segunda-feira, janeiro 22, 2007

E o nevoeiro que estava no Parque das Nações? Brrr...

Porque o PS me pediu autorização para fazer circular a minha intervenção na Conferência de Sábado em Lisboa, decidi que o Murcon tem prioridade no que às minhas ruminações diz respeito:).





Este nosso encontro era para mim um compromisso de honra, assumido no Fórum Novas Fronteiras. Não sou hipócrita – até alguns dias atrás, tive fundadas esperanças de estar convosco no meu Porto, a dois minutos de casa. Mas se a hipocrisia não faz parte do meu carácter, os traços paranóides abundam nele. E segredam-me que este convite só pode ter uma explicação: o Engenheiro José Sócrates, nos intervalos da governação, diverte-se obrigando-me a passar tardes de Sábado em Lisboa!
Delírio de perseguição controlado, o que nos reúne hoje? Uma campanha que é uma segunda oportunidade para todos. E o “todos” não denuncia oportunista reconciliação amnésica, ditada pela proximidade da contagem de votos que carimba vencedores e vencidos. De modo algum. Falo de oportunidade, jamais empregaria a palavra tentativa. Pela triste razão que há oito anos verdadeiramente não tentámos todos.
Imagino a suspeita que vos assola – “o homem vai repetir a ladainha das Novas Fronteiras e zurzir a inércia do PS”. Não vou. O que havia a dizer foi dito. O passado não esquece, mas é digerido, sob pena de bloquear o futuro. E será o futuro a ocupar-nos nas próximas semanas. A todos. Aos que se fazem à estrada, mas também aos que no primeiro referendo preferiram a praia, repousaram à sombra de sondagens ou assinaram um armistício com a hesitação e ficaram em casa. Primeiro, livres da angústia da tomada de decisão; depois, presos de culpa surpreendida – “o que não fiz eu e quais serão as consequências?”.
Oito anos volvidos, seria fácil decretar chegado o momento de corrigir tal displicência, e por isso esquecê-la. Não podemos. Mesmo que o Sim ganhe, como desejamos. Porque esta segunda oportunidade não surge depois de um intervalo asséptico, da espera monótona que apenas pôe à prova paciências e egos, de dias sem história. Bem pelo contrário!, houve gente a pagar um preço demasiado alto, gente que tinha o direito de ser poupada a degradantes provações. O circo mediático a que assistimos no passado recente alimentou-se da violação de privacidades, da angústia provocada pela exposição pública, da humilhação de pessoas obrigadas a esperar da Justiça o que ninguém lhe deve pedir num Estado de Direito – que em vez de ser democrática e rigorosamente cega, desvie olhar e penas; assim se substituindo a decisões que são da responsabilidade do povo através dos seus representantes.
Essas escapatórias legais, quando acontecem, por bem intencionadas e eficazes que pareçam, reforçam o paradoxal discurso que invoca a não aplicação da lei para defender a sua manutenção. Eis-nos em pleno surrealismo: uns recusam a aplicação da lei por a considerarem injusta; outros exibem o seu tornear para lhe reclamar a sobrevivência, aos gritos de “não são presas, não são presas!” Como se a ausência de mãos nas grades libertasse alguém da obscena devassa infligida por todo o processo… E por simples higiene mental não me referirei a certas propostas de penas alternativas que já li e ouvi por aí. Delas se desprende um forte odor a reeducação, caridadezinha e superioridade moral que considero incompatíveis com o respeito que um Outro – ainda por cima fragilizado! – nos merece.
Digamo-lo com clareza, e fá-lo-emos as vezes que forem necessárias – o que está em jogo, e em absoluto defendemos, é a despenalização da interrupção da gravidez por opção da mulher nas primeiras dez semanas e em estabelecimento de saúde legalmente autorizado. Em termos práticos, a que tem conduzido a lei vigente, provada que está a ausência de qualquer efeito dissuasor? À liberalização do aborto clandestino, com os resultados que todos conhecemos, ao nível da saúde física e psicológica das mulheres; quem frequentou ou frequenta os Serviços de Urgência conhece-os bem, por mais que diminuam as situações de vão de escada. O que somos chamados a decidir é se pessoas que tomaram uma decisão de foro íntimo, na esmagadora maioria dos casos dilacerante, têm ou não o direito de enfrentar um período difícil com ajuda profissional e sem a palavra crime e suas consequências à espreita. A escolha com que nos deparamos é esta e só esta.
Significa a firmeza da afirmação que me declaro indisponível para abordar factos laterais, surgidos na viva discussão que envolve um tema tão afectivamente carregado? De modo algum, recuso apenas que mascarem ou distorçam a questão de fundo. Com tal precaução em mente, e feita a triagem entre factos e simples barulho de fundo, a troca de opiniões revela-se intelectualmente estimulante e susceptível de provocar avanços na conceptualização dos problemas e na sua abordagem prática. Darei um exemplo egoísta, por se enquadrar na minha actividade profissional como psiquiatra.
Na última semana muito se falou da existência de um stress pós-traumático relacionado com o aborto, que poderia mesmo, em certos casos, desaguar no suicídio. Colegas meus salientaram – e bem! – que tal entidade não consta de nenhuma das classificações da Organização Mundial de Saúde ou da Associação Americana de Psiquiatria. Mas entendamo-nos: muito antes de ler sobre os veteranos da Guerra do Vietname ou – infelizmente… - os da nossa Guerra Colonial, ouvi mulheres descreverem sintomas compatíveis com o diagnóstico de stress pós-traumático. Como escutei de outras relatos em que o alívio imperava, seria desonesto decretá-lo um mecanismo de defesa contra a culpa ou sinal de psicopatia empedernida. E, mais vezes ainda, ouvi mulheres descreverem a angústia da indecisão e a tristeza da decisão, para terminarem com uma frase que ligava presente e passado, desejo e necessidade - “mas em condições semelhantes faria o mesmo”.
Especificamente no que ao suicídio diz respeito, determinado estudo de autores finlandeses autores debruçou-se sobre as suas relações com o parto e os abortos espontâneos e provocados. Citarei ipsis verbis a parte final das conclusões: “A relação entre suicídio, desordens mentais, acontecimentos de vida, classe social e apoio social é complexa. O aborto poderia traduzir uma selecção de mulheres com maior risco de suicídio por razões como a depressão. Outras explicações para a taxa mais alta de suicídio após um aborto provocado poderiam ser a baixa classe social, o baixo apoio social e acontecimentos de vida anteriores; ou a prática de aborto ser escolhida por mulheres que estão em maior risco de suicídio por outras razões. O aumento do risco de suicídio após um aborto provocado pode, além de indicar factores de risco comuns aos dois comportamentos, resultar de um efeito negativo do aborto no bem-estar mental da mulher. Contudo, a partir dos nossos dados, não foi possível estudar a causalidade de modo mais cuidadoso. Não obstante, os dados mostram claramente que as mulheres que passaram por um aborto provocado enfrentam um maior risco de suicídio, facto que deve ser levado em conta na prevenção de tais mortes”.
Repararão no cuidado posto nas palavras: as relações entre os diversos factores de risco e o suicídio são complexas; outras explicações, que não o aborto em si mesmo, são possíveis, ou anteriores a ele; não é exequível decidir se há uma comunhão de factores de risco ou se o aborto provocado actuaria “a solo”; a recusa em estabelecer um nexo de causalidade é claramente assumida; o aumento de risco verificado conduz os autores a preconizar o levantamento da existência de abortos prévios para uma melhor prevenção do suicídio. Não do aborto…
Porque não me deveria debruçar sobre tal estudo? Por não o considerar credível? De modo algum. Por medo de um eventual efeito devastador das suas conclusões sobre a posição que defendo nesta campanha? A ser verdade, tal esquiva demonstraria lamentável desonestidade intelectual. Pelo contrário, o estudo fez-me reflectir e desenvolver o pensamento sobre a matéria. Ora vejamos: se há consenso entre defensores do Sim e do Não é no reconhecimento da violência psicológica que implica a hipótese de interromper uma gravidez. Como surpreender-nos então que tal acontecimento de vida, como outros, possa ter um efeito negativo em certas mulheres? Trinta anos de profissão dedicada à escuta possibilitaram-me ouvir de tudo, como já disse – a maior das culpabilidades, o alívio puro e simples, a mistura subtil dos mais diversos afectos.
Não tenho por isso nada a objectar ao estudo, e sim a acrescentar. Num país em que a interrupção voluntária da gravidez nas condições da pergunta é crime, qual será a influência de tal variável? Também eu serei cauteloso na hipótese colocada: ficaria muitíssimo surpreendido se a criminalização, com as respectivas consequências, fantasmáticas e reais, não se juntasse aos factores gerais de risco para a saúde mental das mulheres. A minha divergência com os meus colegas limita-se, portanto, a dois aspectos: não acredito que o conhecimento de uma relação hipotética e multifactorial entre aborto provocado e stress pós-traumático ou suicídio seja dissuasor de uma decisão que ultrapassou obstáculos bem mais prementes. Que ribombam nas cabeças das mulheres em causa!, ou defenderá alguém a hipótese absurda de serem precisamente elas as únicas pessoas a rejeitarem por princípio o aborto? Além disso, não tenho dúvidas em afirmar que o regime legal português torna mais difícil a prevenção de que os autores finlandeses falam, ao diminuir as hipóteses de apoio médico e social e dificultar a própria abordagem do tema.
Desvio feito, permitam-me uma confissão em jeito de desabafo. Não sou capaz de meter no mesmo saco todos os desafios lançados para a discussão. Uma coisa é pensar sobre um artigo científico que formula hipóteses, reconhece limitações e aponta objectivos que merecem o apoio de todos. Outra é esperar que cale a minha indignação quando vejo cartazes que falam de impostos e clínicas de aborto. Primeiro porque, como outros já salientaram na imprensa, os nossos impostos também pagam os processos judiciais; depois, porque é de particular mau gosto e oportunismo invocar o dinheiro, quando os portugueses são obrigados a não poucos equilíbrios para o fazerem chegar ao fim do mês; por último, e sobretudo!, porque colocar aspectos financeiros ao mesmo nível de argumentos éticos, quando se discute o sofrimento humano e estratégias para o minorar, é, na minha opinião, mesmo numa sociedade capitalista, simplesmente obsceno. De tal forma obsceno, que remete para a gaveta das boutades as ameaças de excomunhão e um extraordinário vaticínio - em caso de vitória do Sim, o aborto tornar-se-á tão banal como o telemóvel!
Eu falei de desvio. Longo e causado pela deformação profissional, mas desvio.Voltemos à única questão que estará sujeita a votação – deve a mulher poder optar por interromper uma gravidez durante as primeiras dez semanas em estabelecimento de saúde legalmente autorizado? Ou continuar refém da lei actual, que a empurra para o liberalizado aborto clandestino? Nós pensamos que não e por isso nos vamos bater. Antes de mais tentando reduzir a abstenção. Por razões de eficácia? Seguramente. Não é preciso ser psiquiatra para perceber que o receio de um falso mas anunciado “vale-tudo” poderá manter portas adentro potenciais apoiantes do Sim. Mas também por respeito pelo próprio instituto do referendo, que saiu maltratado das duas últimas consultas populares.
E no que à abstenção diz respeito, serei de uma franqueza brutal: contribuí, modestamente, para a eleição deste Governo. Não me arrependo, mas esta minha presença não traduz apoio incondicional a toda a sua prática. A alguma dela já franzi o sobrolho, sem contemplações ou dramas, é assim a Democracia. Não vim aqui hoje para apoiar o Governo ou sequer o PS, e sim para me juntar ao segundo numa luta que deve incluir os partidos, mas em absoluto os transcende.
Por isso me atrevo a fazer um pedido que, espero eu, possa encontrar eco para lá destas paredes, no eleitorado em geral. Não deixem que eventuais amuos, legítimas queixas ou até situações dramáticas vos afastem do cerne da questão: o que está em causa a 11 de Fevereiro é a possibilidade de evitarmos a repetição dos factos macabros a que assistimos aquando de recentes julgamentos. E dos que acontecem todos os dias sem o nosso conhecimento. Factos que provocam enorme dor a pessoas que a não merecem. Seria trágico perder esta oportunidade por alguns decidirem ficar em casa para demonstrar desacordo com a governação. O tempo para isso chegará. E depois dele outros, ao ritmo paulatino dos ciclos eleitorais. Mas este é diverso e já foi desperdiçado uma vez, não haverá desculpas para uma derrota provocada pela confusão de realidades que nada justifica misturar. O que vai a votos não é o Governo; mas o tirânico desgoverno provocado por uma lei anacrónica.
Cabe-nos lutar para que um povo capaz de semear bandeiras alegres nas janelas em apoio a uma selecção, ou demonstrar comovente solidariedade branca com Timor, não se recuse, melancolicamente, a demandar uma assembleia de voto para pôr fim a dramas que acontecem – clandestinos ou nem tanto… - no meio dele. Se o fizermos, seja qual for o resultado, dormiremos na noite de 11 de Fevereiro com a consciência tranquila. Cinquenta e sete anos de vida ensinaram-me que tão simples facto é já uma vitória.
Mas não chega, queremos a outra. E se, por absurdo ou gentileza desmesurada, a alguém depois lembrasse dizer “obrigada”, estou seguro que todos vocês me acompanhariam na resposta – “Não tem de quê. Nós é que pedimos desculpa pelo atraso”.

domingo, janeiro 21, 2007

Estou de acordo. Se o Sim ganhar há precauções a tomar, em prol da livre opção da mulher.

