sexta-feira, junho 11, 2010

À espreita do raio verde.

Maria,

A Igreja a fustigar as mulheres com o rótulo de tagarelas durante séculos e nós dois a torpedearmos o estereotipo. Eu a escrever pelos cotovelos e tu ascética na resposta - "ontem adormeci a ouvir música no teu ombro...". O assumir do que foi, a promessa do que virá, para mim sobra a inveja agradecida. O ombro espera-te. O sono também. Mas depois do teu!, há crepúsculos que nos enchem de sol o coração:).

terça-feira, junho 08, 2010

Boa noite.

Maria,

O corredor fica mais longo e escuro sem o teu passo ondeado, o olhar risonho de través, num desafio sem dúvidas quanto à resposta, para onde fugia o meu cansaço? Miúdo, assobiava em desespero na casa da Rua do Bolhão, resistindo à tentação do interruptor; num exorcismo desafinado que calava os fantasmas e amiúde trazia minha Mãe, sempre atenta como por acaso, nunca precisei de luz quando lhe sentia os dedos em viagem pelo meu cabelo. Mas agora? O medo - pelo menos o infantil... - desapareceu e a tristeza não se fez rogada - ocupou-lhe o vazio. Não penses que teria vergonha de assobiar! Mas para quê? Eu digo-te - para sentir a falta dela também:(. E assim vestir o corredor (?) de luto mais pesado...

sábado, junho 05, 2010

As amarras.

O medo e a auto-piedade são criminosos refinados. Espalham o nevoeiro sobre as águas e nós ficamos na segurança do porto. Claro que a espera envelhece. Mas é a viagem por fazer que acaba por matar.

quinta-feira, junho 03, 2010

A última fronteira.

Este amor interesseiro que sinto por alguns amigos mais velhos. (Alguns, não todos, o facto merece reflexão aturada.) Protegem-me, são cercas de ternura farpada entre mim e a morte. Eu sei: os acidentes de viação às cavalitas do álcool ou dos telemóveis; os cancros - perdão!, doenças prolongadas... - tão previsíveis como as campainhas das slot machines; os quinze minutos de fama nos telejornais, porque alguém entrou num local que nem sequer frequentávamos e descarregou arma e raiva, etc... Não falo disso, mas do ciclo "natural" da vida. Oiço-lhes o riso e a vida parece eterna. Frustrante, mas eterna, pois não os vejo atacar tripas à moda do Porto e sangria, alheios ao mero pensamento de uma insónia enfartada? E contudo o amor sem adjectivos resiste ao oportunismo hipocondríaco. Deixo-os em casa e sorriso e aceno deles acompanham-me Boavista abaixo, não sei quem partirá primeiro, mas os que ficarem selarão um quarto nos seus corações.

quinta-feira, maio 27, 2010

A whiter shade of pale.

Para lá da morte do ruído e antes do silêncio da morte há um bar. O empregado é mudo, evidentemente. A máquina de discos está avariada e a banda rock não apareceu porque a carrinha teve um furo. (Os copos não tilintam por mera delicadeza...). Como vês, trata-se do lugar perfeito. Bebe um trago, esgota a exaustão e pensa. Depois decide se recuas ou vais em frente, mas não percas demasiado tempo - a diferença não é assim tão grande, acredita. Lança a moeda ao ar, se preferes acreditar em sorte ou acaso. Mas não a deixes cair!, perdoo tudo menos o mais raquítico dos barulhos. Shhh..., incluindo o das palavras, sacana mentiroso e inútil, faltam-lhe demasiadas cores na paleta para aflorar o sentimento.

quarta-feira, maio 19, 2010

Diálogo nocturno.

- Nem penses, já estou em vale de lençóis.
- Bom, conheces o ditado: se o vale não vem a Maomé...
- A montanha, burro.
- Que se lixe, vou eu aí!
Ela notou, sem surpresa, que a humidade no vale aumentara...

sexta-feira, maio 14, 2010

Na auto-estrada.

Em viagem ouvi os comentários à visita papal dos Professores Anselmo Borges e Teresa Toldy. Fizeram-me, por vezes, regressar aos padres do meu querido colégio João de Deus. Não lhes poderia render melhor homenagem.

quarta-feira, maio 12, 2010

O Jorge.

O Carlos Magno é um amigo com privilégios firmes, o meu Velho gostava muito dele e isso chega e sobra. Mais um convite amável, os quatro dedos de conversa habituais e a surpresa dolorosa - o Jorge morreu. Ele, que com a sua Luísa foi meu aluno em Biomédicas e depois me acompanhou na magnífica loucura da Consulta de Sexologia do Magalhães Lemos. Um dia, mais tarde, bateu-me ao ferrolho e desabafou longamente. Recordo ter-lhe dito que ou diminuía o stress em que vivia ou estava em risco de passar da angústia à doença física. Não sei se o não pôde fazer ou se não fui convincente, o resultado está aí. Como a velha fotografia no jardim à frente do Instituto, os três sorridentes, eles à porta da vida profissional, eu grato pela ternura do pedido - "quer ser o nosso padrinho?". Ao longo de 36 anos tive muitos alunos, mas poucos discípulos. É compreensível, a esmagadora maioria da malta considerava o que eu expunha absolutamente inútil para o exercício de uma Medicina ingénua e arrogante, baseada nas super-especialidades. Alguns concordaram comigo - pensar a Medicina e os seus "pecados" não é traí-la. Gente como o Jorge e a Luísa, que me convidavam para jantar em sua casa e me faziam sentir um amigo e não o chefe. É um privilégio raro, que guardo no coração. Ensinei durante trinta e três anos numa instituição. Quando saí, excepção feita à minha Directora de Departamento, apenas recebi um abraço e o desejo de felicidades de um órgão - a Associação de Estudantes. E quando isso aconteceu, a gratidão expulsou a amargura. Porque foi com eles e para eles que fiz o melhor possível. Alguns ainda me contam alegrias e desventuras, numa demonstração tocante de fidelidade ao velho prof. Ver partir os mais jovens é anti-natural, como escreveu Bautista acerca da morte dos filhos, sinto um remorso hipócrita. Espero que a Luísa e os cachopos aguentem o melhor possível. E saibam que porta e braços estão abertos, mesmo sem o sorriso da fotografia:(.

domingo, maio 09, 2010

Para que conste.

Amanhã vou a Lisboa. Vocês conhecem-me, sou um preguiçoso militante, preferia ficar no sofá. Mas este ano foi especial, os marotos proporcionaram-me tantos momentos de prazer!:). Durante a semana houve quem se escandalizasse com a minha severidade acerca do descalabro emocional do Dragão. Lamento muito, sou um fanático livre. E se as coisas derem para o torto e eu não achar que foi apenas má sorte, rosnarei. Com a autoridade de quem vai trabalhar, depois guiar rumo a Lisboa mais depressa do que desejaria, roer as unhas e gritar de alegria ou aguentar insónia muuuuito triste. Mas - sobretudo! - de quem deixará Lisboa tão desesperadamente apaixonado pelo Benfica como chegou:).
Per omnia...

quarta-feira, maio 05, 2010

Prova provada.

- Como saberei que gosto de uma a sério, gostar mesmo, caramba!, perguntou o rapaz.
O velho senhor respondeu sem hesitação,
- Quando desejares dormir com ela depois de dormir com ela.
- Então é simples, congratulou-se o puto.
Nos olhos cansados espreitou um brilho divertido.
- Com efeito. Excepto se te apetecer fugir ao acordar.
E voltaram à contemplação das ondas, enlouquecidas pela nortada.

domingo, maio 02, 2010

O seu a seu dono.

Sinceros parabéns ao F. C. Porto pela atitude, o arreganho, o espírito de sacrifício. O Benfica? Uma enorme desilusão.

terça-feira, abril 27, 2010

O jantar.

Fitou a amiga, pensativa. Pediu ajuda a copo e garfo para resposta meditada. Repetir a pergunta comprou-lhe mais uns segundos.
- Se é o princípio do fim?
A biografia de Winston Churchill no escritório do Pai, leitor compulsivo e amante da frase elegante e certeira. (Como o Paulo...). Um título através das brumas da memória, e se apenas a Nação fosse imortal?:(.
- Não digo tanto...
O silêncio dele quando o deixara - resignado, quase pacífico; invadindo já o futuro.
- ... Mas talvez seja o fim do princípio.
Calou o arrepio da alma com um golo terapêutico, não saboreado. A amiga escondeu a surpresa condoída num entusiasmo falso pelo caril de gambas.
O resto do jantar foi normal.

quarta-feira, abril 21, 2010

Serão.

Simon and Garfunkel em fundo - "Preserve your memories, they're all that's left you". O sorriso abrindo a porta ao murmúrio - "easier said than done". As fotografias arvoradas em muletas. Os sons do silêncio. Que é ambicioso!, tenciona invadir-lhe o espírito.
Quem for vivo e lúcido verá...

quinta-feira, abril 08, 2010

A heresia:(.

1 - Que os rapazes perdessem, era uma hipótese.

2 - Que as perninhas cedessem também. E provável!

3 - Depois de Marselha, ver o pobre do Júlio César petrificado não foi uma surpresa.

4 - Que à tristeza se misture o alívio é lógico, a megalomania podia - e ainda pode... - levar-nos a perder o campeonato.

5 - Mas discordar de algumas das opções de Jesus faz-me recear pela salvação da minha alma benfiquista:(.

quarta-feira, abril 07, 2010

Qui se taquine...

Peguilhar contigo, tão sério como os políticos quando prometem. Ver-te sorrir, negociar, dar-me desconto, compreender o dia que (não) tive, lançar as agruras do teu para trás das costas em prol de um jantar descontraído e namoradeiro. Subir a parada. A ligeira crispação dos teus lábios que contagia os olhos e põe os lábios em movimento – “não estou a gostar desta pseudo-conversa”. O toque final, artístico e na corda bamba – “nem eu”. Os dois centímetros que ganhas empertigada inocentes, é do alto de uma absoluta inocência e autoridade moral que disparas em tiro raso para me colocar de joelhos e ao ciúme fingido mas verdadeiro – “estás a ser ridículo e ofensivo, sugiro…”. Provavelmente que utilize os neurónios para variar, eu prefiro escancarar o riso e abrir os braços, tu abanas os teus, desalentada, furiosa por já não sentires fúria, desconfio que aliviada por ainda guardar dentro de mim uma réstia de adolescência – “caio sempre…”. Ah, esse doce pragmatismo!, que te faz reabilitar a queda e invadir-me o colo faminto:).

terça-feira, abril 06, 2010

O horror, escreveu Conrad. A cada um o seu...

Os geniais Monty diziam-nos, do alto das cruzes em A Vida de Brian, que era preciso olhar sempre para o lado brilhante da vida. Aos sessenta, e com dois Pais demenciados, não é difícil fazê-lo perante esta notícia:), os meus filhos já não tremerão a cada esquecimento ou repetição. Como eu e alguns de vocês...

Alzheimer terá tratamento eficaz em até 10 anos, diz cientista inglês
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da Efe, em Barcelona
O médico inglês David Wilkinson, um dos maiores especialistas no mal de Alzheimer, afirmou que em um prazo de dez anos estará disponível um tratamento combinado de remédios que controlará o avanço da doença.
Como acontece atualmente com o tratamento contra a Aids, Wilkinson que a combinação de diversos remédios e, sobretudo, a prevenção também serão decisivas para a cura do Alzheimer.
"Não acho que nunca teremos um tratamento único contra o Alzheimer, mas quatro ou cinco diferentes. Talvez combinaremos uma vacina com inibidor de colinesterase com uma droga de memantina e antioxidantes ou antiinflamatórios, o que permitirá uma administração correta da doença", afirmou.
Wilkinson, diretor do Centro de Pesquisa e Avaliação da Memória do Hospital Moorgreen, em Southampton, no Reino Unido, afirma que dentro de "uns cinco ou dez anos" estará disponível o primeiro tratamento combinado que cure ou pelo menos detenha o progresso da doença, que afeta entre 6% e 10% da população dos países desenvolvidos.
Disgnóstico
Atualmente não existe nenhum remédio que detenha o mal de Alzheimer, mas há vários que conseguem desacelerar a evolução.
Para o cientista, tão importante quanto achar uma cura é que a doença seja detectada a tempo. A experiência demonstra que "quanto mais rápido se diagnostica e se trata, melhores são os resultados obtidos a longo prazo".
O problema, segundo Wilkinson, é que na Europa como um todo se demora em média mais de um ano desde os primeiros sintomas da doença até os pacientes recorrerem ao médico para conhecer as causas provocadas pela perda grave de memória, pela desorientação e pelos constantes descuidos.
O especialista considera que é positivo comunicar o diagnóstico da doença ao paciente, por sua vez destaca a importância de que pessoas famosas que sofrem da doença assumam em público.

sábado, abril 03, 2010

Boa Páscoa, gente.

