Elas sentem culpa por «roubar» tempo à família
2007/03/09 09:09
Eles não. Os estudantes-trabalhadores só «ajudam» em casa.
As estudantes-trabalhadoras sentem culpa pelo tempo que «roubam» à família ao conciliarem o emprego, o estudo e as actividades domésticas, indicam os resultados de uma investigação a apresentar hoje na Universidade do Porto.
Eva Temudo, investigadora da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, disse à agência Lusa que as autoras do estudo concluíram que homens e mulheres trabalhadores-estudantes enfrentam constrangimentos idênticos por parte das faculdades e das entidades empregadoras, mas na família há diferenças acentuadas entre os dois sexos.
O estudo envolveu inquéritos às 1.080 alunas da Universidade do Porto que no ano lectivo 2005/2006 tiveram estatuto de estudante-trabalhador, universo dominado maioritariamente (52 por cento) por mulheres entre os 25 e 30 anos.
As investigadoras Mónica Oliveira e Eva Temudo concluíram que as inquiridas continuam a interiorizar o papel tradicional de companheiras, mães e dona de casa, considerando «inerentes ao seu sexo» as tarefas domésticas e familiares.
Os papéis de trabalhadora e de estudante «são sentidos pela família e por elas próprias como que usurpadores» dessa função tradicional, mas o mesmo já não acontece quando é o homem trabalhador a decidir voltar a estudar.
«Ele» tem apoio da mulher e da família
«Elas referem mesmo que um homem estudante-trabalhador terá naturalmente um maior apoio da mulher e família, podendo dedicar-se ao trabalho e aos estudos sem esse sentimento de culpa de estar a tirar tempo à família», salientam as investigadoras.
As autoras consideram que os valores interiorizados pelas mulheres resultam em «situações de grande violência simbólica», dada a «constante referência» à culpa por roubar tempo à família «e nunca ao tempo que roubam a elas próprias, e de que elas até parecem não consciencializar a falta».
Divisão de tarefas pouco equilibrada: eles «ajudam»
Os resultados do estudo apontam para uma «divisão de tarefas mulher/homem muito pouco equilibrada entre estudantes-trabalhadoras e seus companheiros», dado que, «apesar da pouca disponibilidade de tempo, é a elas que cabe a gestão da vida doméstica», enquanto eles «ajudam».
As investigadoras concluíram que «a organização actual das faculdades não está adequada às necessidades dos alunos estudantes-trabalhadores», o que constitui um paradoxo, «numa altura em que se preconiza a aprendizagem ao longo da vida e a constante actualização de conhecimentos».
As autoras defendem alterações nos horários de funcionamento de secretarias, bibliotecas, reprografias, cantinas e atendimento aos alunos, bem como a organização de estruturas de apoio, como creches, jardins-de-infância e ATL.
«Má vontade dos empregadores»
Em relação ao trabalho, as investigadoras concluíram que há «má vontade dos empregadores» na aplicação do estatuto de trabalhador-estudante, que seria ultrapassada se, por exemplo, houvesse incentivos fiscais à aceitação das pessoas que pretendem conciliar o emprego e os estudos.
Eva Temudo referiu que «os cursos que tiram nem sempre estão relacionados com a área em que trabalham», pelo que, nesses casos, os empregadores nem sequer antevêem benefícios futuros pelo facto de terem um trabalhador que está a estudar.
«A maior parte das estudantes-trabalhadoras não está interessada na progressão na carreira, mas sim na realização de um sonho ou na mudança de profissão», salientou a investigadora.
sexta-feira, março 09, 2007
quinta-feira, março 08, 2007
:))))). Roast-beef com cannabis salteada.
Mulher de 68 evita cadeia por plantar cannabis
2007/03/07 23:30
Motivos de saúde levam a avó a cozinhar com droga
Uma mulher de 68 anos, que alega que cozinha com cannabis por motivos de saúde, foi considera culpada por plantar a droga e sentenciada a 250 horas de trabalho comunitário. Patricia Tabram, conhecida por diversas campanhas pró-cannabis em Inglaterra, foi avisada que uma segunda condenação a levará à cadeia. Mas Tabram afirmou que não tem medo da prisão.
Segundo o Guardian, no tribunal, a juíza Barbara Forrester alertou Tabram que ela pode ainda ser condenada a prisão efectiva, uma vez que o júri decidiu condená-la a seis meses de pena suspensa. Por isso, basta um deslize e Tabram acaba na cadeia.
Tabram foi assim condenada em 175 horas de trabalho por cultivar quatro plantas de cannabis e outras 75 horas por possuir cannabis em pó, que a avó de 68 anos usa para cozinhar.
2007/03/07 23:30
Motivos de saúde levam a avó a cozinhar com droga
Uma mulher de 68 anos, que alega que cozinha com cannabis por motivos de saúde, foi considera culpada por plantar a droga e sentenciada a 250 horas de trabalho comunitário. Patricia Tabram, conhecida por diversas campanhas pró-cannabis em Inglaterra, foi avisada que uma segunda condenação a levará à cadeia. Mas Tabram afirmou que não tem medo da prisão.
Segundo o Guardian, no tribunal, a juíza Barbara Forrester alertou Tabram que ela pode ainda ser condenada a prisão efectiva, uma vez que o júri decidiu condená-la a seis meses de pena suspensa. Por isso, basta um deslize e Tabram acaba na cadeia.
Tabram foi assim condenada em 175 horas de trabalho por cultivar quatro plantas de cannabis e outras 75 horas por possuir cannabis em pó, que a avó de 68 anos usa para cozinhar.
7 de Março.
Maria,
Obrigado por hoje me teres escrito em "carta de papel". Não sei, parece que as palavras têm outro peso, não estando à mercê de um qualquer delete caprichoso. E no entanto bastaria rasgá-las... Não ligues, sou da reforma antiga, é o que é. Nunca te esqueces da data, amor, mesmo sem lhe fazeres referência - a saudade mais confessa, o desafio para eu aparecer mais premente, o desejo pelo meu desejo mais atrevido:). Obrigado. Quanto ao resto, nada de novo, oito anos só reforçaram as certezas - o Velho está morto e continuo a buscar-lhe aprovação e conselho, desconfiado como sou da minha capacidade para urdir sem tropeços a lenda familiar. Com a Mãe junto a ele - que o corpo cego e sem memória não passa de sombra dela -, restas tu para me ouvires. Sorrindo, anónima, ao telefone, com uma sageza que nada deve ao bilhete de identidade, mas ao facto de seres - assim o espero... - mulher enamorada. "Vai tudo correr bem", dizes. E eu acredito. Para expulsar do coração a angústia que às vezes acotovela a tua imagem. Sem por um momento lhe nublar a nitidez...
Obrigado por hoje me teres escrito em "carta de papel". Não sei, parece que as palavras têm outro peso, não estando à mercê de um qualquer delete caprichoso. E no entanto bastaria rasgá-las... Não ligues, sou da reforma antiga, é o que é. Nunca te esqueces da data, amor, mesmo sem lhe fazeres referência - a saudade mais confessa, o desafio para eu aparecer mais premente, o desejo pelo meu desejo mais atrevido:). Obrigado. Quanto ao resto, nada de novo, oito anos só reforçaram as certezas - o Velho está morto e continuo a buscar-lhe aprovação e conselho, desconfiado como sou da minha capacidade para urdir sem tropeços a lenda familiar. Com a Mãe junto a ele - que o corpo cego e sem memória não passa de sombra dela -, restas tu para me ouvires. Sorrindo, anónima, ao telefone, com uma sageza que nada deve ao bilhete de identidade, mas ao facto de seres - assim o espero... - mulher enamorada. "Vai tudo correr bem", dizes. E eu acredito. Para expulsar do coração a angústia que às vezes acotovela a tua imagem. Sem por um momento lhe nublar a nitidez...
quarta-feira, março 07, 2007
Dois.
PSD e CDS-PP acusam PS de defender aborto livre
2007/03/07 13:36
E de enganar os portugueses. O partido do Governo respondeu
PSD e CDS-PP assumiram-se esta quarta-feira contra a nova lei que despenaliza a interrupção da gravidez, acusando o PS de consagrar o aborto livre e de enganar os votantes no referendo, noticia a Agência Lusa.
Na votação do projecto de lei conjunto do PS, PCP, BE e Verdes na especialidade, os deputados do PSD que apoiaram o «sim» no referendo de 11 de Fevereiro, como Ana Manso e Luís Campos Ferreira, declararam-se enganados pelos socialistas.
Segundo a Lusa, o líder parlamentar social-democrata, Marques Guedes, defensor do «não», insistiu que a lei deveria estabelecer que a consulta médica prévia à realização do aborto fosse «no sentido de encorajar a mulher a não interromper a gravidez».
O CDS-PP, partido oficialmente pelo «não», lembrou, através do deputado Pedro Mota Soares, que o Presidente da República, Cavaco Silva, apelou a que se procurasse «unir a sociedade portuguesa e não dividi-la ainda mais» com a nova lei do aborto.
«O Estado deveria combater o aborto. Este projecto representa um claro retrocesso em relação ao que muitos deputados desta câmara andaram a dizer aos portugueses durante o referendo», alegou, referindo-se à importação da lei alemã, que prevê um aconselhamento dissuasor da interrupção da gravidez.
Em resposta, o deputado do PS Ricardo Rodrigues considerou que «se havia dúvidas sobre a posição do PSD sobre esta matéria ficaram esclarecidas» e que «a linha oficial» do maior partido da oposição é o «não» à despenalização do aborto por opção da mulher.
P.S. Uma consulta médica para "encorajar a mulher a não interromper a gravidez" seria uma versão "baratinha" das famosas Comissões de Aconselhamento e violaria claramente os resultados do referendo que privilegiaram a opção da mulher. Informar - completamente, como defendo no post anterior - não é sinónimo de encorajar uma das opções possíveis.
2007/03/07 13:36
E de enganar os portugueses. O partido do Governo respondeu
PSD e CDS-PP assumiram-se esta quarta-feira contra a nova lei que despenaliza a interrupção da gravidez, acusando o PS de consagrar o aborto livre e de enganar os votantes no referendo, noticia a Agência Lusa.
Na votação do projecto de lei conjunto do PS, PCP, BE e Verdes na especialidade, os deputados do PSD que apoiaram o «sim» no referendo de 11 de Fevereiro, como Ana Manso e Luís Campos Ferreira, declararam-se enganados pelos socialistas.
Segundo a Lusa, o líder parlamentar social-democrata, Marques Guedes, defensor do «não», insistiu que a lei deveria estabelecer que a consulta médica prévia à realização do aborto fosse «no sentido de encorajar a mulher a não interromper a gravidez».
O CDS-PP, partido oficialmente pelo «não», lembrou, através do deputado Pedro Mota Soares, que o Presidente da República, Cavaco Silva, apelou a que se procurasse «unir a sociedade portuguesa e não dividi-la ainda mais» com a nova lei do aborto.
«O Estado deveria combater o aborto. Este projecto representa um claro retrocesso em relação ao que muitos deputados desta câmara andaram a dizer aos portugueses durante o referendo», alegou, referindo-se à importação da lei alemã, que prevê um aconselhamento dissuasor da interrupção da gravidez.
Em resposta, o deputado do PS Ricardo Rodrigues considerou que «se havia dúvidas sobre a posição do PSD sobre esta matéria ficaram esclarecidas» e que «a linha oficial» do maior partido da oposição é o «não» à despenalização do aborto por opção da mulher.
P.S. Uma consulta médica para "encorajar a mulher a não interromper a gravidez" seria uma versão "baratinha" das famosas Comissões de Aconselhamento e violaria claramente os resultados do referendo que privilegiaram a opção da mulher. Informar - completamente, como defendo no post anterior - não é sinónimo de encorajar uma das opções possíveis.
Um...
Esquerda aprovou nova lei do Aborto
2007/03/07 13:07
Informação à mulher sobre regimes de adopção ficou de fora
O PS e a oposição de esquerda aprovaram esta quarta-feira os artigos da nova lei do aborto, em que incluíram meia frase da proposta social-democrata, gesto insuficiente para obter o apoio do PSD e do CDS-PP, escreve a Lusa.
O projecto de lei do aborto do PS, PCP, BE e Verdes foi votado, na especialidade, na Comissão de Assuntos Constitucionais, bem como as alternativas apresentadas pelo PSD e por três deputadas independentes da bancada socialista, que foram chumbadas.
Segundo a Lusa, em cima da hora e contrariando o que disse o presidente do partido, Ribeiro e Castro, o CDS-PP entregou também, através do deputado Pedro Mota Soares, propostas de alteração, igualmente chumbadas pelo PS e pela oposição de esquerda.
Por sua vez, PS, PCP, BE e Verdes alteraram esta manhã o seu próprio projecto para incluir meia frase do PSD, estabelecendo que as mulheres serão infor madas «sobre as condições de apoio que o Estado pode dar à prossecução da gravidez e à maternidade».
O PS chegou a admitir, terça-feira, acrescentar ao projecto a informação «sobre os regimes de adopção e acolhimento familiar», mas essa segunda parte da frase da proposta do PSD acabou por ficar de fora da nova lei do aborto.
A maioria dos artigos do diploma obteve o voto contra dos três deputados do PSD presentes na reunião da comissão, o independente Quartim Graça, José Pedro Aguiar Branco e Luís Montenegro.
O mesmo fez a deputada independente da bancada socialista Maria do Rosário Carneiro, autora, com as deputadas Teresa Venda e Matilde Sousa Franco, de uma das propostas alternativas.
A discussão e votação final global, em plenário, da nova lei do aborto deverão realizar-se esta quinta-feira.
P.S. Não percebo como se propicia uma informação completa dos apoios que o Estado pode dar para a prossecução da gravidez sem falar dos regimes de adopção e acolhimento familiar.
2007/03/07 13:07
Informação à mulher sobre regimes de adopção ficou de fora
O PS e a oposição de esquerda aprovaram esta quarta-feira os artigos da nova lei do aborto, em que incluíram meia frase da proposta social-democrata, gesto insuficiente para obter o apoio do PSD e do CDS-PP, escreve a Lusa.
O projecto de lei do aborto do PS, PCP, BE e Verdes foi votado, na especialidade, na Comissão de Assuntos Constitucionais, bem como as alternativas apresentadas pelo PSD e por três deputadas independentes da bancada socialista, que foram chumbadas.
Segundo a Lusa, em cima da hora e contrariando o que disse o presidente do partido, Ribeiro e Castro, o CDS-PP entregou também, através do deputado Pedro Mota Soares, propostas de alteração, igualmente chumbadas pelo PS e pela oposição de esquerda.
Por sua vez, PS, PCP, BE e Verdes alteraram esta manhã o seu próprio projecto para incluir meia frase do PSD, estabelecendo que as mulheres serão infor madas «sobre as condições de apoio que o Estado pode dar à prossecução da gravidez e à maternidade».
O PS chegou a admitir, terça-feira, acrescentar ao projecto a informação «sobre os regimes de adopção e acolhimento familiar», mas essa segunda parte da frase da proposta do PSD acabou por ficar de fora da nova lei do aborto.
A maioria dos artigos do diploma obteve o voto contra dos três deputados do PSD presentes na reunião da comissão, o independente Quartim Graça, José Pedro Aguiar Branco e Luís Montenegro.
O mesmo fez a deputada independente da bancada socialista Maria do Rosário Carneiro, autora, com as deputadas Teresa Venda e Matilde Sousa Franco, de uma das propostas alternativas.
A discussão e votação final global, em plenário, da nova lei do aborto deverão realizar-se esta quinta-feira.
P.S. Não percebo como se propicia uma informação completa dos apoios que o Estado pode dar para a prossecução da gravidez sem falar dos regimes de adopção e acolhimento familiar.
terça-feira, março 06, 2007
Em dia de S.Gabriel:).
"A minha mãe contava-nos que ele chegara uma noite a casa, enlouquecido pelo álcool, um minuto depois de uma galinha ter plantado a sua caganita em cima da mesa da sala de jantar. Sem tempo de limpar a toalha imaculada, a esposa conseguiu tapá-la com um prato para evitar que o marido a visse e apressou-se a distraí-lo com a pergunta da praxe:
- O que queres comer?
O homem deu um grunhido:
- Merda.
A mulher levantou então o prato e disse-lhe com a sua santa doçura:
- Aí a tens.
Diz a história que o próprio marido se convenceu então da santidade da esposa e se converteu à fé de Cristo."
(Viver para contá-la).
- O que queres comer?
O homem deu um grunhido:
- Merda.
A mulher levantou então o prato e disse-lhe com a sua santa doçura:
- Aí a tens.
Diz a história que o próprio marido se convenceu então da santidade da esposa e se converteu à fé de Cristo."
(Viver para contá-la).
segunda-feira, março 05, 2007
Pela mão do Pedro Tamen.
Amigo, temos veias importunas:
não é o sangue que arde, mas nós que o violamos
e trazemos de longe aonde estamos
ausências de vento nas escunas.
Por isso a custo navegamos
quase com raiva ou medo ou até pranto
- que o vento é sempre santo.
não é o sangue que arde, mas nós que o violamos
e trazemos de longe aonde estamos
ausências de vento nas escunas.
Por isso a custo navegamos
quase com raiva ou medo ou até pranto
- que o vento é sempre santo.
domingo, março 04, 2007
A vergonha que não chega de Marte.
Maria,
Leste o post do Alquimista? Quase me apetece dizer que a palavra ódio é demasiado elaborada para aquela gente (e outra semelhante por esses estádios fora). Funcionam por reflexos condicionados que nem a morte de alguém quebra, tomam por solidariedade e rituais de grupo o que não passa de acefalia, envergonham quem pensam apoiar. E todos nós por arrastamento, por deixarmos crescer um mundo em que comentadores se referem ao fenómeno dizendo que "todo o estádio aplaude, excepto uma pequena minoria..." e passam adiante, o esférico já rola! E ao segui-lo no relvado, desviamos o olhar e ignoramos a vergonha...
Leste o post do Alquimista? Quase me apetece dizer que a palavra ódio é demasiado elaborada para aquela gente (e outra semelhante por esses estádios fora). Funcionam por reflexos condicionados que nem a morte de alguém quebra, tomam por solidariedade e rituais de grupo o que não passa de acefalia, envergonham quem pensam apoiar. E todos nós por arrastamento, por deixarmos crescer um mundo em que comentadores se referem ao fenómeno dizendo que "todo o estádio aplaude, excepto uma pequena minoria..." e passam adiante, o esférico já rola! E ao segui-lo no relvado, desviamos o olhar e ignoramos a vergonha...
sexta-feira, março 02, 2007
Sem estruturas de apoio vai acontecer mais vezes...
