quinta-feira, abril 30, 2009

Notas breves.

Maria,

Citando o velho Georgie - Here comes the sun:). E nem a pipa de trabalho à espera no fim-de-semana me impedirá de visitar a beira-rio e espojado num dos bancos meditar sobre a realidade do país:

1 - O Engenheiro Sócrates - não confundir com o visado no último sucesso dos Xutos... - pediu desculpa! O PS utilizou eleitoralmente criancinhas que só deviam ser utilizadas eleitoralmente pelo Governo. Presumo que o Secretário-Geral do Partido estava a pedir desculpa aos cachopos, às famílias e... ao Primeiro-Ministro!

2 - Os media tentam, solícitos, ajudar a cruzada de uma jovem que não consegue arrebanhar sócias para o seu clube de virgens. A solidão é tal que a moça já prescinde do cavalo branco e aceita que o príncipe encantado chegue de carro da mesma cor.

3 - Manuela Ferreira Leite aceita mas não aceita um Governo do Bloco Central. Há quem diga que o PS está no polo oposto: não aceita mas aceita.

4 - Um jogador de futebol do Real Madrid deu um pontapé num adversário, um soco noutro e insultou toda a equipa de arbitragem. Apanhou dez jogos. Pelo menos um responsável da Federação Portuguesa de Futebol - além do clube, claro! - considera o castigo exagerado. E é coerente, afinal a mesma Federação branqueou uma agressão do ex-seleccionador, nesse momento pouco inspirado pela Senhora de Fátima ou de Caravaggio.

5 - De uma forma insuportavelmente snob, o vírus da gripe suíno/mexicana ainda não se dignou a poisar em Portugal. Diz-se que confrontado pelo nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros respondeu, surpreso, ofendido e iberista, já ter polvilhado a Andaluzia.

6 - D. Nuno Álvares Pereira foi santificado por um milagre oftalmológico em Vila Franca de Xira. De forma não menos miraculosa, a inauguração da ressuscitada Praça Oliveira Salazar em Santa Comba calhou no dia 25 de Abril...

7 - O país continua parado em velocidade de cruzeiro. Com excepção do desemprego...

terça-feira, abril 28, 2009

Confessionário.

Maria,

Que exagero! - "és o meu pecado:(".
Mas enfim, pelo menos aceita a cunha deste agnóstico e faz dele - e nele... - a tua penitência:).

quinta-feira, abril 23, 2009

Dizem que é uma espécie de coerência:).

No mesmo dia, duas pessoas me referiram ter visto o Sexualidades na RTP-Memória por volta das duas da manhã. E eu sorri. Se é verdade, dezoito anos não chegaram para acabar o desterro em horário de filme pornográfico. Talvez se mostrasse mulheres nuas ou sentimentos em carne viva pudesse aspirar a um cantinho ao fim da tarde...

segunda-feira, abril 20, 2009

Infecciosos...

Mais uma sala, mais uma audiência, mais uma sessão, masi uma voltinha, como nos carros de choque da minha infância:). Mas esta em Arouca, com o Manel Sobrinho Simões a meu lado e dentro de mim a deliciosa confirmação de que continuamos a divertir-nos como garotos quando "actuamos" juntos. O resto do fim-de-semana passado à mesa e por montes e vales, "anda Vaz!", desafia o maroto, bem mais habituado aquelas andanças. E sobretudo o enorme privilégio de termos connosco os filhos, quase trinta anos depois de ali também nos juntarmos, tinham eles a idade dos netos que correm hoje pelo jardim. Os Vazes e os Simões vêm de longe e a continuidade da tribo está assegurada. Os dois patriarcas vêem-nos na primeira fila, segredando maroteiras acerca dos seus velhotes, e saboreiam a pacificação que permite um riso mais aberto do que nunca - a nossa cumplicidade contagiou-os:).

segunda-feira, abril 13, 2009

Como teria sido?

Maria,

Páscoa de agnóstico: texto esboçado, saudades de Cantelães, vingança no cabrito. Velho hábito de solitário, a televisão em fundo. A vida de um Cristo "adolescente", quase maroto perante o espanto provocado pelo seu poder. Dei comigo a pensar uma heresia - que pena ter aquele magnífico filho de um homem decidido ser necessário morrer para lavar um pecado transmitido geneticamente e que Agostinho amarraria ao sexo. Quão melhor teria sido vê-lo pregar durante longos anos o amor ao próximo, escutar as mulheres, expulsar os vendilhões; rir. Tê-lo-iam morto de qualquer maneira? Provavelmente. Mas ninguém o poderia invocar para defender uma visão do mundo baseada na culpa inata, no vale de lágrimas que conduz à beatitude post-mortem, nos milhares de páginas escritas por homens de negro assombrados pelo desejo do mundo nos seus conventos.
Preferia que tivesse vivido e não morrido por nós... Mas que sei eu?

terça-feira, abril 07, 2009

Fora das quatro linhas:).