Simone Weil disse um dia que não acreditava em Deus, mas sim nos que acreditavam Nele. É uma frase belíssima, veio-me ao espírito quando lia o Papa -"Liberta nossa inteligência da pretensão equivocada e um pouco ridícula de poder dominar o mistério que nos circunda ". Tudo porque "recusamos a necessidade de Deus". Aos sessenta anos, admito que este tipo de arrogância ainda me entristece, os padres que ajudaram meus Pais a educar-me jamais a apoiariam. Mesmo antes de a psiquiatria ter reforçado a minha consciência desse mistério, nunca o pretendi dominar, muito menos confiei na Ciência para o fazer, aceito-o fora e dentro de mim. Como aceito que milhões lhe encontrem explicação no conceito de Deus como causa última. Muitos, suponho, nem chegaram a Ele por "necessidade", mas porque a sua busca de transcendência desembocou na Fé ou, grata, a acolheu.
Compreendo que o Vaticano se sente acossado, reina, aliás, alguma confusão - a vozes que pedem abertura total e expressam arrependimento por práticas "corporativas" que desdenharam o sofrimento, contrapôem outras uma visão paranóide que chega ao cúmulo de comparar o que se passa ao anti-semitismo! Respeitando as palavras, os padres que me educaram diziam que o cristianismo era uma prática. Ao alcance de todos... S. Paulo, contra quem tantas vezes "rosno" por causa da visão deprimente - e bem pouco cristã... - sobre a sexualidade, não espalhou pelo mundo greco-romano que as diferenças baseadas em credo e sexo terminavam sob a égide de Jesus? Sem comunhão ou baptismo no currículo, os meus amigos explicaram-me que isso não era álibi para ignorar a mensagem do Nazareno. Cumpri-a de forma satisfatória? Claro que não. Aceito-a como ideal utópico a perseguir? Sim, não encontro razão válida para negar pedido tão "megalómano" - amar o próximo como a si mesmo.
Para mim, Jesus foi um sonhador e um homem bom (perdoarão que não discuta a última teoria sumarenta, segundo a qual seria gay, nem me atarde sobre a angustiante (?) questão do seu aspecto físico). Viveu e morreu de acordo com aquilo em que acreditava, ou seja, em absoluta e sofrida paz consigo próprio. Incitou-nos a fazer o mesmo, não apenas como indivíduos, mas de um modo fraternal, solidário. E por isso, este agnóstico pensa nele com um enorme orgulho e deseja que amanhã ressuscite de novo simbolicamente para alegria de tantos, mas viva o ano inteiro nas práticas quotidianas e escolhas éticas de muitos mais. Para o bem de todos...

domingo, março 28, 2010

Porque foi publicado no Expresso de ontem, já o posso "guardar" aqui.

A férrea doçura de minha Mãe transformou os Machado Vaz em satélites agradecidos. Marido, filho e netos habituaram-se à opinião firme e não cortante, a apoio certo mas jamais incondicional, ao colo acolhedor e contudo sempre temporário, ela não permitia que a sua força atrasasse o futuro de ninguém. Quando o primeiro bisneto nasceu, embalou-o com o enlevo que reservava a todas as crianças, mas já não o reconheceu como herdeiro e fiel depositário da lenda familiar.
O meu Pai sofreu o primeiro enfarte e a Mãe disse, com envergonhada firmeza: “se morrer, apenas fico por tua causa e dos meninos, a vida sem ele não faz sentido. Desculpa”. Abracei-a em silêncio, nada havia a desculpar - eu fora testemunha, fruto e voyeur invejoso de um árduo amor perfeito durante cinquenta anos. Quando a velha dama risonha cantada por Neil Young tentou de novo seduzir meu Pai, a vida dela rendeu-se ao horror permanente de o perder: vigiava-lhe passos, queixas, esgares e mesmo a sesta, inventava pretextos para o acordar porque lhe parecera demasiado quieto e a cabeça, derrotada, pendia sobre o peito. Como a fina inteligência!, após o segundo enfarte ele baloiçava entre a venerada lucidez e um estado confusional embrutecido, que o deixava frente à televisão em permanente e cego zapping. Enquanto o jornal amado permanecia virgem ao alcance da mão, de súbito analfabeta….
Eu abria a porta e perguntava como se sentia ela, que de imediato me chamava à (sua) realidade com um “como achas o Pai?” sem réplica possível. Entretanto, e sem eu saber, começara a perder-se na rua e a gerir o quotidiano à custa de papelinhos e aflitos regressos a super-mercados, oficialmente decretados meros esquecimentos. E o filho psiquiatra, obediente, observava-o a ele… Até que um dia reparei no seu cabelo e percebi que minha Mãe mudara, a palavra desleixo não constava no seu vocabulário. Ofereci-me para a levar ao cabeleireiro – “ele fica sozinho”…, “estou cá eu, um dos rapazes leva-te”…”não, deixa-me”. Aos gritos de raiva, face escondida nas mãos, choro convulsivo, como pudera ser tão néscio?
E à terceira foi de vez, o seu homem partiu; num sofrimento que envergonhou a Medicina, ela aconchegava-lhe os lençóis, “o Pai ainda se constipa…”. Quando lhe dei a notícia, uma calma estranha invadiu o quarto e expulsou o delírio em que vivia, disfarçou a ordem de pedido, “levas-me?”. Perante o meu olhar atónito beijou-lhe a testa e velou-o com a minha entre as suas mãos, afiançando-me que ambos trataríamos de tudo “para proteger os meninos”.
Todos fomos sendo esquecidos, talvez pelo esforço titânico para o manter a ele algures. E um dia as costas endireitaram-se, nos olhos faiscou de novo aquele verde que me assustava e enternecia, “por favor, ajuda-me a acabar com isto”. Pedia auxílio e consentimento, era incapaz de trair, “fico por tua causa e dos meninos…”. Não consegui e ela regressou às catacumbas do cérebro. O corpo resistiu doze anos, o espírito há muito que se juntara a meu Pai. Agora, espera-me em Cantelães. Onde lhe reencontrarei o colo. E bálsamo para a culpa não culpada que ainda sinto. Só ela o pode fazer, “vem, menino”. Abrindo sorriso e braços, lá onde repousa - no meio das (outras) flores.

sexta-feira, março 19, 2010

Dia do Pai.

Releio A Cidade e as Serras e em em cada esquina das palavras sussurra a voz de meu Pai: o diagnóstico do velho Grilo - "Sua Excelência sofre de fartura"; Sua Alteza de partida, incitando o anfitrião do 202 - "O peixe, Jacinto, desencalha o peixe!"; Efraim e o capitalismo selvagem explicado numa frase - "esmeraldas! Está claro que há esmeraldas!... Há sempre esmeraldas desde que haja accionistas!"; Jacinto em desesperada busca do natural - "Vamos ao Jardim das Plantas, ver a girafa!".

Meu Pai amava Eça, de quem dizia, num contentamento educativo - "está lá tudo". E as suas citações favoritas arvoram-se em banda sonora da saudade que não esmaece. Se tivesse de escolher uma para legenda de memória nossa, iria buscá-la a este livro. Porque quase até ao fim da vida, raras foram as vezes em que meu Pai tropeçou no filho embrenhado no desafio do Verbo e não murmurou, enquanto aflorava com dedos tímidos a minha nuca - "faz bem, lembre-se do Jacinto - há que ler, há que ler...".

Mas "Quase até ao fim" traduz aceitação reflexa - logo não meditada, o que sobremaneira o escandalizaria! - de um conceito de vida que a vida me foi fazendo recusar com redobrado vigor: a sua identificação a funções vitais necessárias mas não suficientes. "Até ao fim", deveria ter escrito. Porque o meu Velho só deixou de assim me exortar à leitura quando já não desdobrava o jornal que minha Mãe religiosamente colocava a seu lado todas as manhãs.

E a partir desse momento, testemunha que sou do brilho e eterna curiosidade da sua inteligência, seria de lamentável mau gosto dizê-lo vivo. A ninguém ocorre chamar ainda navio aos destroços que salpicam as águas depois do naufrágio:(.

quinta-feira, março 11, 2010

Quase...

Rabugento, quase adormecer-te no colo. As crianças resistem, negam, fazem birra, nós sorrimos e comentamos - "está perdido de sono". Talvez, mas dormir parece-lhes um crime desleixado, antes mesmo de o saberem já consideram obsceno passar um terço da vida fora dela, sonhar?, não é a mesma coisa!, quem precisa de alucinar outros com brinquedos de carne e osso no quarto ao lado?
Por isso resisto a essa mão pelos meus cabelos, aos olhos enevoados e à promessa de ouro de lei - "depois...". Não, querida, agora, o cansaço vem de dentro e longe, não se renderá a duas ou três horas de sono inquieto. Agora. E depois... Depois... Depois pedimos meças aos contorcionistas do circo da minha infância, entalados entre palhaços deprimentes e leões deprimidos, e adormecemos no colo um do outro:).

segunda-feira, março 08, 2010

TVC1

O processo de Eichmann. A ladainha clássica - "obedeci a ordens"... "Hitler"... Quando visitei Dachau recordei as experiências feitas com universitários americanos, que administravam (teóricos) choques eléctricos a actores implorando misericórdia. Porque tinham recebido ordens para o fazer... O Mal como visão ontológica é um mito que nos protege de um espelho perturbador - os maiores crimes podem ser cometidos por gente banal. Adjectivá-la de monstruosa não a transforma em extra-terrestre. Por muito que nos custe, o horror de que falava Conrad é, pelo contrário, simplesmente humano:(.

domingo, fevereiro 28, 2010

Domingo à noite.

Gostei de Whatever works, do velho Woody. Estou de acordo com a maioria dos críticos: o maroto foi buscar um "capanga" capaz de ser mais credível no azedume e agressividade, sem perder a ternura. A mensagem parece traduzir a prioridade que resiste - ou surge... - após um trajecto de vida: estamos sozinhos "cá em baixo" e o caos é a ordem reinante, logo, cada réstia de céu azul relacional deve ser aproveitada enquanto dura... Nada de novo em Allen, o fim de Annie Hall ia na mesma direcção. Claro que as combinações apresentadas no filme porão os cabelos em pé a muitos, que as decretarão sinais de um intolerável relativismo ético. Para gáudio dele, desconfio:).
Este fim-de-semana revisitei Shadowlands com Hopkins e Debra Winger. Continuo a ter aquela sensação estranha de que certos actores - lembro-me de Olivier, Gielgud e Burton, por exemplo... - nos fizeram um enorme favor não se limitando ao teatro. Claro que não foi assim, não resistiram a Hollywood. Mas ver Hopkins para lá do enorme sucesso de O Silêncio dos Inocentes é um privilégio raro, Despojos do Dia parece-me outro espectáculo fabuloso de representação "ferozmente ascética". E não deixa de ser curioso que a mensagem é muito semelhante: viver o aqui e agora, aceitando que o sofrimento futuro faz parte da felicidade actual.

P.S. Tive uma epifania - sou sportinguista desde pequenino:).

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

Vão espreitar!

Peter Sellers no TVC2, Bem-vindo Mr. Chance. Uma alegoria genial à sociedade de aparências que já então se desenhava. E o epílogo ideal para o meu dia:).

domingo, fevereiro 21, 2010

Projecto de vida.

Subir ainda uma vez a Quéribus e esperar. Porque é estúpido procurar respostas neste frenesim acéfalo. Subir a Quéribus e esperar. Não por Deus, romano ou cátaro; por mim.

terça-feira, fevereiro 09, 2010

O filho da Mãe.

Por vezes, ao longo dos anos, houve momentos ou breves minutos durante aulas em que senti uma paz "cósmica", que me fazia bordejar a transcendência, se a expressão me é permitida. Ouvia-me dizer exactamente o que desejava da forma que desejava e a dúvida gania - "não vai durar". Com efeito, o encanto era de vida breve:(. Ficava a esperança... Como se mulher muito querida me afagasse o cabelo garantisse, quase coquette - "eu volto". Sorrio perante a comparação. Ela traduz uma profunda idealização da figura feminina e minha Mãe está-lhe na origem, como é óbvio. Acredito que neste deserto cinzento, são as mulheres a saber por trás de que dunas se escondem os oásis.
Mas só guiam quem lhes dá na real gana, as marotas:).

terça-feira, fevereiro 02, 2010

A violação.

“Meu querido,
Não te digo metade (a metade graaaande:) ) do que penso, quando penso em ti . E é muito!, porque moras em todos os meus pensamentos. Pelo menos os bons… Gostava de te guardar no bolso e partir à (nossa) descoberta here, there and everywhere, de Porto Covo a Berlim. Quando alucino uma casinha – eu sei, tresanda a XutosJ -, ela tem um sofá inundado pelo sol onde te enroscas e ao qual eu me encosto, livros espalhados pelo chão e os cabelos pelos teus dedos. Assustadora a fantasia, de tão “conjugal”? Estás enganado, acontece que te levo sempre comigo, das caminhadas na Ericeira aos jantares com amigos no Bairro Alto, os sítios e as pessoas ficam mais bonitos porque vistos por olhos que te procuram e recordam. Se estivesses a meu lado falaríamos de tudo – eu, pelo menos, falaria de tudo! -, não escapavas a poema, notícia ou até coscuvilhice – credo… - escutada, lida ou pressentida. E com razão me decretarias chata, mas com um requebro doce na voz.
Não sei o que o futuro nos reserva; gosto de ti; tenho medo(s)... Principalmente o medo de não saber o que poderia fazer melhor por e para nósL. Gostava de estar nos teus braços e explorar mais de perto esse cheiro por trás do perfume que prefiro acreditar escolhido por amiga de peito...; de ter a certeza que me escutas e não apenas ouves; de te acolher os segredos, os beijos cegos e as mãos em abençoada vagabundagem, talvez um riso infantil e grato em face das prendas ridículas – agora cheira a Pessoa… - com que me imagino a inundar-te.
A verdade é que não te digo metade da metade da metade…, ah!, basta dizer(-te) que adormeço a pensar em nós e tal abraço não é opcional. Boa noite, um beijo grande. Amanhã dir-te-ei bom dia num qualquer corredor e o beijo que trocaremos, acredita!, não passará de uma versão a preto e branco e burocrática deste, mesmo a solo.”
Fechou o diário, à culpa juntava-se um remorso pungente, sem fim à vista. De volta à sala e ao marido, cujos receios exibiam agora a moldura da impaciência.
- Então?
E ela admitiu para si mesma que fora cúmplice da devassa. A rapariga sozinha em Lisboa, as notas a baixarem, as olheiras húmidas, as fugas para o quarto em fins-de-semana, “vão vocês”. O medo deles como álibi, mas sem justificar absolvição. Em voz surda,
- Não são drogas, é doença de amor.
O alívio optimista e amnésico dele,
- Óptimo, isso desaparece com a idade.
A teoria do aquecimento global em definitivo descartada, jorrou de coração e lábios gelo suficiente para uma vida inteira.
- A doença ou o amor?
Ele já regressara ao telejornal.

quarta-feira, janeiro 27, 2010

Flashback.