Matou a mulher doente e suicidou-se a seguir
Virgilio Rodrigues
Os corpos foram removidos ao fim da noite de ontem pelos bombeiros para a morgueMarisa RodriguesManuel Santana, 75 anos, esteve sempre ao lado da mulher, portadora de Alzheimer. Mas a doença agravou-se e as noites sem dormir deixaram-no à beira do desespero. Pediu ajuda para interná-la, mas o apelo não surtiu efeito. Ontem decidiu acabar com o sofrimento. Matou a companheira a tiros de caçadeira, na casa de ambos, em Loulé, e suicidou-se. A triste história do casal, que depois de uma vida de trabalho em França escolheu viver a reforma no sítio de Soalheira, freguesia de São Sebastião (Loulé), deixou todos em estado de choque. A doença de Olívia Nunes, de 72 anos, era conhecida, mas ninguém esperava este desfecho.Manuel era conhecido pela dedicação à companheira. "Fazia-lhe todas as vontades, ia a Loulé passeá-la, davam-se muito bem", comentavam os vizinhos. A aparente calma que se sentia à porta da moradia do casal, palco da tragédia, quebrou-se quando os corpos foram removidos pelos bombeiros. Deu lugar a muito choro e lamentos. "Ainda estou meio zonzo. Como é que o meu primo foi capaz de fazer uma coisa destas?", questionava-se Artur Mendes. "Ela de há uns tempos para cá não o deixava dormir. Passava a noite a conversar como se fosse uma criança. Ele era um santo e tinha muita paciência, mas com certeza que perdeu o tino, depois de passar muitas noites de seguida sem dormir", acredita. Olívia sofria de Alzheimer há cerca de sete anos. A doença foi piorando e as noites sem dormir levaram Manuel a pedir ajuda. Na passada sexta-feira, foi à junta de freguesia de São Sebastião. Chorava muito e os funcionários decidiram telefonar ao presidente, Horácio Piedade. "Estava desesperado que até metia dó. Disse que não aguentava mais. Queria interná-la", contou. "Contactei a acção social da câmara de Loulé e pedimos uma ambulância, que os levou ao hospital de Faro", acrescentou o autarca. No dia seguinte, ao cruzar-se com Manuel, soube que Olívia "teve alta horas depois de chegado ao hospital. Disse-me que foi medicado e já tinha conseguido dormir melhor". Ontem Manuel telefonou ao filho (o único do casal) que reside em França. Contou-lhe que ia pôr termo ao sofrimento. O filho telefonou de imediato a uma vizinha, que se deslocou à moradia do casal. Encontrou Olívia morta, deitada no sofá, e Manuel, também já sem vida, tombado entre a porta das traseiras e o quintal. A GNR recebeu o alerta às 16.30 horas, mas os militares, ao constatarem ter sido utilizada uma arma de fogo, informaram a Polícia Judiciária (PJ) de Faro, com competência para investigar este tipo de crimes. Mal os inspectores da PJ deixaram a casa, com sacos com indícios recolhidos na moradia, um familiar, um vizinho e o presidente da junta, apressaram-se a limpar o sangue com vassouras, detergentes e baldes de água. "É para evitar que o filho que vem de França sofra ainda mais ao ver isto", diziam.
Virgilio Rodrigues
Os corpos foram removidos ao fim da noite de ontem pelos bombeiros para a morgueMarisa RodriguesManuel Santana, 75 anos, esteve sempre ao lado da mulher, portadora de Alzheimer. Mas a doença agravou-se e as noites sem dormir deixaram-no à beira do desespero. Pediu ajuda para interná-la, mas o apelo não surtiu efeito. Ontem decidiu acabar com o sofrimento. Matou a companheira a tiros de caçadeira, na casa de ambos, em Loulé, e suicidou-se. A triste história do casal, que depois de uma vida de trabalho em França escolheu viver a reforma no sítio de Soalheira, freguesia de São Sebastião (Loulé), deixou todos em estado de choque. A doença de Olívia Nunes, de 72 anos, era conhecida, mas ninguém esperava este desfecho.Manuel era conhecido pela dedicação à companheira. "Fazia-lhe todas as vontades, ia a Loulé passeá-la, davam-se muito bem", comentavam os vizinhos. A aparente calma que se sentia à porta da moradia do casal, palco da tragédia, quebrou-se quando os corpos foram removidos pelos bombeiros. Deu lugar a muito choro e lamentos. "Ainda estou meio zonzo. Como é que o meu primo foi capaz de fazer uma coisa destas?", questionava-se Artur Mendes. "Ela de há uns tempos para cá não o deixava dormir. Passava a noite a conversar como se fosse uma criança. Ele era um santo e tinha muita paciência, mas com certeza que perdeu o tino, depois de passar muitas noites de seguida sem dormir", acredita. Olívia sofria de Alzheimer há cerca de sete anos. A doença foi piorando e as noites sem dormir levaram Manuel a pedir ajuda. Na passada sexta-feira, foi à junta de freguesia de São Sebastião. Chorava muito e os funcionários decidiram telefonar ao presidente, Horácio Piedade. "Estava desesperado que até metia dó. Disse que não aguentava mais. Queria interná-la", contou. "Contactei a acção social da câmara de Loulé e pedimos uma ambulância, que os levou ao hospital de Faro", acrescentou o autarca. No dia seguinte, ao cruzar-se com Manuel, soube que Olívia "teve alta horas depois de chegado ao hospital. Disse-me que foi medicado e já tinha conseguido dormir melhor". Ontem Manuel telefonou ao filho (o único do casal) que reside em França. Contou-lhe que ia pôr termo ao sofrimento. O filho telefonou de imediato a uma vizinha, que se deslocou à moradia do casal. Encontrou Olívia morta, deitada no sofá, e Manuel, também já sem vida, tombado entre a porta das traseiras e o quintal. A GNR recebeu o alerta às 16.30 horas, mas os militares, ao constatarem ter sido utilizada uma arma de fogo, informaram a Polícia Judiciária (PJ) de Faro, com competência para investigar este tipo de crimes. Mal os inspectores da PJ deixaram a casa, com sacos com indícios recolhidos na moradia, um familiar, um vizinho e o presidente da junta, apressaram-se a limpar o sangue com vassouras, detergentes e baldes de água. "É para evitar que o filho que vem de França sofra ainda mais ao ver isto", diziam.
quinta-feira, março 01, 2007
Pontapé de saída.
O Zé propôs um primeiro tema para o post-it (é assim que se escreve?). Causas do aborto clandestino em geral e na realidade pós-referendo em particular. Concordo com a distinção, é uma ingenuidade pensar que o aborto clandestino, mesmo até às 10 semanas, desaparecerá com a lei a ser aprovada. Que pressupostos culturais? Que causas sociais? Que mecanismos psicológicos?
P.S. O Vik vai providenciar um link directo no Murcon, em princípio ainda hoje.
P.S. O Vik vai providenciar um link directo no Murcon, em princípio ainda hoje.
quarta-feira, fevereiro 28, 2007
Veremos o resultado final.
Aconselhamento só a pedido da mulher Susete Francisco
As mulheres que pretendam interromper uma gravidez até às dez semanas poderão requerer aconselhamento psicológico e apoio social, mas esta é uma escolha que caberá às próprias. "Acompanhamento facultativo" foi a solução encontrada por PS, PCP e BE na nova lei do aborto. A proposta foi concertada pelos três partidos na última semana e ontem entregue no Parlamento. O documento - mais detalhado do que foi inicialmente previsto pelo PS -, consagra a despenalização do aborto até às dez semanas, estabelecendo no artigo 142.º do Código Penal que a interrupção voluntária da gravidez (IVG) não é punível se "for realizada por opção da mulher, nas primeiras dez semanas da gravidez".Seguem-se as condições : os estabelecimentos de saúde (sejam oficiais ou reconhecidos oficialmente) ficam obrigados a "garantir em tempo útil" a realização de uma consulta. De carácter obrigatório,e na qual a mulher será informada sobre o acto clínico em si, sendo-lhe também transmitido que poderá requerer acompanhamento psicológico ou por uma assistente social durante o período de reflexão (que terá no mínimo três dias). Com carácter facultativo: apesar dos diferentes entendimentos sobre esta matéria no PS, na proposta ontem entregue a mulher pode dispensar este acompanhamento. Mas os estabelecimentos que pratiquem a IVG são obrigados a tê-lo, assim como têm de garantir encaminhamento posterior para uma consulta de planeamento familiar. A proposta estabelece também o dever de sigilo dos profissionais de saúde e a objecção de consciência.IVG antes do VerãoDe acordo com Osvaldo Castro, presidente da Comissão de Assuntos Constitucionais, a lei será debatida na especialidade a 7 de Março. Caso seja aprovada (e conta desde já com uma larga maioria), o mais provável é que suba a votação final global logo no dia seguinte - 8 de Março, dia da Mulher. A lei seguirá então para Belém e, após promulgação, o Ministério da Saúde terá 60 dias (o prazo inicial era 90, mas foi encurtado) para a regulamentar, organizando o Serviço Nacional da Saúde (SNS) para que dê resposta às solicitações. O que significa que a nova lei da IVG poderá ser implementada antes do Verão.Uma proposta "equilibrada"As negociações entre PS, PCP e BE iniciaram-se logo na primeira semana após o referendo, então ainda de modo informal. Já esta semana decorreram reuniões entre os líderes parlamentares dos três partidos, que acertaram o texto final. "Esta iniciativa - que é do PS, do PCP, do BE e de Os Verdes - destina-se a criar as condições para a aprovação de uma lei o mais alargada possível", afirmou ontem o presidente da bancada socialista, Alberto Martins, acrescentando que o texto está "aberto à assinatura de outros deputados" - uma referência a nomes do PSD que votaram pela despenalização, mas que não foram chamados à elaboração do texto. Já quanto a eventuais alterações propostas por outros partidos, Martins referiu que a proposta será ainda discutida na especialidade. Mas o certo é que a maioria de esquerda não deverá acolher alterações substanciais. Até porque a proposta ontem entregue, como fizeram questão de defender Martins, Bernardino Soares (pelo PCP) e Helena Pinto (pelo BE) é uma tradução "equilibrada" do resultado do referendo de 11 de Fevereiro e que resulta de um "consenso" alargado. As mesmas palavras usadas por Cavaco Silva na semana passada, mas então sob a forma de "alerta".
Comentário - Estou completamente de acordo com o carácter facultativo do acompanhamento durante o período de reflexão. Tivesse eu o poder na "ponta da esferográfica" e sairia caro ao Estado a outro nível:))) - a consulta obrigatória seria efectuada - obrigatoriamente... - por uma equipa multidisciplinar. Passo a explicar porquê. A avaliação psicológica seria preciosa para despistar eventuais processos depressivos ou estruturas de personalidade que tornassem aconselhável um acompanhamento - facultativo, embora recomendado... - após a interrupção de gravidez, a ajuda possível não se esgota no indispensável planeamento familiar. E quanto à informação sobre apoios à maternidade, não considero os médicos o grupo profissional mais adequado para a propiciar. Estes dois exemplos simples chegam para explicar por que razão durante a campanha sempre falei de equipas multidisciplinares. Mas atenção! - responsáveis por acolhimento e consulta não directivos, e não por um "aconselhamento" paternalista, dissuasor mais ou menos encapotado da interrupção da gravidez, logo, violando a opção da mulher e, por arrastamento, o referendo.
As mulheres que pretendam interromper uma gravidez até às dez semanas poderão requerer aconselhamento psicológico e apoio social, mas esta é uma escolha que caberá às próprias. "Acompanhamento facultativo" foi a solução encontrada por PS, PCP e BE na nova lei do aborto. A proposta foi concertada pelos três partidos na última semana e ontem entregue no Parlamento. O documento - mais detalhado do que foi inicialmente previsto pelo PS -, consagra a despenalização do aborto até às dez semanas, estabelecendo no artigo 142.º do Código Penal que a interrupção voluntária da gravidez (IVG) não é punível se "for realizada por opção da mulher, nas primeiras dez semanas da gravidez".Seguem-se as condições : os estabelecimentos de saúde (sejam oficiais ou reconhecidos oficialmente) ficam obrigados a "garantir em tempo útil" a realização de uma consulta. De carácter obrigatório,e na qual a mulher será informada sobre o acto clínico em si, sendo-lhe também transmitido que poderá requerer acompanhamento psicológico ou por uma assistente social durante o período de reflexão (que terá no mínimo três dias). Com carácter facultativo: apesar dos diferentes entendimentos sobre esta matéria no PS, na proposta ontem entregue a mulher pode dispensar este acompanhamento. Mas os estabelecimentos que pratiquem a IVG são obrigados a tê-lo, assim como têm de garantir encaminhamento posterior para uma consulta de planeamento familiar. A proposta estabelece também o dever de sigilo dos profissionais de saúde e a objecção de consciência.IVG antes do VerãoDe acordo com Osvaldo Castro, presidente da Comissão de Assuntos Constitucionais, a lei será debatida na especialidade a 7 de Março. Caso seja aprovada (e conta desde já com uma larga maioria), o mais provável é que suba a votação final global logo no dia seguinte - 8 de Março, dia da Mulher. A lei seguirá então para Belém e, após promulgação, o Ministério da Saúde terá 60 dias (o prazo inicial era 90, mas foi encurtado) para a regulamentar, organizando o Serviço Nacional da Saúde (SNS) para que dê resposta às solicitações. O que significa que a nova lei da IVG poderá ser implementada antes do Verão.Uma proposta "equilibrada"As negociações entre PS, PCP e BE iniciaram-se logo na primeira semana após o referendo, então ainda de modo informal. Já esta semana decorreram reuniões entre os líderes parlamentares dos três partidos, que acertaram o texto final. "Esta iniciativa - que é do PS, do PCP, do BE e de Os Verdes - destina-se a criar as condições para a aprovação de uma lei o mais alargada possível", afirmou ontem o presidente da bancada socialista, Alberto Martins, acrescentando que o texto está "aberto à assinatura de outros deputados" - uma referência a nomes do PSD que votaram pela despenalização, mas que não foram chamados à elaboração do texto. Já quanto a eventuais alterações propostas por outros partidos, Martins referiu que a proposta será ainda discutida na especialidade. Mas o certo é que a maioria de esquerda não deverá acolher alterações substanciais. Até porque a proposta ontem entregue, como fizeram questão de defender Martins, Bernardino Soares (pelo PCP) e Helena Pinto (pelo BE) é uma tradução "equilibrada" do resultado do referendo de 11 de Fevereiro e que resulta de um "consenso" alargado. As mesmas palavras usadas por Cavaco Silva na semana passada, mas então sob a forma de "alerta".
Comentário - Estou completamente de acordo com o carácter facultativo do acompanhamento durante o período de reflexão. Tivesse eu o poder na "ponta da esferográfica" e sairia caro ao Estado a outro nível:))) - a consulta obrigatória seria efectuada - obrigatoriamente... - por uma equipa multidisciplinar. Passo a explicar porquê. A avaliação psicológica seria preciosa para despistar eventuais processos depressivos ou estruturas de personalidade que tornassem aconselhável um acompanhamento - facultativo, embora recomendado... - após a interrupção de gravidez, a ajuda possível não se esgota no indispensável planeamento familiar. E quanto à informação sobre apoios à maternidade, não considero os médicos o grupo profissional mais adequado para a propiciar. Estes dois exemplos simples chegam para explicar por que razão durante a campanha sempre falei de equipas multidisciplinares. Mas atenção! - responsáveis por acolhimento e consulta não directivos, e não por um "aconselhamento" paternalista, dissuasor mais ou menos encapotado da interrupção da gravidez, logo, violando a opção da mulher e, por arrastamento, o referendo.
segunda-feira, fevereiro 26, 2007
Consequência de se pensar em "grupos de risco" e não comportamentos de risco...
SIDA: Heterossexuais infectados aumentam em PortugalQuase metade dos casos de infecção por VIH/SIDA são toxicodependentes, seguidos dos heterossexuais - cuja transmissão da doença está a crescer em Portugal - e dos homossexuais, de acordo com os dados referentes a 31 de Dezembro do ano passado.
Segundo o relatório do Centro de Vigilância Epidemiológica das Doenças Transmissíveis, em 31 de Dezembro do ano passado estavam notificados em Portugal 30.366 casos de infecção VIH/SIDA «nos diferentes estados de infecção».
O maior número de casos notificados («casos acumulados») corresponde à infecção em «toxicodependentes», constituindo 45% (13.684) de todas as notificações (30.366).
O segundo grupo de infectados é composto por heterossexuais (37,5%), enquanto os homossexuais masculinos representam 11,9% dos casos.
O documento alerta para o facto dos casos notificados de infecção VIH/SIDA, que referem como forma provável de infecção a transmissão sexual (heterossexual), apresentarem «uma tendência evolutiva crescente importante».
As restantes formas de transmissão correspondem a 5,6% do total.
O total acumulado de casos de SIDA em 31 de Dezembro de 2006 era de 13.515, dos quais 449 causados pelo vírus VIH2, e 189 casos que referem infecção associada aos vírus VIH1 e VIH2.
Segundo este relatório, «os casos de SIDA «apresentam a confirmação do padrão epidemiológico registado anualmente desde 2000: verifica-se um aumento proporcional do número de casos de transmissão heterossexual e consequente diminuição (proporcional) dos casos associados à toxicodependência».
Diário Digital / Lusa
26-02-2007 16:12:00
Segundo o relatório do Centro de Vigilância Epidemiológica das Doenças Transmissíveis, em 31 de Dezembro do ano passado estavam notificados em Portugal 30.366 casos de infecção VIH/SIDA «nos diferentes estados de infecção».
O maior número de casos notificados («casos acumulados») corresponde à infecção em «toxicodependentes», constituindo 45% (13.684) de todas as notificações (30.366).
O segundo grupo de infectados é composto por heterossexuais (37,5%), enquanto os homossexuais masculinos representam 11,9% dos casos.
O documento alerta para o facto dos casos notificados de infecção VIH/SIDA, que referem como forma provável de infecção a transmissão sexual (heterossexual), apresentarem «uma tendência evolutiva crescente importante».
As restantes formas de transmissão correspondem a 5,6% do total.
O total acumulado de casos de SIDA em 31 de Dezembro de 2006 era de 13.515, dos quais 449 causados pelo vírus VIH2, e 189 casos que referem infecção associada aos vírus VIH1 e VIH2.
Segundo este relatório, «os casos de SIDA «apresentam a confirmação do padrão epidemiológico registado anualmente desde 2000: verifica-se um aumento proporcional do número de casos de transmissão heterossexual e consequente diminuição (proporcional) dos casos associados à toxicodependência».