Referendo sobre o aborto Anselmo BorgesPadre e professor de Filosofia

Numa questão tão delicada, com a vida e a morte em jogo, não se pretende que haja vencedores nem vencidos, mas um diálogo argumentado, para lá da paixão e mesmo da simples compaixão. Ficam alguns pontos para reflectir. 1. O aborto é objectivamente um mal moral grave. Aliás, ninguém é a favor do aborto em si, pois é sempre um drama.2. A vida é um bem fundamental, mas não é um bem absoluto e incondicionado. Se o fosse, como justificar, por exemplo, o martírio voluntário e a morte em legítima defesa?3. Para o aparecimento de um novo ser humano, não há "o instante" da fecundação, que é processual e demora várias horas.A gestação é um processo contínuo até ao nascimento. Há, no entanto, alguns "marcos" que não devem ser ignorados. É precisamente o seu conhecimento que leva à distinção entre vida, vida humana e pessoa humana. O blastocisto, por exemplo, é humano, vida e vida humana, mas não um indivíduo humano e, muito menos, uma pessoa humana.Se entre a fecundação e o início da nidação (sete dias), pode haver a possibilidade de gémeos monozigóticos (verdadeiros), é porque não temos ainda um indivíduo constituído.Antes da décima semana, não havendo ainda actividade neuronal, não é claro que o processo de constituição de um novo ser humano esteja concluído. De qualquer modo, não se pode chamar homicídio, sem mais, à interrupção da gravidez levada a cabo nesse período.4. Sendo o aborto objectivamente um mal, deve fazer-se o possível para evitá-lo. Tudo começa pela educação e formação. Impõe-se uma educação sexual aberta e responsável para todos, que, não ficando reduzida aos aspectos biológicos e técnicos, tem de implicá-los, fazendo parte dela o esclarecimento, sem tabus, quanto à contracepção.5. O aborto é uma realidade social que nem a sociedade nem o Estado podem ignorar. Como deve então posicionar-se o Estado frente a essa realidade: legalizando, liberalizando, penalizando?6. Não sem razão, pensam muitos (eu também) que, se fosse cumprida, a actual lei sobre a interrupção da gravidez, permitida nos casos de perigo de morte ou grave e duradoura lesão para a mãe, de nascituro incurável com doença grave ou malformação congénita e de crime contra a liberdade e autonomia sexual (vulgo, violação), seria suficiente. 7. De qualquer forma, vai haver um referendo. O que se pergunta é se se é a favor da despenalização do aborto até às dez semanas, em estabelecimentos devidamente autorizados, por opção da mulher.Por despenalização entende-se que, a partir do momento em que não há uma pena, a justiça deixa de perseguir a mulher que aborta e já não será acusada em tribunal. Aparentemente, é simples. Mas compreende-se a perplexidade do cidadão, que, por um lado, é a favor da despenalização - despenalizar não é aprovar e quem é que quer ver a mulher condenada em tribunal? -, e, por outro, sente o choque de consciência por estar a decidir sobre a vida, realidade que não deveria ser objecto de referendo. O mal-estar deriva da colisão dos planos jurídico e moral.8. Impõe-se ser sensível àquele "por opção da mulher" tal como consta na pergunta do referendo, pois há aí o perigo de precipitações e arbitrariedades. Por isso, no caso de o "sim" ganhar, espera-se e exige-se do Estado que dê um sinal de estar a favor da vida.Pense-se no exemplo da lei alemã, que determina que a mulher, sem prejuízo da sua autonomia, deve passar por um "centro de aconselhamento" (Beratungsstelle) reconhecido. Trata-se de dialogar razões, pesar consequências, perspectivar alternativas. A mulher precisará de um comprovativo desse centro e entre o último encontro de aconselhamento e a interrupção da gravidez tem de mediar o intervalo de pelo menos três dias. As custas do aborto ficam normalmente a cargo da própria.O penalista Jorge Figueiredo Dias também escreveu, num contexto mais amplo: "O Estado (...) não pode eximir-se à obrigação de não abandonar as grávidas que pensem em interromper a gravidez à sua própria sorte e à sua decisão solitária (porventura na maioria dos casos pouco informada); antes deve assegurar-lhes as melhores condições possíveis de esclarecimento, de auxílio e de solidariedade com a situação de conflito em que se encontrem. Sendo de anotar neste contexto a possibilidade de vir a ser considerada inconstitucional a omissão do legislador ordinário de proporcionar às grávidas em crise ou em dificuldades meios que as possam desincentivar de levar a cabo a interrupção".

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Dúvida que partilho.

Fé, emoções e Código Penal Ana Sá Lopesana.s.lopes@dn..pt

A força da campanha do "não" é a sua ferocidade emocional, alicerçada em questões de fé, respeitáveis mas inexplicáveis à luz do direito penal, que tenta reger as coisas dos homens e não as coisas de Deus. Ao entregar a revisão do Código Penal ao voto popular, o legislador optou por sujeitá--lo à fé e às emoções. Visto a oito anos de distância, percebe-se facilmente a vitória do "não" num referendo em que mais de metade do eleitorado achou que não tinha nada a ver com o assunto. É esta a vantagem do "não" - que parte com a clara vantagem de uma experiência alicerçada em 2000 anos de história. Chamar ao embrião "bebé" ou "pessoa", por exemplo, é meio caminho andado para a criação de um clima de culpabilização agregador de adeptos ou de tendenciais abstencionistas. Mesmo que esses adeptos sejam os que concordam com a lei vigente - aquela que admite "matar" "pessoas" na barriga de uma vítima de violação ou "pessoas" deficientes, estas com 24 semanas de gestação! A força do "não" passa por uma fantástica organização e por uma capacidade exponencial de militância - viu-se na capacidade mobilizadora que permitiu a multiplicação de movimentos, vê-se no trabalho paroquial seja do bispo da Guarda que compara o aborto à pena de morte aplicada a Saddam Hussein ou no cónego jurista canónico de Castelo de Vide, que garante que um cristão que vote "sim" arrisca-se à excomunhão e não pode ter um enterro religioso. Francisco Louçã contestou uma ideia que escrevi aqui sobre o risco do "sim" perder votos em cada dia que passa. É verdade que algumas "condições objectivas" melhoraram relativamente a 1998: a despenalização deixou de ser uma coutada da esquerda, os católicos pela despenalização apareceram, os médicos envolveram-se e o PS e o primeiro-ministro comprometeram-se. Mas talvez não chegue se os cidadãos e as cidadãs que não querem ver julgadas as mulheres que praticaram abortos se resolverem desinteressar, enfastiar ou votar com a fé ignorando que está em causa a justiça e o Código Penal. É o risco em aberto, é o desafio colocado a todos os que são contra a penalização.

Nós, os mais velhos, que nunca estudámos...

Quem votar 'sim' fica sem funeral religioso Hugo Teixeiraem Portalegre

"Os cristãos que vão votar 'sim' no referendo serão alvo de excomunhão automática, a mais pesada das censuras eclesiásticas", garante o cónego Tarcísio Alves, pároco há cinco anos em Castelo de Vide (Portalegre). A excomunhão automática atinge ainda "todos os intervenientes na execução do crime, como, por exemplo, médicos e enfermeiros", sublinha, enquanto consulta página a página o Código Canónico."Se um católico aceitar a liberalização do aborto incorre na censura da excomunhão e não poderá ser reintegrado na comunidade cristã sem intervenção do bispo", sustenta ainda. Doutorado pela Universidade Católica de Salamanca em Direito Canónico, Tarcísio Alves tem distribuído nos últimos tempos, pelos paroquianos, um boletim informativo em que adverte os devotos para os "perigos" de votar "sim" no próximo referendo e as consequências, junto da Igreja, que poderão sobrevir. "Não fui eu que inventei estas regras, está tudo bem explícito no Cânone 1398" sublinha.Mas o vigário judicial da diocese de Portalegre e Castelo Branco vai mais longe ao alertar os fiéis para "outros perigos" que podem surgir, se no próximo referendo o voto recair no "sim". "Se votar no 'sim' ou se se abstiver, poderá estar também a cometer um pecado mortal gravíssimo. No referendo até as irmãs vão sair dos conventos porque senão também incorrem num pecado de omissão", adverte.Para o clérigo trata-se de "um caso grave", porque todos aqueles católicos que violarem as leis da Igreja sobre este ponto "não podem casar, baptizar-se e nem poderão ter um funeral religioso - Cânone 1331."Tarcísio Alves garantiu ao DN que "não faz política nem fala do caso durante as missas de domingo, mas no seu boletim paroquial e através de e-mails". O cónego promete continuar a "esclarecer a população e a prova disso passa pela edição, ainda hoje, de mais um boletim que no último parágrafo apela mais uma vez ao voto no 'não'".A comunidade católica de Castelo de Vide encara estes "avisos" de forma natural e aplaude a atitude do cónego. "Acho bem que expliquem os perigos do aborto às pessoas, principalmente a nós, os mais velhos, que nunca estudámos. O que sabemos é através daquilo que vemos na televisão", diz Piedade Godinho à entrada da igreja.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Como há mais de um telemóvel por cada português, é só fazer as contas...

Referendo ao aborto
César das Neves diz que Sim tornará o aborto banal como o telemóvel
O economista João César das Neves vaticinou hoje que, se o aborto for despenalizado, este passará a ser uma coisa «tão normal como um telemóvel»


João César das Neves falava durante uma conferência de imprensa com o tema «a liberalização do aborto e aumento do número de abortos», a menos de um mês da realização do referendo sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez até às 10 semanas.
No encontro com a comunicação social, o economista apresentou dados europeus (Eurostat) sobre o crescimento do número de abortos após a sua «liberalização» em países europeus, Estados Unidos e Canadá.
De acordo com estes dados, citados pelo economista, a liberalização conduziu a um «aumento generalizado do número de abortos».
As taxas de crescimento do aborto nos primeiros anos após a liberalização quase triplicaram, disse João César das Neves, acrescentando que «esse crescimento manteve-se até à actualidade, embora a um ritmo mais brando».
Para o economista, este fenómeno «tem um paralelo económico»: a chegada de um produto novo ao mercado.
Tal como aconteceu com os telemóveis, João César das Neves prevê que exista um aumento exponencial do número de abortos, como com os telemóveis adquiridos pelos portugueses.
A «liberalização» do aborto é seguida de «uma cultura abortista, em que este passa a ser uma coisa normal, como um telemóvel».
O economista denunciou ainda que, caso o aborto venha a ser despenalizado até às dez semanas, «muitos médicos que aleguem objecção da consciência para não realizar a intervenção serão prejudicados».
Quando questionado sobre a origem destas informações, João César das Neves disse que chegou a esta conclusão «pensando» e disse recear que «os hospitais - actualmente locais de vida - , passem a ser espaços de morte».
A propósito do financiamento da campanha do Não à despenalização do aborto, a jurista Isilda Pegada disse que estão previstos 400 mil euros, provenientes de donativos dos apoiantes do não.
O novo cartaz da Plataforma Não Obrigada, hoje apresentado, é novamente uma pergunta: «Contribuir com o meu voto para aumentar o número de abortos?».
Lusa / SOL

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Defenda as suas causas numa lógica capitalista:).

Site alemão oferece 'manifestantes de aluguel'

Sergio CorreaDe Berlim


Möller e Kampschulte dizem que um manifestante custa US$ 150
Promotores de causas perdidas ou simplesmente movimentos políticos sem apoio suficiente na Alemanha podem a partir de agora alugar seus próprios manifestantes.
Desde dançarinas de strip-tease até exuberantes Ferraris figuram na relação do erento.com, um site alemão especializado em alugar qualquer coisa imaginável.
Mas a partir deste ano, a empresa começou a oferecer "manifestantes profissionais", homens e mulheres, geralmente estudantes, desocupados e aposentados, que por um pagamento especial se transformam em defensores de qualquer causa que se possa imaginar.
"Abrimos o serviço devido à crescente demanda", dizem os responsáveis pelo Erento, Chris Möller e Uwe Kampschulte. "Em geral, não sabemos o que os manifestantes contratados acabam fazendo, mas naturalmente rechaçamos qualquer forma de agressividade ou extremismo de direita", afirmam.
Honorários
Um manifestante não sai barato. Cada um custa em torno de US$ 150 por dia.
Alguns manifestantes, porém, cobram honorários reduzidos por causas que os interessam.
A empresa fica com 4,9% dos honorários de cada pessoa contratada.
O site da Erento oferece fotos e perfis dos manifestantes
Criar uma manifestação de caráter massivo pode custar uma fortuna. Mesmo assim, a Erento afirma que apenas na primeira semana de janeiro foi consultada por cerca de 50 clientes sobre os serviços desses "mercenários da opinião".
No final do ano, soube-se que uma manifestação em frente ao Parlamento, que reuniu cerca de 200 membros da Associação de Médicos Alemães contra uma nova lei de saúde, havia sido coberta por 150 manifestantes alugados e rapidamente disfarçados com o avental branco.
Alugar manifestantes também pode trazer benefícios de imagem. Se a causa carece de apoio jovem ou de adultos, de imigrantes ou de estudantes, o cliente pode pesquisar as fotos e os perfis de cada "manifestantes" na página da Erento para escolher o que mais lhe favorece.
A empresa também se encarrega de alugar equipamentos como megafones, apitos, caminhões e todo o resto necessário para uma verdadeira manifestação.
A crescente despolitização da população parece fazer com que nem mesmo aqueles afetados diretamente em seus interesses reúnam forças nem ânimo suficientes para sair às ruas.
Os responsáveis pela empresa garantem, no entanto, que é impossível distinguir um manifestante real de um alugado.
Com uma carteira recheada, muitas iniciativas poderiam simular um apoio popular inexistente, um problema que já começa a preocupar juristas e políticos na Alemanha.

terça-feira, janeiro 16, 2007

Bom tema de discussão.

Mulher pode engravidar de soldado morto

2007/01/15 22:36

Que nunca conheceu. Pais de militares fizeram pedido formal

Um tribunal israelita aprovou esta segunda-feira, numa decisão sem precedente, a utilização do esperma de um soldado morto para inseminar uma mulher que ele nunca conheceu, depois de um pedido formal formulado pelos pais do militar, noticia a agência Lusa.
A família do soldado Keivin Cohen, morto em 2002 por um tiro de palestinianos, apresentou ao tribunal de Telavive um pedido dando conta do «desejo (do soldado) de poder fundar uma família», indicou fonte judicial.
Uma amostra do esperma do militar de 20 anos foi conservada pela mãe depois da sua morte e esta iniciou os processos judiciais para poder inseminá-lo, embora o soldado nunca tenha manifestado essa intenção.
«Todas as vezes que eu visito a sua campa e lhe toco, recordo como é maravilhoso poder pegar numa criança», declarou a mãe, Rachel Cohen, à cadeia de televisão Channel 10.
Cohen contou que a família lançou um apelo às mulheres e mais de 200 candidatas comunicaram que aceitavam ser inseminadas.
«Há ano e meio que estamos em contacto com uma linda mulher», que deverá ser a mãe de aluguer, salientou.

domingo, janeiro 14, 2007

E por fim...