Os saltos (mais) altos e a mini que corrias a abraçar entre o dia de trabalho e o meu olhar, tão ávido como enternecido. O "gira lá para dentro", dito por mim, exigido em silêncio por ti. O amor, que não se faz, mas sente. A tua cabeça no meu ombro, a minha recente paz no teu colo. O caminho inesperado entre desejo e gratidão. As saudades, que entravam antes de saíres. E me davam certeza agridoce - se um dia não voltasses, aceitava; mas nem Deus, nem amo, como diria o velho Ferré, me obrigariam a concordar.

domingo, janeiro 17, 2010

Faz-me tanta pena:(.

Dezasseis anos depois de ter sido criada, a Fundação Eugénio de Andrade está em vias de extinção.
Confrontado com uma situação financeira insustentável, o Conselho Directivo da fundação enviou ao Governo, em meados de Dezembro, um pedido de extinção. A questão estará a ser analisada pela Presidência do Conselho de Ministros. De acordo com o jornal Público, a Fundação começou a receber, em 1997, um subsídio do Ministério da Cultura (era ministro Manuel Maria Carrilho) através do Instituto Português do Livro e da Biblioteca, que terá oscilado entre os 12 mil e 19 mil euros anuais. No entanto, em 2005, quando a ministra Isabel Pires de Lima tomou posse, percebeu que não havia qualquer protocolo assinado e que o subsídio seria, então, ilegal. O cancelamento deste apoio veio contribuir para estrangular ainda mais a situação financeira da fundação que já se encontrava debilitada pela falência sucessiva dos distribuidores e do co-editor das obras do escritor falecido em 2005. A verdade é que a instituição tinha apenas direito a uma pequena percentagem dos direitos de autor e, uma vez que não tem qualquer outra fonte de rendimento para além do apoio da Câmara do Porto, a instituição encontra-se na falência.
Tags: Artes DN.

terça-feira, janeiro 12, 2010

O capitalismo é pragmático:). Por isso alguns escreveram que a (r)evolução sexual dos anos 60 era inevitável.

"Uma lufada de ar fresco." É isso que a aprovação da união entre pessoas do mesmo sexo pode significar para a "indústria dos casamentos", admite o director da Exponoivos, António Brito. Por isso, as empresas presentes na feira deste ano, que começa hoje em Lisboa, "estão já preparadas para surpreender os casais homossexuais", com opções para este "nicho de mercado", acrescenta.
António Brito prefere não "levantar o véu" sobre as novidades para estes casais, mas diz que as empresas estão a tentar antecipar tendências para chegar a este nicho de mercado, que pode ser criado hoje se o Parlamento aprovar o acesso dos homossexuais ao casamento civil (mais informação nas páginas 1 e 2).
Aliás, esse é um dos motivos que levam as empresas do sector a ter "expectativas muito positivas para 2010". Até porque se trata de "pessoas que estão há muito tempo à espera por esta hipótese e geralmente têm poder de compra", conclui.
O responsável não duvida de que "os casamentos entre pessoas do mesmo sexo vão ser uma mais--valia para o sector", tal como aconteceu em Espanha, sobretudo depois de dois anos complicados.
É que em 2008, e sobretudo em 2009, a crise acabou por afectar também as bodas. Por um lado, as pessoas casam-se cada vez menos. O número de novos matrimónios tem descido de forma constante - enquanto em 2002 houve 56 457; em 2008, apenas 43 228. Por outro, as empresas sentiram que quem se casou teve mais contenção nos gastos. "Há uns anos era mais comum um casamento ter 200, 300 convidados. Agora, os noivos convidam 120, 130", explica António Brito. Isso afecta sobretudo as empresas que alugam salões para banquetes e as quintas que organizam os copos-d'água, mas também as floristas, cabeleireiros e muitos dos negócios que giram à volta de um casamento.
Há cerca de 200 empresas na Exponoivos deste ano, mas o director da feira estima que existam De 2000 a 3000 empresas directamente ligadas a este negócio. Na maioria, microempresas, que criam De 20 a 30 mil postos de trabalho. "Há mais de 45 subprodutos que estão associados à festa", acrescenta. Do vestido de noiva à lua-de-mel, passando pelas prendas, música, decoração, cabeleireiro, entre outros, que quem nunca casou dificilmente se lembrará sozinho.
E há também instituições de crédito para quem precisar de ajuda para pagar a festa. Afinal, em média, cada casal gasta cerca de 20 mil euros - para um casamento com cem convidados -, diz o director da Exponoivos. Sem pensar em extravagâncias, como as que começam a ser importadas de outras partes do mundo. "No México a moda é criar e libertar borboletas, como símbolo de felicidade e de fertilidade. Começam a aparecer pedidos deste tipo", conta. E empresas para os satisfazer. Até domingo, algumas vão estar no Centro de Congressos de Lisboa.

sexta-feira, janeiro 08, 2010

Mais um passo.

O debate não foi particularmente estimulante, convenhamos. Dei comigo a recuar 18 anos - credo... - e a recordar um determinado programa do Sexualidades. Dois homossexuais seropositivos de costas para a câmara e eu a pronunciar em on e off palavras proibidas: casal, família... O Diabo feito vaca, dizia-se no meu tempo! - ameaças de morte, insultos, um par de cumprimentos não retribuídos em restaurantes da Invicta. Nada de importante a médio prazo. Que eles não chegaram a viver:(. Hoje lembrei-me dessa tarde. Porque é tão lenta e acidentada a viagem entre a oblíqua tolerância e a fraternal aceitação?

terça-feira, janeiro 05, 2010

Ser homem e hetero compensa:). Ainda por cima, "cientificamente" falando...

A infidelidade masculina é boa para o casamento e deve ser praticada, garante uma das mais famosas psicólogas francesas, citada pela «BBC Brasil».
No livro «Les hommes, lamour, la fidélité («Os homens, o amor, a fidelidade»), que lançou recentemente, Maryse Vaillant refere que a maioria dos homens precisa do «seu próprio espaço» e que para eles «a infidelidade é quase inevitável».
De acordo com a autora, as mulheres podem viver uma experiência «libertadora» ao aceitarem que «os pactos de fidelidade não são naturais, mas culturais» e que a infidelidade é «essencial para o funcionamento psíquico» de muitos homens que não deixam por isso de amar as suas mulheres.
As declarações polémicas de Vaillant, divorciada há 20 anos, visam, segundo a própria, «resgatar a infidelidade», já que, assegura, «39 por cento dos homens franceses já foram infiéis às suas mulheres em algum momento da vida».
«A maioria dos homens não faz isso por não amar a sua mulher, eles simplesmente precisam de um espaço próprio», defende.
«Para estes homens, que são na verdade profundamente monogâmicos, a infidelidade é quase inevitável», sentencia.
A psicóloga vai mais longe ao afirmar que os homens que não têm casos extra-conjugais podem sofrer de «uma fraqueza de carácter».
«Eles são normalmente homens cujo pai era fisicamente ou moralmente ausente. Estes homens têm uma visão completamente idealizada da figura do pai e da função paternal. Não têm flexibilidade e são prisioneiros de uma imagem idealizada das funções do homem», conclui.

sexta-feira, janeiro 01, 2010

Aí está o Parecer, venha a tertúlia:).

PARECER DO COLÉGIO DE ESPECIALIDADE DE PSIQUIATRIA DA ORDEM
DOS MÉDICOS RELATIVO AO PEDIDO DO SR. BASTONÁRIO EM CARTA DE
14/05/2009
Concordando globalmente com o parecer do Bastonário da Ordem dos Médicos, em
carta datada de 14 de Maio de 2009, e em resposta ao pedido que nela se expressa, o
Colégio da Especialidade de Psiquiatria da Ordem dos Médicos esclarece o seguinte:

1. É generalizado o consenso entre os médicos psiquiatras de que não existe qualquer
tratamento para a homossexualidade, pois esta designação não se refere a uma doença,
mas sim a uma variante do comportamento sexual. Considerar a possibilidade de um
“tratamento” da homossexualidade implicaria, nos tempos actuais, a violação de normas
constitucionais e de direitos humanos. Seria, aliás, o mesmo que falar de um
“tratamento da heterossexualidade”.


2. Este facto não pode omitir que o comportamento sexual é um dos mais complexos
e menos conhecidos do ser humano, embora seja dos que mais leva a conflitos intrapessoais,
inter-pessoais ou mesmo a comportamentos legalmente sancionáveis. Estes
factos não podem ser desprezados pelos médicos e têm levado a diversas terapêuticas
sexuais, alguma das quais pretendem ou pretenderam interferir na orientação sexual.

3. A maioria destas últimas terapêuticas, descritas na literatura científica e recorrendo
geralmente ao condicionamento aversivo, decorreram nas décadas de 60 e 70. Muitos
dos artigos que as descrevem são estudos de caso, outros têm uma metodologia
científica pouco rigorosa. Para além disso realizaram-se em condições pouco límpidas,
por exemplo, com alguns pacientes a serem enviados pelos tribunais. Os resultados,
mesmo assim, não eram brilhantes, com cerca de metade dos pacientes a reduzirem o
desejo ou comportamento sexuais para com o mesmo sexo, mas uma percentagem
muito mais baixa a envolverem-se sexualmente ou aumentarem o desejo pelo sexo
oposto. Também eram referidos efeitos perturbadores, tais como redução global do
desejo, depressão, ansiedade e comportamento auto-destrutivo.

4. Com a despatologização da homossexualidade, primeiro pela Associação
Americana de Psiquiatria (APA), em 1973, depois pela Organização Mundial de Saúde,
estes estudos foram desaparecendo. Entretanto, os tratamentos sexológicos evoluíram,
nomeadamente na tentativa de resolução das perturbações do desejo sexual (parafilias),
melhorando os seus protocolos e também o conhecimento dos factores implicados que,
em geral, resultam de aprendizagem. No entanto, tem-se apercebido de que existem
muitos aspectos diferentes, nem sempre coerentes entre si, ligados ao comportamento
sexual – e também ao homossexual – como as fantasias, o desejo, o comportamento
sexual (e masturbatório), os relacionamentos íntimos e a identidade.

5. Em 1998 e em 2000, a Associação Americana de Psiquiatria publicou Declarações
de Princípios (Position Statement) sobre as tentativas para mudar a orientação sexual
(também chamadas terapias reparadoras ou de conversão). Nestas declarações, condena-se
a sua execução “baseada na suposição de que homossexualidade por si é uma
desordem mental ou baseada na suposição apriorística de que um paciente deveria
mudar sua orientação”. Apesar disso, reconhece-se que “no curso de um tratamento
psiquiátrico corrente podem existir indicações clínicas apropriadas para tentar mudar
comportamentos sexuais”. Acrescentam que “Os debates políticos e morais que
envolvem este assunto obscureceram os dados científicos, pondo em questão os motivos
e mesmo o carácter dos protagonistas de ambos os lados”. Finalmente reconhece a
pobreza científica dos estudos sobre benefícios e prejuízos, para “encorajar e apoiar a
comunidade acadéica a pesquisar a „erapia reparadora‟no sentido de determinar os
riscos contra os benefícios”.

6. A terapia “reparadora” ou “conversiva” (o próprio nome tem causado controvérsia
pelas conotações que pode ter) era usada como tentativa de resolver a
“homossexualidade egodistónica” que a Associação de Psiquiatria Americana, sob
influência dos activistas LBG (Lésbicas, Gays, Bissexuais), fizera desaparecer da
DSM3-R, em 1987, mas que se manteve na Classificação Internacional das Doenças da
Organização Mundial de Saúde. Do ponto de vista do movimento LBG que, entretanto,
recorria aos seus próprios terapeutas, o sofrimento causado pela homossexualidade
egodistónica resolver-se-ia com uma terapêutica de afirmação LBG, incluindo activismo
social e político com vista à aceitação social das minorias sexuais.