Diário Digital / Lusa
26-02-2007 16:12:00
sábado, fevereiro 24, 2007
Em tournée.
Ontem falei em Chaves. Começámos às 19.30 e ainda havia resistentes pelas 21.30... Ao longo dos anos constatei esta gratificante avidez sobretudo nas cidades do interior. As pessoas continuam a dizer - com razão... - que nos ficamos (preguiçosamente) pelo litoral. Mas não "amuam", e tratam-nos como príncipes quando aparecemos:)))))))).
P.S. Tenho a acrescentar que na Adega da Luz se come bem e à fartazana por 7,5 euros por cabeça!
P.S. Tenho a acrescentar que na Adega da Luz se come bem e à fartazana por 7,5 euros por cabeça!
sexta-feira, fevereiro 23, 2007
A homenagem.
O Zeca Afonso homenageado. E uma saudade imensa dos discos trocados, escutados, sagrados. Não fui sequer um cauteloso, obscuro e resguardado combatente anti-fascista. Era jovem, do contra e burguês até à medula. Aderi a greves, corri à frente de polícias pesadões, gritei meia-dúzia de palavras de ordem, estive na Faculdade de Ciências e saí aterrorizado por entre duas filas de gorilas de choque, firmemente convencido de que seguiria directo para o vizinho Hospital de Santo António. Currículo anémico de revolucionário de café, mais habituado a escutar, fascinado, as histórias sobre os exílios familiares que meu Pai narrava, comovido. Por isso admito sem problemas que era a música do homem, mais do que a revolta nela escondida, a encantar-me. Uma música que saltitava entre o coro austero alentejano e o inconfundível balanço africano, antes de visitar a mais simples (?) balada de amor. Do homem, que não conheci, lembro sobretudo os últimos concertos e a morte que já pairava sobre músculos intermitentes, perante os olhos enevoados dos amigos fiéis que o rodeavam em palco.
Dói-me ouvir tão pouco a sua voz por aí...
Dói-me ouvir tão pouco a sua voz por aí...
quarta-feira, fevereiro 21, 2007
Depois do genérico.
Cartas de Iwo Jima representam o exorcismo das perplexidades provocadas pela guerra através da arte. Uma arte que Eastwood depura de forma inigualável no seu cinema. Resta-nos a utopia de sonharmos um mundo em que a busca de transcendência - sem recurso ao divino - perdesse tão deplorável "matéria-prima":(.
terça-feira, fevereiro 20, 2007
Ando a cortar na lamechice por ordem dos meus filhos:).
Maralhal,
Obrigado por dois anos muito fixes. Fiquem bem.
Obrigado por dois anos muito fixes. Fiquem bem.
Como fidalgos, à moda do Porto:).
Ontem, eu e o João visitámos longamente a Biblioteca Municipal do Porto em S.Lázaro. Recebidos com fidalguia por quem a dirige e suas colaboradoras, a "peregrinação" foi interessantíssima e comovedora, até artigos científicos de meu Pai nos esperavam. Mas um "pormaior" me impressionou em particular - a descrição do trabalho de voluntários gravando livros que outros escutarão. Sou médico, a palavra "voluntário" faz-me sempre pensar em hospitais, lares, doença, velhice. Visão míope e "corporativa", mea culpa, mea culpa. Nobre gesto esse, transportar a cultura na voz e oferecê-la a quem anseia por ela!
domingo, fevereiro 18, 2007
Anúncio ao maralhal.
Os magos da tecnologia informam-me que a última loucura das produções murcon estará disponível nas próximas horas. (Não deixa de ser adequado, estamos no Carnaval...).
sexta-feira, fevereiro 16, 2007
Monogâmico por cansaço?:).
Estou a ler O Mito da Monogamia, preparando um encontro na Almedina. Ora vejam esta passagem: "Há diversas formas através das quais uma fêmea pode frustrar os esforços do parceiro para conquistar outras fêmeas. Uma das mais interessantes envolve a sua própria sexualidade: a fêmea de estorninho mostra-se especialmente propensa a solicitar cópulas ao parceiro quando este corteja activamente outras fêmeas!".
O livro dedica-se a demolir qualquer hipótese de a monogamia ser instintiva na esmagadora maioria das espécies. Incluindo o nosso conhecido Sapiens...
O livro dedica-se a demolir qualquer hipótese de a monogamia ser instintiva na esmagadora maioria das espécies. Incluindo o nosso conhecido Sapiens...
quinta-feira, fevereiro 15, 2007
Após reflexão sem Comissão de Aconselhamento, mas de uma forma livre por informada:).
Não será por mim que a proposta de jfr ficará no tinteiro. Se formos incapazes ou preguiçosos regressaremos ao porto sem dramas. A palavra aos magos da informática. Que uma coisa fique clara: a irmos para a frente, serei apenas mais um colaborador!
quarta-feira, fevereiro 14, 2007
A vitalidade murcónica:).
Aquele que considero o facto mais relevante da vitória do SIM, é a possibilidade de uma congregação de esforços, à volta de um objectivo, decorrente dos vários intérpretes da campanha: a maximização da diminuição dos abortos clandestinos.
A grandeza desse efeito - no novo quadro legal que o referendo determinará -, será directamente proporcional à quantidade das causas que se conseguirem enunciar. Só conhecendo as causas, se combatem os efeitos que as têm por origem.
Por pensar assim, decidi falar-lhe sobre uma possibilidade de utilizar o espaço Murcon - no qual, creio, participa um elevado número de gente informada, experiente, conhecedora e com capacidade crítica, tendo em vista dinamizar a acção, através do seguinte:
1 - Criação de um blog colectivo, gerido pelo Murcon, no qual poderiam postar todos os que se inscrevessem, para o efeito;
2 - A inscrição resultaria de um mail, enviado para a caixa do blog, e corresponderia a um post no blog;
3 - O conteúdo do post deveria corresponder ao tema pré-definido (no caso exemplo “As causas de aborto clandestino, pós referendo”) e seria da responsabilidade do Murcon a decisão sobre a sua adequação, ou não, para postagem;
4 - O blog não aceitaria comentários. Estes seriam sempre propostas de postagem. Ou seja, pretende-se que o blog não seja uma espécie de chat.
5 - Decorrido o tempo considerado suficiente (a definir) para a enumeração e discussão, seria proposta pelo Murcon a lista das causas a considerar em definitivo;
6 - Os intervenientes inscritos teriam oportunidade de opinar sobre a lista e qual o efeito legal que, na opinião de cada um, seria justificado para cada causa.
7 - Este e outros assuntos que viessem a ser objecto de actuação similar, poderiam ser discutidos, antes da elaboração de documento definitivo (post no Murcon, brochura?, folheto? opúsculo?, livro? das Produções Murcon,) por todos os intervenientes (num chat programado para o efeito? num encontro (Coimbra)? dois encontros (Porto e Lisboa)?
8 - Após o fecho de um assunto seguir-se-ia um outro.
Não me estendo mais. Ou, por último, até sugiro nome para o blog (O "Post it" dos Murcónicos).
Desculpe o tempo que lhe tomei. Cheguei a pensar colocar isto como comentário num dos post do Murcon, mas senti que poderia ser uma indelicadeza para consigo. Nomeadamente, se a ideia “pegasse” junto dos Murcões. Deixo, assim, ao seu critério o interesse e oportunidade da ideia.
Um abraço sincero.
P.S. Alguém sugeriu mais esta "loucura". Confesso que fiquei atarantado, mas, como habitualmente, a Nação se pronunciará:).
A grandeza desse efeito - no novo quadro legal que o referendo determinará -, será directamente proporcional à quantidade das causas que se conseguirem enunciar. Só conhecendo as causas, se combatem os efeitos que as têm por origem.
Por pensar assim, decidi falar-lhe sobre uma possibilidade de utilizar o espaço Murcon - no qual, creio, participa um elevado número de gente informada, experiente, conhecedora e com capacidade crítica, tendo em vista dinamizar a acção, através do seguinte:
1 - Criação de um blog colectivo, gerido pelo Murcon, no qual poderiam postar todos os que se inscrevessem, para o efeito;
2 - A inscrição resultaria de um mail, enviado para a caixa do blog, e corresponderia a um post no blog;
3 - O conteúdo do post deveria corresponder ao tema pré-definido (no caso exemplo “As causas de aborto clandestino, pós referendo”) e seria da responsabilidade do Murcon a decisão sobre a sua adequação, ou não, para postagem;
4 - O blog não aceitaria comentários. Estes seriam sempre propostas de postagem. Ou seja, pretende-se que o blog não seja uma espécie de chat.
5 - Decorrido o tempo considerado suficiente (a definir) para a enumeração e discussão, seria proposta pelo Murcon a lista das causas a considerar em definitivo;
6 - Os intervenientes inscritos teriam oportunidade de opinar sobre a lista e qual o efeito legal que, na opinião de cada um, seria justificado para cada causa.
7 - Este e outros assuntos que viessem a ser objecto de actuação similar, poderiam ser discutidos, antes da elaboração de documento definitivo (post no Murcon, brochura?, folheto? opúsculo?, livro? das Produções Murcon,) por todos os intervenientes (num chat programado para o efeito? num encontro (Coimbra)? dois encontros (Porto e Lisboa)?
8 - Após o fecho de um assunto seguir-se-ia um outro.
Não me estendo mais. Ou, por último, até sugiro nome para o blog (O "Post it" dos Murcónicos).
Desculpe o tempo que lhe tomei. Cheguei a pensar colocar isto como comentário num dos post do Murcon, mas senti que poderia ser uma indelicadeza para consigo. Nomeadamente, se a ideia “pegasse” junto dos Murcões. Deixo, assim, ao seu critério o interesse e oportunidade da ideia.
Um abraço sincero.
P.S. Alguém sugeriu mais esta "loucura". Confesso que fiquei atarantado, mas, como habitualmente, a Nação se pronunciará:).
terça-feira, fevereiro 13, 2007
Esclarecimento.
Sobre um artigo hoje publicado no Público referente ao que aconteceu com O Amor é... de Sexta-Feira, cumpre-me esclarecer o seguinte:
1 - No programa de Quinta-Feira não "fizemos veladas críticas à actual lei sobre a IVG", discordámos dela abertamente e explicámos porquê.
2 - Também as críticas às posições de Marcelo Rebelo de Sousa foram assumidas de forma explícita.
3 - Não houve qualquer crítica a posições do Daniel Sampaio, por uma razão simples: ele defendia o Sim - ao contrário do afirmado no Público - e de uma forma com que ambos concordávamos.
4 - Nunca disse a ninguém que a CNE me tinha referido o programa de Marcelo Rebelo de Sousa como alvo de queixas. Bem pelo contrário, escusei-me a indicar programas em concreto nas conversas que mantive com vários jornalistas, por uma questão de lisura para com a minha interlocutora.
5 - É verdade que na Sexta o programa se debruçava sobre o que apelidávamos de Sim exigente, razão pela qual o repetiremos, pois o consideramos agora mais justificado do que nunca e já não estamos em campanha eleitoral.
1 - No programa de Quinta-Feira não "fizemos veladas críticas à actual lei sobre a IVG", discordámos dela abertamente e explicámos porquê.
2 - Também as críticas às posições de Marcelo Rebelo de Sousa foram assumidas de forma explícita.
3 - Não houve qualquer crítica a posições do Daniel Sampaio, por uma razão simples: ele defendia o Sim - ao contrário do afirmado no Público - e de uma forma com que ambos concordávamos.
4 - Nunca disse a ninguém que a CNE me tinha referido o programa de Marcelo Rebelo de Sousa como alvo de queixas. Bem pelo contrário, escusei-me a indicar programas em concreto nas conversas que mantive com vários jornalistas, por uma questão de lisura para com a minha interlocutora.
5 - É verdade que na Sexta o programa se debruçava sobre o que apelidávamos de Sim exigente, razão pela qual o repetiremos, pois o consideramos agora mais justificado do que nunca e já não estamos em campanha eleitoral.
segunda-feira, fevereiro 12, 2007
Quando me pagavam para peguilhar com as mulheres:).
FIM-DE-SEMANA
António deixou-se cair no sofá. Ela disse,
- Nem penses!
O pobre atarantado, o dia a trabalhar em segredo para a concorrência, a publicidade é um mundo cão e precisava de uns cobres além do salário. Já não a podia ouvir a queixar-se dos sinais de riqueza dos vizinhos, mais três anos de Sábados sem descanso e teriam um segundo carro e o faqueiro anunciado no Chá das Tias da TVI. Seguramente entendera mal, oito da noite, arriscou pedido de esclarecimento,
- Como?
- Era o comias! Passei a tarde metida em casa...(Chegara do cabeleireiro há meia hora)
... e tu a brincar com o maldito computador. Sou uma escrava, (Linguagem de telenovela)
... a verdadeira mulher objecto.
(Lera isso na tradução brasileira de um texto feminista por baixo de um anúncio a panelas de pressão numa revista da sala de espera do médico)
... Durante o namoro só falinhas mansas, juntos para sempre, minha fofa... Bem me enganaste, mas hoje não. Faz essa barba imunda. Vamos jantar fora.
( Durante o namoro a barba rala excitava-a, por um não sei quê de revolucionário)
- Jantar fora?
A pergunta saiu lamentosa, sonhava um dia pô-la no seu lugar. Ah, um dia!... Não foi aquele.
O restaurante carote e o bife duro, António dissecava-o laboriosamente quando ela voltou à carga.
- Conversa comigo.
- De quê?
Grossa asneira, seguiu-se um discurso inflamado sobre o diálogo como forma de preservar o casamento e mais um remoque ao seu romantismo passado. Ele quase perguntou por que não lhe era permitido falar durante a telenovela, mas absteve-se por razões de segurança pessoal.
Conversaram. Ela falou, ele concordando em silêncio. Foi acusado de distracção e hipocrisia. Pressuroso, discordou uma vez em tom baixo e respeitador. Foi acusado de ser implicativo.
Saíram rumo ao carro.
- Vamos dançar.
- Como?
- Pareces um disco rachado. Dançar, António. Já te esqueceste? Aposto que não. E não estou a falar de nós, bons tempos!, era preciso vigiar essas mãozinhas marotas e pôr cachecol no dia seguinte para os meus pais não notarem o estado em que me deixavas o pescoço. Agora estás sempre cansado e o barulho incomoda-te, mas às reuniões de actualização que a empresa paga ao fim-de-semana em hotéis da província não faltas tu. Abri os olhos, filho, quando os homens se juntam sem as mulheres a primeira coisa que fazem é arranjar outras, de preferência pouco vestidas.
(As reuniões eram chatérrimas e à noite jogava-se a bisca a feijões)
Foi dançar. Primeiro adormeceu, ninguém o avisara de que as discotecas só começam a animar depois da uma da manhã. Ela sabia, qualquer revista o diz.
(Ele não tinha tempo para ler revistas)
António pulou obedientemente durante algumas horas, estranhando a excitação e a sede dos jovens que o rodeavam. Ecstasy, sentenciou a mulher. Perfume?, perguntou ele. Droga fina, respondeu ela, metem-se nisso porque têm pais afectivamente ausentes.
(Nunca perdia o " A minha vida dava um filme " e as explicações da psicóloga)
Deitaram-se às cinco e António adormeceu como uma pedra. Para ser acordado três minutos depois com acusações de desinteresse sexual, provavelmente devido à influência de alguma lambisgóia do escritório. Num assomo de coragem referiu as enxaquecas, períodos longos e mil e uma justificações para os "hoje não" de outras noites. Foi mimoseado com um diagnóstico de má-fé e total ignorância acerca do ambiente de carinho necessário à expressão sexual das mulheres.
(A vizinha do lado gabara-se por o marido sempre lhe ir dar um beijo à cozinha quando chegava e pelo menos uma vez por semana trazer bombons)
António ouviu a reprimenda e tentou aproveitar a inesperada oportunidade, mas ela acusou-o de não ser espontâneo e foi dormir para a sala.
Por onde ele passou como um foguete sem se dignar responder ao seu "onde vais?", imperioso e estremunhado. Às oito estava à porta do estádio das Antas. Passou pelas brasas ao sol da manhã, comeu uma bifana e foi o primeiro a entrar. Olhou em volta com satisfação, a bancada ia-se enchendo. Só homens.
(E algumas mulheres partilhando o mesmo amor)
Quando o Minguinhos marcou o primeiro golo dos dragões António ergueu os braços ao céu e gritou,
- Gooloo! Até a..., perdão, os comemos, carago.
E sentiu-se em fim-de-semana.
António deixou-se cair no sofá. Ela disse,
- Nem penses!
O pobre atarantado, o dia a trabalhar em segredo para a concorrência, a publicidade é um mundo cão e precisava de uns cobres além do salário. Já não a podia ouvir a queixar-se dos sinais de riqueza dos vizinhos, mais três anos de Sábados sem descanso e teriam um segundo carro e o faqueiro anunciado no Chá das Tias da TVI. Seguramente entendera mal, oito da noite, arriscou pedido de esclarecimento,
- Como?
- Era o comias! Passei a tarde metida em casa...(Chegara do cabeleireiro há meia hora)
... e tu a brincar com o maldito computador. Sou uma escrava, (Linguagem de telenovela)
... a verdadeira mulher objecto.
(Lera isso na tradução brasileira de um texto feminista por baixo de um anúncio a panelas de pressão numa revista da sala de espera do médico)
... Durante o namoro só falinhas mansas, juntos para sempre, minha fofa... Bem me enganaste, mas hoje não. Faz essa barba imunda. Vamos jantar fora.
( Durante o namoro a barba rala excitava-a, por um não sei quê de revolucionário)
- Jantar fora?
A pergunta saiu lamentosa, sonhava um dia pô-la no seu lugar. Ah, um dia!... Não foi aquele.
O restaurante carote e o bife duro, António dissecava-o laboriosamente quando ela voltou à carga.
- Conversa comigo.
- De quê?
Grossa asneira, seguiu-se um discurso inflamado sobre o diálogo como forma de preservar o casamento e mais um remoque ao seu romantismo passado. Ele quase perguntou por que não lhe era permitido falar durante a telenovela, mas absteve-se por razões de segurança pessoal.
Conversaram. Ela falou, ele concordando em silêncio. Foi acusado de distracção e hipocrisia. Pressuroso, discordou uma vez em tom baixo e respeitador. Foi acusado de ser implicativo.
Saíram rumo ao carro.
- Vamos dançar.
- Como?
- Pareces um disco rachado. Dançar, António. Já te esqueceste? Aposto que não. E não estou a falar de nós, bons tempos!, era preciso vigiar essas mãozinhas marotas e pôr cachecol no dia seguinte para os meus pais não notarem o estado em que me deixavas o pescoço. Agora estás sempre cansado e o barulho incomoda-te, mas às reuniões de actualização que a empresa paga ao fim-de-semana em hotéis da província não faltas tu. Abri os olhos, filho, quando os homens se juntam sem as mulheres a primeira coisa que fazem é arranjar outras, de preferência pouco vestidas.