A(lguma) lucidez é um vício doloroso. Aconteceu-me ao longo da vida suspirar pelas certezas de mecanismos de defesa psicológicos conseguidos. Mas lembro um dos meus professores, há mais de trinta anos: "A sublimação é um mecanismo de defesa. Socialmente aceite e útil, mas um mecanismo de defesa." Tomaria a liberdade de alargar o conceito: a eficácia ansiolítica de um processo psicológico não impede que traduza sempre uma desesperada, ainda que inconsciente, fuga aos espelhos. Quanto a mim, prefiro tentar sobreviver-lhes...

Com inveja, mas sem hipocrisia:).

Parabéns ao Futebol Clube do Porto, que merecia ter ganho o jogo. Como cresceu a equipa desde Outubro/Novembro! Que me seja permitido destacar Cissokho, o miúdo tornou-se um veterano em poucos meses. Na minha opinião, apenas Liverpool e Barcelona podem bater o FCP. Atendendo a que estão na outra metade do sorteio..., cheira a final que tresanda:).

segunda-feira, março 30, 2009

O seu a seu dono.

Hoje, um puto de 24 anos obrigou o número um do ténis mundial a jogar muito perto do seu melhor para o derrotar. Sem Ferraris vermelhos, fanfarronadas, barba crescida, frases do género "há quem tenha a lata de apontar o dedo aos jogadores da selecção", doutoramentos honoris causa, ordenados milionários, etc... Amanhã receio que seja remetido para a sombra do último putativo reforço do Benfica, o Congresso leonino ou o aportuguesamento da equipa do FCP. O rapaz é um dos 70 melhores jogadores do mundo, mesmo sem bandeiras nas janelas, caramba! Haverá vida em Portugal para lá do futebol?

quinta-feira, março 26, 2009

Che.

Benicio del Toro compôe um Che convincente. Como hipocondríaco - e paridinho... - espanto-me com a teimosia do guerrilheiro, capaz de manter em respeito o asmático. Partes da sua entrevista utilizada no filme são de uma actualidade indesmentível. O pequeno burguês que sempre fui, admira o homem que perseguiu a revolução sonhada noutras paragens e nesse processo encontrou a morte, mas abana a cabeça com amargura perante o regime instalado em Cuba. Entre a alienação capitalista e o socialismo traído não existirá nada?

segunda-feira, março 23, 2009

Extraordinário país!

Crise? Mas que crise?
Duas equipas fizeram um jogo paupérrimo; um árbitro coleccionou asneiras sob o ponto de vista disciplinar e cometeu um erro técnico grave; um jogador atirou a medalha ao chão e ofereceu-a ao ladrão do árbitro; um treinador descobre um novo significado para o mais conhecido gesto indicando gamanço da nossa praça; os dirigentes, alimentados pelos media, ocupam a boca de cena há 48 horas e tencionam continuar. Etc...
Crise? mas que crise?

Ainda a propósito de cinema: em 24 horas vi "O Leitor" e o "Quem quer ser Milionário?". Só encontro uma justificação para a chuva de óscares que se abateu sobre o segundo - o mercado indiano. Suponho que o próximo laureado seja chinês...

sexta-feira, março 20, 2009

Abençoados 78!

O último Eastwood é esplendoroso. Dir-se-ia a Paixão de um Dirty Harry que descobre a sageza e os outros:).

terça-feira, março 17, 2009

Continuando...

Uma das coisas que me continuam a impressionar nos mais velhos é a triste "eficácia" com que muitos ainda fazem suas imagens alheias. Não há pides tão severos como os que acarretamos dentro de nós e sussurram "o sexo é para os jovens, não sejas ridículo(a), como te atreves a empregar palavras como namoro, paixão ou desejo para o que te vai dentro? Já é uma sorte que não te decretem tão perverso nos afectos como analfabeto na informática e inútil na memória! ".

domingo, março 15, 2009

Números degradantes.