7. Na sequência das declarações da APA foram publicados, já neste século, artigos
sobre a mudança de orientação sexual e suas terapias. Em geral, os seus autores
limitam-se a indagar pacientes que passaram ou estão a passar por esta terapia. Embora
os resultados não sejam muito diferentes na sua substância, é fácil descortinar o
posicionamento dos seus autores, procurando uns acentuar os efeitos positivos, outros
os problemas decorrentes e falta de ética. Um dos estudos mais conhecidos é o de
Robert Spitzer – um credibilizado membro dos comités responsáveis pelo
desaparecimento da homossexualidade como doença –, publicado em 2003 nos Archives
of Sexual Behavior que, depois de anunciar resultados claramente positivos numa
amostra, provavelmente enviesada, de 146 ex-gays e 47 ex-lésbicas suscitou, na mesma
revista, 26 respostas de 42 especialistas. Mais do que o artigo, a discussão que ele
provocou foi deveras interessante, revelando posicionamentos diversos e suscitando
novas questões, como a possibilidade da mutação espontânea da orientação sexual. Na
verdade, Spitzer foi criticado por não ter amostra de controlo, pelo que alguns dos seus
elementos poderiam ter mudado independentemente da terapia. Alguns destes casos
eram, entretanto, descritos.

7. Os ecos do artigo de Spitzer permaneceram nos anos seguintes, levando ao
interesse pela investigação destes pacientes. Os dados levantados procuravam as
motivações para tal “terapia” (muitas vezes ligadas ao conflito com as convicções
religiosas), mas revelavam também a complexidade da questão da homossexualidade
que, longe de ser preto no branco, apresentava graus variados e componentes que iam
desde a orientação, atracção, desejo e fantasias sexuais, até ao comportamento sexual e
a identidade baseada na orientação sexual. Para alem disso, o procedimento
“terapêutico”, frequentemente ministrado dentro de comunidades religiosas, incluía
várias técnicas comportamentais não aversivas mas, sobretudo, terapia e suporte de
grupo, aconselhamento, psicoterapia e intensa participação em novas comunidades

8. No pólo oposto a Robert Spitzer, um dos seus críticos é Lee Becksted, um exmissionário
Mórmon com um doutoramento em Psicologia do Aconselhamento. Ele
próprio envolvido nos dilemas da fé religiosa, fez uma investigação semelhante à de
Spitzer onde, porém, não aparecem resultados sobre a eficácia. Com o pressuposto de
que a homossexualidade é imutável, apresenta apenas resultados qualitativos que
mostram as vantagens de trabalhar antes com a identidade, numa perspectiva rogeriana
de auto-aceitação. Mostra assim que é possível trabalhar, caso a caso, o tema das
identidades, com diversas evoluções satisfatórias, em alternativa às terapêuticas de
afirmação e activismo gay, ou ainda às “terapias reparadoras” tomadas a cargo de
associações religiosas, como Exodus International, que perseguem radicalmente a
homossexualidade e a tentam mudar a todo o custo.

9. As ideias de Lee Becksted tiveram uma influência decisiva num relatório elaborado
por uma task force, à qual ele pertenceu, sobre “As respostas terapêuticas adequadas à
orientação sexual”. Desse relatório resultou uma resolução que acaba de ser aprovada
pela Associação dos Psicólogos Americanos. O relatório admite que apesar de evidência
insuficiente para suportar o uso de intervenções psicológicas para mudar a orientação
sexual, “alguns indivíuos modificam a sua identidade relativa à orientação sexual,
comportamento e valores, fazendo-o de diversas formas e com diversas e imprevisíveis
evoluções, algumas delas temporárias” (p. 120). Neste sentido, oferece uma alternativa
terapêutica ligada à exploração e desenvolvimento da identidade (“affirmative
multiculturally competent treatment”) para aquelas pessoas que procuram mudar a sua
orientação sexual (p. 121).

10. Apesar de tudo, alguns clínicos continuam a tentar mudar a orientação sexual dos
pacientes que assim o desejam. Num estudo datado deste ano, Annie Bartlett, Glenn
Smith e Michael King indagaram 1300 clínicos ingleses certificados. Embora apenas
4% declarassem que tentariam mudar a orientação sexual se o seu paciente lhe pedisse,
17% deles descreveram 413 pessoas onde esse procedimento fora executado. Entre os
289 psiquiatras do estudo, 9 deles estariam dispostos a ajudar a mudar a orientação
sexual, e 45 referenciariam os pacientes a um colega que o pudesse fazer. A maioria,
porém, ajudaria tal paciente a aceitar a sua sexualidade, a controlá-la melhor, ou enviálo-
ia a um colega com experiência no assunto. Entre psicólogos, conselheiros e
psicoterapeutas as respostas percentuais não eram muito diferentes senão na menor
tendência a referenciá-los a outros colegas.

11. O mais interessante deste estudo são as razões invocadas para tal terapia. Mais de
metade das respostas referiam a confusão sobre a identidade social, sendo menos
frequentes as que referiam pressão familiar, crenças religiosas e problemas mentais
secundários. Também eram referidas a confusão de género, relações heterossexuais
difíceis, pressões legais e vitimização por relações abusivas. Quer isto dizer que, na
vida real, quando um doente pede ao clínico para intervir na sua orientação sexual, as
razões são bem mais complexas do que a suposta ficção de um homossexual que um dia
resolveu tornar-se heterossexual (ou vice-versa, porque não?).

7. De facto, o comportamento e desejo sexuais, e não só o homossexual, são
frequentemente fonte de conflitos e sofrimento, razão pela qual os pacientes podem
recorrer ao seu médico, psiquiatra ou psicoterapeuta. Estas situações devem ser
consideradas caso a caso, de acordo com a legis artis, sem ferir as convicções e crenças
dos pacientes e ajudando-os, sempre que possível, na sua autodeterminação, depois de
esclarecimento completo e no âmbito do consentimento informado. Desse
esclarecimento constará, por parte do médico, indagar sobre a autenticidade das
decisões do paciente. Este, por sua vez, deverá ser informado de que não existe
evidência científica que suporte uma intervenção que resulte na completa mudança da
orientação sexual.

8. Aliás, a Classificação Internacional das Doenças (ICD10) tipifica a patologia
ligada à sexualidade nos seus items F52 (Disfunção sexual), F64 (Transtornos de
identidade sexual), F65 (Transtornos de preferência sexual) e F66 (transtornos
psicológicos e de comportamento associados ao desenvolvimento e orientação sexuais).
Embora os problemas também possam passar pelos outros items, é sobretudo o grupo
F66 que interessa no âmbito desta discussão.

9. Assim, em F66.1 (Perturbação do amadurecimento sexual) esclarece-se que “O
indivíduo sofre de incerteza sobre a sua identidade de género ou orientação sexual, o
que causa ansiedade ou depressão. Mais frequentemente, esta situação ocorre em
adolescentes que não estão seguros se têm uma orientação homossexual, heterossexual
ou bissexual, mas também em indivíduos que, depois de um período de orientação
sexual aparentemente estável, muitas vezes com um relacionamento de longa duração,
descobrem que a sua orientação sexual está a mudar.”

10. Em F66.2 (Orientação sexual egodistónica) define-se: “Não existe dúvida sobre a
identidade de género ou preferência sexual, mas o indivíduo gostaria que ela fosse
diferente, por causa das perturbações psicológicas e comportamentais associadas, e
pode procurar tratamento para a mudar.”

11. Finalmente, em F66.2 (Perturbação do relacionamento sexual) indica-se que as
“Anomalias da identidade de género ou preferência sexual são responsáveis por
dificuldades em estabelecer ou manter um relacionamento com um parceiro sexual.”

12. Para cada uma destas tipificações, bem como para F66.2 (Outros transtornos do
desenvolvimento psico-sexual) e F66.9 (transtorno não especificado de
desenvolvimento psico-sexual) um quinto dígito deve especificar: 0 – Heterossexual; 1
– Homossexual; 2 – Bissexual. Esta última codificação retira, à partida, qualquer
discriminação, admitindo que, tanto uma homossexualidade, como bissexualidade ou
heterossexualidade podem ser, por exemplo, egodistónicas (embora esta última
circunstância seja, de facto, rara).

13. Se qualquer destas situações pode levar ao pedido de conselho e ajuda médica, é no
problema da egodistonia que se podem colocar as maiores dúvidas. Assim, um médico
pode, por exemplo, fazer com que a homossexualidade (ou heterossexualidade) se torne
egossintónica, com plena aceitação e afirmação das suas tendências e, portanto, com
mudança na sua personalidade, mas também pode preservar aspectos mais decisivos da
personalidade e, se for possível, ajudar o doente a resolver os comportamentos, desejos
ou fantasias contraditórias com a sua identidade. Aliás, pode ser difícil avaliar todos os
aspectos em jogo, incluindo a autenticidade da sua orientação sexual. Em qualquer caso,
deve respeitar-se a vontade do doente, embora ele deva decidir na posse da informação
disponível.

14. A informação, porém, escasseia. Um dos aspectos em que não existe consenso é
sobre a definição de homossexualidade e da sua possível variabilidade. De tudo quanto
se sabe da clínica, a homossexualidade não é uniforme nem unidimensional. Entre a
homo e a heterossexualidade também existe a bissexualidade, pelo que tudo leva a crer
que as pessoas se podem dispor num contínuo entre os dois pólos. Assim, podem existir
orientações sexuais imutáveis, enquanto que outras não o serão. Perante qualquer caso
que se lhe apresente, o clínico terá de fazer um juízo sobre a situação presente e as
possibilidades de evolução, tendo em conta a história individual do paciente, os
condicionamentos actuais e o seu projecto de vida. Cada caso, então, será um caso único.
O médico não trabalha com grupos sociológicos, mas trabalha com pacientes
individuais.

15. Seria importante que o clínico se orientasse de acordo com bases científicas
consensuais. No entanto, como se viu, a investigação neste tema tem sido difícil, entre
outras razões, porque acaba por sucumbir pelo ruído mediático e pelas violentas paixões
que o cercam. Assim, mesmo que neste campo ainda dominem alguns dogmas assentes
em posições religiosas, ideológicas e politicas, cabe ao clínico estar sempre atento ao
pedido do seu doente singular e preocupar-se em estabelecer um diagnóstico da situação,
quer de natureza médica quer de natureza psicológica, antes de propor qualquer tipo de
intervenção ou abster-se dela.

quinta-feira, dezembro 24, 2009

Um Bom Natal para todos e obrigado pela ternura:).

Calcorreou centros comerciais, alfarrabistas, mercados, galerias de arte, discotecas e até o sótão lá de casa, que o pó guarda tesouros merecedores de laçarote feito e olhado com sorriso. Nada. Verdade que a ambição era de monta - presente que fosse arauto e espelho de sentimento profundo e cálido. O ridículo de voltar a casa de mãos vazias, quando as dos outros não chegavam para tanto embrulho:(. Ridículo... Pessoa... "Aquelas" cartas... A hesitação perante os riscos de um strip-tease verdadeiro e não disfarçado pela nudez. A secretária, o caderno de argolas promovido a papel de carta. As palavras. Primeiro tímidas e enferrujadas, depois em galope de rio tão ávido que desagua na outra margem do oceano. A mão cansada antes delas. A cabeça exigindo balanço, eventual correcção ou voo para o lixo, enfim!, pretextos para meter (alguma) ordem no coração. A difícil leitura de uma escrita vulcânica, sinuosa, aqui e ali hieroglífica, tal a pressa de chegar à palavra certa; definitiva. O desconsolo. E no entanto...
Um P.S. lento e diligente, herdeiro dos cadernos da escola primária, só faltava a língua espreitando à janela dos lábios - "Procurei que estas linhas desenhassem o que tento e não consigo dizer. Nem de um esboço chegaram perto:(. Mas repara bem - algures no seu entrançado caótico, elas abrigam o que te cose a mim. Feliz Natal."

Os versos finais da canção do Chico esgueirando-se, invisíveis, envelope dentro:
"O que será, que será?
Que todos os avisos não vão evitar
Por que todos os risos vão desafiar
Por que todos os sinos irão repicar
Por que todos os hinos irão consagrar
E todos os meninos vão desembestar
E todos os destinos irão se encontrar
E mesmo o Padre Eterno que nunca foi lá
Olhando aquele inferno vai abençoar
O que não tem governo nem nunca terá
O que não tem vergonha nem nunca terá
O que não tem juízo..."

Suspirou. Porque não se vende talento, nem sequer nas floristas? Porque não é passageiro obrigatório do Amor? Talvez para O tornar mais humano e democrático. O pensamento era reconfortante...
... Mas o tempo, esse, não era de torpor contemplativo, levantou-se de um pulo - a que horas fechariam os Correios?

domingo, dezembro 20, 2009

Boa noite.

Assim como, embora de forma irónica, zurzi forte e feio o Benfica de Olhão, hoje digo que os rapazes me deixariam orgulhoso, mesmo se um qualquer ressalto originasse o empate. Pelo que jogaram e pela forma como se bateram. Não exijo mais.

Boa noite.

Cantelães. O frio é severo, e no entanto acolhedor. Nem minha Mãe, agora anfitriã, permitiria que fosse de outro modo...

quarta-feira, dezembro 16, 2009

Boa noite.