(As reuniões eram chatérrimas e à noite jogava-se a bisca a feijões)
Foi dançar. Primeiro adormeceu, ninguém o avisara de que as discotecas só começam a animar depois da uma da manhã. Ela sabia, qualquer revista o diz.
(Ele não tinha tempo para ler revistas)
António pulou obedientemente durante algumas horas, estranhando a excitação e a sede dos jovens que o rodeavam. Ecstasy, sentenciou a mulher. Perfume?, perguntou ele. Droga fina, respondeu ela, metem-se nisso porque têm pais afectivamente ausentes.
(Nunca perdia o " A minha vida dava um filme " e as explicações da psicóloga)
Deitaram-se às cinco e António adormeceu como uma pedra. Para ser acordado três minutos depois com acusações de desinteresse sexual, provavelmente devido à influência de alguma lambisgóia do escritório. Num assomo de coragem referiu as enxaquecas, períodos longos e mil e uma justificações para os "hoje não" de outras noites. Foi mimoseado com um diagnóstico de má-fé e total ignorância acerca do ambiente de carinho necessário à expressão sexual das mulheres.
(A vizinha do lado gabara-se por o marido sempre lhe ir dar um beijo à cozinha quando chegava e pelo menos uma vez por semana trazer bombons)
António ouviu a reprimenda e tentou aproveitar a inesperada oportunidade, mas ela acusou-o de não ser espontâneo e foi dormir para a sala.
Por onde ele passou como um foguete sem se dignar responder ao seu "onde vais?", imperioso e estremunhado. Às oito estava à porta do estádio das Antas. Passou pelas brasas ao sol da manhã, comeu uma bifana e foi o primeiro a entrar. Olhou em volta com satisfação, a bancada ia-se enchendo. Só homens.
(E algumas mulheres partilhando o mesmo amor)
Quando o Minguinhos marcou o primeiro golo dos dragões António ergueu os braços ao céu e gritou,
- Gooloo! Até a..., perdão, os comemos, carago.
E sentiu-se em fim-de-semana.
domingo, fevereiro 11, 2007
O primeiro passo.
Acabou por ser melhor do que temera. E - obviamente, do meu ponto de vista! - o Porto foi uma agradável supresa. Mas não contem comigo para euforias, nada acabou hoje. Bem pelo contrário!, se esta vitória não se honrar a si própria com legislação e prática adequadas o descrédito não tardará. As reduções do aborto clandestino e do aborto em geral são objectivos que não se compadecem com intervenções pontuais e números de circo políticos. Hoje votou-se; a partir de amanhã é preciso planear com bom senso para executar com humana eficácia.
Para que conste.
Ao princípio da tarde telefonei para a Comissão Nacional de Eleições e perguntei se me podiam dar uma opinião sobre o que se passou Sexta-Feira com O Amor é..., ou se teria de formalizar o pedido. Foram gentilíssimos! Eis o que fiquei a saber: embora se trate de um programa de autor, levando em conta a delicadeza do tema "igualdade de oportunidades" numa situação referendária, a minha interlocutora considerou justificadas as precauções tomadas pela Direcção da Antena1. Mais me foi dito que existia na Comissão uma queixa pelo facto dos mesmos critérios não terem sido aplicados a outros programas (que não da responsabilidade da Antena1). Embora não me agrade ser o único "beneficiário" de uma regra:), a questão é para mim secundária. Continuo em absoluto desacordo com o que aconteceu, mas a resposta da CNE confirmou a que dei a uma jornalista anteontem: não me passou pela cabeça que amigos meus tomassem tal atitude de ânimo leve. Porque acabar um programa de rádio não seria grave; com sorte, outro se seguria, mais mês, menos mês. Mas ter de admitir que amigos tenham sido levianos para connosco pode levar a estradas sem retorno. Fico satisfeitíssimo por não ter de as calcorrear:).
sábado, fevereiro 10, 2007
Já sei, sou lamechas:).
Eterno abraço
Desenterrado casal abraçado há mais de 6000 anos
Lembra um poema: arqueólogos italianos desenterraram um casal abraçado na cidade de Mantova, a norte do país. A descoberta é considerada «um caso extraordinário»
©Reuters
«Porém mais tarde, quando foi volvido/ Das sepulturas o gelado pó, / Dois esqueletos, um ao outro unido, /Foram achados num sepulcro só» são os últimos versos de«Noivado do Sepulcro», elegia ultra-romântica do poeta português Soares dos Passos.
Contudo, esta fantasia oitocentista tornou-se realidade: na cidade de Mantova, os arqueólogos desenterraram dois esqueletos neolíticos, à primeira vista jovens, ternamente abraçados.
Elena Menotti, líder das escavações, considerou que a descoberta é um «caso fantástico». A arqueóloga afirmou ainda que as duas ossadas pertencem quase certamente um homem e uma mulher jovens devido à arcada dentária bem conservada.
«Devo dizer que quando nós os descobrimos ficamos muito entusiasmados. Tenho este emprego há 25 anos. Fiz escavações em Pompeia, todos os sítios famosos», declarou Menotti à Reuters. «Mas eu nunca fiquei tão comovida assim, porque esta é a descoberta de algo especial».
Um laboratório tentará determinar a idade do casal à época da morte e há quanto tempo estão enterrados.
Desenterrado casal abraçado há mais de 6000 anos
Lembra um poema: arqueólogos italianos desenterraram um casal abraçado na cidade de Mantova, a norte do país. A descoberta é considerada «um caso extraordinário»
©Reuters
«Porém mais tarde, quando foi volvido/ Das sepulturas o gelado pó, / Dois esqueletos, um ao outro unido, /Foram achados num sepulcro só» são os últimos versos de«Noivado do Sepulcro», elegia ultra-romântica do poeta português Soares dos Passos.
Contudo, esta fantasia oitocentista tornou-se realidade: na cidade de Mantova, os arqueólogos desenterraram dois esqueletos neolíticos, à primeira vista jovens, ternamente abraçados.
Elena Menotti, líder das escavações, considerou que a descoberta é um «caso fantástico». A arqueóloga afirmou ainda que as duas ossadas pertencem quase certamente um homem e uma mulher jovens devido à arcada dentária bem conservada.
«Devo dizer que quando nós os descobrimos ficamos muito entusiasmados. Tenho este emprego há 25 anos. Fiz escavações em Pompeia, todos os sítios famosos», declarou Menotti à Reuters. «Mas eu nunca fiquei tão comovida assim, porque esta é a descoberta de algo especial».
Um laboratório tentará determinar a idade do casal à época da morte e há quanto tempo estão enterrados.
sexta-feira, fevereiro 09, 2007
Pedido de desculpas e agradecimento.
Maralhal,
A campanha está no fim. Sei que o Murcon não primou pela variedade nos últimos tempos. Acontece que há oito anos me limitei a votar preguiçosamente e desta vez jurei que faria mais. Por isso me centrei no referendo quase a tempo inteiro. Mas quero agradecer-vos, com enorme satisfação, a forma como discutiram ao longo destes dias - sem azedumes e respeitando a opinião alheia. O meu querido Velho diria, com aceno aprovador, que o fizeram com elevação:). Obrigado.
A campanha está no fim. Sei que o Murcon não primou pela variedade nos últimos tempos. Acontece que há oito anos me limitei a votar preguiçosamente e desta vez jurei que faria mais. Por isso me centrei no referendo quase a tempo inteiro. Mas quero agradecer-vos, com enorme satisfação, a forma como discutiram ao longo destes dias - sem azedumes e respeitando a opinião alheia. O meu querido Velho diria, com aceno aprovador, que o fizeram com elevação:). Obrigado.
Por uma questão de lisura.
"A Direcção de Programas da Antena 1 informou ontem os autores de “O amor é…”, Júlio Machado Vaz e Ana Mesquita, sobre a decisão de não transmitir a edição de hoje do referido programa.
As posições aí tomadas pelos autores sobre o Referendo do próximo dia 11, colidem frontalmente com o princípio de neutralidade a que a rádio pública está obrigada e com o imperativo de independência que caracteriza o próprio conceito de serviço público.
O programa retomará as suas emissões habituais, nos mesmos horários, a partir do próximo domingo, dia 11 de Fevereiro."
P.S. Não publiquei a declaração porque não ouvi a emissão da manhã e o não possuía. Seria deselegante da minha parte não a citar. Escusado será repetir que dela discordo em absoluto.
As posições aí tomadas pelos autores sobre o Referendo do próximo dia 11, colidem frontalmente com o princípio de neutralidade a que a rádio pública está obrigada e com o imperativo de independência que caracteriza o próprio conceito de serviço público.
O programa retomará as suas emissões habituais, nos mesmos horários, a partir do próximo domingo, dia 11 de Fevereiro."
P.S. Não publiquei a declaração porque não ouvi a emissão da manhã e o não possuía. Seria deselegante da minha parte não a citar. Escusado será repetir que dela discordo em absoluto.
Comunicado ao país murcónico:).
Porque uma rádio já se antecipou, devo-vos um pedido de desculpas, habituado como estais - ó sagrados murcónicos! - a receber notícias das minhas aventuras em primeira mão. Ontem à tarde, a Direcção da Antena1 contactou-me e à Ana Mesquita, a propósito das opiniões expressas no programa da manhã. Referiu terem existido queixas a propósito do mesmo, invocando quebra da isenção exigível a uma estação pública no que ao referendo diz respeito. Foi-nos sugerido que gravássemos um novo programa para hoje, pois tínhamos deixado a promessa de nos debruçarmos sobre a regulamentação legal adequada, caso o Sim ganhasse. Respondemos - quase em coro:) - que não o desejávamos ou podíamos fazer. O O Amor é... não fala de floricultura, culinária ou física quântica, mas de sexualidade, seria esotérico não abordar a questão do aborto (como, aliás, já aconteceu no passado). Presumo que a Direcção da Antena1 tenha averiguado se estaria a violar a lei e chegado a uma resposta afirmativa. Longe de mim querer prejudicar uma rádio que me acolheu com ternura e é dirigida por pessoas como o Rui Pêgo e o Tiago Alves, meus amigos pessoais. Mas também longe de mim abdicar do que considero serem os meus direitos e obrigações mais básicos como cidadão e co-autor de um programa... de autor!, logo, da exclusiva responsabilidade, quanto aos conteúdos, da Ana e deste vosso humilde servidor. Seguramente por ignorância, não percebo como poderia a Comissão Nacional de Eleições responsabilizar a Antena1 pelas nossas opiniões, por acaso coincidentes. Eis a razão porque hoje a Ana e eu decidimos exprimir-nos pelo silêncio:))))))).
quarta-feira, fevereiro 07, 2007
Pedir desculpa à sociedade? Por escrito? No telejornal das 20? Se ela recusar é condenada por desobediência?
"Os médicos é que deviam ir para a cadeia"
malacó
Daniel Serrão diz desconhecer situações objectivas em que mulher não pode ter o filho
Helena NorteMédico, especialista em ética da vida e conselheiro do Papa, Daniel Serrão defende o Não no referendo de dia 11. As mulheres são vítimas e precisam de apoio. Não de cadeia. Os profissionais de saúde que fazem abortos é que deviam ser presos.A mulher deve ser punida, mas não com cadeia. Mas a penalização na lei deve continuar porque aborto é um "acto mau". Os militantes do Não devem apoiar as grávidas em dificuldades. E comparar o aborto a terrorismo, como fez Bento XVI, é uma forma de chamar a atenção para a gravidade da questão.JNPor que é que a vida intra-uterina até às dez semanas deve ser mais defendida do que a decisão de uma mulher?Daniel SerrãoNinguém é dono da vida. Nem da sua, muito menos, de outra. E o que está em causa é a vida da criança. Não a vida da mãe. Se houver um conflito entre a vida da mãe e do feto, cabe à mulher decidir. Então, deve mandar-se para a prisão uma mulher que aborte?Claro que não. O aborto não é um acto bom, não deve ser permitido, excepto nas situações já previstas na lei. Mas não deve ser punido com prisão. Aliás, não é a mulher que mata o filho. É o médico, a enfermeira ou quem lhe faz o abortamento. Os médicos é que devem ir para a cadeia?É evidente. Com a actual lei, praticar aborto é crime, logo, o médico que o faz deve ir para a cadeia. Se a lei mudar, já não comete um crime. Mas, do ponto de vista médico, deve continuar a ser censurado - pelos próprios órgãos representativos ou pela sociedade -, porque não se trata de um acto médico.O Código Deontológico dos médicos deve mudar se a lei sobre interrupção voluntária da gravidez for alterada?O Código devia cobrir as situações previstas na lei, que constituem uma intervenção médica, para tratar uma situação clínica, em que a destruição do feto é um efeito colateral. Se o Sim ganhar, devia ser feito um referendo à classe para perguntar se está de acordo que os médicos façam uma intervenção que, embora legal, não é um acto médico.Mas o que está em causa, neste referendo, não é a penalização dos médicos mas, sim, das mulheres. Não é uma hipocrisia manter a penalização se concorda que não devem ir para a prisão?Não. O que está em causa, neste referendo, é perguntar à sociedade se considera bem que uma mulher saudável, com uma gravidez normal e um feto normal, possa destruir o filho. Deve haver punição, mas não concordo que seja uma pena de prisão. A mulher que pratica o aborto precisa de apoio, tudo o que evite a que ela volte a estar numa situação de gravidez indesejada. Está a falar de apoio, mas defende a punição. Qual seria a punição justa?A sociedade devia definir uma punição. Para mim, seria suficiente chamar a mulher, fazer-lhe um discurso que a obrigasse a ponderar. Bastava que pedisse desculpa à sociedade para arrumar o assunto. Olho para a mulher como uma vítima.Sabendo-se que a penalização da mulher não evita a prática do aborto, por que deve impedir-se que seja realizado em estabelecimentos de saúde autorizados e em condições que assegurem a saúde da mulher?O Governo e o Parlamento não sabem o que fazer. Por isso, estão a fazer uma pergunta que se desvia das questões de ética e confunde com pormenores jurídicos e assistenciais. O que devia perguntar-se era se a mulher pode ou não destruir livremente a vida. Se é antes ou depois de um certo prazo, ou em que tipo de estabelecimento, não é o fundamental.E perpetua-se aborto clandestino?Uma grávida sem doença, que deseja ser abortada, quer manter a clandestinidade no sentido de confidencialidade.O que um apoiante do não deve fazer a uma mulher que objectivamente não tenha condições para ter um filho?Não conheço essas situações. Se não tem dinheiro, um apoiante do Não deve arranjar-lhe apoios. Se é um problema social, cabe à sociedade dar-lhe uma solução. As unidades de saúde deviam ter redes de apoio para a encaminhar.Isso é o ideal, mas não existe.A solução é fazer com que exista. Não é o aborto. Mas, claro, para muitas é um encargo difícil de suportar. Por isso, voto Não com muito sofrimento. No entanto, a esmagadora maioria dos casos não é de mulheres pobres. São mulheres das classes média e alta que não querem ter filhos. Como médico, considera válido que a mulher interrompa a gravidez se a sua saúde psicológica estiver em risco?Se os graves problemas psíquicos forem devidamente atestados por médicos, depois de uma avaliação ponderada, claro que sim. Se a mulher tem, em relação à gravidez, uma resposta anormal do ponto de vista psíquico - que até a pode levar ao suicídio - e a única forma de tratar esse problema é o abortamento, é um acto médico que já está contemplado na lei.Em Espanha, a interpretação que é feita sobre a saúde psicológica é diferente e aceita-se que a mulher interrompa a gravidez quando esse motivo é alegado.Acredito que a maioria dos atestados é falsa. Em Badajoz, há uma clínica com um psiquiatra que passa atestados sem ver as mulheres que abortam. É conselheiro do Papa para as questões da vida. Como comenta as recentes declarações de Bento XVI que comparou o aborto a terrorismo, do cardeal de Lisboa que o classificou de "violência contra a paz" ou do bispo de Miranda-Bragança que o equiparou à pena de morte?Como membro da Academia Pontifícia para a Vida, a minha defesa é pela vida - é um argumento biológico. Os responsáveis da Igreja que citou usam, para a defesa da posição católica, comparações com situações em que esse direito não é comparado.Acha aceitável esse tipo de argumento quando se deveria reflectir com tranquilidade sobre esta matéria?Trata-se de um problema gravíssimo. Deve inquietar. Mas as comparações não são argumentos. Visam apenas chamar a atenção para a gravidade do problema. O terrorismo ataca quem não se pode defender nem sabe que vai ser atacado. O feto não pode defender-se nem sabe que vai ser atacado.Então, a mulher que faz aborto é terrorista?Não, a mulher é vítima desta situação. Admitindo que só o faz em desespero, em caso de extrema necessidade, ela é quem merece mais desculpa.