No dia seguinte comecei a dar à perna com dois objectivos: ver os monumentos e comprar a consciência. Porquê? Não conhecem o método? Ando como um burro – o que só exige modificação às pernas... – e decido ter queimado as calorias suficientes para me conceder os caprichos alimentares. Simples, não é? Bom, quando me preparava para experimentar a tasca recomendada pelo meu filho, o telefone tocou. Foi, de resto, o seu último sinal de vida; apagou-se. Definitivamente. A besta resistiu a todas as manobras de ressuscitação, só não tentei o boca a boca. Senti um arrepio, meia dúzia de anos chegaram para não conseguir sobreviver sem o maldito aparelho. Eu!, que lia o jornal nas bichas para os telefones públicos no estrangeiro quando as saudades da familória apertavam... Pedi socorro ao dono de um café, confortavelmente debruçado sobre jornal desportivo. O homem, pessimista - “só se for no Centro Comercial”. Corri à catedral de consumo. A porta da loja indiferente ao drama – encerramento às 13 horas. Nãããão, eram 13,15! Entrei noutro café, pronto a mergulhar numa cerveja, no alcoolismo, no desespero, no esquecimento. O colo apetecível da patroa; contei-lhe tudo. A boa da senhora ao leme, “vou telefonar à dona da loja, somos amigas”. O bichinho da esperança, tímido. O telefone mudo, “porque não vai o senhor a casa dela?” Fui. Toquei até me doer o dedo, além da alma. A senhora idosa ouviu-me, desconfiada, construir um muro particular de lamentações. Quando terminei, respondeu, com enorme calma, que a dona da loja era a filha (que fez a fineza de chamar). Eu já estava por tudo, puxei a cassete atrás e repeti a lamúria. Ah, as mulheres!, que mistura genial de romantismo e sentido prático: “estou nas limpezas, mas faço-lhe o jeito. Vá o senhor indo e espere por mim, tenho de mudar de roupa”. O credo na boca, não havia a certeza de existir modelo compatível com o meu cartão, as suas explicações atravessavam-me sem deixarem a mais leve impressão digital. Havia. Comprei um té-lé-lé novo, assim desperdiçando todos os pontos avaramente coleccionados no último ano. Invadiu-me um alívio preocupado consigo próprio, quanto tempo duraria? Irrompi por Espanha, com a absoluta certeza de que em breve a ETA falharia um quartel da Guardia Civil, sobrando a bomba para um português azarado, que morreria com estas últimas palavras - “es una injusticia”.
Ronda é um espanto, cidade escarranchada num desfiladeiro vertiginoso. Mas eu continuava furiosamente abraçado ao azedume. Ensaiei o número do português amuado com a terrinha, ao verificar que o Parador era mais barato do que a estalagem alentejana - “e têm eles um salário mínimo que envergonha o nosso, assim não vamos a lado nenhum!” Angustiado pelo imobilismo pátrio, parti a afogar mágoas e mau olhado em sangria e paella. Pelo caminho, avistei ao longe pequena multidão e a megalomania etarra voltou-me ao espírito - “terá sido uma bomba?” Não fora, deparei-me com espectáculo bem menos explosivo. Dois jovens, pouco entusiasmados, bailavam o tango para ganhar uns cobres, sob o olhar distraído de uns e atento mas agarrado ao dinheiro de outros. Lembrei-me de Borges: “Num diálogo de Oscar Wilde lê-se que a música nos revela um passado pessoal que até esse momento ignorávamos e nos leva a lamentar desventuras que não nos ocorreram e culpas que não cometemos; ... Talvez a missão do tango seja essa: dar aos Argentinos a certidão de terem sido valentes, de terem cumprido já as exigências da valentia e da honra”. Mas aqueles dois não estavam certos de nada e o problema não era serem espanhóis e não argentinos. Exalavam uma aura deprimente, com os sorrisos plastificados e os passos correctos mas sem vida. Tive a fantasia cruel de que as poucas moedas que (não) se acotovelavam na boina encarrapitada no gravador acabariam no balcão do MacDonald’s mais próximo. Cada vez menos isento, preparei-me para desancar a paella e a sangria. Foi então que o rafeiro apareceu...
De imediato o bicho me pareceu um compagnon de route na busca de razões para odiar a vida. Os olhos, mais do que famintos, eram lamentosos e lamentáveis, senti que os restos do meu jantar não aplacariam a angústia existencial possível em quem desconhece estar-lhe a morte reservada. Este relâmpago de lucidez filosófica e barata poupou o cristão praticante não filiado dentro de mim – com um olhar clandestino em volta dei-lhe as sobras da paella (que era realmente fracota!). Ouvi o criado enxotá-lo, depois explicar a outra mesa que o cachorro fazia daquele ritual o seu modo de sobrevivência. Sorri interiormente com desprezo, obviamente ele não pressentira a comunhão que se estabelecera entre dois infelizes. A cada naco o olhar do cão esquecia a fome e fitava-me com indiscutível e comovente doçura. A razão só podia ser uma - descobrira o dono da sua vida. A mim de resolver os problemas logísticos, para que me pudesse acompanhar no resto das férias, antes de o aboletar no Porto.
Acabada a refeição, o empregado limpou a mesa; eu vogava ao sabor da sangria e da inesperada solidariedade que encontrara. E eis que o cão desapareceu, em busca de outras sobras, indisponível para deixar o restaurante na sombra dos meus passos. Pensei no assunto. O amor do rafeiro por mim não oferecia dúvida, estava na cara (mais precisamente no focinho!). E no entanto ele partira. Mas deixando-me enorme lição: embora desejoso de me seguir, escolhera ficar. Talvez por lealdade à família, à cidade, ao país, sei lá?, a uma vida de cão, mas que era a sua. Renunciara ao dono ideal sem queixa, uivo ou lambedela húmida e seguira em frente. Pois se ele conseguia, também eu era capaz - atirei a auto-piedade para trás das costas e entrei de férias.
Dias depois, em Granada, outra mesa, outra paella, outro cachorro. Não chincou nada; ignorei-o olimpicamente. Do facto retiro a conclusão de que algo em mim não digerira o heroísmo do de Ronda ao abandonar-me. Que hei-de fazer?, sou humano e possessivo, pagou o cão justo pelo pecador. Nessa altura ocorreu-me que amiúde fazemos isto às pessoas, sobretudo nos labirintos amorosos, trucidamo-las por causa das nódoas negras que outras deixaram. E – perdoem-me a imagem fácil! – acabamos todos a sofrer como cães.

sábado, janeiro 13, 2007

Um bom aviso.

A um mês do referendo Marina Costa Lobo marinacosta.lobo@gmail.comPolitóloga

A um mês do referendo, o jornal Público divulgou na sexta-feira uma sondagem realizada pela Intercam- pus sobre o referendo ao aborto: 62% afirmam que vão votar com toda a certeza, enquanto 38% já assumem algumas reservas quanto à possibilidade de ir votar. A ser este o resultado, estariam por isso largamente assegurados os necessários 50% para que o referendo fosse vinculativo. A sondagem revela ainda que o sim ganharia por uma larga margem: 67% respondem que votariam sim, contra apenas 33% que votariam não à despenalização da IVG.Esta sondagem obviamente agradará aos partidários do sim, mas não devia. Existe um conjunto de razões que sugere cautela aos partidários do sim, entre os quais me conto, em relação a estes dados.Em primeiro lugar, não é de mais lembrar que uma sondagem reflecte a realidade da opinião pública nesse momento e não o que será o resultado final. Quanto maior o tempo que medeia entre a sondagem e a consulta popular, maiores as probabilidades de haver diferenças entre os resultados de uma e de outra. Entre esta sondagem e o referendo decorrerá todo o período de campanha: a julgar pelo número de movimentos registados (até quinta- -feira estavam registados 15 movimentos que irão fazer campanha pelo não; e seis movimentos pelo sim), e os argumentos esgrimidos, a campanha arrisca-se a azedar. Quando esta começar, é possível e mesmo provável que haja mudanças de posicionamento por parte do eleitorado. Os estudos sobre comportamento eleitoral que visam as eleições legislativas e presidenciais em Portugal têm mostrado que cerca de um quinto do eleitorado toma a sua decisão de voto nas últimas duas semanas. Numa questão relativamente complexa como o aborto, a natureza dos argumentos a que se é exposto deverá ser fundamental para a decisão final.Em segundo lugar, as próprias sondagens publicadas em que um lado surge como vencedor à partida, tal como esta, podem ter um efeito perverso: neste caso, a sondagem pode desmobilizar os partidários do sim, na medida em que estes poderão considerar que o seu voto é desnecessário à vitória que já se afigura como certa; pelo contrário, a esta sondagem irá mobilizar o campo do não, onde claramente todos os votos são cruciais. Novamente, a campanha torna-se fundamental para manter o interesse e impedir a desmobilização do "sim".Em terceiro lugar, e como exercício de lucidez, vale a pena olhar para sondagens realizadas em igual período no anterior referendo ao aborto de Junho de 1998. Antes disso, recordemos os dados-chave desse referendo: apenas 32% dos portugueses foram votar; destes, 51% votaram contra e 49% votaram a favor da despenalização. Ressalvando as devidas diferenças metodológicas, uma sondagem do Expresso/Euroexpansão elaborada a um mês desse mesmo referendo e publicada a 6 de Junho de 1998 declarava que "a esmagadora maioria dos portugueses (81%) tem a intenção de votar no referendo sobre a despenalização do aborto, dia 28 de Junho. Ainda de acordo com esta consulta, o 'sim' ganha por 25 pontos percentuais e o número de indecisos é consideravelmente baixo: a cerca de um mês da realização do referendo, apenas 9% ainda não sabem como irão votar." Outras sondagens realizadas antes do referendo de 1998 corrobora- vam as conclusões do Expresso, nomeadamente as publicadas pelo Diário de Notícias. Embora as sondagens mais próximas do dia da consulta fossem indicando que a diferença percentual entre os apoiantes do "sim" e os apoiantes do "não" diminuía, estas sondagens davam a vitória ao "sim".Em quarto lugar, e tal como é referido no Público de ontem, os dados devem ser olhados com cautela porque nesta sondagem são os jovens (18-34 anos) o grupo etário que está neste momento mais convicto de que vai votar, com apenas 8% indicando não ter intenção de o fazer. Ora todos os estudos existentes nacionais e internacionais mostram que são precisamente os jovens os que se abstêm mais. Há boa vontade e boas intenções, mas no próprio dia é este grupo etário o que mais falha no seu dever de voto.Estas considerações devem ser suficientes para que a mobilização não seja descurada pelos partidários do sim.
Não quer isto dizer que aprove a medida anunciada na sexta-feira pela RTP, de colocar os tempos de antena às 19.00 de forma a minimizar o impacto dos movimentos de cidadãos maioritariamente a favor do não. Este é claramente um atentado contra a participação da sociedade civil que o PS tantas vezes apregoa, e é por isso inaceitável. O PS e o Governo devem tentar moldar e dominar o debate, mas não através da mudança das regras do jogo a meio, e sim pelos argumentos de que dispõem.

P.S. Tendo sido esta a motivação da RTP, ou a de não prejudicar audiências, partilho a opinião da autora - é inaceitável num canal de serviço público.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Segundo movimento...

Pensava eu... Levantei-me bem disposto, quase enérgico. Verificar os últimos pormenores. Pus as lentes entre mim e o sol prometedor lá de fora, afinal ia guiar umas centenas de quilómetros. Sujas, como de costume. Limpei-as vigorosamente. Tão vigorosamente que uma delas se lançou em voo picado rumo à catástrofe! Do mal o menos, aterrou na cama, talvez ainda sonolenta. Que fazer? Pergunta idiota por académica, teria de passar pelo oculista. Rangi os dentes. E se – para não falar do atraso... - as boas senhoras não me resolvessem o problema? Seria obrigado a levar as minhas velhas cangalhas, em pleno gozo de reforma bem merecida.
Mergulhei no quarto de banho, imerso num desânimo irritadiço. Talvez com o fito de o descarregar, servi-me da máquina de barbear como de punhal apontado à garganta de um inimigo. As consequências foram imediatas e ardentes – o meu queixo entrou em pé de guerra. Fiquei estarrecido. Conheço de ginjeira essas infecções preguiçosas que acabo por vergar com antibióticos auto-prescritos, à revelia de opinião médica responsável. Quase investi para o saco em busca da embalagem. Mas..., e se me atacasse a vesícula? Apavorou-me a hipótese de avançar para as minhas queridas e sexy tapas espanholas já inferiorizado! Fazendo figas, telefonei à colega dermatologista que no ano passado me salvou de uma alergia desesperante. Foi por um triz, também estava a caminho de férias. Ouviu-me com paciência evangélica. E divertido escândalo - “antibiótico?!?!” -, acusou-me de matar moscas com balas de canhão que poderiam ser necessárias um dia mais tarde. Cada vez mais tarde me via eu a partir!, o remédio que gentilmente sugeriu acrescentava a farmácia ao oculista...
Acelerei para a garagem, tentando calcular a dimensão do futuro atraso. Não me ocorreram maus presságios sobre a mecânica, guio carro filho da orgulhosa eficiência germânica. Uma luz vermelha resistiu ao apagar de todas as outras no painel dos instrumentos. Pareceu-me tarde para manifestação de solidariedade com a última – salvo seja! - vitória do Benfica e cedo para triunfalismo referente à próxima jornada. A minha lendária ignorância empurrou-me para o livro de instruções. Folheei-o apreensivo, seria grave? Não, apenas uma lâmpada fundida. Apenas... Já imaginava a polícia espanhola – importa-se usted de pôr o pé no travão para nosotros vermos se as luces de los mismos funcionam? Depois a multa, eu sem euros que chegassem, todos a caminho do multibanco mais próximo, o tempo perdido, o bolso emagrecido...; além do oculista e da farmácia passaria pela BMW.
As técnicas estranharam o meu modo brusco, pedi-lhes desculpa e dei um pulo à farmácia mais próxima. A senhora que esperava pelos seus anti-reumáticos perguntou-me se tencionava regressar ao pequeno ecrã, mas respondeu por mim – “eles só querem lá mulheres nuas!”. O que definitivamente me exclui. Voltei ao oculista. Questão de parafusos (já me têm acusado de ter alguns a menos!). Se voltasse a acontecer, em qualquer lugar do mundo me resolveriam o problema. Sorriso amarelo, esperava bem que não. Voei para a oficina. Uma estranha calma e o guarda tristonho, “estamos fechados para férias”. Alternativa? Dar um pulo a Valadares, nos arrabaldes de Gaia. Rangi os dentes e decidi recorrer a mão de obra perto de casa. A garagem a abarrotar de carros alheios e eu rastejante, “vou para Espanha, se me desse uma ajudinha...”. O mecânico, sobrolho franzido - “travões? Isso leva tempo!” Expliquei laboriosamente que o malfadado livrinho falava das luzes dos travões e não deles mesmos. O rosto permaneceu fechado. Exibi a teimosia vermelha no painel. Desprezo espantado – “por que falou de travões? São os stops, homem!” Stop, Júlio, olha a tensão arterial! Engoli a resposta furibunda e fui recompensado - em cinco minutos o problema estava resolvido. Despedi-me da tribo em derrapagem mais ou menos descontrolada, e avancei para a estrada com um terrível pressentimento. Nem o espectáculo maravilhoso do fim da tarde alentejano o abanou – as férias estavam amaldiçoadas.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Velharia incriminatória:).