Escrever-te sem te escrever, eis o segredo! Porque a simples fantasia da entrega do correio me inibe o pensamento, as palavras, os sinais de fumo, os innuendos. Aproveitar o facto de sempre me habitares coração terno e entranhas exasperadas e falar "para dentro", sem barreiras, como o amor no filme com música do Bernstein, "Maria, I just met a girl...". E alucinar, querida. A tua severa doçura refugiada num sorriso maroto e à boleia atrevendo-se a responder às pequenas loucuras que segredo aterrorizado, "e se lhe magoo a timidez?". O murmúrio tão desejado que dele duvido, "eu também". A custo meu, uns centímetros em brasa entre nós. Esses olhos nublados pelo desejo, todas as outras razões são possíveis, todas me empurram para longe. O meu silêncio indeciso, as tuas mãos, escandalizadas e risonhas, sorvendo-me para o teu colo, "eu também, ou duvidas?". É óbvio que duvido, mas tenho a certeza que não o direi. Se aqueles pouco centímetros me doeram, como arriscaria a demora de um ralhete? Mergulho em ti, ainda e sempre na esperança de ir tão fundo que seja impossível regressar à tona e com a verdade te engano - "claro que não".
E rezo para que tão descarada mentira prove, sem margem para dúvidas, quão genuíno é o apelo para que não afrouxes o teu abraço.

terça-feira, dezembro 15, 2009

Referenciado na sequência de inúmeras...

Uma mulher de 42 anos foi ontem baleada pelo ex-marido, em Leça da Palmeira, Matosinhos, na sequência de uma violenta discussão. O ataque aconteceu de madrugada e o agressor, de 47 anos, suicidou-se momentos depois nas traseiras da Exponor. Até à hora de fecho desta edição, a mulher continuava internada no Hospital de São João, no Porto, em morte cerebral.O casal vivia um complicado processo de divórcio litigioso. Ontem o homem resolveu terminar pelas próprias mãos o caso que se arrastava em tribunal. Ao final do dia, esperou que a mulher saísse do trabalho, em Leça da Palmeira. Pelas 23h45, o filho mais novo ligou à mãe: parecia assustada e confirmou estar com o ex-marido, o que levou o jovem de 15 anos a pedir a ajuda da PSP, confirmou ao i fonte policial. O homem estava já referenciado na sequência de inúmeras ameaças e actos de violência doméstica.A PSP enviou carros-patrulha a pontos-chave da cidade, mas não conseguiu detectar o automóvel do agressor, que entretanto já se deslocava para Aveleda, Vila do Conde. Antes, ligou a um irmão contando que ia matar a mulher e suicidar-se. A família contactou as autoridades, mas já era tarde. A mulher terá levado um tiro na cabeça na sequência de uma violenta discussão, contou ao i fonte policial. O seu corpo foi depois transportado, na Renault Express, até à Rua da Agra Nova, em Aveleda, onde foi abandonado. O marido voltou então a Matosinhos, estacionando no parque da Exponor. Após a meia-noite, a PSP foi chamada ao local, onde encontrou o homem morto a tiro na carrinha, com a pistola ao lado. Ao mesmo tempo, GNR e Cruz Vermelha de Vila do Conde eram avisados por condutores da presença de alguém ferido na via pública, em Aveleda. A mulher - que tem outro filho, de 20 anos - entrou no hospital de São João às 3h00, já em morte cerebral.

Quando os números são de carne e osso:(.

A minha ex-empregada foi morta pelo ex-marido, que se suicidou a seguir. Antes disso fora agredida em privado e em público várias vezes. Pediu ajuda e ela não veio. Amanhã ou no fim do mês será um número nas estatísticas. Cá em casa era uma mulher pálida, triste, às vezes queixosa, nunca esperançada. Quando eu entrava a horas inesperadas, tinha de me anunciar em voz alta para que não entrasse em pânico. Deixou de vir porque morava longe. Morreu porque uma sociedade inteira vivia longe dela:(.

domingo, dezembro 13, 2009

A deformação profissional:).

Hoje convidei o psi para assistir ao jogo do Benfica lado a lado com o maluquinho da bola. Disse-lhe que certo jogo com o Trofense ainda me assombrava as noites e talvez precisasse de uma opinião dele. Quando o paupérrimo e trauliteiro espectáculo de Olhão terminou, perguntei - "E que me diz?". O tipo olhou-me de revés, sorveu mais um golo... - ui, que acto falhado, diria ele:) - de chá de tília e diagnosticou: imaturidade emocional colectiva, baixíssima tolerância à frustração com explosões de agressividade, prováveis tendências suicidárias, é de recear descompensação grave na quadra natalícia.
"Jesus", gemi eu. Já a caminho da porta, ainda murmurou - "esse também me pareceu desorientado e com alucinações ao descrever o jogo... Quer que volte no Domingo?". Agradeci o gentil oferecimento, mas recusei, o sofá tem dois lugares e acho mais seguro ter comigo um cardiologista!

quinta-feira, dezembro 10, 2009

Boa noite.

Reviver o passado em Brideshead. A série televisiva fascinou-me tanto que não consigo apreciar o filme com isenção, mesmo com a extraordinária - e não surpreendente... - representação de Emma Thompson. Irónicos, versos dos Floyd dentro de mim:

"Hanging on in quiet desperation is the English way
The time is gone, the song is over,
Thought I'd something more to say."

The English way????? Mas quem lhes concedeu tal monopólio?:).

terça-feira, dezembro 08, 2009

Boa continuação:).

Zapping pós-prandial. Sonolento, por pós-bacalhau e tintol alentejano. (Como sou homem não notei o efeito afrodisíaco que recente artigo anuncia para as mulheres:(. E de todas a regiões vinícolas!). Cinema Paraíso... Há muitos anos escrevi um texto sobre o filme que releio hoje com alguma nostalgia - o meu encantamento era então mais arrebatado e a culpa não pertence ao filme, perdi fogo interior. O sono levantou voo, o riso e a lamechice apresentaram-se ao serviço, como em todas as n vezes em que vi a fita. Que já utilizei para falar de amor adolescente, fugas ao passado, dores de crescimento, lutos por gente viva, idealizações perigosas, paixão pela paixão do outro, etc... Mas hoje limitei-me a ir indo, vendo, aprendendo. E invejando aquele extraordinário Noiret!, um homem que faz o Cinema Paraíso e O Carteiro de Pablo Neruda pode roubar-lhe a frase e gritar do Céu dos artistas - confesso que vivi:).

terça-feira, dezembro 01, 2009

Boa noite.

Uma equipa apresenta-me uma proposta terapêutica consensual. A argumentação é sólida, concordo com ela. Tenho a certeza que a decisão será a melhor no que ao futuro diz respeito. E no entanto, o meu "faça-se" empurrou uma criança para longe de quem amava e o amava a ele, receio que esta tenha sido uma noite de lágrimas para o petiz. Que não compreende sequer o significado das palavras "argumentação" e "futuro" e se pergunta o que fez de mal para perder afagos e cuidados maternais, oficialmente baptizados de apoio técnico.
Fiz o que devia.
Tenho a consciência tranquila.
Sei que angústias longínquas o desgosto do miúdo espicaçou dentro de mim.
Mas nada suaviza a tristeza culpada com que o recordo.

domingo, novembro 29, 2009

Boa noite.

Se me exigires palavras, dar-tas-ei. Mas repara, são as dos poetas que abrigam espelhos, mortais ou lisonjeiros. As minhas só te darão uma certeza: nenhum Cyrano mas ensina. (É justo, não possuo a beleza de Christian para as emoldurar.) Posso fazer uma sugestão? Pede antes salvo-conduto para os meus olhos. De acordo, são escuros, mas as respostas moram lá. Porque uma coisa te garanto, amor: se o povo acertou e são janelas da alma, fita-me bem e verás que os meus tentam desesperadamente oferecer-te uma varanda escancarada sobre o coração:).

segunda-feira, novembro 23, 2009

Boa noite.

O cabelo e tu atrás, enroscada nas margens do meu peito. A mania de esticar a sorte, "deixas-me ouvir-te?". A súbita rouquidão de voz frágil e corpo retesado, "depois, vou de viagem". E essa boca que por mim todo vagueia, as hesitações de há mil anos transformaram-se em ritmos imprevisíveis e provocantes, quem diz ritmo diz canção, o que nós andámos para aqui chegar!:). O transbordar para a minha esquerda, "vem". Cobrir-te. Pasmar ainda uma vez por o desejo abrigar ternura e violência de mãos dadas, um esgar teu, pressentido ou alucinado, e o amante chama o amigo em altos berros silenciosos, "cuida dela, por favor". Entrar na fonte do mundo. Sentir lábios no ouvido, "gosto do teu peso". Calar, guloso, a resposta. Ser recompensado por espera tão interesseira, afogar-me na torrente das palavras que depois me proibirás de repetir, com um sorriso corado e travesso, "nunca o disse". E que me importa, se o ouvi e tu - no mínimo... - o pensaste?:).

sexta-feira, novembro 20, 2009

Boa noite.

A continuação de Guilherme Oliveira Martins é uma réstia de azul no céu carregado de suspeitas desencantadas que cobre este país:(.

domingo, novembro 15, 2009

Os patriarcas.

O estatuto de patriarca é curioso: quando o silêncio reina, à calma junta-se o medo da inutilidade; se chovem telefonemas e mails, lançamo-nos à estrada com dúvida rumorejante - "serei capaz?". E se somos, tememos o futuro de quem amamos; megalómanos entoamos pergunta com odor festivaleiro, "e depois de nós?".

A resposta é simples: o amanhã. Sem ficarem sós:).

domingo, novembro 08, 2009

Claro que posso:).

Quero antes de mais pedir desculpas pelo abuso. Obtive o seu email quando percorria, não pela primeira vez o seu BLOG, e decidi contactá-lo. Não a título pessoal, apesar de conhecer o seu trabalho, mas em benefício da entidade com que colaboro.

Somos uma IPSS com sede no Centro Hospital de Gaia, prestamos apoio não só dentro do meio hospital ( através do voluntariado) como também contribuimos para a humanização dos espaços, e prestação de cuidados ao domicílio.

Poderei, se desejar enviar-lhe toda a informação referente à nossa Instituição.

Estamos a aproximar-nos da quadra natalícia e temos por habito proceder a uma pequena venda de Natal, de forma a angariar alguns fundos para a Liga. A nossa subsistência depende apenas do valor das cotas dos sócios ( os que pagam) e tem por valor base 1€. Como temos mensalmente gastos acima dos 1000€ e apenas temos 1500 sócios ( alguns dos quais nao pagantes), tentamos ao máximo "fazer dinheiro".

É no seguimento do que escrevi a cima que o contacto. Poderia dispensar-nos alguns dos seus livros para vendermos( estamos aptos a passar recibo de doação ao abrigo da Lei do Mecenato) ? Poderá de alguma forma contribuir connosco? Poderá, por exemplo, no seu blog ajudar-nos a publicitar a Liga?

quarta-feira, novembro 04, 2009

Os trintões rejuvenescem cá dentro:).

Os meus filhos, pai e tio.
Um estampa-se nas ondas de Matosinhos, fica logicamente amolgado, eu tremo e não resisto a apelo cobarde e inútil - "deixa-te disso, pá, mete a reforma". Fui zurzido com justiça, ainda perde outra batalha feroz com o mar só para me punir...
Outro regressa de Londres e presenteia-me com fotografia mentirosa, "homem com grades e prédio por trás". Mas que prédio, meu Deus - os estúdios de Abbey Road! Olho a minha parede: os quatro atravessam a mais famosa passadeira do mundo, John de branco, Paul descalço, Ringo de farpela, George com a ganga que me acompanha há mais de quarenta anos. O malandreco soube exactamente como abrir a gaveta da nostalgia orgulhosa...
Os meus filhos, pai e tio, com as preocupações de Carlos Carvalhas sobre o programa de Governo em fundo. Perdão!, agora o Júdice. Os meus filhos de calções, saco de roupa às costas, de uma fidelidade que eu não merecia, prontos para o fim-de-semana com um pai que os enchia de filetes do Capitão Iglo. Claro que são homens e como tal procuro tratá-los, mas lá escreveu o Eugénio - não esqueci nada. Muito menos esta gratidão enternecida, que tantas vezes foi o combustível que me permitiu arrancar para um novo dia.

domingo, novembro 01, 2009

O preço certo?