P.S. O Professor Daniel Serrão é um velho amigo dos Machado Vaz. Escolhi a sua sugestão por isso mesmo - tenho a certeza de que é sentida e bem intencionada e não traduz qualquer oportunismo eleitoral de última hora.
malacó
Daniel Serrão diz desconhecer situações objectivas em que mulher não pode ter o filho
Helena NorteMédico, especialista em ética da vida e conselheiro do Papa, Daniel Serrão defende o Não no referendo de dia 11. As mulheres são vítimas e precisam de apoio. Não de cadeia. Os profissionais de saúde que fazem abortos é que deviam ser presos.A mulher deve ser punida, mas não com cadeia. Mas a penalização na lei deve continuar porque aborto é um "acto mau". Os militantes do Não devem apoiar as grávidas em dificuldades. E comparar o aborto a terrorismo, como fez Bento XVI, é uma forma de chamar a atenção para a gravidade da questão.JNPor que é que a vida intra-uterina até às dez semanas deve ser mais defendida do que a decisão de uma mulher?Daniel SerrãoNinguém é dono da vida. Nem da sua, muito menos, de outra. E o que está em causa é a vida da criança. Não a vida da mãe. Se houver um conflito entre a vida da mãe e do feto, cabe à mulher decidir. Então, deve mandar-se para a prisão uma mulher que aborte?Claro que não. O aborto não é um acto bom, não deve ser permitido, excepto nas situações já previstas na lei. Mas não deve ser punido com prisão. Aliás, não é a mulher que mata o filho. É o médico, a enfermeira ou quem lhe faz o abortamento. Os médicos é que devem ir para a cadeia?É evidente. Com a actual lei, praticar aborto é crime, logo, o médico que o faz deve ir para a cadeia. Se a lei mudar, já não comete um crime. Mas, do ponto de vista médico, deve continuar a ser censurado - pelos próprios órgãos representativos ou pela sociedade -, porque não se trata de um acto médico.O Código Deontológico dos médicos deve mudar se a lei sobre interrupção voluntária da gravidez for alterada?O Código devia cobrir as situações previstas na lei, que constituem uma intervenção médica, para tratar uma situação clínica, em que a destruição do feto é um efeito colateral. Se o Sim ganhar, devia ser feito um referendo à classe para perguntar se está de acordo que os médicos façam uma intervenção que, embora legal, não é um acto médico.Mas o que está em causa, neste referendo, não é a penalização dos médicos mas, sim, das mulheres. Não é uma hipocrisia manter a penalização se concorda que não devem ir para a prisão?Não. O que está em causa, neste referendo, é perguntar à sociedade se considera bem que uma mulher saudável, com uma gravidez normal e um feto normal, possa destruir o filho. Deve haver punição, mas não concordo que seja uma pena de prisão. A mulher que pratica o aborto precisa de apoio, tudo o que evite a que ela volte a estar numa situação de gravidez indesejada. Está a falar de apoio, mas defende a punição. Qual seria a punição justa?A sociedade devia definir uma punição. Para mim, seria suficiente chamar a mulher, fazer-lhe um discurso que a obrigasse a ponderar. Bastava que pedisse desculpa à sociedade para arrumar o assunto. Olho para a mulher como uma vítima.Sabendo-se que a penalização da mulher não evita a prática do aborto, por que deve impedir-se que seja realizado em estabelecimentos de saúde autorizados e em condições que assegurem a saúde da mulher?O Governo e o Parlamento não sabem o que fazer. Por isso, estão a fazer uma pergunta que se desvia das questões de ética e confunde com pormenores jurídicos e assistenciais. O que devia perguntar-se era se a mulher pode ou não destruir livremente a vida. Se é antes ou depois de um certo prazo, ou em que tipo de estabelecimento, não é o fundamental.E perpetua-se aborto clandestino?Uma grávida sem doença, que deseja ser abortada, quer manter a clandestinidade no sentido de confidencialidade.O que um apoiante do não deve fazer a uma mulher que objectivamente não tenha condições para ter um filho?Não conheço essas situações. Se não tem dinheiro, um apoiante do Não deve arranjar-lhe apoios. Se é um problema social, cabe à sociedade dar-lhe uma solução. As unidades de saúde deviam ter redes de apoio para a encaminhar.Isso é o ideal, mas não existe.A solução é fazer com que exista. Não é o aborto. Mas, claro, para muitas é um encargo difícil de suportar. Por isso, voto Não com muito sofrimento. No entanto, a esmagadora maioria dos casos não é de mulheres pobres. São mulheres das classes média e alta que não querem ter filhos. Como médico, considera válido que a mulher interrompa a gravidez se a sua saúde psicológica estiver em risco?Se os graves problemas psíquicos forem devidamente atestados por médicos, depois de uma avaliação ponderada, claro que sim. Se a mulher tem, em relação à gravidez, uma resposta anormal do ponto de vista psíquico - que até a pode levar ao suicídio - e a única forma de tratar esse problema é o abortamento, é um acto médico que já está contemplado na lei.Em Espanha, a interpretação que é feita sobre a saúde psicológica é diferente e aceita-se que a mulher interrompa a gravidez quando esse motivo é alegado.Acredito que a maioria dos atestados é falsa. Em Badajoz, há uma clínica com um psiquiatra que passa atestados sem ver as mulheres que abortam. É conselheiro do Papa para as questões da vida. Como comenta as recentes declarações de Bento XVI que comparou o aborto a terrorismo, do cardeal de Lisboa que o classificou de "violência contra a paz" ou do bispo de Miranda-Bragança que o equiparou à pena de morte?Como membro da Academia Pontifícia para a Vida, a minha defesa é pela vida - é um argumento biológico. Os responsáveis da Igreja que citou usam, para a defesa da posição católica, comparações com situações em que esse direito não é comparado.Acha aceitável esse tipo de argumento quando se deveria reflectir com tranquilidade sobre esta matéria?Trata-se de um problema gravíssimo. Deve inquietar. Mas as comparações não são argumentos. Visam apenas chamar a atenção para a gravidade do problema. O terrorismo ataca quem não se pode defender nem sabe que vai ser atacado. O feto não pode defender-se nem sabe que vai ser atacado.Então, a mulher que faz aborto é terrorista?Não, a mulher é vítima desta situação. Admitindo que só o faz em desespero, em caso de extrema necessidade, ela é quem merece mais desculpa.
P.S. O Professor Daniel Serrão é um velho amigo dos Machado Vaz. Escolhi a sua sugestão por isso mesmo - tenho a certeza de que é sentida e bem intencionada e não traduz qualquer oportunismo eleitoral de última hora.
segunda-feira, fevereiro 05, 2007
Nas asas da tecnologia.
www.youtube.com/watch?v=oMYzdf4t8IY
Mais um contributo.
Versão oficial para o meu ar de velhinho - estava a sair de uma gripe.
Triste realidade:( - O Noise fez um péssimo trabalho de maquilhagem!:).
Sorry:))))))), estava errado.
Mais um contributo.
Versão oficial para o meu ar de velhinho - estava a sair de uma gripe.
Triste realidade:( - O Noise fez um péssimo trabalho de maquilhagem!:).
Sorry:))))))), estava errado.
domingo, fevereiro 04, 2007
Estou de acordo, mas 36 acho cedo:).
"Quando um romancista que se preza atinge os trinta e seis anos, já não traduz a experiência para a fábula, está a impor a sua fábula à experiência."
Philip Roth, Traições.
Philip Roth, Traições.
Mas evidentemente:( O mais grave não é acontecer, é aparecer no telejornal!
Bagão Félix acusa defensores da despenalização de expôr mulheres julgadas
Bagão Félix acusou hoje os defensores do Sim de terem prejudicado gravemente as mulheres que nos últimos tempos foram julgadas por aborto, ao focalizarem a opinião pública para esses julgamentos.
«Nos casos em que houve julgamento, foram os adeptos do Sim que prejudicaram essas mulheres gravemente, com manifestações para manipular a opinião pública e pressionar o poder judicial, pouco preocupados com a privacidade das senhoras em causa», afirmou.
Bagão Félix procurava desmontar assim o argumento dos partidários do Sim de que, com a actual lei, as mulheres são sujeitas à devassa da sua vida privada e à humilhação pública, durante uma sessão em Vagos, promovida pelo movimento Liberalização do aborto? Não.
Bagão Félix acusou ainda os que defendem o Sim de quererem «condenar a prisão as mulheres que praticarem aborto às 12 semanas», em vez de defenderem, como ele, outra moldura penal.
«Se o aborto for praticado às 12 semanas também pode levar à prisão, pelo que para eles a questão não é de fundo, mas de prazo. Qual é o critério?», questionou.
O ex-ministro criticou também que a prática de aborto possa vir a ser suportada pelo Serviço Nacional de Saúde, quando encerram maternidades e urgências e se impõem taxas moderadoras.
«Exportamos nascimentos para Badajoz e importamos abortos para Lisboa. Que país é este?», interrogou.
Na sessão interveio também o procurador da República Tiago Miranda, o qual abordou o tema na perspectiva jurídica, para concluir que a lei em vigor tem por função evitar a prática do ilícito (o aborto clandestino) e o quadro legal fornece «válvulas» para várias situações.
Exemplificou com a gravidez indesejada de uma menor de 16 anos que se relacione com um homem mais velho, em que o actual quadro legal permite o aborto, ou de uma mulher portadora de deficiência mental, para além de outros.
A actual lei «atribui a mesma moldura penal a quem der uma bofetada», salientou, questionando se o valor da vida, consagrado na Constituição, não será mais importante e realçando ainda que o próprio Código Civil atribui direitos ao nascituro, desde o início da gravidez, nomeadamente de herança.
A obstetra Filomena Ramos Pereira descreveu o processo de formação desde a concepção até ao nascimento e sublinhou que, mesmo depois do nascimento, o ser humano não tem ainda todas as etapas do seu desenvolvimento, pelo que não considera um critério válido.
O economista João Paulo Barbosa de Melo, outro dos oradores, defendeu que «as questões sociais (da falta de condições para ter filhos) resolvem-se com políticas sociais» e referiu que a legalização do aborto em Espanha e no Reino Unido não acabou com a sua prática clandestina.
Lusa / SOL
Bagão Félix acusou hoje os defensores do Sim de terem prejudicado gravemente as mulheres que nos últimos tempos foram julgadas por aborto, ao focalizarem a opinião pública para esses julgamentos.
«Nos casos em que houve julgamento, foram os adeptos do Sim que prejudicaram essas mulheres gravemente, com manifestações para manipular a opinião pública e pressionar o poder judicial, pouco preocupados com a privacidade das senhoras em causa», afirmou.
Bagão Félix procurava desmontar assim o argumento dos partidários do Sim de que, com a actual lei, as mulheres são sujeitas à devassa da sua vida privada e à humilhação pública, durante uma sessão em Vagos, promovida pelo movimento Liberalização do aborto? Não.
Bagão Félix acusou ainda os que defendem o Sim de quererem «condenar a prisão as mulheres que praticarem aborto às 12 semanas», em vez de defenderem, como ele, outra moldura penal.
«Se o aborto for praticado às 12 semanas também pode levar à prisão, pelo que para eles a questão não é de fundo, mas de prazo. Qual é o critério?», questionou.
O ex-ministro criticou também que a prática de aborto possa vir a ser suportada pelo Serviço Nacional de Saúde, quando encerram maternidades e urgências e se impõem taxas moderadoras.
«Exportamos nascimentos para Badajoz e importamos abortos para Lisboa. Que país é este?», interrogou.
Na sessão interveio também o procurador da República Tiago Miranda, o qual abordou o tema na perspectiva jurídica, para concluir que a lei em vigor tem por função evitar a prática do ilícito (o aborto clandestino) e o quadro legal fornece «válvulas» para várias situações.
Exemplificou com a gravidez indesejada de uma menor de 16 anos que se relacione com um homem mais velho, em que o actual quadro legal permite o aborto, ou de uma mulher portadora de deficiência mental, para além de outros.
A actual lei «atribui a mesma moldura penal a quem der uma bofetada», salientou, questionando se o valor da vida, consagrado na Constituição, não será mais importante e realçando ainda que o próprio Código Civil atribui direitos ao nascituro, desde o início da gravidez, nomeadamente de herança.
A obstetra Filomena Ramos Pereira descreveu o processo de formação desde a concepção até ao nascimento e sublinhou que, mesmo depois do nascimento, o ser humano não tem ainda todas as etapas do seu desenvolvimento, pelo que não considera um critério válido.
O economista João Paulo Barbosa de Melo, outro dos oradores, defendeu que «as questões sociais (da falta de condições para ter filhos) resolvem-se com políticas sociais» e referiu que a legalização do aborto em Espanha e no Reino Unido não acabou com a sua prática clandestina.
Lusa / SOL
sábado, fevereiro 03, 2007
É por isso que elas nos matam:(.
Afinal não há guerra de sexos
2007/02/03 21:17
Investigadores do cérebro garantem que luta pela superioridade está ultrapassada. Elas são corredoras de fundo. Eles desistem mais facilmente mas têm melhor memórial espacial. E o leitor, acha que existe um «sexo forte» e um «sexo fraco»?
MAIS:
Mulheres são mais intensas
Os investigadores do cérebro acreditam que a guerra entre os géneros está «ultrapassada» e que ninguém procura encontrar um «sexo forte» mas as diferenças cerebrais entre homens e mulheres ainda geram discordâncias entre os especialistas.
«É inegável que existem diferenças, mas não há guerra de sexos»
«É inegável que existem diferenças entre o cérebro masculino e o feminino» afirmou Manuel Paula Barbosa, director do Instituto de Anatomia da Faculdade de Medicina do Porto, para quem as distinções «vão de aspectos como o peso (o cérebro do homem pesa cerca de 1.450 gramas e o da mulher cerca de 1.350) a variações de índole molecular».
No entanto, o especialista desmistifica a ideia de guerra dos sexos: «Nenhuma investigação actual visa determinar se a mulher é superior ao homem ou o contrário, isso está ultrapassado e caminhamos para a igualdade absoluta, reconhecendo que os cérebros de homens e mulheres se complementam e que as diferenças são salutares».
Mulheres são «corredoras de fundo»
Exemplificando, Manuel Barbosa considerou que «as mulheres são autênticas corredoras de fundo - mais perseverantes e estóicas e com uma enorme capacidade de trabalho, além de possuírem uma memória do imediato muito mais desenvolvida do que os homens».
Homens agem «por pulsões» e «desistem com maior facilidade»
«Já os homens agem mais por pulsões e desistem com maior facilidade dos seus objectivos, embora tenham uma melhor memória espacial e uma grande capacidade ao nível da intuição musical e da matemática», adiantou.
Diferenças condicionadas por hormonas sexuais
De acordo com o também professor de Neuroanatomia é ainda preciso compreender que «essas diferenças assentam em características morfológicas condicionadas por hormonas sexuais».
«Um macho castrado nunca terá um cérebro masculino normal», sublinhou.
A influência hormonal no dimorfismo sexual cerebral foi também assinalada à agência Lusa por Dulce Madeira, professora no Instituto de Anatomia da Faculdade de Medicina do Porto.
Devido à estreita ligação entre o cérebro e as hormonas sexuais, «ao longo dos anos as variações hormonais vão influenciando a morfologia cerebral e a neuroquímica, nomeadamente fazendo com que certas diferenças se tornem menos evidentes», declarou.
Autismo e esquizofrenia predominantes no homem
A investigadora do Centro de Morfologia Experimental destacou ainda que a diferença entre os cérebros masculino e feminino passam por «uma assimetria existente entre os dois hemisférios cerebrais, que é mais acentuada no género masculino».
«Doenças como o autismo e a esquizofrenia, que são predominantes no homem, têm relação com essa maior assimetria», realçou a docente de Anatomia.
«No caso da mulher, há uma maior semelhança entre os dois hemisférios, existindo também uma maior comunicação entre eles, o que faz com que as representantes do sexo feminino tenham maior capacidade de recuperação de acidentes vasculares cerebrais (AVC)».
E o leitor, acha que a ideia de guerra de sexos já foi ultrapassada no século XXI? Ainda existe um «sexo forte» e um «sexo fraco»?
[Helena de Sousa Freitas, da Agência Lusa]
2007/02/03 21:17
Investigadores do cérebro garantem que luta pela superioridade está ultrapassada. Elas são corredoras de fundo. Eles desistem mais facilmente mas têm melhor memórial espacial. E o leitor, acha que existe um «sexo forte» e um «sexo fraco»?
MAIS:
Mulheres são mais intensas
Os investigadores do cérebro acreditam que a guerra entre os géneros está «ultrapassada» e que ninguém procura encontrar um «sexo forte» mas as diferenças cerebrais entre homens e mulheres ainda geram discordâncias entre os especialistas.
«É inegável que existem diferenças, mas não há guerra de sexos»
«É inegável que existem diferenças entre o cérebro masculino e o feminino» afirmou Manuel Paula Barbosa, director do Instituto de Anatomia da Faculdade de Medicina do Porto, para quem as distinções «vão de aspectos como o peso (o cérebro do homem pesa cerca de 1.450 gramas e o da mulher cerca de 1.350) a variações de índole molecular».
No entanto, o especialista desmistifica a ideia de guerra dos sexos: «Nenhuma investigação actual visa determinar se a mulher é superior ao homem ou o contrário, isso está ultrapassado e caminhamos para a igualdade absoluta, reconhecendo que os cérebros de homens e mulheres se complementam e que as diferenças são salutares».
Mulheres são «corredoras de fundo»
Exemplificando, Manuel Barbosa considerou que «as mulheres são autênticas corredoras de fundo - mais perseverantes e estóicas e com uma enorme capacidade de trabalho, além de possuírem uma memória do imediato muito mais desenvolvida do que os homens».
Homens agem «por pulsões» e «desistem com maior facilidade»
«Já os homens agem mais por pulsões e desistem com maior facilidade dos seus objectivos, embora tenham uma melhor memória espacial e uma grande capacidade ao nível da intuição musical e da matemática», adiantou.
Diferenças condicionadas por hormonas sexuais
De acordo com o também professor de Neuroanatomia é ainda preciso compreender que «essas diferenças assentam em características morfológicas condicionadas por hormonas sexuais».
«Um macho castrado nunca terá um cérebro masculino normal», sublinhou.
A influência hormonal no dimorfismo sexual cerebral foi também assinalada à agência Lusa por Dulce Madeira, professora no Instituto de Anatomia da Faculdade de Medicina do Porto.
Devido à estreita ligação entre o cérebro e as hormonas sexuais, «ao longo dos anos as variações hormonais vão influenciando a morfologia cerebral e a neuroquímica, nomeadamente fazendo com que certas diferenças se tornem menos evidentes», declarou.
Autismo e esquizofrenia predominantes no homem
A investigadora do Centro de Morfologia Experimental destacou ainda que a diferença entre os cérebros masculino e feminino passam por «uma assimetria existente entre os dois hemisférios cerebrais, que é mais acentuada no género masculino».
«Doenças como o autismo e a esquizofrenia, que são predominantes no homem, têm relação com essa maior assimetria», realçou a docente de Anatomia.
«No caso da mulher, há uma maior semelhança entre os dois hemisférios, existindo também uma maior comunicação entre eles, o que faz com que as representantes do sexo feminino tenham maior capacidade de recuperação de acidentes vasculares cerebrais (AVC)».
E o leitor, acha que a ideia de guerra de sexos já foi ultrapassada no século XXI? Ainda existe um «sexo forte» e um «sexo fraco»?
[Helena de Sousa Freitas, da Agência Lusa]
sexta-feira, fevereiro 02, 2007
Cantelães.