Calimero em férias (I)



A auto-piedade goza de péssima reputação. Uma das razões para esse olhar de través parece-me de índole religiosa – a comiseração deve ser monopólio do Senhor, made in Heaven. Buscar refúgio sob um manto de pena e infortúnio tecido pelas nossas próprias mãos assume foros de pecaminosa arrogância. Como se um pedinte embolsasse esmola por artes mágicas e não fosse obrigado a solicitar a compreensão do transeunte, assim reduzido à impotência anónima. (Veja-se o brando orgulho com que algumas benfeitoras do antigamente falavam dos “seus” pobres). Mas outro factor acirra os ânimos, neste mundo que cultiva a preguiça consumista, disfarçada de agitação frenética – a tonalidade estática do sentimento, o seu imobilismo complacente. A contemplação piedosa das nossas feridas – e umbigo! - horroriza igualmente a tradição judaico-cristã e a laica sociedade pós-moderna: a primeira por recusar a salvação através do arrependimento humilde; a segunda por se oferecer o luxo de abandonar por momentos a pista da vida e o acelerador (lá diziam Lennon e MacCartney: “step on the gas and wipe that tear away”). Somos culpados de soberba imóvel!
Perdoem o plural, é seguramente injusto; eu!, sou dado a episódios de irresistível megalomania infeliz. Megalómanos sim, pois não me basta lamber amorosamente as cicatrizes - decido que o mundo se absteve de girar e todo se dedicou à volúpia de me infernizar a vida. Triste e revoltado, se pusesse uma casca de ovo na cabeça, à laia de boina basca, seria capaz de dizer como Calimero: “It’s an injustice; it is”. Para cúmulo, à mania das grandezas junto a superstição. Não a tradicional, que tempo e povo legitimam - gatos pretos, sete anos de casamento, espelhos quebrados, pedir o campeonato para o Benfica, etc... -, mas a decorrente da minha estrutura mental - católica, embora vazia de Deus. Assim, quando o mundo parece disposto a conceder-me o gozo, adivinho-o ameaçador, pronto a fazer-me pagar pelo prazer que não mereço. Exemplo desse receio de pecador clandestino? A partida para férias.
A idade foi-me tornando meticuloso. Melhor: desconfiado de mim mesmo e do destino; da capacidade para fintar os imprevistos e iludir os caprichos do acaso que transformamos em fado, nesta imensa nostalgia de pôr alguma ordem no universo. Procuro, por isso, reduzir as hipóteses de surpresas desagradáveis. Faço as malas de véspera e durmo em casa como se pernoitasse em hotel de beira-estrada; mesmo as totémicas fotografias da tribo deixam a mesa de cabeceira e já passam a noite dentro do saco. De manhã distribuo saudades antecipadas e hop!, venha a estrada.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

À custa de malabarismos dos juízes?

Aborto: cartaz do PS é «fraudulento»
2007/01/10 15:37
CDS quer retirada da campanha que «transmite a ideia de que está em causa manter a prisão»

O CDS-PP desafiou esta quarta-feira o PS a retirar um cartaz que considera «fraudulento» no apelo à despenalização do aborto e exigiu ao ministro da Justiça que esclareça se existem em Portugal mulheres presas pela prática de aborto.
O cartaz do PS em causa, que está na rua desde terça-feira, contém apenas uma pergunta: «Abstenção para manter a prisão?».
«O CDS-PP protesta pelos cartazes lançados pelo PS na pré-campanha para o referendo em que se transmite a ideia de que está em causa manter a prisão, o que constitui, como toda a gente sabe, uma completa, redonda e grosseira falsidade», acusam os democratas-cristãos, num comunicado da comissão executiva do p artido.
Para o CDS-PP, o referendo de 11 de Fevereiro «incide sobre a liberalização do aborto a pedido até às 10 semanas e sua legalização, introduzindo o aborto livre no sistema de saúde».
«Não há em Portugal uma só mulher em situação de prisão por crime de aborto. E muito menos se conhece um qualquer caso de prisão por aborto a pedido até às 10 semanas, como está em causa concretamente no próximo referendo», sublinham os democratas-cristãos.
Por outro lado, acrescentam, «o projecto de lei subjacente ao referendo manteria uma penalização e criminalização do aborto a partir da 11ª semana».
«O cartaz do PS constitui, assim, um apelo fraudulento de um "Sim irresponsável"», conclui o CDS-PP, exigindo esclarecimentos sobre esta matéria ao ministro da Justiça, Alberto Costa.
«Face ao desplante do PS e para que não restem quaisquer dúvidas, é obrigação do ministro da Justiça esclarecer de imediato os portugueses sobre quanta s mulheres estarão eventualmente presas em Portugal por crime de aborto, ou não, e especificamente em prisão por aborto praticado até às 10 semanas», desafiam.
O CDS-PP exorta ainda os socialistas a retirarem o cartaz em causa e a «renunciar a técnicas indignas e vergonhosas de publicidade enganosa, declarando publicamente que não repetirão, nem reincidirão no escândalo da técnica da mentira», que os democratas-cristãos consideram ter sido utilizadas pelo PS nas elei ções legislativas de 2005, em matérias como impostos e portagens nas auto-estradas (SCUT).


P.S. Como prometi, neste blog aparecerão depoimentos de ambos os lados da "barricada". Devo dizer que este argumento é um dos que me parecem mais ilustrativos de uma política de avestruz em relação ao problema. Porque não existem mulheres presas? Porque, sejamos claros, em diversas ocasiões a lei foi "torneada" com diversos pretextos. O que não deve acontecer às leis, pois não? Será de a manter e esperar de quem a aplica a violação de dignidade e competência profissionais para evitar o que horroriza ambos os lados por razões diferentes, a saber, a prisão das mulheres? E basta sair do tribunal em liberdade para esquecer tudo o que de sinistro aconteceu durante o processo? Ou deveremos substituir as penas de prisão por "estágios de reeducação moral" para as condenadas? A argumentação baseada na brandura da aplicação da lei cheira a caridadezinha..., à custa, não do bolso, mas do fechar de olhos de outros! Modificada ou não, cumpra-se a lei, sob pena de a ridicularizarmos e à Democracia por arrasto.

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Se sabia tinha levado cobertor:(.

Se me quiserem ver transidinho de frio já têm a última loucura das produções Murcon no dito à beira-mar:). Brrrrr...

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Nós.

Um outdoor da campanha para o Referendo fez-me pensar. Nele se pergunta se estamos dispostos a que o dinheiro dos nossos impostos vá para clínicas que farão abortos. Que sociedade permitimos que crescesse? Todos nós, adeptos do sim e do não? Com receio que as abordagens religiosa, ética, de saúde pública, legal, etc... não chegassem, alguém sacou da manga um argumento que cala fundo em cérebros pós-modernos e endividados - querem ser vocês a pagar? Quando se recorre ao bolso e à carteira para defender a Vida, diz-se alguma coisa acerca da sociedade em questão, a saber, acerca da sua hierarquia de valores. Eles não são apenas indiscutíveis, mas também caros! Pobres de nós - vou repetir - nós todos... - quando tal argumento faz sentido numa discussão destas:(.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Ao que isto chegou:).

Mulheres casadas fantasiam com outro homem
2007/01/03 00:17

Sondagem revela que 76 por cento guarda segredos dos maridos

Uma ampla maioria de mulheres casadas - 76 por cento - reconhece que tem fantasias com um outro homem em lugar do marido, segundo uma sondagem divulgada terça-feira, e noticiada pela agência Lusa.
Um inquérito realizado num universo de mais de 3.000 mulheres casadas dos Estados Unidos revelou que um terço delas (36 por cento) não escolheria o mesmo homem como marido e 20 por cento não sabe se o faria ou não.
A sondagem foi realizada para a revista Woman¿s Day Y AOL.com entre 20 de Setembro e 23 de Outubro, e os seus resultados foram publicados na edição que foi posta à venda terça-feira, revelaram as empresas num comunicado.
A sondagem revela, por outro lado, que 76 por cento das mulheres consultadas guardam segredos para os maridos, e 84 por cento afirma que gostava de saber se o marido a engana com outras.
Deste grupo, 49 por cento admitiu que suspeitou ou chegou mesmo a apanhar o respectivo cônjuge em plena aventura extra-marital. Uma ampla maioria de mulheres casadas - 76 por cento - reconhece que tem fantasias com um outro homem em lugar do marido, e 39 por cento afirma que se apaixona por outros homens de forma constante.
Quanto aos famosos, 31 por cento das entrevistadas considera os actores Ben Affleck e Will Smith como os casados famosos mais atraentes sexualmente.

quarta-feira, janeiro 03, 2007

A "angústia intersticial".

...
É escusado somar estas parcelas.
Eu sei que a conta está errada,
que falta, entre as parcelas, uma parcela de angústia.

E não sei se está em mim se está nas outras.

Jorge de Sena.

segunda-feira, janeiro 01, 2007

A subida de tom.

«Junto com as vítimas dos conflitos armados, do terrorismo e das mais diversas formas de violência, temos as mortes silenciosas provocadas pela fome, pelo aborto, pelas pesquisas sobre os embriões e pela eutanásia» , afirmou Bento XVI na sua mensagem.


Então era isso! As mulheres que ouvi no consultório - e fora dele... - ao longo de trinta anos, algumas acompanhadas pelos parceiros, muitas hesitantes, outras tantas com medo, várias arrependidas, todas mais ou menos entristecidas, tinham algo em comum: o leve (?) odor a terrorismo...

domingo, dezembro 31, 2006

Cadeiras, passas, desejos e outros rituais...

Maralhal,

Um bom 2007! Em breve acontecerá um novo ataque das esdrúxulas Produções Murcon, sempre fiéis ao seu lema - conseguir fazer ainda pior! Eu, pelo menos, consegui - apanhei uma gripe à beira-rio:).

sexta-feira, dezembro 29, 2006

A coberto do balão da Brigada:).

Cantelães. Só saio daqui em 2007. A idade traz a aceitação. Alguns dos meus amigos não percebem como posso meter-me cá em cima no fim-de-semana da passagem de ano. Outros vêm ter comigo:). A aceitação, dizia eu. Compreendo quem não se imagina a mergulhar no minuto a seguir à meia-noite sem música, passas, cadeiras, bailarico, riso alto. Já o fiz, e com prazer. Mas não percebo por que será tão estranho o gozo imenso que retiro do silêncio apenas entrecortado pelo riacho, da conversa preguiçosa, do abraço comovido e singelo, sem estereofonia. Live and let live...

quinta-feira, dezembro 28, 2006

A propósito das taxas de juro...

Na minha terra, não há terra, há ruas;
mesmo as colinas são de prédios altos
com renda muito mais alta.
...
Jorge de Sena, Os Paraísos Artificiais.

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Até dói:(.

Porto está a ficar deserto
2006/12/27 09:14- Jaime Gabriel de Jesus (Agência Lusa)

Em 2011 terá apenas 200 mil habitantes. Gaia e Maia ganham habitantes

O Porto terá apenas 200 mil habitantes em 2011, descendo a um nível demográfico próximo do que tinha no advento da República (183 mil residentes em 1911), segundo uma projecção do Instituto de Ciências Sociais.
A confirmar-se este cenário, o concelho cairá do terceiro para o quarto lugar do «ranking» populacional, atrás de Sintra (que terá quase 480 mil habitantes), Lisboa (471 mil) e Gaia (321 mil).
A maior população do Porto foi atingida em 1981, com 327 mil habitantes, número que desceu para 302 mil em 1991 e para 263 mil em 2001.
Já em 2005, uma contagem inter-censitária do Instituto Nacional de Estatística (INE) revelou que restavam no Porto 233 mil moradores, uma perda de 11,3 por cento em apenas quatro anos.
Em números absolutos, a perda populacional do Porto está abaixo da registada em Lisboa (menos 45 mil habitantes) mas é percentualmente superior à da capital (que teve menos oito por cento).
Em contraciclo, Gaia passou, no último ano, as três centenas de milhar de residentes, consolidando o estatuto de terceiro concelho português mais povoado, que já subtraíra ao vizinho da margem Norte em 2001.
Em 2005, o INE atribuiu ao concelho da margem Sul do rio Douro uma população de 304 mil habitantes, confirmando a tendência crescente evidenciada em sucessivos censos: 1981, 226 mil moradores; 1991, 249 mil; e 2001, 289 mil.
Só um bairro de Gaia, o de Vila D¿Este, freguesia de Vilar de Andorinho, tem mais habitantes do que as quatro freguesias do centro histórico do Porto.
A população de Vila d¿Este está estimada em 17 mil habitantes, mais cinco mil do que a verificada, nos Censos de 2001, nas freguesias portuenses de Sé, S. Nicolau, Vitória e Miragaia. Estas quatro freguesias da zona histórica do Porto perderam metade da população entre 1981 e 2001, passando de 28 mil para 13 mil habitantes.
No mesmo período, o conjunto citadino - que compreende mais 11 freguesias - perdeu 64 mil habitantes, o equivalente ao que o município de Gaia ganhou no mesmo hiato (63 mil).
Mas a perda demográfica do Porto não favoreceu apenas Gaia, já que sete outros concelhos periféricos ganharam, no mesmo período, um total de 90 mil residentes.
Maia foi o município da região que maior crescimento demográfico percentual registou. Entre 2001 e 2005, a população da Maia, concelho imediatamente a Norte do Porto, cresceu 10,8 por cento, somando quase 13 mil novos moradores aos 120 mil que já possuía.

terça-feira, dezembro 26, 2006

O elo.

