escolher - cosê-las de novo ou amainar, melancólico, rumo à aposentação.

domingo, dezembro 15, 2013

Vila Praia de Âncora.

Maria,

Tão bom, regressar à mesa dos Simões! Para ser perfeito faltavam os outros Machado Vaz... Que surgiram aqui e ali na conversa, o abraço entre os dois clãs é tão estreito que torna impossível recordação ou sorriso que não nos inclua a todos. De coisas sérias, falámos brevemente quando o Manel me trouxe ao carro. Não foi surpresa que as preocupações de ambos se mirassem ao espelho, triste é admitir que não falávamos de nós e sim de gente amada. Sob muitos aspectos, envelhecer é temer pelos outros, sabes? Não é provável. Ou talvez saibas; com a razão. Um dia saberás pelo sentir. E perceberás porque às vezes, quando me perguntavas se estava triste, eu respondia - "estou, mas não por nós". (Quisera hoje dizer o mesmo...).

sábado, dezembro 14, 2013

Capítulo final.

Ela disse,
- O luto não será fácil, de qualquer modo.
Ele ficou estarrecido. Difícil embora, para ela tratava-se de uma questão de tempo. Dos relógios. Concordou de peito aberto, se pensava assim, já não era a pessoa que conhecera.  Viver sozinho não o assustava, apenas entristecia.
- Está bem.
E guardou-lhe a memória, por egoísmo e fidelidade.

sexta-feira, dezembro 13, 2013

Boa noite, gente.

Ao Miguel, no seu 4º Aniversário, e contra o nuclear, naturalmente

Eugênio de Andrade
Vais crescendo, meu filho, com a difícil luz do mundo. Não foi um paraíso, que não é medida humana, o que para ti sonhei. Só quis que a terra fosse limpa, nela pudesses respirar desperto e aprender que todo homem, todo, tem direito a sê-lo inteiramente até ao fim. Terra de sol maduro, redonda terra de cavalos e maçãs, terra generosa, agora atormentada no próprio coração; terra onde teu pai e tua mãe amaram para que fosses o pulsar da vida, tornada inferno vivo onde nos vão encurralando o medo, a ambição, a estupidez, se não for demência apenas a razão; terra inocente, terra atraiçoada, em que nem sequer é já possível pousar num rio os olhos de alegria, e partilhar o pão, ou a palavra; terra onde o ódio a tanta e tão vil besta fardada é tudo o que nos resta; abutres e chacais que do saber fizeram comércio tão contrário à natureza que só crimes e crimes e crimes pariam. Que faremos nós, filho, para que a vida seja mais que a cegueira e cobardia?

quarta-feira, dezembro 11, 2013

O legado.

Maria,
Lembras-te do que o meu Pai dizia? - um professor que não deixa discípulos, falhou. Porque ensinar não é apenas (?) despertar a curiosidade de um anfiteatro, fazê-los desejar aprofundar as nossas palavras, exceder as referências bibliográficas; pensar. Jantei com alguém que penso preencher os requisitos, tu eras melhor do que eu a valorizar a intuição, terias gostado de lhe palpar o pulso, imagino-te a smsar-me, "acho que tens razão". Eu também:). Envelhecer é isto - preparar o futuro sem nós e sem drama. Adivinhando-o - sem traições ao passado! - no entusiasmo de um olhar juvenil.
Dorme bem.

domingo, dezembro 08, 2013

Lennon pintando um retrato onírico da Mãe. Para nosso deleite...

8 de Dezembro.

Não gosto de dias de..., tresandam a dias sem... Não é o caso de hoje, que se espraia por toda a minha vida. O Dia da Mãe - com todo o respeito pelo de Maio - e de Nossa Senhora da Conceição. Que era o nome dela. Obviamente, não se tratava de uma coincidência,  se nascera a 5 de Outubro, natural seria que a Igreja Católica se juntasse à República para a homenagear! Mas a saudade, essa, vivo-a sem qualquer apoio institucional...

quinta-feira, dezembro 05, 2013

quarta-feira, dezembro 04, 2013

O outro silêncio.