A casa sorriu-me, compreensiva. Dois graus centígrados à chegada, agora menos. Estou tão cansado que acolhi o empate do Benfica com uma bonomia embrutecida. Mas não é só cansaço. Ontem fui recebido com ternura pela JSD de Gaia. Não me surpreendeu ou desgostou estar em solitária minoria a discutir o referendo, ao longo de trinta anos fui raramente "maioritário". E no entanto, ouvir alguém descrever a discussão do aborto clandestino como démodée no nosso estádio civilizacional pôs-me os cabelos em pé. A ser verdade, também estou démodé. Aceito que se vote Não com a mesma naturalidade com que voto Sim, mas démodé discutir as formas de minorar o sofrimento... Que sociedade é esta? O que estará então na moda? Uma das soluções (?) apresentadas foi multar as mulheres em vez de as mandar para a prisão. O que virá a seguir? Reguadas? Para o quarto sem sobremesa? Fim-de-semana sem telemóvel? Se defendesse alguns dos (legítimos) argumentos que ouvi e o Não ganhasse, eu estaria Segunda-Feira na rua a recolher assinaturas para modificar a actual lei. Com pena das mulheres violadas e oferecendo-lhes todo o apoio, mas criminalizando-lhes o comportamento. Argumentando que não existe vida de primeira e de segunda para retirar a alínea referente às malformações. E aceitando - que remédio... - a necessidade de em certos casos escolher entre a vida presente da mulher e o futuro do embrião. Mas apregoar a inviolabilidade da vida humana e punir o crime de a interromper - até aos nove meses... - com multas provocar-me-ia um curto-circuito cerebral se não soubesse tratar-se de mera cedência a estratégia eleitoral - "tudo menos a prisão". Como de costume já estive mais acompanhado. Os defensores do Não, embora amáveis na sua esmagadora maioria, não concordam comigo. Et pour cause! Mas há gente do Sim que me reprova a obsessão pela indispensável regulamentação pós eventual vitória. Não importa; a casa acena, aprovadora. Tudo tem um preço, incluindo adormecer de consciência tranquila no dia 11. E depois há a ternura dos amigos - o Pedro, o Tiago e o Viktor afadigam-se para pôr no Tube uma intervenção minha. Não faço ideia como irão votar, nem me interessa. Alguns de vocês até se deram ao trabalho de me avisar por mail que vão votar Não. O Murcon fará anos em breve e valeu a pena:). Fiquem bem. A casa manda-vos um abraço e eu aprovo.
quinta-feira, fevereiro 01, 2007
Dois em um:).
Quatro horas de animado debate
Por Pedro Guerreiro
Helena Roseta, Zita Seabra, Joana Amaral Dias e o psiquiatra Pedro Afonso protagonizaram esta quarta-feira um aceso debate no Instituto Superior de Psicologia Aplicada, em Lisboa
«Como o Futebol Clube do Porto a jogar na Luz». Foi assim que a social-democrata Zita Seabra se sentiu quando soube que ia defender o 'não' no Sócrates Café.
A autora da actual lei de interrupção voluntária da gravidez, de 1984 - quando era ainda militante comunista -, afirmou naquele bar do ISPA que «se há coisa que evoluiu desde então foram os métodos contraceptivos» e que considera «absurdo estar ainda a discutir o aborto neste momento».
Do lado do 'sim', contudo, a socialista Helena Roseta declarou-se «impressionada» com o facto de Zita Seabra «estar agora do mesmo lado dos que a atacavam em 1984». Para a deputada do PS, os métodos contraceptivos «não foram tornados facilmente disponíveis», e o actual incumprimento da lei «põe em causa o Estado de Direito».
Roseta citou Simone de Beauvoir para afirmar que «se há lei e ela não é cumprida, ou se muda a lei ou o Estado de Direito é uma anedota». A deputada de 59 anos declarou que «não gostava de morrer sem ver este problema [da despenalização do aborto] resolvido».
Já o psiquiatra Pedro Afonso citou Martin Luther King para defender a necessidade de «uma lei que garanta o direito à vida». «A Lei não pode obrigar um branco a amar-me, mas pode evitar que ele me linche», lembrou.
De seguida, Pedro Afonso citou uma série de dados provenientes de estados norte-americanos em que a interrupção voluntária da gravidez foi despenalizada. «64 por cento das mulheres são coagidas a abortar. 67 por cento não teve qualquer apoio antes de decidir abortar. 54 por cento não está segura da sua decisão», afirmou o psiquiatra citando um estudo sobre a relação entre o aborto e o desenvolvimento de doenças psiquiátricas na mulher.
O psiquiatra do Hospital Júlio de Matos disse que, apesar de «não haver uma relação causa-efeito (...), há risco acrescido de depressão, disfunção sexual e suicídio» na mulher que aborta.
No âmbito da saúde reprodutiva e infantil, Pedro Afonso lembrou que o estado não comparticipa a nova vacina contra o papilomavírus – que causa o cancro do colo do útero – nem a alimentação láctea para crianças alérgicas. O psiquiatra recordou ainda que «não existe nenhum espaço que possa acolher e proteger em menos de 24 horas uma mulher coagida a abortar».
Novamente do lado do 'sim', a psicóloga Joana Amaral Dias declarou que «nenhum dos estudos citados [por Pedro Afonso] tinha validade científica».
A deputada do Bloco de Esquerda, que afirma que «quem não tem argumentos fala em números», disse ser «de uma enorme sobranceria e arrogância dizer que se sabe quando começa a vida», em resposta a Pedro Afonso, que afirmara que «a vida começa no momento de concepção».
Joana Amaral Dias disse haver, no entanto, «um relativo consenso científico sobre a diferença entre um feto pré-consciente [até às 12-20 semanas, sem sistema nervoso central] e um feto consciente [com sistema nervoso central]».
A bloquista considera apropriado o prazo de 10 semanas pois este «corresponde ao tempo que uma mulher precisa para saber que está grávida e depois tomar uma decisão rápida».
Tanto Joana Amaral Dias como Helena Roseta afirmaram que «o prazo de 10 semanas é uma questão prática» assim como «o limite de velocidade na auto-estrada é de 120 e não de 121 km/hora».
A deputada do Bloco afirmou que «os defensores do 'não' caem numa contradição insanável», uma vez que «o direito à vida em absoluto» já é posto em causa com a lei de 1984. «Um filho de um violador é menos vida? Um feto com trissomia 21 é menos vida?», questionou a psicóloga.
«Eu sou contra o aborto, a favor dos métodos contraceptivos, mas os humanos não são máquinas, são falíveis, tal como os contraceptivos», declarou Joana Amaral Dias, que diz que «quem anda à chuva molha-se».
«Quem anda à chuva molha-se? Usem o guarda-chuva!», respondeu Zita Seabra, para quem «o aborto não é um direito cívico». «Temos a responsabilidade e a obrigação de o evitar», afirmou.
A social-democrata referiu que a perseguição e julgamento das mulheres que abortam é «um problema de polícia que corresponde a uma situação de justiça miserável», posição que foi satirizada por Helena Roseta e Joana Amaral Dias, que recordaram o sketch dos Gato Fedorento (ver vídeo), em que os humoristas ridicularizam o tempo de antena de Marcelo Rebelo de Sousa no Youtube (ver vídeo). Zita Seabra respondeu ao afirmar que «o aborto é uma bandeira política de uma esquerda que já não tem nada a dizer».
A deputada do PSD disse ainda que «concordou com o PCP» quanto à não convocação do referendo, mas que considera que o respeito e a ausência de insultos «estão a marcar a campanha».
Algo que a católica Helena Roseta desmente, ao lembrar momentos em que foi «apontada dentro da Igreja» por defender a despenalização e em que foi «chamada de assassina».
A deputada socialista afirma que «o aborto já está legalizado, mas da pior maneira possível», e que «a lei deve dizer que o aborto é feito a pedido da mulher, pois é ela que se confronta com a decisão de ser mãe».
Após um animado período de perguntas por parte de uma plateia jovem em que o 'sim' levava alguma vantagem sobre o 'não', Joana Amaral Dias disse numa última intervenção que «a montante estão todos de acordo. O que nos divide está a jusante, quando todos os métodos falham. É isso que vai a referendo. Damos a mão e o melhor que o Estado pode oferecer ou deixamos apodrecer a um canto?».
pedro.guerreiro@sol.pt
Por Pedro Guerreiro
Helena Roseta, Zita Seabra, Joana Amaral Dias e o psiquiatra Pedro Afonso protagonizaram esta quarta-feira um aceso debate no Instituto Superior de Psicologia Aplicada, em Lisboa
«Como o Futebol Clube do Porto a jogar na Luz». Foi assim que a social-democrata Zita Seabra se sentiu quando soube que ia defender o 'não' no Sócrates Café.
A autora da actual lei de interrupção voluntária da gravidez, de 1984 - quando era ainda militante comunista -, afirmou naquele bar do ISPA que «se há coisa que evoluiu desde então foram os métodos contraceptivos» e que considera «absurdo estar ainda a discutir o aborto neste momento».
Do lado do 'sim', contudo, a socialista Helena Roseta declarou-se «impressionada» com o facto de Zita Seabra «estar agora do mesmo lado dos que a atacavam em 1984». Para a deputada do PS, os métodos contraceptivos «não foram tornados facilmente disponíveis», e o actual incumprimento da lei «põe em causa o Estado de Direito».
Roseta citou Simone de Beauvoir para afirmar que «se há lei e ela não é cumprida, ou se muda a lei ou o Estado de Direito é uma anedota». A deputada de 59 anos declarou que «não gostava de morrer sem ver este problema [da despenalização do aborto] resolvido».
Já o psiquiatra Pedro Afonso citou Martin Luther King para defender a necessidade de «uma lei que garanta o direito à vida». «A Lei não pode obrigar um branco a amar-me, mas pode evitar que ele me linche», lembrou.
De seguida, Pedro Afonso citou uma série de dados provenientes de estados norte-americanos em que a interrupção voluntária da gravidez foi despenalizada. «64 por cento das mulheres são coagidas a abortar. 67 por cento não teve qualquer apoio antes de decidir abortar. 54 por cento não está segura da sua decisão», afirmou o psiquiatra citando um estudo sobre a relação entre o aborto e o desenvolvimento de doenças psiquiátricas na mulher.
O psiquiatra do Hospital Júlio de Matos disse que, apesar de «não haver uma relação causa-efeito (...), há risco acrescido de depressão, disfunção sexual e suicídio» na mulher que aborta.
No âmbito da saúde reprodutiva e infantil, Pedro Afonso lembrou que o estado não comparticipa a nova vacina contra o papilomavírus – que causa o cancro do colo do útero – nem a alimentação láctea para crianças alérgicas. O psiquiatra recordou ainda que «não existe nenhum espaço que possa acolher e proteger em menos de 24 horas uma mulher coagida a abortar».
Novamente do lado do 'sim', a psicóloga Joana Amaral Dias declarou que «nenhum dos estudos citados [por Pedro Afonso] tinha validade científica».
A deputada do Bloco de Esquerda, que afirma que «quem não tem argumentos fala em números», disse ser «de uma enorme sobranceria e arrogância dizer que se sabe quando começa a vida», em resposta a Pedro Afonso, que afirmara que «a vida começa no momento de concepção».
Joana Amaral Dias disse haver, no entanto, «um relativo consenso científico sobre a diferença entre um feto pré-consciente [até às 12-20 semanas, sem sistema nervoso central] e um feto consciente [com sistema nervoso central]».
A bloquista considera apropriado o prazo de 10 semanas pois este «corresponde ao tempo que uma mulher precisa para saber que está grávida e depois tomar uma decisão rápida».
Tanto Joana Amaral Dias como Helena Roseta afirmaram que «o prazo de 10 semanas é uma questão prática» assim como «o limite de velocidade na auto-estrada é de 120 e não de 121 km/hora».
A deputada do Bloco afirmou que «os defensores do 'não' caem numa contradição insanável», uma vez que «o direito à vida em absoluto» já é posto em causa com a lei de 1984. «Um filho de um violador é menos vida? Um feto com trissomia 21 é menos vida?», questionou a psicóloga.
«Eu sou contra o aborto, a favor dos métodos contraceptivos, mas os humanos não são máquinas, são falíveis, tal como os contraceptivos», declarou Joana Amaral Dias, que diz que «quem anda à chuva molha-se».
«Quem anda à chuva molha-se? Usem o guarda-chuva!», respondeu Zita Seabra, para quem «o aborto não é um direito cívico». «Temos a responsabilidade e a obrigação de o evitar», afirmou.
A social-democrata referiu que a perseguição e julgamento das mulheres que abortam é «um problema de polícia que corresponde a uma situação de justiça miserável», posição que foi satirizada por Helena Roseta e Joana Amaral Dias, que recordaram o sketch dos Gato Fedorento (ver vídeo), em que os humoristas ridicularizam o tempo de antena de Marcelo Rebelo de Sousa no Youtube (ver vídeo). Zita Seabra respondeu ao afirmar que «o aborto é uma bandeira política de uma esquerda que já não tem nada a dizer».
A deputada do PSD disse ainda que «concordou com o PCP» quanto à não convocação do referendo, mas que considera que o respeito e a ausência de insultos «estão a marcar a campanha».
Algo que a católica Helena Roseta desmente, ao lembrar momentos em que foi «apontada dentro da Igreja» por defender a despenalização e em que foi «chamada de assassina».
A deputada socialista afirma que «o aborto já está legalizado, mas da pior maneira possível», e que «a lei deve dizer que o aborto é feito a pedido da mulher, pois é ela que se confronta com a decisão de ser mãe».
Após um animado período de perguntas por parte de uma plateia jovem em que o 'sim' levava alguma vantagem sobre o 'não', Joana Amaral Dias disse numa última intervenção que «a montante estão todos de acordo. O que nos divide está a jusante, quando todos os métodos falham. É isso que vai a referendo. Damos a mão e o melhor que o Estado pode oferecer ou deixamos apodrecer a um canto?».
pedro.guerreiro@sol.pt
quarta-feira, janeiro 31, 2007
Alguns dados.
Aborto: como é noutros países
2007/01/31 12:44
Legislação é diferente na Europa e América. Dos 27 Estados-membros da UE, apenas cinco criminalizam aborto: Portugal, Polónia, Irlanda, Malta e Chipre. Veja o caso de alguns países
A legislação referente ao aborto é diferente de país para país. Na Europa, a lei varia em relação à despenalização, assim como nas semanas de gestação em que a mulher pode interromper voluntariamente a gravidez. Dos 27 Estados-membros da União Europeia, apenas cinco criminalizam o aborto: Portugal, Polónia, Irlanda, Malta e Chipre. Veja o caso específico de alguns países europeus e do continente americano.
Alemanha
Na Alemanha, o aborto é permitido até às 12 semanas, mas a mulher tem de ir a uma consulta de aconselhamento num centro oficial, na qual recebe esclarecimento médicos e sociais sobre as possibilidade e apoio para ter um filho, e ainda sobre os riscos da IVG. Contudo, as mulheres não têm de justificar a sua decisão, caso optem por fazer um aborto. As despesas têm de ser suportadas pelas mulheres, mas só se estas tiverem rendimentos mensais superiores a cerca de 900 euros.
Bélgica
Também na Bélgica, a gravidez pode ser interrompida até às 12 semanas e a mulher tem apenas de pagar uma taxa moderadora de 3,08 euros. A lei que liberalizou a IVG na Bélgica foi aprovada em 1990 e a assumpção dos custos pelo Estado belga data de 2003. O aborto a pedido da mulher é autorizado até às 12 semanas de gravidez e os custos são suportados pelo serviço nacional de saúde, desde que seja praticado num hospital ou num centro de planeamento familiar certificado para tal.
A mulher que pede para interromper a gravidez é vista por um médico, que a informa dos riscos e faz um exame ginecológico, seguindo-se um período de reflexão de seis dias. Se o aborto for pedido até às sete semanas, é possível optar por uma intervenção química, com o recurso à pílula abortiva, na presença do médico.
Brasil: um milhão de abortos clandestinos por ano
Pesquisas indicam que todos os anos ocorrem no Brasil entre 750 mil a 1 milhão de abortos clandestinos, cujas complicações constituem a quarta causa de morte materna no país. Segundo dados oficiais, cerca de 250 mil mulheres são internadas por ano em hospitais da rede pública de saúde para fazerem raspagem do útero após aborto inseguro, a maioria é jovem e pobre.
O Código Penal do Brasil, de 1940, considera o procedimento crime, excepto em duas situações: gravidez resultante de violação e risco de vida da mãe. Uma terceira possibilidade diz respeito ao aborto terapêutico para casos de anomalias fetais incompatíveis com a vida, isto é, quando o feto apresenta má-formação severa ou acefalia.
Venezuela
A legislação venezuelana sobre a IVG permite apenas que o aborto seja possível em caso de perigo de vida para a mulher. Dados policiais indicam que anualmente mais de 200 mulheres venezuelanas morrem devido a abortos mal praticados, 31 por cento das quais são adolescentes com idades entre os 15 e os 19 anos.
Segundo o Código Penal, a mulher que aborte é castigada com prisão de seis meses a dois anos. A despenalização do aborto é um tema de debate frequente entre organizações da sociedade civil, médicos, incluindo alguns magistrados do Supremo Tribunal de Justiça.
EUA: mais de um milhão de abortos em 2004 De acordo com dados governamentais, efectuaram-se nos EUA, em 2004, pelo menos 1.293.000 abortos. Apesar do direito ao aborto durante as primeiras 12 semanas ser, nos Estados Unidos, um direito constitucional reconhecido há 34 anos, os sectores empenhados nesta questão mantêm a sua militância e o poder político tem criado neste sector respostas para as exigências do eleitorado dominante.
Canadá: IVG diminiu
O Canadá, país onde a Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG) foi despenalizada em 1988, tem vindo a assistir ao declínio do n úmero de abortos nos últimos anos. Segundo os dados estatísticos oficiais mais recentes, que fazem a análise até 2003, a taxa de abortos no país foi de 15,2 por cada mil mulheres naquele ano, comparada com 15,4 em 2002. A IVG no Canadá é livre, está descriminalizada e é financiada pelo Estado.
2007/01/31 12:44
Legislação é diferente na Europa e América. Dos 27 Estados-membros da UE, apenas cinco criminalizam aborto: Portugal, Polónia, Irlanda, Malta e Chipre. Veja o caso de alguns países
A legislação referente ao aborto é diferente de país para país. Na Europa, a lei varia em relação à despenalização, assim como nas semanas de gestação em que a mulher pode interromper voluntariamente a gravidez. Dos 27 Estados-membros da União Europeia, apenas cinco criminalizam o aborto: Portugal, Polónia, Irlanda, Malta e Chipre. Veja o caso específico de alguns países europeus e do continente americano.
Alemanha
Na Alemanha, o aborto é permitido até às 12 semanas, mas a mulher tem de ir a uma consulta de aconselhamento num centro oficial, na qual recebe esclarecimento médicos e sociais sobre as possibilidade e apoio para ter um filho, e ainda sobre os riscos da IVG. Contudo, as mulheres não têm de justificar a sua decisão, caso optem por fazer um aborto. As despesas têm de ser suportadas pelas mulheres, mas só se estas tiverem rendimentos mensais superiores a cerca de 900 euros.