Maria,
Quando cheguei, o Tiago exigiu que o seguisse à despensa. Explicou-me que ia fazer desenhos "com luz". O brinquedo é engraçado - uma espécie de marcador que deixa o papel marcado..., no escuro! Sentei-me encostado à porta, para evitar que alguém na peugada de molho para o peru nos provocasse um traumatismo craneano ao som de um "mas que raio fazem vocês aqui?" O miúdo transformou a folha de bloco num pequeno farol que lhe iluminava o rosto, diligente e fascinado. Eu chegara de visitar o negro Alzheimer da Mãe, sinistro à luz do sol que entrava pela janela. E naquela despensa, mínima e da cor do breu, quedei-me pensativo, hipnotizado pelo sorriso que inundava a face do Tiago, "estás a ver, Avô Júlio?". Estava. Vi, Maria, vi claramente. Os rabiscos do maroto; e o futuro da lenda familiar no encantamento de um loiríssimo neto:). Encostei-me à porta com mais força. Sou uma ponte entre margens...

sábado, dezembro 23, 2006

Assim seja!

"Não se aprende grande coisa com a idade.
Talvez a ser mais simples,
a escrever com menos adjectivos.
..."

Eugénio de Andrade, O Sal da Língua.


GENTE,

OBRIGADO PELA TERNURA E BOM NATAL.

MURCON.

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Em época de compras:).

LIQUIDAÇÃO (QUASE) TOTAL

EVERYTHING BUT THE GIRL


Acabei de compor Careless e devo confessar que não me sinto melhor - por onde andará Tracey? As últimas semanas foram diabólicas, tudo acabado pela quinquagésima vez, ambos sem autoridade moral para acusações – nem sequer é líquido quem começou a desenhar triângulos… – e agora esta ideia heróica e comercial de gravar Baby, The Stars Shine Bright de qualquer modo. Odeio a conversa acerca de sermos adultos, trabalho é trabalho, etc... Lérias! Assim que vir a letra da canção vai ter uma fúria homérica e aparecer com um namorado pronto a usar só para me agredir. O ambiente vai ser o pior desde que os Beatles gravaram em Abbey Road e partiram em quatro direcções...
Que nos vem a acontecer? Parece ter sido ontem, o americano pela boutique dentro, começou a cheirar por todo o lado, apalpava a roupa como se escolhesse – e assassinasse! – fruta. Assentou um formidável murro no balcão para lhe verificar a resistência, teve o descaramento de meter conversa com os clientes, (talvez tenha desconfiado que eram amigos nossos a fingir de clientela) ah!, como me apeteceu pô-lo na rua com um biqueiro no cu. Tracey e os sonhos de glória…Que mal tinham os espectáculos de fim-de-semana em pubs não selectos? Boa cerveja, à segunda noite os clientes pareciam velhos compagnons de route. Não eram fãs mas prata da casa, aceitavam-nos sem truques de estúdio, o mais das vezes nem palco havia. E Tracey, o dedo acusador, patati patata, a minha falta de ambição, trauteava Lennon e McCartney fora do contexto – como agora se diz, para fazer passar a mensagem… –, Baby, You Can Drive My Car, Yes I’m Gonna Be a Star. Ainda acaba por acertar, se não me acautelo estou a caminho de ser o guitarrista e chauffeur de Miss Tracey Thorn, a divina. Merda!
Quando o raio do américa se deu por satisfeito com a vistoria de roupas, vizinhança, contas e freguesia, perguntou se era tudo para vender!? Devia tê-lo mandado comprar um castelo na Escócia para o reconstruir no Texas, imagino o gáudio de baleias alimentadas a hamburgers e ansiosas por ver fantasmas com garantia e gaita-de-foles. Pois! Em vez disso, olhei para Tracey de pé entre filas de vestidos indiferentes, o olhar suplicante perdido na face incrivelmente ruborizada, mãos brancas, de tão apertadas à volta do futuro; imaginei, egoísta, aquele seu modo de me saltar para o colo e sugerir orgias alimentares porque uma inglesa decente não menciona as outras. Quis dar a mim próprio o prazer imenso de lhe ver aquela sua felicidade infecciosa e resmunguei para o sobrinho do Tio Sam – “tudo, é tudo para vender, preciso do dinheiro para ser famoso sem o desejar”. E de repente – não fosse o Diabo tecê-las – ouvi-me pôr em respeito os dólares gulosos dele – “Tudo para vender, tudo excepto a rapariga!”

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Honra lhe seja!

Médico confessa ter retirado tubo de ar a Welby

Italiano pedia suspensão de tratamento que o mantinha vivo

O primeiro anúncio da morte de Piergiorgio Welby - um italiano de 60 anos, que sofria há 30 de distrofia muscular e pedia a suspensão do tratamento que o mantinha vivo - dava conta que esta havia acontecido naturalmente. Mas, pouco depois, surgiu uma confissão, a do médico Mário Riccio, que reconheceu ter retirado a Welby o tubo lhe fornecia oxigénio.
«Acedi à sua petição de morrer», revelou o médico anestesista do hospital de Crémone, numa conferência de imprensa, realizada em Roma, em que disse ainda ter administrado ao paciente medicação com a finalidade de lhe evitar uma morte dolorosa.
O caso de Welby - cuja vida dependia desde 1997 de um respirador artificial e era alimentado por uma sonda - gerou um amplo debate sobre a eutanásia em Itália que dividiu as forças políticas. O Partido Radical Italiano apoiou-o nas últimas semanas e foi o seu presidente, Marco Panella, que deu a notícia ao país através da rádio.
Welby recorreu aos tribunais para que os médicos lhe suspendessem a respiração assistida após sedação terapêutica, mas uma juíza do Tribunal Civil de Roma, Ângela Salvio, considerou que se tratava de «um direito não tutelado concretamente no ordenamento jurídico».
Em Setembro passado, o homem de 60 anos havia enviado uma vídeo-mensagem ao presidente italiano, Giorgio Napolitano, em que mostrava as suas condições e pedia o direito a decidir livremente morrer.
«A vida é como uma mulher que te deixa»
Na mensagem descodificada pelo sintetizador de voz que o permitia comunicar, Welby explicou: «Eu amo a vida. A vida é como uma mulher que ama, o vento no cabelo, o Sol na cara. A vida é também uma mulher que te deixa num dia de chuva».
E acrescenta: «Agora o meu corpo já não é meu, está à mercê de médicos, familiares e assistentes (...). Se fosse Suíço, holandês ou belga, poderia poupar-me a tudo isso. Mas sou italiano e aqui não há piedade», disse.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Até onde podem ir a estupidez e o medo?

FBI divulga ficheiros secretos de Lennon

2006/12/20 22:37

Documentos estiveram 25 anos arredados dos olhares públicos porque eram «ameaça»

O FBI divulgou os últimos dez documentos secretos relativos ao assassinato de John Lennon e que ficaram escondidos dos olhares públicos durante 25 anos, supostamente para evitar uma «retaliação militar» contra os Estados Unidos.
De acordo com a «Reuters», os arquivos continham apenas informações já conhecidas sobre as ligações de Lennon a líderes esquerdistas e grupos pacifistas de Londres, em 1970 e 1971.
A revelação foi feita pelo professor de História na Universidade da Califórnia em Irvine, John Wiener.
«Hoje vemos que o argumento da segurança nacional utilizado pelo FBI há 25 anos é absurdo. O arquivo de Lennon no FBI é um caso clássico de segredo excessivo por parte do governo», disse Wiener em comunicado.
Entre os documentos divulgados há um que afirma que Lennon «é um revolucionário ... pelo conteúdo de algumas de suas músicas».
Outro arquivo refere que o ex-Beatle fez campanha pacifista e prometeu financiar uma livraria de esquerda em Londres. Um terceiro documento descreve uma entrevista de Lennon ao jornal Red Mole de Londres, na qual o cantor «enfatizou o seu historial proletário e a sua solidariedade para com os oprimidos e desfavorecidos da Grã-Bretanha e do mundo».
Wiener requisitou os arquivos pela primeira vez em 1981. Depois de uma batalha judicial que chegou até ao Supremo Tribunal dos EUA, o professor conseguiu consultar mais de 300 páginas de arquivos sobre Lennon, isto em 1997.
Mas dez documentos continuaram secretos, sob a alegação de que afetavam a segurança nacional. O FBI declarou nos tribunais norte-americanos, em 1983, que a divulgação desses documentos poderia «levar a retaliações diplomáticas, económicas e militares contra os Estados Unidos».
Wiener descreveu a sua cruzada num livro que serviu de base ao documentário «The U.S. versus John Lennon» e publicou documentos aqui
«Duvido que o governo de Tony Blair lance um ataque militar contra os Estados Unidos em retaliação pela divulgação destes documentos», ironizou.
Lennon, autor do tema pacifista «Imagine», foi assassinado, em Dezembro de 1980, em Nova Iorque, por um fã perturbado.

Ou seja: nenhum macho verdadeiro pode queixar-se de agressão por parte da frágil companheira...

Não há violência doméstica entre homossexuais

Juízes consideram que não há crime quando o casal é do mesmo sexo

A Associação Sindical de Juízes considera que não pode haver crime de violência doméstica quando o casal é composto por duas pessoas do mesmo sexo, escreve hoje o Diário de Notícias.
Pedro Albergaria, um dos autores do parecer, diz que não estando previsto no Código Civil o casamento de pessoas do mesmo sexo, não se pode estabelecer no Código Penal que a violência entre casais homossexuais constitua um crime específico dos relacionamentos conjugais ou paraconjugais.
De acordo com este juiz também «não está minimamente demonstrado que estas situações (de violência) existem» sendo que o legislador deve legislar sobre o que geralmente acontece e não sobre o que pode acontecer.
No parecer da Associação, os juízes consideram mesmo que «a protecção da família enquanto composta por cônjuges do mesmo sexo tem um notório - e apenas esse - valor de bandeira ideológica, uma função, por assim dizer, promocional».
O coordenador da Unidade de Missão para a Reforma do Código Penal, Rui Pereira, discorda do parecer da Associação Sindical de juízes lembrando que «há pessoas do mesmo sexo a viver em união de facto», situação que a lei já prevê.
«Se há violência nessa relação, a tutela jurídica não pode fechar os olhos», adianta. «O crime em causa envolve violência física e psíquica, e não é necessariamente o mais forte fisicamente que maltrata o outro», como defende o parecer, refere Rui Pereira.
Segundo o coordenador da Missão para a Reforma do Código Penal, se assim fosse «nenhum homem poderia apresentar queixa por levar pancada de outro homem em qualquer circunstância, ou uma mulher por ser agredida por outra mulher».
Rui Pereira disse ainda, em declarações ao Diário de Notícias, que «foram preocupações da revisão do Código Penal a consagração da igualdade na prática, no que respeita à orientação sexual, de acordo com a norma constitucional». Para a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, a inclusão das uniões de facto homossexuais na definição de crime de violência doméstica «é pacífica», lembrando contudo que a maioria das situações de violência que são relatadas se podem definir como de «violência de género».

P.S. Quanto à expressão "função promocional", entendida como único objectivo de uma soi-disante "protecção da família" não tecerei comentários, de tão evidente o preconceito.

terça-feira, dezembro 19, 2006

Dores de crescimento.

Ninguém consegue proteger alguém para sempre.


Arturo Pérez-Reverte, O Cemitério dos Barcos sem Nome.

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Viktorada.

O Viktor teve a gentileza de me ensinar a colocar um atalho no blog para as Produções Murcónicas. O mais extraordinário é que enquanto eu me debatia com um diagnóstico de erro por parte da besta, ele me enviava um mail a dizer que tudo estava a funcionar:). Decididamente não nasci para material tão caprichoso! Como dizem os mecânicos de automóveis - é fêmea:).

sábado, dezembro 16, 2006

No rescaldo da infamante estreia:).

Ainda na Galiza, verifico que a brincadeira das produções murcon já está "no ar". Quero agradecer o desvelo do Viktor, do Pedro e de quem preferiu manter o anonimato. Quanto a mim, devo confessar que me deu gozo filmar isto, não se tratou apenas de provar a minha gratidão ao "maralhal". Vivemos tempos de sujeição escrava às audiências, o que limita as escolhas de temas e formatos. As produções murcon presentearam-me com o privilégio de associar livremente sobre o que me desse na gana. Por isso da próxima vez falarei de Ovídio, sem que alguém me peça para "apimentar" o programa ou convidar a estrela cadente do momento. O "programa" será mais curto, penso que 15 minutos é o tempo ideal. Mas, acima de tudo!, será espontâneo; artesanal; livre. Sem preço:)))))).

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Circular.

Solicitou-me a Assembleia Geral das Produções Murcónicas - infame organização que tem por objectivo levar ao nível zero a qualidade do audio-visual! - que informe o maralhal do seguinte: a qualquer momento será colocado no Murcon o presente natalício (obviamente envenenado...) da sinistra empresa para todos os murcónicos.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Galiza sempre.

De partida para Santiago. Em trabalho. Mas a sensação é a do costume - regressar a caminhos percorridos dezenas de vezes, abraçar amigos da outra margem do rio, folhear recordações; muitas. E sentir-me em casa:).

terça-feira, dezembro 12, 2006

Não me surpreende, mas gostaria de ver comparados estatutos socio-económicos.

Um estudo da Associação para o Planeamento da Família, a ser apresentado na quarta-feira, conclui que um terço das mulheres que fizeram Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG) teve necessidade de recorrer a um serviço de saúde para completar o aborto.

O estudo, realizado com base sobre as práticas do aborto em Portugal e que recorreu a inquéritos a 2.000 mulheres, conclui que cerca de 14,5% das mulheres entre os 18 e os 49 anos já fez uma IVG.De acordo com os dados apurados por esta associação, entre 346 mil a 363 mil mulheres portuguesas já realizaram abortos. No último ano foram realizados entre 17.260 a 18 mil abortos.A Associação para o Planeamento da Família conclui ainda que a grande maioria das mulheres fez um único aborto e que cerca de 73% das mulheres que realizaram IVG fizeram-no até às 10 semanas de gestação.