O céu de Cantelães marcou-me falta e os benfiquitas perceberam que é cedo para festejos. A chuva transformou-se num "bónus" desnecessário, o meu humor já seria negro sem ela:). E no entanto... Num dia longínquo, depois de uma conferência longínqua, numa cidade nesses tempos longínqua de tão órfã de auto-estrada, um padre sorriu e disse - "você é simplesmente um católico que não acredita em Deus". Eu teria preferido o diagnóstico de cristão, mas há verdade na frase. Por exemplo, na convicção pré-consciente de que todo o prazer tem um preço.
O Sérgio ao telefone, "estás bem, pá? Queres ir...?". Ele sabia a resposta, lembro-me de assistir não apenas ao espectáculo, mas também ao ensaio, enroscado no escuro da plateia do Rivoli, "como consegue o gajo enfiar tantas palavras na melodia?". Claro que fui. O Coliseu como um ovo e o meu filho músico fitando-os como ave de rapina, a minha canção favorita do Sérgio é o "Que há-de ser de nós?" e a resposta está neles, nos mais novos e no regaço das suas memórias. (Regaço é uma palavra doce, faz pensar em cabelos afagados por mãos de mulher que segundos antes nos exasperavam o corpo, "obrigado, querida, shh, não sejas tonto".)
Nunca fui um revolucionário, não mitifico o PREC ou qualquer um dos responsáveis pelos Três Cantos. Aposto que são feitos de sol e sombra, como eu. Tenho saudades de cirandar por Lisboa com o Sérgio e algumas pessoas nos perguntarem se éramos família, "há uma parecença qualquer...". Família, obviamente! Ele escrevera-me para o Sexualidades, "cá em casa vemos todos, quando apareces?". E eu não demorei, a sua música embalava-me há muito, o jantar decretou-nos velhos amigos com atraso. As ruelas de Lisboa, os tascos de Matosinhos, mesmo assim vemo-nos raramente, pecado nosso. Os outros dois são amigos que não conheço:).
Saí do concerto e não quis interromper o Sérgio, a adrenalina baixa preguiçosa, a cada um de escolher como, eu prefiro a solidão. Enviei sms. E de repente apercebi-me de que lhe agradecera o privilégio crepuscular. Não apaguei a expressão. Porque a nossa geração canta, fala e escreve sobre um pano de fundo já crepuscular. Não é uma tragédia. Mas transforma cada ritual num bem precioso, que seria criminoso desperdiçar.
Talvez as saudades de Canteláes e a tristeza pelo Benfica não sejam um preço assim tão exagerado:).

quinta-feira, outubro 22, 2009

Associação livre de psiquiatra agnóstico ensonado acerca do folhetim da moda ou como a silly season invadiu o Outono:).

A Vida é um Jogo no Hollywood, com Paul Newman. Ainda apenas (?) bonito, sem o charme do segundo capítulo, que lhe valeria o óscar - A Cor do Dinheiro. A vida é um jogo... Saramago, por exemplo, tenciona jogá-lo até ao fim. Mesmo correndo o enorme risco de ver as suas palavras tomadas por choque vitamínico de campanha publicitária. Quanto às críticas, pouco lhe importam, muito menos o horror virtuoso do eurodeputado que sugere troca de cidadania para limpar honra e fé lusas. E no entanto... Aqui e ali, há no discurso de Saramago uma tonalidade provocatória que desagua em apelo não menos sedutor que o da serpente a Eva. O ateu desafia o (outro?) Senhor a deixar a toca celeste e trovejar - "Que andas dizendo a Meu respeito?".
Insolúvel drama o deste homem, não acredita no único interlocutor que aceitaria como par...

sábado, outubro 17, 2009

Obrigado malta:).

When I get older losing my hair,
Many years from now,
Will you still be sending me a valentine
Birthday greetings bottle of wine?
If I'd been out till quarter to three
Would you lock the door,Will you still need me,
will you still feed me,When I'm sixty-four?
oo oo oo oo oo oo oo oooo
You'll be older too, (ah ah ah ah ah)
And if you say the word,I could stay with you.
I could be handy mending a fuse
When your lights have gone.
You can knit a sweater by the fireside
Sunday mornings go for a ride.
Doing the garden, digging the weeds,Who could ask for more?
Will you still need me, will you still feed me,When I'm sixty-four?
Every summer we can rent a cottageIn the Isle of Wight,
if it's not too dear
We shall scrimp and save
Grandchildren on your kneeVera, Chuck, and Dave
Send me a postcard, drop me a line,Stating point of view.
Indicate precisely what you mean to say
Yours sincerely, Wasting Away.
Give me your answer, fill in a form
Mine for evermore
Will you still need me, will you still feed me,When I'm sixty-four?
Whoo!

terça-feira, outubro 13, 2009

Boa noite.

Como a Vida é um fogacho, consentido pelo Nada a que regressa, também as palavras desaguam no silêncio. Com uma diferença, ao menos para o não crente: a Vida precisa de si mesma para ficar, sem a memória alheia apaga-se; as palavras carregam o duro privilégio de moldarem o tipo de silêncio que delas brota. É o da intimidade que exige a mais hábil esgrima prévia...

segunda-feira, outubro 12, 2009

A sugestão.

Maria,

Escrever???? Peço-te ombro, conselho ou terapêutica e tu sugeres que escreva???? Não invoques lucidez, catarse ou sublimação, é de um castigo que se trata, a escrita dói:(. E não permite os requebros da palavra dita; sobrevive, acusadora, em papel ou word. Como esta nossa correspondência esquizofrénica de ex-amantes e futuros conhecidos, que escapa ao alívio do delete por eu preferir o murmúrio ténue ao silêncio atroador. E a este louco equilíbrio tu defendes que junte a ficção...? Nem pensar, minha querida, a realidade recusa-se a ceder-lhe o lugar, mesmo travestida.

quinta-feira, outubro 08, 2009

Associação livre.

Bartolomeu levanta uma questão interessante - e quando o pássaro volta? Confesso que alucinei sobre ave sem retorno, mas compreendo a dúvida, há amores que regressam. Intocados? Por outros alguéns ou pelo que os levou a deixar-nos? Se por outros alguéns, como reagimos nós? Depende do que sentiram ou fizeram? Nós homens, temos reputação de reagir de forma diversa quando quem amamos conheceu alguém no sentido bíblico do termo:). E no entanto há paixões vestidas, até longínquas!, que modificam - às vezes para sempre... - o olhar de quem volta. Pobres de nós quando nos batemos contra essas rivais - castas na Carne, sem esperança ou desejo de cura para o delírio que lhes rói e salva o espírito.
Em outras ocasiões não houve ninguém entre nós e nós. Mas o que fez voar o pássaro, impotente embora para evitar o seu regresso, chega e sobra para o manter em guarda. Contra nós, que porventura o magoámos, mas também contra si mesmo, que baloiça entre o alívio deliciado e faminto por nos reencontrar e uma sensação amarga de cedência, por acreditar piamente que o não merecemos ou amamos bem. Quando existe tal ambivalência, a bonança que sucede à tempestade anuncia nova tormenta...
Compreendo a parcimónia de Bartolomeu em face de aves migratórias. E contudo, quantos se podem gabar de nunca ter consultado relógio de pulso ou calendário, na esperança de ver alguém pousar de novo na área bem pouco protegida do seu peito:)?

terça-feira, outubro 06, 2009

Boa noite.

A melancolia é uma tristeza tão subtil que passa por bom senso; e nos permite continuar à varanda depois de terem levantado voo o riso das crianças e o pássaro do amor.

sexta-feira, outubro 02, 2009

Ainda as eleições:).

Maria,

Que tristeza, querida!:( - voas propositadamente de Londres para votar e absténs-te dos meus braços? Sinto-me inútil, em branco, nulo; mais minoritário a cada viagem e silêncio teus. Ouve, não peço grandes compromissos, legislaturas garantidas, coligação à prova de bala ou terceiros que a façam cair. Mas nem um acordozito pontual? Maria, não (te) governes sem mim...

segunda-feira, setembro 28, 2009

Breves.

1 - Sócrates ganhou, como seria inevitável, dada a alternativa. Não creio que tenha encarado seriamente a hipótese de nova maioria absoluta, mas acredito que aspirasse a um resultado a beijar os 40%. A governar em minoria, a partir desse "trampolim" e com uma vitimização bem feita no velho registo do "deixem-nos trabalhar".., quem sabe? Assim, o pulo parece maior do que a perna. Espero que descubra as virtudes da negociação parlamentar e resista a tentações de estabilidade contra natura para um Partido Socialista.

2 - Manuela Ferreira Leite colheu o que (não) semeou. Escrevi aqui acerca da minha estima pessoal por ela e do agrado com que lhe observei a ascensão à chefia do PSD. Surpreendeu-me que se tivesse "resignado" a esperar que o descontentamento popular com Sócrates lhe colocasse a vitória no regaço. Talvez pudesse ter acontecido sem a monumental e catárctica tareia das Europeias, mas mesmo assim duvido, o vazio da estratégia (?) laranja foi demasiado evidente. Embora algumas facas e vozes já tenham visto a luz dos holofotes, presumo que o lume permanecerá brando até ao dia seguinte às autárquicas.

3 - Portas é um profissional muito trabalhador. Tudo me separa dele politicamente, mas sei apreciar uma campanha eficaz, imune a "distracções" e ainda por cima potenciada pelo descalabro dos vizinhos. Falar depois de Sócrates foi o primeiro sinal do estatuto que persegue - alcançar o Poder, formal ou não. Se o PSD não ganhar juízo, a erosão pode continuar nas próximas eleições.

4 - O Bloco cresceu muito. E no entanto... O PP é um espinho atravessado, claro, mas os riscos são outros. Decretar consolidada a votação seria um erro monumental, negar o voto de amuado protesto pode ser o primeiro passo para o perder no futuro. E diga-se que ela poderia ter sido maior, Louçã foi trucidado por Sócrates na TV porque o subestimou, pensando que a conversa reproduziria os diálogos na Assembleia: ele ao ataque com casos pontuais - e na TV um dos ases na manga revelou-se um fiasco... - e Sócrates a exibir o seu escândalo perante a "demagogia" e a "superioridade moral". Erro crasso, o Engenheiro Sócrates sabia que a melhor defesa era o ataque. Precisamente por causa do sucesso, a "adolescência política" faz parte do passado, o Bloco vai ter de responder pelas suas propostas e lidar com notícias como a do Expresso sobre os PPR e em ambas as situações Louçã tremeu.

5 - Jerónimo é o campeão da simpatia pessoal, o homem preenche todas as condições para ser recebido de braços abertos em Cantelães, pois se até joga bem a sueca!:). É verdade que a CDU tem mais um deputado e - creio... - dez mil votos, mas quem ouviu Ruben de Carvalho percebeu - é na rua que o PC tenciona provar que se está nas tintas para o top five da Assembleia.

6 - Entre abstenção e votos em branco e nulos o desencanto do eleitorado é evidente.

7 - Se o Presidente da República se sair bem da comunicação de amanhã tiro-lhe o chapéu, porque não consigo imaginar como...

8 - Apesar de algumas provocações risonhas, considerei que declarar o meu sentido de voto poderia ser entendido como um apelo à mobilização dos murcónicos:). Limitei-me, assim, a esboçar a geografia eleitoral que desejava para ontem à noite. Mas hoje, não gostaria que os velhos "accionistas" do Murcon e as mais recentes "aquisições" pensassem que cultivo a ambiguidade - o tipo que já votou branco, PC, Bloco e - na maioria das vezes... - PS, ontem (and the winner was!:)) pôs a cruzinha no Bloco.

9 - Em verdade vos digo que, com esta declaração solene, que me veda as portas do próximo Governo (snif, snif), dou por terminada a minha incursão pelas entediantes veredas eleitorais, razão pelas qual reafirmo desde já o meu voto em Elisa Ferreira nas autárquicas e fecho a loja até às presidenciais!:).

quinta-feira, setembro 24, 2009

Les jeux sont faits.

Para mim a vitória do PS é um dado adquirido, como previa. A campanha do PSD e o apelo ao voto útil podem torná-la bem mais robusta do que pensei. Neste momento a minha curiosidade é outra - qual a relação de forças dos outros partidos e os seus resultados absolutos? Porque já afirmei desejar um Governo minoritário forçado - palavra triste... - a acordos pontuais à esquerda. Mas com os números das sondagens e a habitual superação do PP um fantasma começa a desenhar-se - a maioria PS/PP, que abomino. Ou alguém ignora a maleabilidade pragmática e programática de Paulo Portas quando se trata do "superior interesse do País" (leia-se, partilha do Poder)?

terça-feira, setembro 22, 2009

Breves.

1 - Os termos em que Mário Soares se referiu a Manuela Ferreira Leite são - no mínimo... - infelizes.

2 - A presença de Jerónimo de Sousa nos Gatos confirmou a minha impressão - de todos os líderes, seria a ele que convidaria para uma "excursão punitiva" aos meus restaurantes favoritos:).

3 - Tantos notáveis do PSD à volta de Manuela Ferreira Leite pedindo uma "vitória clara" fazem pensar em noite de velório e facas longas, não de vitória.

4 - Se o fosso entre PS e PSD nas sondagens aumentar, o apelo ao voto útil por parte de Sócrates tropeçará em maiores resistências.

5 - A demissão do assessor do Presidente sem qualquer tipo de explicação - pese embora os apelos do meu velho amigo Pacheco Pereira:) - é mais uma peça no vitral exótico da política portuguesa.

6 - Porque milagre ficam os políticos sem rugas nos cartazes que polvilham a cidade?

7 - Participei ontem numa iniciativa do Bloco no Porto. Devo acrescentar que fui convidado para ir à Convenção do PS e propus um depoimento gravado, não podendo deslocar-me a Lisboa por questões familiares. Depois disso, e no seguimento de um segundo e amável telefonema que recebi, coloquei-me à disposição do PS para qualquer intervenção no Porto. A razão é simples - sou independente, não mudo o discurso de acordo com os meus anfitriões e jamais recusei a minha opinião... a quem verdadeiramente a deseje ouvir:).

terça-feira, setembro 15, 2009

O referendo.