Bélgica
Também na Bélgica, a gravidez pode ser interrompida até às 12 semanas e a mulher tem apenas de pagar uma taxa moderadora de 3,08 euros. A lei que liberalizou a IVG na Bélgica foi aprovada em 1990 e a assumpção dos custos pelo Estado belga data de 2003. O aborto a pedido da mulher é autorizado até às 12 semanas de gravidez e os custos são suportados pelo serviço nacional de saúde, desde que seja praticado num hospital ou num centro de planeamento familiar certificado para tal.
A mulher que pede para interromper a gravidez é vista por um médico, que a informa dos riscos e faz um exame ginecológico, seguindo-se um período de reflexão de seis dias. Se o aborto for pedido até às sete semanas, é possível optar por uma intervenção química, com o recurso à pílula abortiva, na presença do médico.
Brasil: um milhão de abortos clandestinos por ano
Pesquisas indicam que todos os anos ocorrem no Brasil entre 750 mil a 1 milhão de abortos clandestinos, cujas complicações constituem a quarta causa de morte materna no país. Segundo dados oficiais, cerca de 250 mil mulheres são internadas por ano em hospitais da rede pública de saúde para fazerem raspagem do útero após aborto inseguro, a maioria é jovem e pobre.
O Código Penal do Brasil, de 1940, considera o procedimento crime, excepto em duas situações: gravidez resultante de violação e risco de vida da mãe. Uma terceira possibilidade diz respeito ao aborto terapêutico para casos de anomalias fetais incompatíveis com a vida, isto é, quando o feto apresenta má-formação severa ou acefalia.
Venezuela
A legislação venezuelana sobre a IVG permite apenas que o aborto seja possível em caso de perigo de vida para a mulher. Dados policiais indicam que anualmente mais de 200 mulheres venezuelanas morrem devido a abortos mal praticados, 31 por cento das quais são adolescentes com idades entre os 15 e os 19 anos.
Segundo o Código Penal, a mulher que aborte é castigada com prisão de seis meses a dois anos. A despenalização do aborto é um tema de debate frequente entre organizações da sociedade civil, médicos, incluindo alguns magistrados do Supremo Tribunal de Justiça.
EUA: mais de um milhão de abortos em 2004 De acordo com dados governamentais, efectuaram-se nos EUA, em 2004, pelo menos 1.293.000 abortos. Apesar do direito ao aborto durante as primeiras 12 semanas ser, nos Estados Unidos, um direito constitucional reconhecido há 34 anos, os sectores empenhados nesta questão mantêm a sua militância e o poder político tem criado neste sector respostas para as exigências do eleitorado dominante.
Canadá: IVG diminiu
O Canadá, país onde a Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG) foi despenalizada em 1988, tem vindo a assistir ao declínio do n úmero de abortos nos últimos anos. Segundo os dados estatísticos oficiais mais recentes, que fazem a análise até 2003, a taxa de abortos no país foi de 15,2 por cada mil mulheres naquele ano, comparada com 15,4 em 2002. A IVG no Canadá é livre, está descriminalizada e é financiada pelo Estado.
terça-feira, janeiro 30, 2007
A pedido de jfr:). (Irra!, que hoje não há descanso cá para o velhote...).
Fez bem em levantar essa questão. Para mim, uma opção só é livre quando informada. Por isso defendo que na regulamentação a elaborar após uma eventual vitória do Sim deveria ficar claro que o Estado propicia "expertise" qualificada para averiguar se a mulher está a ser de alguma forma pressionada e a esclarecer sobre as hipóteses viáveis alternativas à interrupção de gravidez. A partir daí a decisão caber-lhe-á por inteiro.
A propósito do debate.
Como alguns de vocês, também considero que Vital Moreira apresentou - de longe! - o discurso mais articulado da noite. A sua pergunta ao painel e à plateia sobre a denúncia do crime das mulheres e o silêncio que lhe respondeu, demonstra bem como esta lei não corresponde a um sentimento generalizado da população portuguesa. Nem sequer dos defensores do Não, atascados num labiríntico "crime sim, pena é que não", quando muito um "curso de reabilitação moral" - a expressão é minha -, através de trabalho comunitário, como ainda hoje o Dr.Bagão Félix repetiu. Mas para um psiquiatra o início do programa foi, desde logo, sintomático. O texto de Lídia Jorge era uma descrição de factos e ponto final. Pode haver quem ache que pintou a negro carregado para votante ver, como outros vituperam as ecografias do Não, mas dificilmente se pode "espremer" outras coisas dali. O texto de Rita Ferro era diferente. Porque todo ele apontava para a construção de um estereotipo: as mulheres, abortando por capricho e comodismo, grandes beneficiárias de uma eventual vitória do Sim. Ao longo de trinta anos ouvi mulheres com esta postura? Pouquíssimas. E devo acrescentar que nenhuma pertencia a classes económicas que receiem a aplicação da lei vigente...
Assim não vamos lá, é meter a cabeça na areia:(.
Cardeal apoia educação sexual baseada na castidade
A educação sexual «é bem-vinda e necessária», mas ser «verdadeira» tem que ser feita na «perspectiva da castidade», disse o cardeal patriarca, D. José Policarpo
No quarto de cinco textos que está a publicar semanalmente a propósito do referendo sobre o aborto de 11 de Fevereiro, o líder da Igreja Católica em Portugal sustenta que tanto «em termos religiosos como culturais» a castidade surge como uma «vivência generosa e responsável da própria sexualidade».
D.Policarpo critica ainda o «exercício da liberdade num perspectiva individualista», onde «cada um pode fazer tudo o que quer e lhe apetece».
Trata-se de «uma liberdade individual sem responsabilidade», que o cardeal diz encontrar «nos acidentes de viação, nas agressões contra o ambiente, no abandono e abuso de crianças, no aborto».
«O exercício individualista da liberdade origina uma sociedade permissiva. O Estado gasta uma parte significativa das suas capacidades e energias a corrigir abusos de liberdade», acrescenta.
«Enquanto o ambiente for o de cada um fazer o que lhe apetece, o uso da sexualidade levará, cada vez mais, ao desrespeito da pessoa humana de que resulta. A violência familiar, o abuso de crianças, a sida, a utilização da mulher como objecto, os percalços indesejáveis na adolescência, o aborto».
O catolicismo é a religião apontada como largamente maioritariamente en tre a população portuguesa e a Igreja tem tomado uma posição frontalmente contra a despenalização do aborto que vai ser referendada dentro de 13 dias.
«Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?» será a pergunta colocada aos eleitores a 11 de Fevereiro, igual à do referendo de 1998.
Para a campanha, estão inscritos na Comissão Nacional de Eleições (CNE) 17 movimentos de cidadãos (cinco pelo «sim» e 12 pelo «não») e 10 partidos políticos.
Cerca de 8,4 milhões de eleitores estão recenseados para o referendo e a campanha dura 11 dias, entre hoje e 9 de Fevereiro.
Lusa/SOL
A educação sexual «é bem-vinda e necessária», mas ser «verdadeira» tem que ser feita na «perspectiva da castidade», disse o cardeal patriarca, D. José Policarpo
No quarto de cinco textos que está a publicar semanalmente a propósito do referendo sobre o aborto de 11 de Fevereiro, o líder da Igreja Católica em Portugal sustenta que tanto «em termos religiosos como culturais» a castidade surge como uma «vivência generosa e responsável da própria sexualidade».
D.Policarpo critica ainda o «exercício da liberdade num perspectiva individualista», onde «cada um pode fazer tudo o que quer e lhe apetece».
Trata-se de «uma liberdade individual sem responsabilidade», que o cardeal diz encontrar «nos acidentes de viação, nas agressões contra o ambiente, no abandono e abuso de crianças, no aborto».
«O exercício individualista da liberdade origina uma sociedade permissiva. O Estado gasta uma parte significativa das suas capacidades e energias a corrigir abusos de liberdade», acrescenta.
«Enquanto o ambiente for o de cada um fazer o que lhe apetece, o uso da sexualidade levará, cada vez mais, ao desrespeito da pessoa humana de que resulta. A violência familiar, o abuso de crianças, a sida, a utilização da mulher como objecto, os percalços indesejáveis na adolescência, o aborto».
O catolicismo é a religião apontada como largamente maioritariamente en tre a população portuguesa e a Igreja tem tomado uma posição frontalmente contra a despenalização do aborto que vai ser referendada dentro de 13 dias.
«Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?» será a pergunta colocada aos eleitores a 11 de Fevereiro, igual à do referendo de 1998.
Para a campanha, estão inscritos na Comissão Nacional de Eleições (CNE) 17 movimentos de cidadãos (cinco pelo «sim» e 12 pelo «não») e 10 partidos políticos.
Cerca de 8,4 milhões de eleitores estão recenseados para o referendo e a campanha dura 11 dias, entre hoje e 9 de Fevereiro.
Lusa/SOL
Por "sugestão" do Paulo:).
Traquejo
A pequena tempestade provocada há duas semanas pela intervenção da Secretária de Estado da Educação entristeceu-me. Desde logo pela injustiça para com a APF: se a Associação, a que me orgulho de pertencer, prevaricou, deve ser chamada à pedra. Mas é pungente ver utilizar o facto para enlamear uma instituição que se bate há longos anos por objectivos que governos decretaram seus, mas continuam a vegetar em tinteiros ou planos anunciados com pompa e circunstância e escondidos nas gavetas. Adiante.
Afirmou Mariana Cascais, acerca dos professores, que a sua falta de ética sobre a educação sexual é generalizada. Para tirar a seguinte conclusão: “Entendemos que as escolas portuguesas, os professores e os conselhos directivos não têm preparação para o fazer. Cabe ao Ministério da Educação definir critérios orientadores com base naquilo que consideramos ser a ética e moral que devem presidir a estas situações”. Explicação da própria para o ocorrido: falta de traquejo na Assembleia da República.
No concreto, que significa a expressão? Parece lógico assumir que, se pudesse voltar atrás, não teria a Secretária de Estado produzido as mesmas afirmações. Por não traduzirem o seu pensamento, eventualmente nublado pelo nervosismo? (Sei do que falo, trinta anos de anfiteatros deram-me a conhecer o nó na garganta, as mãos húmidas, as pernas bambas, a vertigem ocasional, todo o arco-íris de sintomas que nos invadem perante o público que ouve. E o outro, bem mais cruel!, que cá dentro avalia o nosso desempenho). Talvez, mas não é a única hipótese a considerar, Mariana Cascais pode ter dito aquilo em que acredita piamente. Com maior traquejo tê-lo-ia calado ou envolto em “politiquês”, tão asséptico ou vago que não desencadearia o protesto de ninguém.
De qualquer forma, surge a dúvida: se falta preparação – e falta! – a muitos agentes educativos, quais são as intenções do Governo? Supri-la, acelerando programas de formação, ou refugiar-se nela para justificar um teórico monopólio das famílias em tal matéria? Famílias essas, de resto, sem qualquer competência adicional na área em causa, apenas consideradas mais capazes “porque sim”, o afecto parental é uma faca de dois gumes. A vetusta e patética oposição família-escola parece espreitar de novo. Para não falar da reivindicação de superioridade ética por parte do Ministério. Baseada em quê? No “consideramos” acima citado? Tal postura apenas traduz arrogância no exercício do poder.
O “traquejo político” visto como ciência da dissimulação tem virtudes explicativas, atitudes incompreensíveis passam a fazer sentido: o Dr. Barroso estava ciente de não poder cumprir as ditirâmbicas promessas feitas durante a campanha?; António Guterres sabia a fuga menos relacionada com “o pântano” do que com o seu futuro político?; Paulo Portas reconhece que não se conduz de acordo com os princípios que atirou à cara de tantos outros? E depois? São homens com traquejo! Este tipo de imagem da actuação dos políticos contribui para a existência de tanta gente desiludida com este Governo e sem saudades do anterior. É difícil imaginar situação mais melancólica...
Uma última palavra sobre ética. Das palavras da senhora Secretária de Estado retiro uma ideia que tem muitos adeptos: para discutir sexualidade com os nossos filhos é necessária uma “solidez ética” superior à utilizada no processo educativo geral, atendendo ao carácter específico e delicado do tema. Não estou de acordo. A vivência da sexualidade implica, ideal e basicamente, o respeito pelo outro e por nós próprios. Recuso-me a pensar que os professores responsáveis, juntamente com a família, pela caminhada de meus filhos rumo à cidadania se regiam por uma ética menos exigente do que essa. Quem o fizer é mau docente, e não apenas inadequado para falar “daquilo”.
Dediquei grande parte da minha vida à formação. Também dos professores, muitos dos quais a pagavam do seu bolso, enquanto o Ministério assobiava para o ar. Precisam de mais? Venha ela!, sempre a exigi. Mas não me calarei quando forem ofendidos gratuitamente, embora saiba – ó, ironia! – que não lhes falta traquejo na matéria...
A pequena tempestade provocada há duas semanas pela intervenção da Secretária de Estado da Educação entristeceu-me. Desde logo pela injustiça para com a APF: se a Associação, a que me orgulho de pertencer, prevaricou, deve ser chamada à pedra. Mas é pungente ver utilizar o facto para enlamear uma instituição que se bate há longos anos por objectivos que governos decretaram seus, mas continuam a vegetar em tinteiros ou planos anunciados com pompa e circunstância e escondidos nas gavetas. Adiante.
Afirmou Mariana Cascais, acerca dos professores, que a sua falta de ética sobre a educação sexual é generalizada. Para tirar a seguinte conclusão: “Entendemos que as escolas portuguesas, os professores e os conselhos directivos não têm preparação para o fazer. Cabe ao Ministério da Educação definir critérios orientadores com base naquilo que consideramos ser a ética e moral que devem presidir a estas situações”. Explicação da própria para o ocorrido: falta de traquejo na Assembleia da República.
No concreto, que significa a expressão? Parece lógico assumir que, se pudesse voltar atrás, não teria a Secretária de Estado produzido as mesmas afirmações. Por não traduzirem o seu pensamento, eventualmente nublado pelo nervosismo? (Sei do que falo, trinta anos de anfiteatros deram-me a conhecer o nó na garganta, as mãos húmidas, as pernas bambas, a vertigem ocasional, todo o arco-íris de sintomas que nos invadem perante o público que ouve. E o outro, bem mais cruel!, que cá dentro avalia o nosso desempenho). Talvez, mas não é a única hipótese a considerar, Mariana Cascais pode ter dito aquilo em que acredita piamente. Com maior traquejo tê-lo-ia calado ou envolto em “politiquês”, tão asséptico ou vago que não desencadearia o protesto de ninguém.
De qualquer forma, surge a dúvida: se falta preparação – e falta! – a muitos agentes educativos, quais são as intenções do Governo? Supri-la, acelerando programas de formação, ou refugiar-se nela para justificar um teórico monopólio das famílias em tal matéria? Famílias essas, de resto, sem qualquer competência adicional na área em causa, apenas consideradas mais capazes “porque sim”, o afecto parental é uma faca de dois gumes. A vetusta e patética oposição família-escola parece espreitar de novo. Para não falar da reivindicação de superioridade ética por parte do Ministério. Baseada em quê? No “consideramos” acima citado? Tal postura apenas traduz arrogância no exercício do poder.
O “traquejo político” visto como ciência da dissimulação tem virtudes explicativas, atitudes incompreensíveis passam a fazer sentido: o Dr. Barroso estava ciente de não poder cumprir as ditirâmbicas promessas feitas durante a campanha?; António Guterres sabia a fuga menos relacionada com “o pântano” do que com o seu futuro político?; Paulo Portas reconhece que não se conduz de acordo com os princípios que atirou à cara de tantos outros? E depois? São homens com traquejo! Este tipo de imagem da actuação dos políticos contribui para a existência de tanta gente desiludida com este Governo e sem saudades do anterior. É difícil imaginar situação mais melancólica...
Uma última palavra sobre ética. Das palavras da senhora Secretária de Estado retiro uma ideia que tem muitos adeptos: para discutir sexualidade com os nossos filhos é necessária uma “solidez ética” superior à utilizada no processo educativo geral, atendendo ao carácter específico e delicado do tema. Não estou de acordo. A vivência da sexualidade implica, ideal e basicamente, o respeito pelo outro e por nós próprios. Recuso-me a pensar que os professores responsáveis, juntamente com a família, pela caminhada de meus filhos rumo à cidadania se regiam por uma ética menos exigente do que essa. Quem o fizer é mau docente, e não apenas inadequado para falar “daquilo”.
Dediquei grande parte da minha vida à formação. Também dos professores, muitos dos quais a pagavam do seu bolso, enquanto o Ministério assobiava para o ar. Precisam de mais? Venha ela!, sempre a exigi. Mas não me calarei quando forem ofendidos gratuitamente, embora saiba – ó, ironia! – que não lhes falta traquejo na matéria...
segunda-feira, janeiro 29, 2007
Dois.
"Ainda se enfiam agulhas de tricô" em pleno centro do Porto
"Tenho a consciência tranquila, sabe? Porque se não tivesse ajudado aquelas mulheres elas iam meter agulhas até ao útero para abortarem. Há quem pense que isto das agulhas já não existe, que o raminho de salsa [enfiado na vagina até ao colo do útero] já não existe. Existe, pois! Todos os dias acompanho gente que vive em bairros de miséria. Essas pessoas não vão a Espanha! Nem tomam Cytotec. Enfiam agulhas de tricô, sim. Atiram-se pelas escadas abaixo, sim."As palavras, como rajadas, pertencem a José António Pinto, assistente social da Junta de Freguesia da Campanhã, Porto, um dos envolvidos no famoso julgamento da Maia, que sentou 43 arguidos no banco dos réus, e em que uma enfermeira-parteira foi condenada a oito anos de prisão. José Pinto confessou que sim, encaminhava as mulheres para aquela morada. "Mulheres que viviam no limiar da condição humana. Que não podiam ter mais um filho porque já nem comer tinham para dar aos outros." Foi absolvido, os magistrados não acreditaram que angariasse mulheres e recebesse dinheiro pelos abortos. As próprias mulheres confessaram que José Pinto as tentava demover, mas que a vida já tinha decidido por elas.Por conhecer tão bem a pobreza, indigna-se quando ouve os movimentos pelo "não" assumirem-se "pela vida". Como se quem aborta fosse "pela morte". "Eu também sou pela vida! Mas pela vida em abundância, pela vida desejada e com condições." Hoje, as mulheres procuram-no menos, para pedir esse tipo de ajuda. "Têm medo de me prejudicar." E, por isso, vão a uma conhecida senhora de um bairro no centro do Porto (igual a tantas outras de outros bairros) que lhes abre as pernas e enfia ramos de salsa. Ou então, as que podem pagar, vão a uma ainda mais conhecida clínica perto de Aveiro. A clínica, essa clínica do centro do país, é aquela a que mais mulheres portuguesas recorrem, logo depois da Clínica dos Arcos, em Badajoz. As contas apontam para 500 a 600 abortos por ano. Cá fora, no parque de estacionamento, há rapazes e raparigas que se olham, quem sabe procurando ainda outras soluções. Alguns são muito novos, as borbulhas tão acesas como as hormonas, os corpos quase infantis. Há meninas de olhar assustado acompanhadas pelas mães.A clínica tem muitas especialidades, mas há um vai-e-vem de mulheres que, na conversa com o psicólogo, explicam as razões para a inviabilidade daquele filho. O director da clínica garante que as interrupções são feitas à luz da lei, que possibilita o aborto nos casos em que a gravidez seja uma ameaça à saúde física ou psíquica da mulher. E ali, o factor psíquico é determinante. Uma carta do psicólogo atesta o perigo. A ecografia (feita sem o cuidado de ocultar a imagem do embrião dos olhos de quem o carrega) certifica as semanas de gravidez. O procedimento é feito, numa sala sem luxos nem sofisticações, numa marquesa com estribos e uma tina de metal no meio. Paga-se um mínimo de 550 euros, e trocam-se poucas palavras, muito poucas palavras. No final, uma enfermeira vem para acariciar os cabelos, ajeitar os cobertores, "sim, o frio é normal", e carregar na barriga, "para ajudar a limpar o útero". Sai--se uma meia hora depois, com uns comprimidos para tomar e uma vida para prosseguir.