Maria,
Deste silêncio tenho medo - não abraça; devora. Não é como o que te sorria quando entravas, chave recusada na mão, em cujos dedos tive de a fechar, escondendo a intimidade por trás do biombo de ajuda fraternal, “só para vires regar as plantas”. Que cresceram, e eu com elas. A princípio o sobressalto – “empregada doméstica que esqueceu o guarda-chuva? ladrão avesso a pé-de-cabra e primo do tio do sobrinho do habilidoso que me arranjou a fechadura e despiu o bolso, “com recibo...?”; alma penada sem auto-confiança para atravessar paredes?”. Eras tu. “Preferia tocar.” E eu menti algumas vezes, até responder sem levantar os olhos do livro, mas encolhendo os ombros, “qual é a diferença?, nos hotéis pedimos duas chaves”. A diferença é abissal. Amo o silêncio da casa, espera-me com a ternura da Michelle, que se limitava a ensaiar um solo de bateria com a cauda e não abandonava o sofá, esperando afago e colo noite dentro; até ser transportada como um bebé para o fundo da cama, onde se enroscava a tiracolo de um suspiro feliz. Não andámos longe disso, tu literalmente, eu nos braços do teu olhar.Mas tu ficavas na outra margem da cama, noite após noite um de nós partia à abordagem e o outro oferecia resistência com tanto de falsa como risonha, “és insaciável”, a frase ia e vinha como bola de ping-pong, eu também dentro de ti. Mas nos intervalos de amor e desejo o silêncio guardava tempo e estatuto e era amigável, sabia que nos unira tanto como os rituais desajeitados de sedução.
Este é diferente, não torna as palavras inúteis, rouba-lhes o significado e, não vá o Amor tecê-las..., estrangula-as. É paulatino, mas irreversível. Depois das palavras seremos nós. Por momentos restará um eco longínquo do que fomos, a sombra de Brel sem o cão, o lado escuro da Lua dos Floyd sem amplificadores, uma caricatura obscena do que vivemos. Não importa quantos os degraus, levam-nos pelos pés às areias movediças deste silêncio que me invade as entranhas. De tão profundo e arcaico, resta-me a esperança de que não conheça as regras aduaneiras da (des)União Europeia. Se assim for, estás a salvo – recusar-lhe-ei passaporte,  ficarás livre dele. E de mim. Capaz de viver a plenos pulmões.        

Silêncio

SilêncioAssim como do fundo da música 
brota uma nota 
que enquanto vibra cresce e se adelgaça 
até que noutra música emudece, 
brota do fundo do silêncio 
outro silêncio, aguda torre, espada, 
e sobe e cresce e nos suspende 
e enquanto sobe caem 
recordações, esperanças, 
as pequenas mentiras e as grandes, 
e queremos gritar e na garganta 
o grito se desvanece: 
desembocamos no silêncio 
onde os silêncios emudecem. 

Octavio Paz, in "Liberdade sob Palavra" 
Tradução de Luis Pignatelli

segunda-feira, dezembro 02, 2013

Um homem que sempre leio com prazer. E alívio... Uma boa semana, gente.