Correio da Manhã.

Estou de acordo, não creio em "fronteiras" biológicas.

Cientistas rejeitam conceito de «pré-embrião»
2006/12/12 20:47

E defendem o mesmo «estatuto biológico» do adulto

Mais de 200 cientistas e professores universitários tornaram público, esta segunda-feira, um manifesto no qual mostram a sua oposição em relação a alguns dos conteúdos do Projecto de Lei de Pesquisa em Biomedicina, que se debaterá na próxima quinta-feira no Congresso dos Deputados da Espanha.
Segundo escreve a Veritas, agência católica de notícias espanhola, o manifesto - promovido por Luis Franco Vera, da Real Academia de Ciências Exatas, Físicas e Naturais e catedrático de Bioquímica e Biologia Molecular da Universidade de Valência - foi assinado por 14 académicos, dois cientistas premiados com o Prêmio Jaime I, 39 catedráticos universitários e mais de 150 pesquisadores e professores.
Segundo a Veritas, o manifesto afirma que, «de um ponto de vista estritamente científico», «não têm sentido as distinções semânticas como a que se introduz ao chamar pré-embrião ao embrião obtido por fecundação in vitro».
Os cientistas assinalam que há dados que tornam «inadmissível desde um ponto biológico identificar o embrião como uma simples massa de células, nem sequer nos dias anteriores à sua implantação», e acrescentam que o embrião é «um organismo individual da espécie Homo Sapiens, certamente em estado incipiente de desenvolvimento, mas não por isso merecedor de um estatuto biológico distinto do adulto».

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Paris.

Paris continua a ser uma cidade ideal para andarilhos claustrofóbicos. E lá a calcorreei, ainda barafustando contra o horror vivido na Eurodisney. Dois momentos se empoleiram nos outros, quando revisito o fim-de-semana: quatro "rapazes do meu tempo", lançados num jazz eufórico em plena ponte sobre o Sena, e os jovens que tocavam música clássica na minha querida Place des Vosges. Mas nada chegou aos sorrisos maravilhados de um par de rufiolas irrecuperáveis: os Machadinhos!


P.S. Em quatro dias o Benfica perdeu os oitavos de final da Liga dos Campeões e a Liga Portuguesa. Como de costume, o Engenheiro Fernando Santos identificou as razões para os insucessos e não duvido que haverá mais uma longa conversa no balneário. É um alívio! Passamos o Natal já derrotados, mas lúcidos:))))))).

sábado, dezembro 09, 2006

Às ordens do Gaspar e do Tiago.

Sartre escreveu que o Inferno são os outros. Permito-me aprimorar o conceito - o Inferno são os outros..., na Eurodisney. Irra!

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Ingenuamente (?) desonesto. E ridículo...

A sondagem dos homens grávidos Fernanda Cânciofernanda.m.cancio@dn.pt

Se estivesse grávido e atravessasse um momento de dificuldade ou dúvida sobre a gravidez, quereria abortar ou ajuda para levar a gestação a termo? A pergunta só pode ser retórica: toda a gente sabe que um homem grávido só pode querer dar à luz. Estão a ver o furor planetário, a chuva de talk shows, donativos e parangonas, a fama instantânea? Quem é que no seu juízo perfeito optaria pelo aborto? Isto sem esquecer, é claro, a alegria da, como chamar-lhe, pater-maternidade? Claro que, todos sabemos, isto não pode ser, pelo menos por enquanto. Quer dizer: todos, não. Há sempre gente que resiste, há sempre gente que diz não. São, precisamente, as pessoas portuguesas da Plataforma do Não, que se apresentaram esta semana com uma sondagem de três singelas perguntas, qualquer delas, assim como as opções de resposta, um prodígio de manipulação. A primeira pergunta é a já citada, sendo que a ficha técnica da sondagem (ver em www.nao--obrigada.org/sondagem) especifica que o universo de respondentes consistiu "nos residentes portugueses com 18 ou mais anos". Incluindo homens, portanto, que foram ques- tionados sobre o que fariam se estivessem "grávida". Parece a brincar, mas não é. As pessoas que encomendaram esta sondagem estão muito a sério. E felizes com o facto de entre três possíveis respostas - "Ser encaminhada para uma clínica onde lhe fizessem o aborto de imediato e sem risco para a saúde"; "Que o aborto fosse livre para poder abortar sem ser crime" ou "Ser ajudada e apoiada a manter a gravidez e poder manter o bebé" - a maioria, 75,6%, ter escolhido a última. A pergunta não é, note-se, sobre "não querer a gravidez". É sobre "dúvidas". Não fala em prazos. Não fala sobre perseguição penal ou sobre o que deve acontecer às mulheres que abortam. Nenhuma das perguntas o faz. Nenhuma incide sobre o que está em causa no referendo de 11 de Fevereiro: despenalizar a interrupção da gravidez até às dez semanas. Talvez não deva surpreender que haja quem encomende uma sondagem assim. Mas que um centro de sondagens que se apresenta como de referência - o da Universidade Católica - aceite fazê-la e a assine é um pouco chocante. Talvez se deva então assinalar um novo tipo de centros de sondagem. Os "de tendência".

quinta-feira, dezembro 07, 2006

O trio maravilha:).

CLANDESTINO


BRIAN WILSON

Bush é um tipo simpático e a cor do cabelo da mulher só lhe diz respeito a ela, mas não deixo de estranhar que em menos de trinta anos passássemos de símbolos californianos para exportação a trunfos eleitorais da Nova Direita. Não discuti o assunto com os outros. Desde 1967 tornou-se difícil discordar sem vir de imediato um palavrão psiquiátrico e a pergunta estafada – “Tomaste os remédios?” Não me agarram, neste corpinho não entram mais drogas; prefiro engordar por comer alarvemente. Mas durante o concerto na Casa Branca tive dúvidas se não os deviam internar a eles. Talvez a loucura me estivesse reservada, a mentira, essa, abençoou-nos a todos. Já o nome era de morrer a rir - só Dennis amava praia e mar – por isso foi justo que não suportasse terra e jazigos… – e nenhum de nós punha na beira do prato raparigas que não pudessem alegar serem nadas e criadas à beira do Pacífico. O som dos Beach Boys era uma sonoridade construída em estúdios mergulhados na penumbra, a forma elevada ao extremo da perfeição (perdoe-se-me a imodéstia!). Maior culpado? Este vosso humilde servo. Ainda os outros se maravilhavam com sucessos durante e após o palco e já eu preferia acariciar mesas de mistura. O tempo não importava, seis meses souberam a pouco, Good Vibrations podia ter saído ainda melhor.
Ou talvez eu não fosse suficientemente rápido. Smile devia ter ficado pronto em 65 ou 66, mas a culpa não foi minha. Eles não entenderam o que estava em jogo, os discos de platina e o dinheiro chegavam-lhes, quando lhes chamei a atenção…, responderam que cantávamos melhor do que os Beatles! E eu não tinha ouvidos? Ringo entrava mudo e saía calado, a voz de George não aguentaria uma rabanada de vento, e mesmo a “divina parelha” não estava à nossa altura. O problema não estava aí - era preciso dar o salto, explorar outras paragens, mesmo à custa do top-ten. John e Paul pressentiram-no. Strawberry Fields Forever e Penny Lane eram verdadeiras obras primas, por isso não venderam tanto e os Beatles nunca mais se arriscaram fora dos álbuns. Nem eu, mas o bichinho roía. Uma carreira frenética, não para chegar primeiro, mas para também chegar. É falso que tenha deprimido por inveja de Sgt Pepper’s, fui-me abaixo porque soube que nunca conseguiria algo de semelhante sozinho. É verdade que destruí o trabalho de meses, e depois? Era o meu trabalho. Os arabescos vocais dos outros desenhei-os, os sucessos que ainda hoje lhes mantêm piscinas e automóveis fui eu que os compus, quando lhes pedi a viagem riram-se-me na cara. Hipotecaram o futuro e o seu crime transformou-se em diagnóstico meu - nunca deixarei de ser paranóico em remissão. Loucos são eles; a cobardia é a sua religião; contam carneiros para viver.
A culpa não foi minha, só era impossível. John e Paul não seriam capazes um sem o outro, o talento aprimora-se ao espelho. O resultado está à vista: somos patéticos. Dennis morreu e nós exibimos barrigas e calvícies, canções quase balzaquianas, já nem lhes mostro o que componho. Traíram-me, não lhes darei a satisfação de acabar num asilo. O que sei e vejo, guardo-o comigo: espero que Bush não seja eleito; não acreditei numa palavra acerca do assassínio de John; o duplo de Paul que por aí anda só pode enganar papalvos, mesmo sozinho ele não faria aquelas xaropadas! Escondem-se, atrapalhados! E é compreensível, tantos anos não chegaram para compor um disco superior a Sgt. Pepper’s. Um dia perceberão que apenas eu os posso ajudar.
Os três juntos faremos a música dos anjos.

Expectativa cultural vs. realidade.

Quase 50% dos portugueses considera Natal época de stress
Quase 50% dos portugueses considera que o Natal é uma época de stress, de acordo com um estudo da seguradora Axa, intitulado «Axa Barómetro Reforma», hoje divulgado.
O estudo, que teve em conta uma pesquisa internacional com 11.373 entrevistas em 16 países, constata que 46% dos activos e 42% dos refor mados portugueses encaram o Natal como uma época de stress.
No entanto, a maior parte dos portugueses (85% dos activos e 77% dos reformados) considera que o Natal é uma época de felicidade, uma opinião partilhada pelos inquiridos na maioria dos países como, por exemplo, Estados Unidos, Singapura, Austrália, Reino Unido, Canadá, Nova Zelândia e Alemanha.
A solidão é um sentimento apontado por 19% dos activos portugueses, apenas atrás dos espanhóis (20%), adianta o estudo «A 3ª vaga do Axa Barómetro Reforma».
No caso dos reformados, 35% dos portugueses refere que o Natal é uma época de solidão, superior aos espanhóis (31%).
Pelo contrário, apenas 4% dos activos e 9% dos reformados nos Países Baixos falam em solidão.
No que se refere às prendas, 68% dos activos portugueses tencionam comprar prendas de Natal, à frente do Japão (63%), Singapura (49%), Países Baixos (48%), China (46%) e Hong Kong (36%).
Estes números ficam bastante atrás dos verificados em países como os Estados Unidos (93%), França (93%), Austrália (91%), Nova Zelândia (89%), Canadá (88%), Reino Unido (86%), Bélgica (82%), Alemanha (81%), Espanha (75%) e Itália (71%).
No caso dos reformados, os valores oscilam entre os 81%dos Estados Unidos e os 22% de Hong Kong.
Em Portugal, 42% dos reformados tenciona comprar prendas de Natal.
No que se refere aos desejos de Natal para a família e amigos, 84% dos activos e 80% dos reformados portugueses falam em saúde, seguindo-se os votos de paz (59% dos activos e 60% dos reformados).
Diário Digital / Lusa
07-12-2006 10:47:24

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Conferência da Justice Foundation.

Lutou pelo sim, mas defende o não

2006/12/06 00:24 Hugo Beleza

Norte-americana que levou à legalização do aborto no seu país está em Lisboa. Norma McCorvey disse estar arrependida das consequências do processo em que se envolveu em 1973 e defendeu o «direito à vida»

Representantes da organização norte-americana Justice Foundation defenderam esta noite que Portugal deve dar um exemplo ao seu país e dizer «não» no referendo à despenalização do aborto. Na conferência, que teve lugar na Faculdade de Letra da Universidade de Lisboa, a interrupção voluntária da gravidez foi descrita como estando na origem de comportamentos marginais. Norma McCorvey, responsável pelo processo que levou o Supremo Tribunal dos EUA a considerar o aborto um direito constitucional, mas que, posteriormente, se tornou uma opositora desta decisão, foi uma das oradoras.
Perante cerca de uma centena de pessoas que compuseram o auditório 1 da Faculdade de Letras, num encontro organizado pelas Associações Juntos pela Vida e Missão Vida, McCorvey, também conhecida como Jane Roe - nome fictício que utilizou no célebre caso Roe versus Wade que levou à liberalização do aborto nos EUA em 1973 -, disse estar profundamente arrependida por ter servido essa causa. «Não sou uma oradora hábil nem uma juíza. Sou, pelo contrário, uma pessoa que trouxe destruição para mim, para outras mulheres e para 43 milhões de bebés no meu país», disse, sublinhando que este número corresponde ao dos abortos realizados legalmente nos EUA, nos últimos 33 anos.
A activista - que nunca chegou a abortar, porque a duração do caso judicial em que se envolveu ultrapassou o tempo de gestação - disse que alterou a sua visão sobre a interrupção voluntária da gravidez depois de ter trabalhado em clínicas onde ela era praticada. No seu depoimento, McCorvey acusou os advogados que a representaram em 1973 de a terem enganado e a terem «usado para tornar o aborto legal nos Estados Unidos», em vez de a auxiliarem a «deixar as drogas e o álcool» e de a ajudarem a «entregar o seu filho para adopção».
Suicídio, álcool e drogas
O depoimento da mulher, de 59 anos, foi precedido pelo testemunho de outras três mulheres também norte-americanas - Cynthia Collins, Myra Meyers e Rebecca Porter -, que se centraram na forma negativa como o recurso ao aborto as afectou. «Tentei cometer suicídio e passei por várias overdoses porque me odiava pelo que tinha feito», confessou Porter, afirmando que o álcool e as drogas se tornaram um refúgio, em parte da sua vida, após ter abortado. Um relato semelhante à das outras duas activistas.
Além da «defesa da vida», os conferencistas colocaram a tónica das suas intervenções também nas consequências negativas do aborto na saúde das mulheres e nos seus potenciais efeitos desestruturantes, a nível pessoal e social.
Claytton Trotter, conselheiro jurídico da Justice Foundation, afirmou que nos EUA o número de mulheres a cumprir penas judiciais subiu enormemente depois de 1973, e apontou que numa sondagem à comunidade prisional feminina, 60 por cento das mulheres disse que na origem do seu percurso marginal esteve a prática de um aborto. Razão que levou o jurista a defender: «É melhor instaurar alguns processos [a mulheres por interromperam a gravidez] do que enviar milhares de mulheres para a prisão».
Reed Olson, outro activista, sublinhou por seu lado que a liberalização poderá ter um efeito despenalizador das consciências e levar progressivamente ao alargamento do período em que é permitida a interrupção da gravidez, potencialmente, quase até ao nascimento do bebé.
O activista norte-americano ilustrou este «perigo» com alguns processos abortivos já praticados no seu país em fase avançada de gestação e deixou um repto aos portugueses para que votem «não» no referendo. «Por favor não sigam este exemplo. Sejam um exemplo para nós. Nós precisamos dele. Não recusem a vossa convicção de proteger a vida, porque os olhos do mundo estão aqui. Não atravessaríamos o Atlântico se não fosse assim».