Um bom amigo do PS perguntava-(se/me): "mas tu consegues imaginar o eleitorado a querer um Governo chefiado por aquela Senhora?". Esta angústia existencial pressupôe uma chaveta que não considero correcta - no dia 27 as pessoas decidiriam entre PS e PSD, salvo as que se lançassem no que agora se apelida de "franjas". Da minha varanda o cenário parece outro: sem ofensa para os eleitores-laranja convictos, a situação faz-me lembrar um referendo. Na realidade até poderíamos roubar a sigla do último e falar de IVG, leia-se, Interrupção Voluntária da Governação:). Porque o resultado se jogará à esquerda, no diálogo entre o ressentimento pela governação do PS e o voto útil contra a Direita por parte de eleitores temporariamente (?) vacinados contra maiorias absolutas de qualquer origem. Por alguma razão as sondagens retratam o PS como um verdadeiro mãos-largas, distribuindo votos. Qual noiva, de costas lançando o bouquet para mãos ávidas que se estendem no ar... Depois de dia 27 veremos se haverá noivo e casamento ou amizades coloridas pontuais:).

quarta-feira, setembro 09, 2009

Continuemos...

Devo dizer que o meu desejo para a "geografia política" pós-eleitoral, ao contrário do sentido de voto, está perfeitamente definido - maioria relativa do PS e reforço dos partidos à sua esquerda. Na minha opinião, o PS não resistiu melhor do que no passado o PSD à vertigem do poder da maioria absoluta. Nos momentos de maior conflitualidade crispou-se e confundiu, por exemplo, duas atitudes bem diversas - não ceder à rua e não escutar a rua. E não me refiro apenas a manifestações gigantescas para a nossa dimensão, mas também ao motorista de táxi, à senhora do autocarro, à incomparável peixeira do Bolhão, ao tisnado agricultor. Em determinados casos, à posição política juntou-se outra questão - a personalidade dos intervenientes. Na política, idealmente, é preciso manter as costas direitas, mas tal não pode traduzir-se pela agressividade bem pouco encapotada na postura e no discurso, algumas intervenções da Senhora Ministra da Educação no Parlamento exemplificaram tal confusão. Adiante...
Pois, maioria relativa. E devo dizer que a angústia do PS, atendendo à oposição em absoluto lamentável, silenciosa, quase patética com que se vem deparando por parte do PSD, diz muito da desilusão de largas fatias do eleitorado. O reforço à sua esquerda acarretaria a necessidade de acordos pontuais, de negociação, de política, irra! Mas aqui a chaveta do Thora ocupa a boca de cena - como jogar pelo seguro? Fazemos um plenário com todos os indecisos, pedimos ajuda a quem de números percebe e organizamos as hostes?: tantos mil votam PS para garantir a vitória e os outros... exerçam a sua liberdade como entenderem. Já agora com um enorme piquenique, a reunião seria longa, eu juntava-lhe duas ou três bandas rock para descomprimir:). Não dá, gente:(. Como cantaria Sandy Denny, se ressuscitasse e por lá aparecesse - ain't life a solo? Não sei, espero que não mais vezes do que as necessárias, mas a decisão de voto é.

Porque escrevo no dia seguinte ao debate Sócrates-Louçã, aí vai a minha opinião: o PM ganhou-o. Foi eficaz na estratégia de encostar as propostas do BE a uma política fiscal que penaliza a classe média e Louçã fez uma defesa algo pastosa das nacionalizações e do papel da CGD. Sócrates não desdenharia resultado semelhante com Manuela Ferreira Leite, creio. O problema é que o "eleitorado flutuante" de esquerda não se preocupa muito com o que o Bloco ou o PC fariam se... tivessem eles próprios maioria absoluta:). Não os imagina a governar em vez do PS, mas sim a influenciar-lhe a governação. E por isso, sobretudo para o Bloco, a próxima legislatura será muuuuito delicada - claro que algum do seu crescimento se deve a "voto consolidado", mas também há ali muito voto de protesto. E esse baterá as asas em novas eleições se as pessoas considerarem que o Bloco não assumiu as suas responsabilidades nos acordos pontuais de que acima falei.

segunda-feira, setembro 07, 2009

Voto útil.

Um certo sabor a redundância... Pois, não é o voto sempre útil? Bom, no sentido de eficaz, apenas se a Democracia funcionar, lembro-me de votações para a Presidência da República em que o inenarrável Almirante Américo Tomaz entusiasmava de tal modo os apoiantes - estrategicamente colocados... - que acabava a ganhar por 110% em não poucas mesas de voto:). Mas quando não existem tais "excessos de zelo em defesa da pátria" não se justifica a pergunta?


Útil para quem ou quê? Parece-me consensual que o partido beneficiado por "aquele" boletim o considera muuuito útil, afinal a voto dado não se olha ao dente! Mas a expressão tornou-se um êxito de bilheteira por traduzir uma realidade diversa - o voto útil resulta da análise fria das possíveis geografias pós-eleitorais e de uma decisão que não coincide com o primeiro e espontâneo movimento da alma que comanda a mão, patroa da esferográfica cuja tinta vai colorir um anémico quadradinho, ao abrigo de uma cortina que já viu melhores e mais limpos dias.


Ou seja: alguém que se inclina para a abstenção, o voto em branco ou em determinado partido, molha o dedo em água ou cuspo e averigua de onde e para onde sopram os ventos políticos; franze o sobrolho; cofia a barba ou acaricia pele lisa; suspira; e decide que valores mais altos se alevantam.


Em geral, o episódio não prima pela originalidade - trata-se de evitar que a vitória bafeje quem não a merece ou - sobretudo... - ameaça transformá-la numa realidade mais penalizante do que a actual; algo do género "para melhor está bem, está bem, para pior já basta assim". Mas também pode tratar-se de uma avaliação dos votos necessários para eleger mais um deputado por este ou aquele partido da nossa área política, à luz dos resultados das últimas eleições. Neste caso ouve-se muito a expressão "não desperdiçar o voto".


A política portuguesa é deprimente a vários níveis, escolhamos um - raramente o poder é conquistado pela sedução exercida por um programa político, oposição bem feita ao longo de uma legislatura ou mesmo a confiança despertada por um líder. Em Portugal, o mais das vezes, não se ganham eleições, os outros perdem-nas. Tal facto explica a postura expectante e silenciosa da oposição, no fundo perguntando simplesmente "não estão fartos deles? Nós somos a alternativa!".


(Em vários períodos ao longo dos últimos trinta e cinco anos a palavra "alternativa" aplicada ao PS e PSD justificaria uma análise mais aprofundada...).


Como funciona então o discurso apelativo? Mais ou menos assim - "só o PS e o PSD podem formar Governo, gente, isto é entre nós e eles!". (Uma formulação mais económica e narcísica da questão leva a reduzir as eleições à escolha de um Primeiro-Ministro...). "Alguns de vocês não gostam do que fizemos no Poder ou do que nos propomos fazer com ele, mas já imaginaram a consequência do vosso amuo se traduzir em voto alheio? "Eles" ganham! E por culpa vossa...".



Deixemos a evidente tonalidade chantagista do discurso e concentremo-nos nas consequências: se acontece navegarmos nas águas de um dos dois maiores partidos, as possibilidades de escolha são inexistentes. (Poderão contrapor que as angústias também:)). Se aplaudimos a sua prática votamos neles porque merecem; se estamos afectados pelo célebre amuo também votamos, para impedir a vitória do outro. No limite, chega a ser um desperdício caro e fatigante a existência dos outros partidos, da abstenção e do voto em branco! Tudo se poderia reduzir a um tête-à-tête entre o PS e o PSD, melhor dizendo entre o Engenheiro Sócrates e a Dra. Manuela Ferreira Leite, imagem que me delicia:).



Nesta argumentação surgem palavras como estabilidade, governabilidade, arco do poder, etc..., que seguramente voltaremos a encontrar. A basezinha, creio, é a seguinte: um voto de acordo com a nossa consciência também pode ser muuuito útil. Para quem? Para nós:). Que também contamos!, é bom não esquecer que fazemos parte do povo que todos os políticos juram ser quem mais ordena, nunca o Zeca imaginou ter coro tão afinado a acompanhá-lo:(. Dos dois principais partidos, o que perder melhor faria em pôr-se ao espelho, em vez de culpar a irresponsabilidade de quem nele não votou.

P.S. O Gonçalo tem razão, o PS sempre foi a referência familiar, desde o meu Avô. Mas eu esperneio mesmo muito e por isso já votei em branco e noutros partidos, só a abstenção me está vedada:). Quando isso aconteceu, fiquei triste. Mas sem remorsos...

Da próxima vez falarei de cenários pós-eleitorais.

quinta-feira, setembro 03, 2009

Agradecimento e fim de férias.

Gente,

Obrigado. Minha Mãe já repousa entre as flores de Cantelães.

Segunda estarei de regresso à rádio e durante o fim-de-semana abrirei a campanha eleitoral no Murcon. Porque ser independente de esquerda não é fácil neste momento. A não ser que consideremos independentes os que votam sempre da mesma forma - quantas vezes por razões afectivas que respeito - e se limitam à não filiação em determinado Partido. Não sou assim, tenho muito que ruminar até dia 27. Devo esclarecer que só não apresento as minhas ruminações sobre a matéria no Coliseu dos Recreios no próximo Domingo, atendendo a que o PS me convidou para participar na Convenção, porque não me posso deslocar a Lisboa e, segundo depreendi, não haverá depoimentos gravados. Como quem me convidou teve a gentileza de reconhecer, nos últimos doze anos sempre disse o que pensava ao Engenheiro Sócrates olhos nos olhos, não iria mudar a um mês de completar sessenta anos:).

Começarei por associar livremente sobre uma expressão famosa - o voto útil.

terça-feira, agosto 11, 2009

Mais valem duas vidas na mão do que uma felicidade a voar.

Enquanto os dados rolam, as gentes sustêm a respiração, esbanjam dinheiro por ganhar, sofrem desilusões por acontecer, agradecem a sorte e esconjuram o azar; esperam. E no processo deixam a vida que não depende do acaso entre parênteses. Estranho desperdício de mortais...

quarta-feira, agosto 05, 2009

Auto-retrato.

Alguém morreu. Depois de negar aos amigos uma última visita. Seria arrogante decretar que "teve razão". Limiro-me a dizer que compreendo e acho que faria - ei? - o mesmo: se não podemos evitar deixá-los, ao menos que nos seja concedido o privilégio de escolher o tipo de recordações que lhes deixamos.

segunda-feira, agosto 03, 2009

Para lá das fotografias.

Admito que haja no pensamento uma faceta perversa, mas reivindico a existência de outra, barrada a doçura - à medida que o tempo passa e afunila sinto-me a viver as futuras recordações de gente que amo. E percebo o extraordinário privilégio concedido a quem só acredita nesse tipo de imortalidade:).

terça-feira, julho 28, 2009

Once upon a time.

E eu lá expliquei - confessei? - pacientemente que a geração de 60 no Porto não usava flores no cabelo, mal conhecia os Jefferson Airplane e praticava o amor livre..., depois do casamento:).
Outra mão levantando-se, teimosa, entre mim e o regresso a casa.
- As festas de garagem eram assim tão boas? Os meus pais quase choram no ombro um do outro se falam nelas!
Rosto miúdo, vestido menineiro, olhos atentos, voz firme, o namorado devia andar a toque de caixa...
Como eu andava:). Mas nas festas de garagem, se não havia pecados por julgar, tu abrigavas o rosto no colo do meu pescoço e ao longo dele subia a voz rouca que os outros desconheciam e eu lembrava de madrugada, não se pode ter tudo, a recordação abria o riso nervoso dos neurónios de par em par mas fechava-lhes a porta do sono ou transformava-o em desdobramento apimentado, credo!, como se pode acordar tão deliciosamente exausto?
Tu dizias que tinhas de estar cedo em casa, dobravas a cabeça para trás, "vamos?". A beira-rio. A tua mão na minha face, "vem cá". E eu, de tão obediente!, quase me antecipava à ordem e procurava-te os lábios...
A rapariguinha, severa e à espera. Mas explicar-lhe como? Por descargo de consciência,
- Ainda se dança slows nas discotecas?
(Porque não a valsa, Júlio? O fandango, o quick step? Por amor de Deus...).´
- Eram fixes.
E pirei-me.

sábado, julho 25, 2009

Nem só no futebol...

Na discussão sobre a oferta de um lugar no aparelho de Estado a Joana Amaral Dias alguém mente. Mas o simples convite para integrar uma lista de candidatos à Assembleia da República demonstra, na minha opinião, um erro de julgamento por parte do PS - não basta "pescar" alguns nomes à esquerda para provocar um dilúvio de votos úteis ou dissolver o amuo de quem se refugiou noutros partidos ou na abstenção nas europeias. Mas, then again - como dizem os anglo-saxónicos:) - que percebo eu de política?

sexta-feira, julho 17, 2009

Pergunta: vivemos no primeiro ou quarto mundo?

Dicas:



1 - O PSD -pela enésima vez! - não comenta os dislates de Alberto João Jardim.



2 - O Ministério da Saúde proíbe os homossexuais masculinos de doarem sangue.



Quem acertar terá direito a uma viagem ao Funchal, com entrada gratuita na conferência subordinada ao tema "O Coordenador Nacional da Luta contra a Sida é um incompetente porque diz não existirem grupos de risco". No intervalo serão servidos cocktails e salgadinhos por heterossexuais que não trocaram de parceiro(a) nos últimos seis meses.

segunda-feira, julho 13, 2009

Pedra de toque.