As perguntas do Papa Francisco. 2
por ANSELMO BORGES30 novembro 2013http://www.dn.pt/Common/Images/img_opiniao/icn_comentario.gif146 comentários
Embora sensível ao raciocínio de Vasco Pulido Valente, que, reflectindo, no "Público", sobre os caminhos que ficam para o Papa Francisco, concluía: "Apesar da sua imensa popularidade, e mesmo por causa dela, Francisco acabou numa velha armadilha, em que esbraceja em vão. O inquérito não o ajudará.", não creio que, desde que superemos a análise sociopolítica e nos coloquemos na perspectiva cristã, que é a sua, Francisco tenha caído numa armadilha.
Então, qual é o maior problema de Francisco? Ele é um cristão convicto. O que o move é o Evangelho enquanto notícia felicitante da parte de Deus para todos. Assim, o seu problema é que todos se convertam realmente ao Evangelho, começando pelos cardeais, continuando nos bispos e nos padres e acabando nos católicos, que devem converter-se a cristãos.
Neste sentido, não se trata de mudar o essencial da doutrina, mas de ir ao decisivo do Evangelho. Ora, o núcleo do Evangelho são as pessoas, dignas de respeito e atenção. É, pois, preciso continuar a anunciar o ideal do matrimónio cristão, mas, depois, atender às pessoas, às suas necessidades e feridas. Para isso, Francisco conta com a mediação da sensibilidade pastoral dos bispos e dos padres e dos cristãos em geral, que asseguram no concreto a aplicação do ideal.
Por outro lado, não se deve esquecer que Francisco tem uma dupla origem. Ele é ao mesmo tempo "franciscano", e, assim, humilde e próximo das pessoas, e jesuíta, portanto, com toda uma formação de procura da eficácia. Ele crê na "Igreja Povo de Deus", que é também a "santa Igreja hierárquica". Por isso, sabe consultar, no quadro de uma adelfocracia (governo de irmãos), mas também sabe que, em última instância, é a ele que compete decidir, com os outros bispos e em Igreja. Neste quadro, deixei aqui na semana passada o que me parece expectável como resultado deste inquérito, passando agora a algumas perspectivas de teor mais pessoal.
É claro que a família é uma instituição essencial, indispensável, enquanto espaço de comunhão, partilha de afectos, valorização e realização pessoal e educação das crianças. A família é a célula de base da sociedade. Mas também é claro que a pastoral familiar não pode continuar a centrar-se num catálogo de proibições e pecados, na proibição dos anticonceptivos e das relações sexuais pré-matrimoniais. O próprio Francisco já preveniu que não se pode viver obcecado com o rigorismo e o legalismo; de outro modo, "mesmo o edifício moral da Igreja corre o risco de cair como um castelo de cartas". É evidente que não vale tudo, mas a Igreja tem de reconhecer que tem tido enorme dificuldade em falar pela positiva das questões ligadas à família e ao sexo. O seu discurso nestas matérias tem de centrar-se na dignidade, liberdade, respeito e responsabilidade. Isto também significa que a valorização que se faz da família cristã não tem de ser acompanhada de ataques a outros tipos de realização e vivência de família.
Se o Papa reconhece que há também a tendência homossexual, pergunta-se se não se deve caminhar no sentido do reconhecimento do direito de actividade sexual no mesmo quadro de exigências dos heterossexuais. A adopção é diferente, pois o debate continua, mesmo entre especialistas. Embora Francisco, quando arcebispo de Buenos Aires, tenha aprovado que um casal gay adoptasse uma criança, o que significa, mais uma vez, a dialéctica entre os princípios e as pessoas na sua situação concreta.
Quanto à paternidade e maternidade responsáveis, é urgente perceber que a moral é autónoma, pertencendo, portanto, as decisões neste domínio às pessoas e aos casais, dentro da liberdade na responsabilidade.
No caso dos divorciados que voltam a casar, é claro que se exige celeridade nos processos de declaração de nulidade no casamento. Mas pergunta-se se não será necessário ir mais longe e, atendendo à fragilidade humana, invocar, como a Igreja cristã ortodoxa, o princípio da misericórdia, dando a possibilidade de outra oportunidade. Seja como for, não se pode pedir aos divorciados recasados que continuem no seu empenhamento na Igreja, mas impedindo-os da comunhão.


DN.

domingo, dezembro 01, 2013

sexta-feira, novembro 29, 2013

Uxia - Verdes São Os Campos

quinta-feira, novembro 28, 2013

CAT STEVENS - LADY D'ARBANVILLE

quarta-feira, novembro 27, 2013

Maybe...