P.S. Há alguns dias, alguém me escreveu para O Amor é... queixando-se por eu não dar espaço "ao confronto de opiniões". Não é verdade. Em Estes Difíceis Amores esteve um dos líderes dos Movimentos pelo Não, que durante 50 minutos expôs as suas posições quase sem interrupção, por vontade expressa das três pessoas que faziam o programa. No Murcon acontecerá o mesmo, esta declaração deprincípios não será a última. Como pretexto para a discussão e porque acredito no respeito pelos outros, apesar de já ter perdido a conta às vezes em que fui apelidado de defensor de uma cultura de morte e arauto do desprezo pela Vida.

terça-feira, dezembro 05, 2006

A sabedoria do velho Eça:).

"Mas queria juntar duas linhas regeladas, impassíveis, que a ferissem mais que o dinheiro: e não encontrava senão frases de grande cólera, revelando um grande amor."

segunda-feira, dezembro 04, 2006

As duas Sidas, a nossa e a "deles"...

Mundo lento

Psicóloga genecanhoto@gmail.comJoana Amaral Dias

Na passada sexta-feira, o mundo assinalou o Dia Mundial da Luta contra a Sida. Nestes 25 anos de combate à doença, e apesar dos ambiciosos objectivos traçados pelos líderes mundiais, a pandemia ainda segue mais veloz do que o mundo. O número de pessoas infectadas com o vírus da sida continua a aumentar. São quase 40 milhões. Só este ano, registaram-se quatro milhões de novos casos e um recorde no número de mortes. São 15 milhões de crianças que ficaram órfãs. Crianças criadas por crianças. Na Suazilândia, metade da população está infectada. Um quarto, no Lesoto e no Botsuana, onde a esperança média de vida é abaixo dos 35 anos. Mas o problema não é apenas africano. Estima-se que em 2010 a Ásia terá mais pessoas infectadas do que a África, assistindo-se a um terrível aumento na América Latina, Europa de Leste e Rússia. O número de mulheres atingidas tornou-se arrasador. São sete mil mulheres infectadas por dia. E a sida tanto é causa como consequência da pobreza, indissociável do desenvolvimento económico. Persiste um acesso restrito aos tratamentos retrovirais. Apenas um quarto das pessoas que deles necessitam, sem adiamento possível, o recebem. Os problemas somam-se, desde as dificuldades em generalizar a testagem até aos serviços púbicos de saúde insuficientes. O que é ainda mais ultrajante quando se sabe que as campanhas de prevenção sólidas, como as conduzidas em alguns países africanos, são eficientes e que tratamentos adequados podem reduzir o impacto da doença, prolongando, com qualidade, a vida dos doentes. Um vírus que mata assim deveria ser uma preocupação de todos. Dos líderes religiosos, que insistem em interferir com questões de saúde pública. Bento XVI também se imiscui na política europeia, ao defender - e bem - a entrada da Turquia para a UE. Como terminou a sua visita a esse país exactamente no dia 1 de Dezembro, é pena que relativamente ao uso do preservativo não tenha, igualmente, mudado radicalmente de opinião. Uma preocupação dos governos, que continuam a não definir a luta contra a sida como uma absoluta prioridade, disponibilizando todos os meios indispensáveis, desde a prevenção ao tratamento, passando pelo combate à discriminação. E Portugal, com uma das maiores incidências de sida na UE, não é excepção.


P.S. Como pode uma Instituição defender à outrance a Vida e ser contra o preservativo? Ou há vidas e "vidas"?

domingo, dezembro 03, 2006

Pequena revolução...

Ascensão das mulheres marca viragem do milénio
leonel de castro
Pedro Araújo
Os jovens (15-29 anos) passaram a constituir um quinto da população, quando há uma década eram um quarto. A taxa de desemprego quadruplicou, mas a sua presença na universidade duplicou. Casam-se e têm filhos mais tarde, divorciam-se mais rapidamente e a união de facto ganha terreno. A tuberculose atinge os 71% entre as doenças e os condenados triplicaram em 14 anos. Hoje, na Universidade do Minho, responsáveis governamentais marcarão presença na apresentação do estudo "A Condição Juvenil Portuguesa na Viragem do Milénio" e deverão anunciar medidas.Vítor Ferreira, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e coordenador do estudo, concorda que a "pequena revolução feminina" sobressai da recolha estatística dos anos 1990 a 2005. Não havendo novidades absolutas, o manancial de dados de sete áreas (demografia, família, educação, emprego e desemprego, saúde e condutas de risco, sinistralidade, justiça) acaba por provar que a igualdade de sexos é quase uma realidade.As raparigas tendem a permanecer por mais tempo no sistema educativo, sobretudo nos níveis mais elevados. Elas tendem a casar-se e assumir a maternidade mais cedo. Há mais empresárias e quadros de topo femininos.Os rapazes, pelo contrário, tendem a abandonar precocemente os estudos, frequentemente sem concluir o 9.º ano de escolaridade. Logo, eles entram mais cedo no mundo do trabalho e encontram-se, segundo o estudo, "sobrerepresentados em fenómenos de delinquência, criminalidade, sinistralidade e condutas de risco, reflectindo-se, por exemplo, nas taxas de óbitos". Independentemente do género, a verdade é que os jovens estão diferentes. Já não podem contar com um emprego estável nem com um casamento duradouro. O retrato das habilitações é ainda desanimador - 35% dos jovens abandonam estudos sem o 9.º ano; 34% de chumbos no Secundário; 50% dos empregados (15-29 anos) não têm a escolaridade mínima obrigatória.A Sida parece relativamente controlada, óbitos por ingestão de drogas diminuem e a sinistralidade - rodoviária, laboral, doméstica e no lazer - tende a decrescer. O consumos de tabaco e bebidas alcoólicas mantém-se estável.

sábado, dezembro 02, 2006

Espero que no Murcon se discuta sem resvalar para a ofensa pessoal...

As polémicas do referendo

Marina Costa LoboPolitólogamarinacosta.lobo@gmail.pt

Cavaco Silva cumpriu o prometido na campanha eleitoral anunciando na quarta-feira passada que convocaria o referendo sobre o aborto para 11 de Fevereiro de 2006. Este anúncio foi feito no seguimento da aprovação pelo Tribunal Constitucional da pergunta tal como ela vai ser formulada aos portugueses, nomeadamente se concordam com a interrupção voluntária da gravidez até às dez semanas num estabelecimento de saúde por livre vontade da mulher. Esta pergunta encerra pelo menos quatro polémicas que poderão ser cruciais na decisão dos portugueses. Em primeiro lugar, discute-se a despenalização do aborto. Desde o último referendo sobre o mesmo tema, realizado em 1998, temos assistido a alguns casos mediáticos de julgamento de mulheres. Neste aspecto da questão reside o maior apoio ao "sim". Existirá um alargado consenso de que julgar e condenar mulheres em tribunal depois de terem realizado um aborto é errado. Em segundo lugar, discute-se a questão sobre quando é que um feto se torna um ser humano. Ao propor que a mulher tem soberania sobre a vida que tem dentro de si até às dez semanas, a pergunta remete para questões éticas e filosóficas sobre o início de um ser humano, tema que dá azo a explicações religiosas, já que os critérios científicos não conseguem dar resposta cabal a esta questão. Aqui joga-se a cartada mais forte do "não" ao referendo. A terceira polémica que a pergunta encerra e a que os portugueses vão ter que responder é a questão do papel do Estado neste assunto. A proposta do PS é que seja o Estado a financiar as interrupções voluntárias da gravidez. Esta cláusula parece importante para evitar que as mulheres com menores rendimentos continuem nas mãos de pessoas sem escrúpulos nem condições sanitárias para levar a cabo a realização de um aborto. No entanto, também aqui há acesos debates. Já li e ouvi comentários de partidários da despenalização mostrarem o seu repúdio pelo facto de serem os contribuintes do Estado português a arcarem com esta responsabilidade. Devemos promover um Estado providencial que "resolve" todos os problemas ou responsabilizar quem teve maturidade suficiente para engravidar? A quarta polémica que esta pergunta encerra reside no facto de o aborto ser realizado livremente a pedido da mulher. Esta expressão abre uma porta para que se advogue que, com a vitória do "sim", o aborto passa a estar liberalizado, isto é, transforma-se em mais uma forma de contracepção que pode passar a ser usada indiscriminadamente pela mulher.A partir de agora todos tentarão moldar eficazmente o discurso dos meios de comunicação sobre o tema, puxando a análise para a polémica que mais favoreça a sua opinião. Com a relativa descoordenação e falta de unidade dos partidos e a multiplicidade dos movimentos associativos, as probabilidades de que o debate se faça estrategicamente diminui. E a de que sejam grupos mais radicais de ambos os lados a tomar conta do discurso público aumenta. O resultado desta radicalização poderá ser um alheamento e consequente abstenção da população em geral. Daí que seja fundamental o empenho dos partidos na campanha por forma a garantir a estruturação do debate.Não teria sido possível aos autores da pergunta formular uma questão que abrisse menos polémicas e valorizasse mais a questão da despenalização? De facto, para que o "sim" ganhe será necessário que o debate se faça em torno desta questão. Apesar de tudo, existem razões objectivas para que assim seja. No dia seguinte ao referendo, se o "sim" ganhar haverá um efeito directo sobre o processo penal em Portugal: deixarão de ser julgadas mulheres em tribunal. Essa é uma certeza. Já os efeitos sobre o aborto em si resultantes de uma vitória do "sim" não são certos. Estes não dependem essencialmente da legislação, mas sim de uma série de complexas circunstâncias sociais, económicas, físicas e psíquicas em que a mulher se encontra.Se o ser humano começa a partir da concepção, os partidários do "não" deverão assumir-se contra o aborto em qualquer circunstância, incluindo a violação e outros casos extremos. Nos Estados Unidos, tem-se verificado não haver um apoio maioritário entre a população em geral a esse posicionamento, embora haja muitos eleitores contra o aborto nas fases mais tardias da gravidez. A ser assim também em Portugal, isso significaria que afinal o que divide a maioria dos portugueses não é o sim ou o não à intervenção voluntária da gravidez, mas em que condições esta deve ser realizada, o que também pode levar a concordar com a despenalização.

quinta-feira, novembro 30, 2006

Em Cantelães, lembrando Pearl.