Sexualidade e Envelhecimento é já a conferência mais escolhida do meu "menu". Admitindo que as rugas próprias - de corpo e alma... - tenham algo a ver com tal sucesso, a razão principal é evidente - mesmo a custo, a sociedade vai-se aceitando que não nos tornamos assexuados por decreto do B.I. Mas quando leio que 230.000 portugueses, sobretudo idosos, já devem nas farmácias ou pagam a prestações, receio dissertar sobre um artigo de luxo:(.

domingo, março 08, 2009

O imperdoável desleixo.

Três dias na Madeira, a convite do Congresso de Medicina Interna. Trataram-me como um príncipe em todo o lado - no Congresso, na Câmara, onde fiz uma conferência, na rádio, onde gravei O Amor é... para a semana. Antigos alunos pararam-me nos corredores - "sou do ano...", um velho amigo de adolescência desaguou no hotel e pusemos a conversa (quase) em dia, os médicos "a sério" fizeram-me sentir um deles:).
E no entanto... Tudo o resto perdeu importância, quando comparado ao enorme gozo de reencontrar o Mário Espiga de Macedo e o Manuel Sobrinho Simões. O Mário é meu amigo há 47 anos, o Manel "só" há 41, mas a correria em que sempre andamos torna os encontros portuenses tão improváveis como raros:(. Foi preciso estarmos os três em trabalho a uma hora e meia de voo!
Tais desleixos são imperdoáveis. Sobretudo em médicos, especialistas na precariedade, para variar trocámos notícias tristes acerca de gente amiga... Por isso os olhei com ternura culpada durante o jantar de sexta. Como se o carinho que me invadia trouxesse a responsabilidade de não permitir nunca mais desencontros preguiçosos de workaholics, privando-nos de gargalhadas como as madeirenses, tão espontâneas e imaculadas que o coração, incrédulo e divertido, fita o bilhete de identidade e aconselha-o a procurar ajuda médica por diagnóstico fácil - sofre de obsessão pelo tempo dos relógios.

domingo, março 01, 2009

Trabalho e ecrã.

Maria,

Não fui para Cantelães. Conheces-me: a hipótese de levar à Madeira uma apresentação já preparada espicaçou esta culpabilidade judaico-cristã de agnóstico nostálgico; fiz outra. Mas com a televisão ligada...
O Congresso do PS fluiu como previsto. António José Seguro contribuiu para o debate estando presente, João Soares idem aspas; Manuel Alegre aceitou ser da Comissão de Honra, mas não pôs lá os pés; Vera Jardim levantou questões mais do que pertinentes e embrulhou-as num par de elogios, Ana Gomes surgiu no Eixo do Mal em 33 rotações no que às críticas habituais diz respeito, ambos ficaram a anos-luz da adjectivação ditirâmbica de outros... Resultado? Os grandes momentos de "heterodoxia" ficaram a dever-se a um delegado que nunca viu um galo apaixonar-se por outro galo, a outro que declamou versos dedicados à Dra. Edite Estrela - com a devida permissão da esposa! - e aos inevitáveis excursionistas, alguns dos quais responsabilizaram as televisões pelo apagão de Sábado á noite...
Lembrei-me de uma frase tua: "és cínico por convicção e ingénuo por fraqueza". Devo confessar que desde a separação ainda me irrita mais dar-te razão, mas... Imagina que fantasiei o enfado de Sócrates em face de tanto - como é a frase? - culto da personalidade. Eu sei, ele instiga-o e chama um figo às oportunidades de vitimização que lhe oferecem. Tenho pena, sabes? Nos últimos tempos o político vem-me desiludindo, na substância bastantes vezes, quase sempre na forma, sua ou dos "pretorianos" de serviço. Mas não deixei de gostar do homem.
A propósito, o duplo-padrão continua de boa saúde. Quando a Hillary se comoveu, não faltaram as vozes a dizerem que se tratava de manobra estratégica, Sócrates "abanou" e mesmo os comentadores mais agressivos se limitaram a estranhar a brecha na habitual armadura. Tivesse eu os últimos meses que lhe aterraram no colo e desconfio que me atribuiriam lugar cativo na Unidade Coronária! Mas tudo se paga, não me pareceu em boa forma. Os discursos foram medianos e a concentração do fogo sobre o Bloco de Esquerda um erro, na minha modesta opinião.
Como é evidente, Louçã capitalizou-o. Mas, para te falar com franqueza, não estou seguro que o Bloco perceba os perigos que se escondem por trás das generosas sondagens. Alegre não rompe, está bom de ver, por natureza e cálculo. O Bloco disputará com a abstenção uma larga fatia de eleitorado de esquerda, indisponível para decretar como únicas hipóteses a maioria absoluta do PS ou o caos neste jardim à beira-mar plantado. Mas se acontecer uma subida clara de votação no contexto de outra amuada maioria relativa do PS, os tempos de adolescência chegarão ao fim - ninguém exigirá ao Bloco alianças estruturadas, mas o apoio a medidas pontuais será cuidadosamente escrutinado. E se a imagem resultante do exame for a de uma oposição sistemática "porque sim", um ocaso à la PRD não é de excluir, há uma enorme diferença entre o voto reactivo e o consolidado.
P.S. À direita, como diria Remarque, nada de novo. Remarque? Margarida Rebelo Pinto? Dan Brown? Camões? Desculpa, mas depois de toda a discussão acerca da obra do Sartre que Pedro Passos Coelho leu (?) e com os sessenta anos ao virar da esquina, a memória parece cada vez mais traiçoeira:(.
Fica bem.