Maria,

Longa insónia à vista. Controlo remoto ao leme. Pela enésima vez Milk e um Sean Penn esplendoroso. Vou ficar. Quem sabe? Talvez hoje não morra assassinado; talvez eu adormeça convencido que ainda presenciarei o direito à indiferença; talvez tu atravesses a mítica passadeira de Abbey Road, trauteando we can work it out; talvez...
Sleep tight, darling.

Barbara Jones - Will You Still Love Me Tomorrow

terça-feira, novembro 26, 2013

segunda-feira, novembro 25, 2013

domingo, novembro 24, 2013

Muito gosto eu do homem:).

A família: a felicidade controversa?

A Pastoral da Família não se destina a restaurar uma herança em ruinas e algo idealizada, por isso é ainda mais necessária e urgente.

1. Não há só um modelo de família. Ao longo dos tempos e segundo a diversidade de povos e culturas, os historiadores e os antropólogos podem testemunhar tanto a pluralidade das suas formas como a sua presença constante.
Mesmo hoje, em Portugal, apesar da maior fragilização dos laços conjugais, o aumento dos divórcios, a diminuição dos casamentos e dos filhos, a família apresenta-se, do ponto de vista da realização e da estabilidade emocional, a grande referência. Mais de 70% dos portugueses continua a associar a felicidade à vida em casal. O fim de uma relação não põe em causa esse ideal, embora seja vivido em novos cenários (1). É sugestiva a descrição que alguns sociólogos espanhóis fizeram do ciclo vital dos nascidos no ano 2000. Antigamente, o ciclo vital constava de três ou quatro etapas, agora, de modo mais complexo e diluído, pode estender-se a nove.
A experiência vital começa, para muitas crianças, com o cenário, feliz e curto, de um lar normal, de um filho pequeno com os seus pais. A esta breve etapa, segue-se outra, um pouco mais longa: esta mesma criança vivendo só com a mãe, separada ou divorciada. Uma terceira experiência é, talvez, a de um adolescente vivendo num novo lar com a sua mãe recasada e com uma figura menos atractiva, a de um pai adoptivo ou padrasto. Chegado à maioridade, esse jovem unir-se-á à sua noiva, vivendo com ela em união de facto. Num quinto ciclo vital, a maioria destes jovens acaba por se casar com o seu par e, depois de poucos anos, entram na sexta etapa, a dos divorciados. Irão passar por um tempo de solidão, mas voltam a casar. Chegados a esta etapa de maturidade, ficarão viúvos e irão para um lar ou residência de terceira idade, onde, esporadicamente, o filho ou a filha ou o neto o irão visitar (2).
2. Perante esta situação – com esta ou outras configurações – a “Pastoral da Família” pode ser tentada por um regresso ao passado que já deu quase tudo o que tinha a dar e se tornou inabitável. O cristianismo, aliás, não é a nostalgia de um paraíso perdido, mas a saudade de um futuro de transfiguração. É verdade que muitos pais, ao não desejarem reproduzir um mundo em que nem sempre foram felizes, não encontraram as alternativas que imaginavam. Por outro lado, certa educação liberal, preocupada em nãoimpingir valores convencionais, deixou os jovens abandonados a si mesmos ou como se diz, com desencanto, obrigados a não acreditar em nada.
A Pastoral da Família não se destina a restaurar uma herança em ruinas e algo idealizada, por isso é ainda mais necessária e urgente. Deve ser mais exigente. Além do esforço para estabelecer laços estimulantes entre gerações, tem de saber escutar, acompanhar, dialogar com todas estas novas formas de viver em casal, propondo a descoberta existencial da hierarquia de valores, sem tentar impor o que só pode ser escolhido.
A pergunta a que temos de responder, por obras e palavras, é esta: que podemos nós, Igreja – de solteiros e casados, de casados e recasados – aprender com estas novas experiências onde o bem e o mal, o santo e o perverso, os êxitos e os fracassos humanos andam sempre mais ou menos misturados? Que caminhos abrem estas realidades a outras formas de viver o Evangelho?
Os casais cristãos – os que não se julguem o casal-modelo – em vez de guardar a sua experiência num cofre forte familiar, como diz o Papa, podem estimular as novas gerações a desenvolver uma espiritualidade que não tem necessariamente de reproduzir as mais recomendadas no mercado religioso do passado e no mundo clerical. Alguém dizia que as homilias dos padres, nos casamentos, oscilavam entre as tentativas apoetadas e as apatetadas, tendendo todas para um moralismo sem ética praticável.
As apresentações da doutrina católica da família tendem a mostrar um itinerário que arranca do Antigo Testamento e vem até aos nossos dias como uma auto-estrada, com raros e pequenos desvios. A ocultação das sombras e do escuro não favorece a verdade.
O papa Francisco sabe que as questões da contracepção, da coabitação, do divórcio, das novas uniões, das uniões entre pessoas do mesmo sexo, a adopção de novas tecnologias de fertilidade, etc., apresentam dificuldades que não podem ser resolvidas de forma abstracta, com mais ou menos tolerância ou intolerância. A consulta que desencadeou é mais do que um inquérito. Sendo um método de dinamização de toda a Igreja, não se espere que fique tudo resolvido no Sínodo.
3. Jesus Cristo nasceu e cresceu numa família de cultura e religião judaicas. As narrativas do Novo Testamento não ocultam o longo contencioso que viveu com esta instituição. A fonte das suas reacções mal- humoradas acabam por ser o seu maior elogio. O desígnio de Jesus era lançar a corrente do mundo família: reunir todos os filhos de Deus dispersos. Não aguentava que a sua família o quisesse prender ao modelo que ele queria superar. Não suportava, por outro lado, que o direito mosaico fosse invocado para abandonar a mulher aos caprichos do marido (3).
A família será sempre uma feliz controvérsia.
 Frei Bento Domingues.