Há no desejo uma violência cândida que namora o preto e branco. Os afectos não, passeiam risos desdenhosos pelo arco-íris, "qual sou eu?". Com o passar dos anos e da vida, minha e dos outros, habituei-me a traçar uma linha na areia - quando a tristeza de alguém a atravessa, agradece pena, solidariedade ou escuta, mas lhes sobrevive e se instala no meu coração - embora não deseje cobri-lo de sombra! -, pouco importa o nome do sentimento; vivo-o e ponto final.

segunda-feira, julho 06, 2009

Promessa.

1 - Vi corninhos de ministro.

2 - Escutei a coprolalia do ex-presidente da Assembleia Geral do Glorioso.

3 - Maria João Pires vai ser brasileira.

4 - Miguel Sousa Tavares acompanha-a, mas apenas como emigrante.

5 - Governo e Oposição disputam ferozmente as PMEs.

6 - O PS descobriu as incompatibilidades eleitorais e o PSD - finalmente? - as virtudes de ganhadora da Dra. Manuela Ferreira Leite.

7 - E eu sobrevivo sem uma queixa:(.

8 - Mas em verdade vos digo - uma imagem mais de Cristiano Ronaldo; uma sílaba mais do seu portunhol, ao dizer que vale cada euro que custou; uma apreciação ex-cathedra mais dos nossos jornalistas; um apelo mais ao casamento do rapaz; uma graça mais sobre os seus fins-de-semana com Paris Hilton; uma declaração mais sobre o quão famosos somos por todo o mundo pela mão dos seus pés...

9 - ... e eu rogo uma praga de tal dimensão e raiva que o Barcelona será campeão de Espanha e da Europa nos próximos dez anos, carago!

quinta-feira, julho 02, 2009

Boa noite.

Maria,

O meu Benfica em bolandas e eu sem crescer o suficiente para não sofrer com isso:(. O zapping. A primeira noite. Imberbe, o velho Dustin:). Mas sobretudo a banda sonora, Simon e Garfunkel, "and here's to you, Mrs. Robinson...". Apresentei-te à música deles e à de tantos outros... O teu horror aos Grateful Dead, "quem se lembraria de um nome desses? É sinistro!". Mas de Simon e Garfunkel gostaste logo, dizias, brincando, que eles cantavam o som do meu silêncio e assim me obrigavas a sorrir e quebrá-lo. Mas não te disse tudo, nem mesmo ao partires. Porque para além do desejo exasperado que em mim despertavas, foste algo de precioso e estranho - a ponte sobre as minhas águas turbulentas. Que sem ti, me deram tréguas exageradas, sabes? Vejo-as mais pantanosas a cada dia que passa e...
Aí está ele:) - "Elaine, Elaine, Elaine!" Vão fugir e ser felizes, querida, a cruz trancando a porta da Igreja. Ámen!

domingo, junho 28, 2009

Back in the USSR..., perdão!, Portugal-sur-mer:).

Na Suíça houve chuva e quilómetros a mais. Valeram a florida ponte de madeira em Lucerna e os empregados portugueses nos restaurantes:). A ponte esteve à altura de uma recordação muito idealizada, o que nunca é fácil. E os nossos compatriotas foram de uma gentileza cândida que enterneceu, chegando ao ponto de dirigir a minha trôpega e assustada navegação por menus orgulhosa e exclusivamente em alemão!

Dois dias de Portugal chegaram para o cinquentão se espreguiçar no conforto das suas rotinas e o psiquiatra sorrir - reina por aí uma versão política e social da história em que um miúdo gritou a evidência: "o rei vai nu!". Uma chusma de portugueses descobriu que o PS - leia-se José Sócrates... - afinal podia perder uma eleição. Mal refeitos de tão extraordinária revelação, foram presenteados com uma sondagem que alimenta dúvida excruciante - poderá perder segunda? E "a sério", para a Assembleia e não o Parlamento Europeu? As hipóteses torram os neurónios: quantos abstencionistas regressarão às urnas?; serão basicamente socialistas?; estarão menos amuados, dispostos a perdoar para evitar uma vitória do PSD?; o evidente enfado com o voto útil, que eterniza o Bloco Central, sobreviverá em Setembro?

Uma coisa é certa, o deprimente padrão português mantém-se, a oposição não ganha eleições, é o partido do Governo a perdê-las. Não se conquista o poder pela força de ideias próprias, ele é herdado através de um voto contra desiludido, cansado e com pouca esperança. Quando a líder da oposição, embora remoçada pelas europeias, quase resume o debate político à pergunta "querem ou não tirá-lo de lá?" e o Primeiro-Ministro, que compreendeu a mensagem dos eleitores!, se declara muito satisfeito consigo mesmo, que fazer?

Talvez votar...

quinta-feira, junho 18, 2009

Diário de bordo.

Viena continua a mesma - imperial, elegante, a espaços desdenhosa. Klimt e Schiele num diálogo fascinante, mas quando as forças já escasseiam é na música que procuro refúgio. Strauss e a plateia de turistas - esses novos peregrinos! - em alegria maravilhada. E Mozart... Que é de outra dimensão. Como se Deus, envergonhado, precisasse dele para nos dar a conhecer a música que se entretém a compor quando o Diabo recusa uma boa partida de xadrez:).

domingo, junho 14, 2009

Diário de bordo.

Aportei em Munique com a cidade em festa. E gostei - nunca tinha visto tanta cerveja, salsicha e doçaria junta! Num dos lugares mais carismáticos do centro, a cantoria misturava-se ao pesado tilintar das canecas, as faces passavam de coradas a púrpuras, os corpos estavam ainda separados, mas os olhos baços traíam uma irmandade que baloiçava perigosamente entre a alegria e o embrutecimento. Imaginei as convulsões sociais, o desemprego, os caprichos dos políticos, a ressaca da guerra e por um momento percebi como um pequeno "ariano" de bigode fez quase toda uma nação mergulhar no abismo atrás de si.

Dachau foi uma homenagem a meu Pai. Tudo que sei e esqueci acerca da Segunda Guerra Mundial foi-me dado por ele, não ir seria uma traição. O mais impressionante é a incapacidade para sequer imaginar o que ali aconteceu. Durante três horas, as palavras de Conrad, citadas em Apocalypse Now, perseguiram-me - o horror, o horror. Mas de uma forma intelectualizada, sabia que acontecera, mas nem os filmes das tropas americanas que ali chegaram conseguiram diluir por completo uma espécie de incredulidade perante a normalização do monstruoso. O horror existe em nós; à espera - da socialização da culpa, do álibi das ordens, da cobardia que acarreta o desejo de sobrevivência a todo o custo, do ódio escondido que faz dobrar as costas.

Salzburg dormita ao colo da fama do seu mais célebre filho. E se para mim este pacífico ambiente de sesta colectiva foi um alívio, imagino como deve ter exasperado o irrequieto Wolferl e o ambicioso Pai:). Dir-se-ia que Mozart sempre soube que não teria muito tempo...

domingo, junho 07, 2009

Também quero ser comentador político:).

Há cerca de dois anos, em pleno auge socrático, pediram-me numa entrevista para escolher um defeito e qualidade do Primeiro-Ministro. Económico e verdadeiro, escolhi a teimosia para ambas as faces da moeda. E acrescentei que se a teimosia/defeito "reinasse", crispada, as urnas dar-lhe-iam resposta. Aí está ela. Eu sei, há uma sondagem "para as legislativas" que dá ao PS 39%. Talvez... Mas a insistência de Sócrates sobre a governabilidade no discurso desta noite faz-me recear mais do mesmo - somos coerentes, defendemos o melhor para o País, pulverizem os votos e será impossível manter rumo e leme firmes. Desde já aviso que não alinho nesse discurso, voluptuosamente apaixonado pelo umbigo - nós ou o caos!
Não fiquei fã, por razões ideológicas óbvias, da maioria absoluta do PSD no passado, o que o PS fez da que me bati para lhe oferecer desiludiu-me profundamente. Não tenho uma visão catastrofista dos governos minoritários, porque Diabo não há-de um partido ser obrigado a negociar com outros em vez de impor a força dos números - e há quem não passe disso... - da bancada que o apoia?
Em Outubro veremos, mas não tenciono festejar os meus sessenta anos vergado ao melancólico jugo do voto "útil" (?). Se o quiserem, convençam-me. Será difícil, quanto se pode mudar em três meses? A atitude bem pouco educada com que a Ministra da Educação presenteou os jornalistas no Altis parece-me simbólica - o PS continua cheio de razão, é o País que teima em não ver a luz:(.

sexta-feira, junho 05, 2009

Portuguese prayer à la Jim Morrison:).

Meu Deus,

Grato por ter acabado a campanha eleitoral. Se as próximas duas afinarem pelo mesmo - baixíssimo! - diapasão, importas-te de fazer copy e paste nas minhas costas? No caso de ser pedir muito à tua impolada omnipotência, estou pronto a colaborar, meto uns drunfos ou vários copos daquela droga legal alentejana, que não posso mencionar para não fazer publicidade. (E aqui socorro-me da tua não menos anunciada omnisciência...). Mas estes sound bytes ocos outra vez não, olha que me passo e legalizo um partido de voto em branco!
Sh, no pasa nada, just kidding. Se deixasse virgem o boletim, o meu velho escapulia-se pelas (tuas) traseiras e vinha-me puxar as orelhas. Lá estarei. A votar contra e não a favor, o que deixa um sabor amargo na boca...

terça-feira, junho 02, 2009

Na Baixa.

Experiência esotérica: uma sessão de autógrafos com os livros perdidos pelo caminho ou simplesmente atrasados:). O habitual desenrascanço português, "assine-me este, doutor". E eu dei comigo a assinar livros com fórmula curiosa, "um abraço para... e um pedido de desculpas a...", que os autores e Deus me perdoem!
Estava na Baixa à hora de jantar, coisa rara. As oportunidades devem ser aproveitadas, demandei o Buraco e os braços do Senhor Manuel, que me acolheu com ternura imerecida, há muito que lhe devia a visita. As recordações de meu Pai e da sua tertúlia. A gratidão devida - ensinaram-me a ouvir e conversar. (Ao que parece, vem a caminho placa na parede com os nomes dos convivas daqueles almoços ao Sábado.) O meu velho acariciando com o garfo o empadão - definido como prato favorito por já mastigado:) -, antes de brandir humor com tanto de afiado como de terno, os outros aceitavam o desafio com enorme gozo; eu aprendia. Aparentemente, nos intervalos da cavaqueira com o Senhor Manuel, jantei sozinho. Mas não é verdade, senti-lhes o aceno aprovador. Não a todos... Sou psi, as minhas paranóias moldam realidade e fantasmas, quase podia jurar ter ouvido a voz de meu Pai, gentil e firme, como sempre - "já não era sem tempo, meu filho". Com razão, mas a saudade transforma cada visita num prazer doloroso. Vocês sabem, não é?
Chegado a casa, assisti ao desespero de clientes de um Banco, exasperados por terem abusado da sua confiança e agora também da paciência. Salvo as devidas comparações, esses amargos de boca não me são desconhecidos. O último exemplo foi paradigmático de um determinado tipo de sociedade. Um senhor que nunca vira propôs-me um programa de televisão em nome de uma empresa chamada Capital Mix. A hipótese agradou-me e à Ana Mesquita, ao prazer da conversa juntava-se a habitual gentileza de Serralves, que punha jardins e exposições nas nossas mãos. Quanto a condições materiais, aceitei as propostas e ponto final.
Mergulhei no programa e abstraí de tudo o resto. Semana após semana ouvia dizer que o contrato seria assinado na seguinte. Foram passando... E chegámos à última gravação sem um euro pago ou papel assinado, as mulheres pensam melhor e mais rápido, a Ana foi transparente - "sem contrato não gravo". E um outro senhor chegou de Lisboa, nosso admirador de imediato confesso, não menos rápido a culpar terceiros, quartos e quintos pelo atraso do preto no branco, em punho um contrato ainda virgem mas já com uma adenda que atrasava os pagamentos, a Capital Mix era vítima e não algoz. Adenda aceite.
Primeiro pagamento sem problemas, segundo incompleto, inexistente o último. E as responsabilidades de novo distribuídas por quem sabíamos ter cumprido as suas. O que pacientemente salientei. Ainda recordo a resposta: "só lamento que outros não cumpram e seja eu a passar por mentiroso". Exausto, rendi-me à evidência e entreguei o caso ao meu advogado. Que gastou latim e cordialidade. Para receber silêncio em troca. Tribunal e mais silêncio. Acção ganha, como seria inevitável. Vocês adivinham o episódio seguinte da telenovela - tentativa de penhora, nada passível de ser penhorado... Passaram quinze meses e uns milhares de euros, destinados a pagar o meu trabalho, acoitaram-se em outros bolsos que não os meus.
Talvez sejam estes comportamentos a justificar triste frase - o mundo é dos espertos. Devo confessar que a palavra me parece... raquítica:(.
Vou repetir - salvo as devidas comparações!, porque vi pessoas desesperadas no ecrã e esse não é o meu caso. Desejo-lhes justiça. Mas talvez precisem também de sorte e influência política...