ENTRE COLEGAS

JANIS JOPLIN


Meu caro Dr. Machado Vaz,


A sua carta despertou-me sentimentos contraditórios, o passado invade o presente nesta profissão e – espero eu! – ajuda a preparar um futuro melhor para os nossos clientes. Mas certos passados, dolorosos, enterrei-os por baixo da carpete do meu gabinete. (Nem sequer corro riscos desnecessários, é a mesma há trinta anos e proíbo a empregada de a afastar quando ataca o pó, as caixas de Pandora têm a forma que a imaginação lhes empresta, não é verdade?). Perdoará a verborreia e os desvios, escrevo à noite, a lareira adormece e o nível do whisky na garrafa torna duvidosa a empresa de partir à aventura pelo tapete para a sacudir e reavivar, a casa vibra, de tão silenciosa. Grato pelo amável convite para visitarmos Portugal, o plural já não existe, minha mulher morreu no Verão – em Setembro, para ser mais exacto -, vitimada por uma daquelas doenças (preguiçosas, de tão confiantes) que os jornais teimam em apelidar de prolongadas para não assustar os leitores casuais; deixando aos outros, gulosos de notas obituárias, o prazer de resmungar enquanto se rebolam em saúdes de ferro, “cancro, foi o que foi”! A morte assim, pressentida, anunciada, vivida longamente, deixa um sabor agridoce. Uma tristeza suave, composta, as lágrimas ficaram para trás, o alívio ganha quase todas as discussões com a culpa, os olhos fecham-se à palidez e a cemitérios, são benévolos para recordações, de corpo e alma, “antes de…”
Tudo foi diferente com Janis. Um dia o telefone tocou e ali estava uma hora vaga nessa mesma tarde, acabei por aproveitar e ver um caso “urgentíssimo” enviado por um colega maçador, seguramente conhece o género. O homem fazia justiça ao meu mandante, odeio estes executivos que pedem para os mantermos na corrida, aterrorizados por jovens impiedosos que lhes cobiçam os lugares, em boa forma física, íntimos da última geração de computadores. Já os havia naquele tempo, hippies convertidos a uma certa forma do principio da realidade, yuppies ainda não baptizados, todos certos de terem Deus a seu lado, como cantava – ou gemia? – Bob Dylan. A última frase, a julgar pelo tom da sua carta, deve parecer-lhe uma heresia, mas confesso que os meus quarenta e dois anos me impediram a conversão para além dos Beatles e Simon e Garfunkel, pese embora os esforços bem intencionados de meus filhos, sempre prontos a exaltar os méritos de grupos com nomes tão prometedores como Grateful Dead e Mothers of Invention.
Pode imaginar a curiosidade com que acedi a receber Janis pela primeira vez, que se esconderia por trás daqueles uivos lancinantes? Caro colega, a resposta seria evidente após uma ou duas consultas para qualquer interno pouco dotado - ela sofria de medo em estado terminal. Cuspia impropérios com desespero, não me lembro de a ver utilizar uma cadeira, Janis agonizava pela sala até parar frente ao espelho e dizer baixinho que os bastardos tinham tido sempre razão. “Eles” – como também lhes chamava – podiam ser os colegas de escola em Port Arthur, da universidade em Austin ou de cama na noite anterior, o traço comum era a rejeição, imaginária ou real. É mentira dizer-se que não existem crianças feias, elas encarregam-se de o lembrar umas às outras. Janis não procurou os rapazes durante a infância, na adolescência fugiu das raparigas, dos espelhos, das festas em que via outras dançar. Vestidos cobiçados e de repente baços no corpo sem graça, alcunhas cruéis que se mantinham, apesar do seu riso estalar antes de todos os outros, como se pode pedir mais tragicamente desculpa a chefes de claque e rainhas de bailes por não ser como elas? Os rapazes eram mais fáceis, primeiro joelhos esfolados e palavrões, depois o sexo quando devia ter descoberto as mãos dadas. Janis despia-se para melhor tapar o medo, debochava o riso para evitar as lágrimas, quando a dor se tornava insuportável fazia saltar a rolha de garrafas sem rótulo, a anestesia não obriga a hesitar entre marcas. Quanto à Universidade, bastará dizer-lhe que foi nomeada para o prémio de homem mais feio do ano, mas nunca chegou a saber se tinha ganho, já estava a caminho de S. Francisco.
Não o maçarei com a trajectória profissional, o êxito em Monterey e Woodstock fala por si, a subida meteórica era inevitável, ela cantava-lhes as angústias e fingia desesperadamente ser feliz investindo contra regras e tabus. Sexo, drogas e rock’n’roll, a canção podia ter sido composta para ela. Homens, álcool, heroína, sempre a fuga ao espelho e a costas voltadas, o sucesso fê-la desistir para sempre de acreditar nas pessoas, repetia constantemente que era a “outra”, a do palco, que amavam, não a ela, como a conhecia. Porque cheguei a conhecê-la bem, sabe? A pouco e pouco foi-se abrindo, como uma flor que temesse ser arrancada. De vez em quando experimentava-me para ter a certeza que estava ali e entendia, faltou a sessões sem conta, desafiou-me sexualmente, riu da minha apregoada competência, mas – que faço eu? – o colega conhece tudo isto por experiência própria - batem e fogem para terem a certeza que não os abandonamos, em Portugal como aqui. Poderia dizer-se que a ajudei a sobreviver, com poucas esperanças de poder fazer algo mais. Janis não perdoava o passado e o presente só fazia crescer uma imagem que detestava. Em períodos mais confusos dizia “a outra, porca e suja”, é fascinante como os juízes mais severos se acoitam dentro de nós e sobrevivem a todos os excessos, cada vez estou mais convencido que a verdadeira liberdade é tranquila; ritualizada; solene.
E depois surgiu Seth Morgan na sua vida e ela aplicou-lhe o tratamento completo à base de obscenidades, provocações, tudo o que possa imaginar. Ele não se deixou enganar - era um tipo calmo, olhos azuis, quase cândidos, chamava-a carinhosamente pelo apelido, “Joplin, por que me castigas?” E ela ria como eu nunca ouvira, até uma tarde especial em que me fitou com os olhos rasos de lágrimas e murmurou baixinho – “e se ele gostasse mesmo de mim?” Durante uns tempos o paraíso morou ao virar da esquina, deixou as drogas e telefonava-me do estúdio a pedir desculpa por faltar, o álbum estava quase pronto e era diferente - melhor, mais doce; para ele. Planos de casamento, filhos, um rancho longe de tudo, a música por prazer e não para exorcizar fantasmas. Como sabe, a causa de morte foi uma overdose de heroína, supostamente fatal por o seu organismo se ter tornado mais sensível ao produto após meses de abstinência. Digo-lhe o que nunca disse a ninguém – não acredito. Uma semana antes tive-a no meu consultório em pânico, era feliz e não suportava a ideia de perder esse comboio, tinha sonhos horríveis em que Seth a deixava, pediu-me a certeza que os demónios não a voltariam a atormentar, repetia incessantemente “vou ser boa e tudo vai correr bem”. Nada justificava o regresso à heroína naquela altura, quanto a mim Janis matou-se por medo de ver desbotar as tintas do quadro em que vivia. Tinha espreitado pela porta entreaberta, não suportaria vê-la fechar-se de novo, morreu para não correr o risco de definhar, Deus me perdoe, talvez tenha tido razão, os fantasmas pareciam-me vencidos mas não convencidos.
No enterro, Seth disse uma frase estranha, “pecámos por ambição”. E partiu, nunca mais o vi, tenho a certeza que não esqueceu. Às vezes penso-a como um patinho feio que, como Ícaro, partiu rumo ao sol e não quis esperar pela degradação das asas, queda, vertigem, o regresso a este mundo. Janis preferiu morrer fitando o paraíso depois de o ter vivido, na esperança de o sonhar para sempre. Ah, Dr. Machado Vaz, sou um velho, receio que tudo em mim já tenha a morte como ponto de referência, até o faro clínico. Não sei. Perguntou-me como ela era e eu respondo-lhe que continuo a não ouvir os seus discos – a “outra” -, mas tenho saudades de sorrisos fugidios ao cerrar da porta e ainda me pergunto se não poderia ter feito mais qualquer coisa por ela. Dúvidas que o colega conhece bem, a psiquiatria é um ofício de aprendizes de feiticeiro, logo, de pesadelos frequentes. Mas, verdade seja dita, nunca me aconteceu invejar os bancários ao longo de todos estes anos.

Cordialmente,

Sam Watson

quarta-feira, novembro 29, 2006

Jogos de sombras.

«Decisão da Comissão é inaceitável», diz PM turco

2006/11/29 14:49

Erdogan diz que negociações euro-turcas podem ser prejudicadas

O primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyp Erdogan, considerou hoje inaceitável a decisão da Comissão Europeia de suspender parcialmente as negociações de adesão da Turquia à União Europeia (UE), noticiou a televisão turca NTV, escreve a Lusa.
«A decisão da Comissão é inaceitável», disse Erdogan à imprensa turca em Riga, à margem da Cimeira da NATO. O primeiro-ministro turco, que tinha acabado de se reunir com o seu homólogo italiano, Romano Prodi, acrescentou que não esperava esta decisão e que ela pode prejudicar as negociações euro-turcas, iniciadas em Outubro de 2005.
Um assessor do primeiro-ministro turco, Egemen Bagis, disse por seu lado à NTV que os líderes turcos «não vão deixar que os seus direitos sejam atropelados» e que «vão tentar evitar esta suspensão parcial».
A Comissão Europeia decidiu hoje propor aos 25 uma suspensão parcial das negociações de adesão da Turquia à UE, em resposta à recusa das autoridades turcas de abrir os seus portos e aeroportos a Chipre, um dos Estados membros da União.


Mundo estranho... Um Cardeal é contra o acolhimento da Turquia pela União Europeia, mas, uma vez Papa, declara-se a favor; um Primeiro-Ministro que pusera a hipótese de não o receber, desagua no aeroporto e recebe, surpreendido (?), a notícia da mudança de atitude, justificada como sendo agora da Santa-Sé e não do antigo Cardeal; parte para uma reunião com o apoio no bolso e uma razão de interesse nacional para justificar perante o seu povo uma atitude maioritariamente não desejada; e leva tampa da Europa de "matriz cristã". Jogos de sombras...

terça-feira, novembro 28, 2006

72%????? Só vendo...:(

'Sim' esmaga nos jovens, 'não' recupera 5 pontos Martim Silva

O referendo sobre o aborto do início do próximo ano pode tornar-se o primeiro em Portugal a conseguir levar às urnas mais de metade dos cidadãos eleitores inscritos nos cadernos de recenseamento. É isso mesmo que mostra a sondagem da Marktest para o Diário de Notícias e TSF: 72,7% por cento dos inquiridos, praticamente três em cada quatro, mostram vontade de ir votar no referendo, que Cavaco Silva terá de marcar para uma data entre o início de Janeiro e o final de Maio de 2007.Depois de duas consultas nacionais (ambas em 1998) em que foram mais os eleitores que não votaram do que os que se deslocaram às urnas, o panorama parece agora bem diferente. De acordo com a sondagem, 21,2% responderam não ter intenção de ir votar e apenas 6,1% disseram não saber se vão ou não votar. A diferença entre uma abstenção acima ou abaixo dos 50% é grande, na medida em que a lei considera que os referendos só são vinculativos se contarem com a participação de mais de metade dos eleitores.O Presidente da República tem agora mais 12 dias, até 10 de Dezembro, para decidir da convocação da consulta (durante a campanha presidencial, Cavaco deixou claro que viabilizaria qualquer proposta de referendo aprovada pelo Parlamento que chegasse a Belém).Na sondagem da Marktest deste mês, outro dado assume particular significado: é que se a esmagadora maioria dos portugueses quer ir votar, uma larga maioria afirma por seu lado que vai votar pelo "sim" à despenalização do aborto até às dez semanas. A diferença entre os apoiantes do "sim" e do "não" é nesta altura de dois para um (61%-30%). Uma larga vantagem, que, ainda assim, foi reduzida em cinco pontos em relação ao resultado que outra sondagem mostrava há um mês - no referendo de 1998 sobre o aborto, o "não" saiu vitorioso com 50,07% dos votos. Os jovens, ou seja, os eleitores entre os 18 e os 34 anos, assumem nesta sondagem um papel particularmente importante: são eles que mais dizem que vão votar (85,7%) e são eles que mais dizem que vão votar "sim" no referendo (73,7%). Por oposição aos mais velhos (mais de 55 anos), que são quem menos vontade tem de ir votar e quem mais opta pelo "não" no referendo.

segunda-feira, novembro 27, 2006

O Klatuu lembrou muito acertadamente.

de profundis amamus

Ontem
às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria
Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros
Olha
como só tu sabes olhar
a rua os costumes
O Público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
e há quatro mil pessoas interessadas
nisso
Não faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso

Mário Cesariny

domingo, novembro 26, 2006

O toque pessoal.

Já perdi a conta aos Congressos em que participei. E não foi ontem!, baralhei as contas para aí há vinte anos:). Na esmagadora maioria dos casos fui tratado como um príncipe. E no fim dos trabalhos, lá recebo uma lembrança ternurenta, relacionada com tema, local ou época. Este fim-de-semana fui ao Hospital de Leiria, com árvores caídas na auto-estrada e tudo. E quando acabei de falar, tinha uma escultura de refinado bom gosto à minha espera. Mas não só. O meu colega Bilhota Xavier reservara-me uma surpresa - frequentador do Murcon e consciente das minhas (nossas!) paixões, comprara o último disco dos Beatles para si..., e para mim:). Fiquei desvanecido. Porque uma coisa é a gentileza; outra o carinho.

sábado, novembro 25, 2006

Culturalmente "normal"...

Violência: namorar e apanhar

2006/11/25 14:10 Cláudia Lima da Costa

Número de vítimas até aos 24 anos foi o que mais cresceu, em 2006. O aumento é de 59 por cento. Agressões dentro do namoro ainda não são consideradas violência doméstica. Para muitos adolescentes bater «é normal»
O namoro está habitualmente associado a uma fase romântica da vida. No entanto, em Portugal, está também ligado, em muitos casos, à violência. O aumento nos casos e denúncias de violência doméstica, registados em 2006, teve maior expressão nas vítimas com idades até aos 24 anos. Este sábado é o Dia Internacional para Eliminação da Violência contra as Mulheres.
Os dados da PSP e da GNR dos primeiros seis meses deste ano, em comparação com o primeiro semestre de 2005, revelam um aumento de 59 por cento de vítimas com idades até aos 24 anos. De 917 vítimas passamos para 1459. Apesar de não ser o escalão onde existem mais casos, é aquele que regista o maior aumento.
A maior parte das ocorrências de violência doméstica ocorre já na idade adulta, nomeadamente, a partir dos 25 anos. Neste escalão foram registadas 8,177 vítimas, no primeiro semestre deste ano, contra 6,119, no mesmo período do ano passado. Um aumento de 34 por cento, segundo os dados das forças de segurança.
«Há um aumento de casos. No entanto esperamos que com a entrada da nova lei esse aumento ainda seja maior», afirmou ao PortugalDiário Helena Sampaio, da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima. O crime entre namorados ainda não está tipificado como violência doméstica, pelo que, ainda não é crime público (pode ser denunciado por qualquer pessoa). «As agressões são registadas apenas quando há queixa da vítima e são tipificadas como crimes ¿normais¿», explicou.
O surgimento de mais relatos de violência entre jovens motivou já que a Estrutura de Missão contra a Violência Doméstica (EMCVD) lançasse um folheto para prevenir os jovens de que «a violência nas relações de intimidade não ocorre só entre pessoas casadas, não ocorre só entre parceiros que viveram ou vivem juntos».
«Alguns jovens acham que é normal haver violência, que bater é normal. O nosso dever é passar a mensagem de que isso não é a realidade», explicou fonte da EMCVD. O folheto de prevenção alerta ainda que «o ciúme excessivo não é um sinal de amor, mas de possessividade e controlo».

sexta-feira, novembro 24, 2006

E o Carteiro de Pablo Neruda, e, e, e...:(.

Óbito: actor francês Philippe Noiret

O actor francês Philippe Noiret faleceu ontem vítima de cancro, informou o seu agente.

Nascido em Lille em 1930, o actor era um dos mais conhecidos do cinema francês, em especial devido ao filme ‘Cinema Paraíso’.

quinta-feira, novembro 23, 2006

A vertigem sensorial:).

"Mas eu tinha-me convencido que a nossa inteligência apenas filtra até nós um magro resíduo dos factos: interessava-me cada vez mais pelo mundo obscuro da sensação, noite negra onde fulguram e revoluteiam sóis que cegam".

Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano.

quarta-feira, novembro 22, 2006

À boleia de Alquimista e Fora-de-lei.

Gosto muito da palavra "bonomia":). E é realmente o que procuro na tertúlia do Porto Canal - reduzir, também pelo riso, o futebol às suas verdadeiras proporções, não suporto tanto catedrático a debitar "Filosofia e Física Quântica" sobre o mundo da bola. Quando me pediram para colaborar, salientei que não poderia comparecer todas as Segundas-Feiras. Na próxima, por exemplo, estarei numa reunião promovida pelos alunos do ICBAS. Outro benfiquista aparecerá:). A ausência de "cachet" vem no seguimento do que já acontecera na NTV - ajudarei todos os projectos que apostem na visibilidade do meu Porto, considero inacreditável que esta Área Metropolitana se confesse incapaz de fazer vingar um projecto televisivo.
Quanto aos meus netos..., já são portistas, os cruéis traidores:(.