sexta-feira, novembro 22, 2013

quinta-feira, novembro 21, 2013

Os tristes têm duas razões para o ser: ignoram ou esperam."
 Albert Camus.

terça-feira, novembro 19, 2013

Maria,
Os “nossos” jogos de futebol... Que demoraram a nascer, eu viciado em malta, cerveja e vernáculo, tu receando que me sentisse a trair os rituais de macho solteirão,  indeciso e desconfiado da astúcia feminina. Quando me disseste que gostavas da bola dei-te o benefício da dúvida, mas a declaração de benfiquismo fez soar todos os alarmes - pensei em estratégia da aranha escarranchada no voo da águia Victória, “a seguir vai dizer que adora os Beatles e o Languedoc, o quarto de banho é o menos, tenho dois, a cozinha?, virtual, só eu sobrevivo ao caos da secretária, com o álibi da coluna passo temporadas no sofá unipessoal,  mas a cama  que a cobiça à noite prefere-a na sua  de manhã e as mulheres consideram o pequeno-almoço prova de amor, adeus liberdade!”.
Adeus a ti... A liberdade é tanta que as sobras construíram uma solidão de legos feitos de recordações. O dia foi longo, a fila no supermercado não.  Comprei um frango, na esperança de o roubar ao Rui Patrício, se errar é humano então os guarda-redes devem ser marcianos, um golo consentido apaga dez evitados, só na guerra a rectaguarda permite um suspiro de alívio. Estivesses tu aqui e falaríamos para o Servemcasa por volta das sete e meia para tentar acertar no intervalo. Eu - sempre rotineiro... -, sugeria filetes de pescada com arroz de camarão, o teu encolher de ombros divertido, “para dois”. Escolher o vinho. A sombra de regras quase esquecidas, amiúde violadas, “peixe, branco”. A minha indecisão crónica, “está frio, abrimos um tinto?”. O alijar de responsabilidades, “se quiseres bebemos água, é Terça e não fim-de-semana, pão nem vê-lo!, portamo-nos bem”. A tua sobrancelha erguida, “a todos os níveis, presumo...”. O gemido, “já custa tanto fazê-lo à mesa, Maria”. A gargalhada, esse preguiçoso levantar do sofá que me fazia desejar-te ao longo dele, eu estendia a mão para cintura que fugia e deixava no seu lugar um “depois” levemente enrouquecido, deve ser a isso que chamam tantalização do prazer, eu preferia citar o Chico, “quem espera nunca alcança!”, o teu riso cobria o saltar da rolha, “boa ideia, pôe música”.
A cabeça no teu colo, discussão de lampiões, tu sempre isenta, “um mês para o Jesus não foi nada mau”. Eu escondendo paixão cega por trás de deformação profissional, “o rapaz só queria a camisola e voltar para a bancada, era deixá-lo ir, o JJ ferve em pouca água e tem idade para guardar más recordações de polícias de pé e a malta no chão, ainda me lembro do que aconteceu em 69 e...”