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Breves.

Maria,

1 - 70.000 novos desempregados em Janeiro.

2 - 5.000 euros de multa por corrupção activa provada.

3 - Uma gentil menina perguntou-me se a borracha insuflável será a solução para o crescente isolamento sexual.

4 - Penn ganhou o Óscar e um crítico encontrou a expressão certa - ele dissolveu-se no personagem.

5 - A Elisa esteve bem na Alfândega, ao discurso de grande solidez que lhe conhecia juntou um sorriso de genuína comoção. Vai precisar de ambos... (A propósito: ao contrário do que gostavas de insinuar, o PM sempre teve por ela a maior admiração. Até pelo seu mau génio!)

6 - No top ten dos heróis americanos, Obama ultrapassou Jesus Cristo. Pobre Lennon, que foi crucificado por dizer que era mais conhecido...

7 - Em 24 horas uma graça ao Magalhães foi proibida, autorizada e satisfez todos os envolvidos pela publicidade que trouxe ao Carnaval de Torres. Acho bem, deve sair mais barato do que trazer estrelas de telenovelas. E contudo...

domingo, fevereiro 22, 2009

Da memória e outras raízes.

Frustração


Fútil viagem
de que restam
sílabas
que não latejam.


António Ramos Rosa, Estrias.

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

A desatenção.

So,

So you think you can tell

Heaven from Hell,Blue skies from pain

Can you tell a green fieldFrom a cold steel rail?

A smile from a veil?Do you think you can tell?

Did they get you to tradeYour heroes for ghosts?

Hot ashes for trees?Hot air for a cool breeze?

Cold comfort for change?Did you exchange

A walk on part in the warFor a lead role in a cage?

How I wish, how I wish you were here

We're just two lost soulsSwimming in a fish bowl,Year after year,

Running over the same old ground.What have we found?

The same old fears

Wish you were here

Maria,

Uma vez mandaste o poema. Sem uma palavra tua como legenda ou bala ... E eu, cheio de fúria injusta e culpa honesta, aterrado por me ver ao espelho na triste doçura de canção favorita, parti e ceguei. Ou ao contrário... Certo é que me escapou um pormenor singular - o plural!
"We're just...". Acossado, soltei garras e velas, sem perceber que nunca abandonaras o navio, era também dos teus medos que falavas.
Aquele plural, mais a alma em que não acredito, o aquário claustrofóbico e os anos em sessão contínua poderiam ter-nos mantido juntos, se este umbigo medroso não me hipnotizasse:(.
De acordo, Maria, "os mesmos velhos medos...". Acredita, por favor, desejo de todo o coração que não seja hoje o caso. Por a vida em geral e um amor em particular terem estilhaçado os que te assombravam. Os meus? Wish they were gone...

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

TVC3.

James Dean. A Leste do Paraíso. E uma frase de Tyrone Power sobre ele: "Teve sorte, morreu sem conhecer o declínio". Talvez. Eu lembro-o com mais ternura do que a opulenta Marylin e os seus Kennedys e DiMaggio. "Too fast to live, too young to die", cantavam os Eagles.
Demasiado rebelde para não ser lembrado com saudade neste mundo cinzentão, digo eu...

terça-feira, fevereiro 10, 2009

Milk...

... é um tributo magnificente ao homem e à luta. E no entanto..., com os seus "perigos". Já ouvi os elogios ditirâmbicos - e merecidos... - ao desempenho de Penn desaguarem no horror pelo que ainda podia acontecer "naquele tempo", afinal "só passaram trinta anos".
Tenho más notícias, péssimas notícias!, para as nossas alvas consciências - uma nórdica lésbica no Poder não assegura a Primavera da aceitação, sobra caminho por andar:(.