. Os dedos esguios pelo meu cabelo, a língua deliciosamente próxima do ouvido mas com intenções pacatas, “Júlio, se quiseres Sábado vais à Luz e pedes-lhe a gravata ou o nome do cabeleireiro. Hoje, reza para o Cristiano estar inspirado e não tires os olhos da relva, qualquer comentário às suecas e é a morte – e abstinência... - de artista e anfitrião, capice?”. (“Meu Deus, faz com que as nórdicas loiras tenham ficado em casa ou eu me torne daltónico para o amarelo durante noventa minutos e abençoa o CR7 das botas até à ponta dos cabelos, para que aconteça o impossível e ganhemos o jogo fora e em casa ao mesmo tempo!).
Heróis do mar...

Ganhámos! Da alegria solitária ao abraço feliz vai a distância da tua ausência.      

segunda-feira, novembro 18, 2013

STING The book of my life

terça-feira, novembro 12, 2013

No Franganito.

Maria,
Já me ocorreu fazer um guia Michelin sobre restaurantes, mas com sorrisos e braços abertos furando o monopólio de estrelas e cozinha entrelaçadas. Fui jantar ao Franganito. Como vou há quarenta anos. Tempos houve em que não sabia como crismar a refeição, as horas sugeriam chá e scones, eu atacava o bife com batatas, o Sebastião e os pais cercavam o resto da mesa, ora aprovando em silêncio o meu sólido apetite, ora satisfazendo o deles, obrigado a esperar a saída de clientes com horários quase tão bizarros como os meus. O eterno bife estava óptimo, um dia finjo consultar o menu e mato de espanto a família toda. A família toda... (Imaginas a inveja aliviada com que o digo). Há quarenta anos que os visito, sabes? A comida é um pretexto delicioso, mas não indispensável, são meus amigos. E por isso me alegra nunca ter  murmurado um “sinto muito” sem jeito ou dado abraço que não de alegre reencontro. Um luxo na minha idade!, partout je trouve des chaises vides et des passe-partout accablés par ces sacrés morts qui refusent de mourir dans nos têtes,  you know what I mean, please excuse my rusty french, já nem o Michelle dos Beatles me lembro de trautearL. O olhar do Sebastião, que jogou nos juniores do Porto, mas nunca frequentou Psicologia e não precisa, viu-me crescer cada ruga e cabelo branco, é tão fiável como este Verão de São Martinho - tagarela, sorri ou apenas paira, conforme o tempo que me vai na alma. E sabe ouvir perguntas retóricas, o maroto. Eu rosnei – “para onde fugiu o raio do anticiclone dos Açores?”. E ele, impassível – “Alentejo ou Douro?”. Tentei espetar um queixo beligerante e só consegui imitar um rufia de série B – “Londres”. Sentou-se, ombro encostado ao meu, os pais de um lado, o filho do outro, só restávamos nós no restaurante. Falou enquanto o Ronaldo, à nossa frente, abria os braços tauromáquicos  ao público - “sou o maior no futebol e nos anúncios, para não falar de namoradas, o que esperam para votar...” -, “pensei que se tinha demarcado dessa região”.
Uma garrafa, quatro pães, um bife, duas doses de batatas fritas, uma salada, um fondant e uma conta benemérita depois, respondi – “eu também”.

Mas enganei-me...  

sábado, novembro 09, 2013

Coliseu, Sábado à noite.

Maria,
Não deixa de ser caricato, pedir desculpa pelo atraso de uma carta que nada me garante ser lida. E no entanto faço-o. Como se tivesses perguntado “que tal correu?” e o silêncio vivesse, culpado e arrependido, uma longa semana depois. Correu bem é curto, a vida plena é cheia de pormenores. Que os Machado Vaz fazem gala de entregar nas mãos da última hora... Resultado –  polvilhámos o Coliseu à distância de números e filas, que não de afectos, as duas cadeiras de orquestra reservadas para os meninos, afinal são vanguarda e hospital de rectaguarda da família.
Sabes que vi Os Azeitonas muitas vezes, mas esta foi diferente, havia sabor a festa no ar e um aconchego todo portuense nos corações; foi diferente. Perigoso também!, a senhora a meu lado dançava de cotovelos bem abertos, mantive o entusiasmo sentado com receio de um grand final na Urgência do Santo António. Espectáculo terminado, banda e filarmónica já desaguando em Passos Manuel, fui em busca dos petizes. E de imediato me dediquei a tarefa obrigatória de Avô, acrescentar um verso à lenda familiar. “Vocês têm sorte”, disse, “Pai e Tio artistas”. Os putos duvidosos, habituados como estão às minhas loucuras, “mas só o Tio João é músico”. Era a deixa que esperava para dissertar com abundante ignorância sobre o estatuto da arquitectura, “voilà” (guardei o q.e.d. para mim, presumo que terão escapado ao rosae, rosarum, pois se nem o meu amado francês dominamL).
E o Gaspar, sorriso maroto em punho, ripostou – “a Psicologia também é uma Arte, Avô Júlio”. Imaginas o que aconteceu – o nome voou para quem mo legou, o miúdo exibia elegância ternurenta que parecia jorrar dos neurónios florentinos de meu Pai, fiz-lhe um afago no cabelo para compensar a greve de palavras que o nó na garganta decretara. Na rua a festa continuava,  desci rumo a automóvel e noite de sono antecedida de memórias, vi “O dia mais longo” naquela sala com minha Mãe segredando, encantada – “o teu Pai no cinema, é um milagre”. Não era, o  velho estudava a Segunda Guerra Mundial com desvelo de coleccionador, abrira uma excepção em rotina de noites caseiras para confirmar suspeitas, “o livro é melhor”.

 Imerso no passado, notei o presente à queima-roupa, o João aflorava-me o ombro, um descia e outro subia, rua e vida!, a imagem é adequada. Chamei-o, a medo e envergonhado, a rua era de todos, mas à festa não pertencíamos eu e a minha nostalgia. Abençoada surdez o feriu, egoísta desconsolo se me pendurou ao pescoço por breves instantes, miúda eufórica o substituiu, “deve estar tão orgulhoso, gosto muito do seu filho”. E seguiu-o, corrente acima, amantes da pop e salmões devem ter algo em comum! De novo meu Pai, afectuosamente irónico – “sou marido e pai de vedetas”. Divorciado, a frase inteira está-me vedada, mas quando olho os meus rapazes, entendo, reivindico e saboreio a segunda parte dela...