"Tenho a consciência tranquila, sabe? Porque se não tivesse ajudado aquelas mulheres elas iam meter agulhas até ao útero para abortarem. Há quem pense que isto das agulhas já não existe, que o raminho de salsa [enfiado na vagina até ao colo do útero] já não existe. Existe, pois! Todos os dias acompanho gente que vive em bairros de miséria. Essas pessoas não vão a Espanha! Nem tomam Cytotec. Enfiam agulhas de tricô, sim. Atiram-se pelas escadas abaixo, sim."As palavras, como rajadas, pertencem a José António Pinto, assistente social da Junta de Freguesia da Campanhã, Porto, um dos envolvidos no famoso julgamento da Maia, que sentou 43 arguidos no banco dos réus, e em que uma enfermeira-parteira foi condenada a oito anos de prisão. José Pinto confessou que sim, encaminhava as mulheres para aquela morada. "Mulheres que viviam no limiar da condição humana. Que não podiam ter mais um filho porque já nem comer tinham para dar aos outros." Foi absolvido, os magistrados não acreditaram que angariasse mulheres e recebesse dinheiro pelos abortos. As próprias mulheres confessaram que José Pinto as tentava demover, mas que a vida já tinha decidido por elas.Por conhecer tão bem a pobreza, indigna-se quando ouve os movimentos pelo "não" assumirem-se "pela vida". Como se quem aborta fosse "pela morte". "Eu também sou pela vida! Mas pela vida em abundância, pela vida desejada e com condições." Hoje, as mulheres procuram-no menos, para pedir esse tipo de ajuda. "Têm medo de me prejudicar." E, por isso, vão a uma conhecida senhora de um bairro no centro do Porto (igual a tantas outras de outros bairros) que lhes abre as pernas e enfia ramos de salsa. Ou então, as que podem pagar, vão a uma ainda mais conhecida clínica perto de Aveiro. A clínica, essa clínica do centro do país, é aquela a que mais mulheres portuguesas recorrem, logo depois da Clínica dos Arcos, em Badajoz. As contas apontam para 500 a 600 abortos por ano. Cá fora, no parque de estacionamento, há rapazes e raparigas que se olham, quem sabe procurando ainda outras soluções. Alguns são muito novos, as borbulhas tão acesas como as hormonas, os corpos quase infantis. Há meninas de olhar assustado acompanhadas pelas mães.A clínica tem muitas especialidades, mas há um vai-e-vem de mulheres que, na conversa com o psicólogo, explicam as razões para a inviabilidade daquele filho. O director da clínica garante que as interrupções são feitas à luz da lei, que possibilita o aborto nos casos em que a gravidez seja uma ameaça à saúde física ou psíquica da mulher. E ali, o factor psíquico é determinante. Uma carta do psicólogo atesta o perigo. A ecografia (feita sem o cuidado de ocultar a imagem do embrião dos olhos de quem o carrega) certifica as semanas de gravidez. O procedimento é feito, numa sala sem luxos nem sofisticações, numa marquesa com estribos e uma tina de metal no meio. Paga-se um mínimo de 550 euros, e trocam-se poucas palavras, muito poucas palavras. No final, uma enfermeira vem para acariciar os cabelos, ajeitar os cobertores, "sim, o frio é normal", e carregar na barriga, "para ajudar a limpar o útero". Sai--se uma meia hora depois, com uns comprimidos para tomar e uma vida para prosseguir.
Um...
"A vida concebida jamais será vencida"
"Manifestação de cidadania" Susete FranciscoPaulo Spranger (Imagem)
"Somos um/somos dois/somos três/somos milhões/somos muitos a gritar não." Não foram milhões, mas foram milhares - oito a nove mil pelas contas da polícia, embora a organização tenha apontado 20 mil - os defensores do "não" no referendo de 11 de Fevereiro que se juntaram ontem numa Caminhada pela Vida nas ruas de Lisboa. Duas horas a pé, entre a Maternidade Alfredo da Costa e a Alameda, ao som de tantos slogans quantas as associações e organizações que se juntaram à marcha."Estes são os filhos da Nação/ crianças por nascer/ansiosos por viver/uma nova geração." Ao cântico que ia sendo entoado num trajecto que a organização dividiu por etapas - concepção, nascimento, infância, adolescência, juventude, idade adulta e idade dos avós - juntaram-se centenas de cartazes. Uma só mensagem, versões para todos os gostos: "Pela Vida, com Amor"; "Abortar por opção quando bate um coração? Não"; "Já fui embrião, agora ancião"; "Obrigado mãe, por ter nascido". E, numa caminhada que contou com a presença de inúmeras crianças, as vozes sempre a acompanhar, mesmo com ecos de outras marchas - "A vida concebida jamais será vencida!"Encabeçada por nomes como Maria José Nogueira Pinto, o ex- -ministro das Finanças Bagão Félix, a fadista Kátia Guerreiro ou José Ribeiro e Castro (líder do CDS, partido que contou uma forte representação na marcha), contando com a presença de Aguiar Branco (deputado do PSD), Matilde Sousa Franco (deputada do PS), os centristas Luís Nobre Guedes e Paulo Portas, ou D. Duarte, foi a outros protagonistas que a caminhada deu voz, num palco montado na Alameda. Em defesa de uma "causa sem fim", sustentou então Margarida Neto, da Plataforma Não Obrigada: "Na vitória de 98 fizemos história, a partir de então foi uma bola de neve. Multiplicaram--se obras e instituições dispostas a lutar pela defesa da vida, somos hoje uma multidão de amigos, unidos pela mesma causa." Também defendida pela espanhola Esperanza, que há 12 anos sofreu um "aborto provocado": "Temos direito a que nos informem, temos direito a que nos dêem alternativas porque não queremos abortar." Pelo palco passaram também representantes de movimentos contra o aborto em França e Itália. "Nós, franceses, não desejamos que Portugal sofra uma catástrofe semelhante à que França tem sofrido", diria o francês George Martin, da associação Droit de Naître. "Roguemos à Virgem de Fátima que proteja este país e não permita que seja levado a apoiar uma cultura de morte", acrescentaria ainda, antes de defender que "o direito à vida é um direito natural, anterior ao Estado, consagrado no mandamento "Não matarás".
Longe deste argumentário, Maria José Nogueira Pinto definiu a Caminhada pela Vida como uma "manifestação de cidadania que prova que a questão não é partidária, nem religiosa, é uma questão de sociedade". Uma "expressão de autenticidade e união em defesa do valor da vida", defendeu Bagão Félix, enquanto Ribeiro e Castro destacou a marcha como a prova da "vitalidade dos valores da vida e da família". Entre os muitos anónimos que percorreram as ruas de Lisboa, Joana Monteiro, 23 anos, diz ter-se juntado à caminhada por defender que o "aborto não pode ser uma alternativa" - "Está a passar uma mensagem errada de que o aborto é uma opção igual às outras. Não é. E a solução para o que é clandestino não pode ser a legalização."
"Manifestação de cidadania" Susete FranciscoPaulo Spranger (Imagem)
"Somos um/somos dois/somos três/somos milhões/somos muitos a gritar não." Não foram milhões, mas foram milhares - oito a nove mil pelas contas da polícia, embora a organização tenha apontado 20 mil - os defensores do "não" no referendo de 11 de Fevereiro que se juntaram ontem numa Caminhada pela Vida nas ruas de Lisboa. Duas horas a pé, entre a Maternidade Alfredo da Costa e a Alameda, ao som de tantos slogans quantas as associações e organizações que se juntaram à marcha."Estes são os filhos da Nação/ crianças por nascer/ansiosos por viver/uma nova geração." Ao cântico que ia sendo entoado num trajecto que a organização dividiu por etapas - concepção, nascimento, infância, adolescência, juventude, idade adulta e idade dos avós - juntaram-se centenas de cartazes. Uma só mensagem, versões para todos os gostos: "Pela Vida, com Amor"; "Abortar por opção quando bate um coração? Não"; "Já fui embrião, agora ancião"; "Obrigado mãe, por ter nascido". E, numa caminhada que contou com a presença de inúmeras crianças, as vozes sempre a acompanhar, mesmo com ecos de outras marchas - "A vida concebida jamais será vencida!"Encabeçada por nomes como Maria José Nogueira Pinto, o ex- -ministro das Finanças Bagão Félix, a fadista Kátia Guerreiro ou José Ribeiro e Castro (líder do CDS, partido que contou uma forte representação na marcha), contando com a presença de Aguiar Branco (deputado do PSD), Matilde Sousa Franco (deputada do PS), os centristas Luís Nobre Guedes e Paulo Portas, ou D. Duarte, foi a outros protagonistas que a caminhada deu voz, num palco montado na Alameda. Em defesa de uma "causa sem fim", sustentou então Margarida Neto, da Plataforma Não Obrigada: "Na vitória de 98 fizemos história, a partir de então foi uma bola de neve. Multiplicaram--se obras e instituições dispostas a lutar pela defesa da vida, somos hoje uma multidão de amigos, unidos pela mesma causa." Também defendida pela espanhola Esperanza, que há 12 anos sofreu um "aborto provocado": "Temos direito a que nos informem, temos direito a que nos dêem alternativas porque não queremos abortar." Pelo palco passaram também representantes de movimentos contra o aborto em França e Itália. "Nós, franceses, não desejamos que Portugal sofra uma catástrofe semelhante à que França tem sofrido", diria o francês George Martin, da associação Droit de Naître. "Roguemos à Virgem de Fátima que proteja este país e não permita que seja levado a apoiar uma cultura de morte", acrescentaria ainda, antes de defender que "o direito à vida é um direito natural, anterior ao Estado, consagrado no mandamento "Não matarás".
Longe deste argumentário, Maria José Nogueira Pinto definiu a Caminhada pela Vida como uma "manifestação de cidadania que prova que a questão não é partidária, nem religiosa, é uma questão de sociedade". Uma "expressão de autenticidade e união em defesa do valor da vida", defendeu Bagão Félix, enquanto Ribeiro e Castro destacou a marcha como a prova da "vitalidade dos valores da vida e da família". Entre os muitos anónimos que percorreram as ruas de Lisboa, Joana Monteiro, 23 anos, diz ter-se juntado à caminhada por defender que o "aborto não pode ser uma alternativa" - "Está a passar uma mensagem errada de que o aborto é uma opção igual às outras. Não é. E a solução para o que é clandestino não pode ser a legalização."
domingo, janeiro 28, 2007
Dois.
Referendo
Papel do progenitor divide os defensores do «sim» e do «não»
Os partidos e os movimentos que defendem o «sim» e o «não» à despenalização do aborto no referendo de 11 de Fevereiro dividem-se também quanto ao papel do progenitor na decisão de interromper uma gravidez
Num questionário enviado aos partidos e movimentos, a agência Lusa perguntou se «deve a lei portuguesa reconhecer algum direito ou atribuir alguma responsabilidade ao progenitor na decisão de interrupção de uma gravidez?».
De um lado, o «Alentejo pelo Não», por exemplo, respondeu que «o pai deve ter o direito de decidir a favor da vida do seu filho mesmo que a mulher não queira», enquanto os «Médicos pela Escolha» disseram que a decisão deve caber «unicamente à mulher».
«A lei deve proteger a mulher de pressões em relação à sua decisão e penalizar qualquer pessoa, inclusive o progenitor, que exerça coacção, interfira de uma forma impositiva ou com chantagem na sua decisão», acrescentaram os «Médicos pela Escolha»
«Um embrião tem o seu ADN próprio dado metade pela mãe e metade pelo pai. O pai deve ter o direito de decidir a favor da vida do seu filho mesmo que a mulher não queira», contrapôs o «Alentejo pelo Não», sublinhando ser contra o aborto «por opção».
O PS defendeu que «a última decisão deve sempre caber à mulher» e o CDS-PP considerou que na lei «deveria ser concedido ao pai o direito a proteger a vida do seu filho, daí se retirando também as correspondentes obrigações».
«É desejável que o progenitor acompanhe a mulher na sua decisão», afirmou o PS. «Mas a última decisão deve sempre caber à mulher, pelas razões fisiológicas, emocionais e psicológicas que estão subjacentes a uma gravidez», completou o partido.
Pelo contrário, para o CDS-PP, «no caso de uma lei que consagrasse o aborto livre, deveria ser concedido ao pai o direito a proteger a vida do seu filho, daí se retirando também as correspondentes obrigações».
«A pergunta que vai a referendo no próximo dia 11 de Fevereiro está correcta quando atribui à mulher a opção de interromper a sua gravidez", responderam os «Jovens pelo Sim», referindo porém que «sempre que possível a decisão deve resultar de um consenso entre um casal».
O «Diz que Não» advogou que «a partir do momento em que são retirados ao pai quaisquer direitos na decisão de terminar ou não com a vida daquele filho abrem-se precedentes no direito da família que poderão ter repercussões graves no plano do poder paternal».
Também a "Plataforma Não Obrigada" sustentou que se o «sim» ganhasse o referendo «a liberalização do aborto criaria um quadro legal que ignoraria por completo a figura do homem» e «poria em causa a paridade e igualdade de direitos entre homem e mulher».
O «Algarve pela Vida» classificou de «aberração» a atribuição de «plenos poderes à mulher para, contra a vontade do marido, proceder à eliminação física do filho de ambos», quando a lei obriga «a mulher casada em regime de comunhão de adquiridos a pedir o consentimento do marido para, por exemplo, vender um automóvel».
O «Em movimento pelo sim» argumentou que «a lei não deve e não pode» dar um papel ao progenitor «até porque os processos legais daí decorrentes colocariam em causa as razões e os prazos previstos numa nova lei», embora seja desejável uma decisão conjunta.
O movimento «Liberalização do Aborto? Não!» respondeu com interrogações: «Os homens não podem ser pais? Quereremos que a responsabilidade da decisão de criar um filho recaia totalmente, exclusivamente, sobre a mulher? (...) Onde estar ia então a igualdade entre sexos?».
O PCP, o BE e o PSD não responderam às perguntas enviadas pela agência Lusa, assim como os restantes onze movimentos que participam na campanha sobre a despenalização do aborto até às 10 semanas de gravidez. No total são 19 movimentos, cinco pelo «sim» e 14 pelo «não».
Lusa/SOL
Papel do progenitor divide os defensores do «sim» e do «não»
Os partidos e os movimentos que defendem o «sim» e o «não» à despenalização do aborto no referendo de 11 de Fevereiro dividem-se também quanto ao papel do progenitor na decisão de interromper uma gravidez
Num questionário enviado aos partidos e movimentos, a agência Lusa perguntou se «deve a lei portuguesa reconhecer algum direito ou atribuir alguma responsabilidade ao progenitor na decisão de interrupção de uma gravidez?».
De um lado, o «Alentejo pelo Não», por exemplo, respondeu que «o pai deve ter o direito de decidir a favor da vida do seu filho mesmo que a mulher não queira», enquanto os «Médicos pela Escolha» disseram que a decisão deve caber «unicamente à mulher».
«A lei deve proteger a mulher de pressões em relação à sua decisão e penalizar qualquer pessoa, inclusive o progenitor, que exerça coacção, interfira de uma forma impositiva ou com chantagem na sua decisão», acrescentaram os «Médicos pela Escolha»
«Um embrião tem o seu ADN próprio dado metade pela mãe e metade pelo pai. O pai deve ter o direito de decidir a favor da vida do seu filho mesmo que a mulher não queira», contrapôs o «Alentejo pelo Não», sublinhando ser contra o aborto «por opção».
O PS defendeu que «a última decisão deve sempre caber à mulher» e o CDS-PP considerou que na lei «deveria ser concedido ao pai o direito a proteger a vida do seu filho, daí se retirando também as correspondentes obrigações».
«É desejável que o progenitor acompanhe a mulher na sua decisão», afirmou o PS. «Mas a última decisão deve sempre caber à mulher, pelas razões fisiológicas, emocionais e psicológicas que estão subjacentes a uma gravidez», completou o partido.
Pelo contrário, para o CDS-PP, «no caso de uma lei que consagrasse o aborto livre, deveria ser concedido ao pai o direito a proteger a vida do seu filho, daí se retirando também as correspondentes obrigações».
«A pergunta que vai a referendo no próximo dia 11 de Fevereiro está correcta quando atribui à mulher a opção de interromper a sua gravidez", responderam os «Jovens pelo Sim», referindo porém que «sempre que possível a decisão deve resultar de um consenso entre um casal».
O «Diz que Não» advogou que «a partir do momento em que são retirados ao pai quaisquer direitos na decisão de terminar ou não com a vida daquele filho abrem-se precedentes no direito da família que poderão ter repercussões graves no plano do poder paternal».
Também a "Plataforma Não Obrigada" sustentou que se o «sim» ganhasse o referendo «a liberalização do aborto criaria um quadro legal que ignoraria por completo a figura do homem» e «poria em causa a paridade e igualdade de direitos entre homem e mulher».
O «Algarve pela Vida» classificou de «aberração» a atribuição de «plenos poderes à mulher para, contra a vontade do marido, proceder à eliminação física do filho de ambos», quando a lei obriga «a mulher casada em regime de comunhão de adquiridos a pedir o consentimento do marido para, por exemplo, vender um automóvel».
O «Em movimento pelo sim» argumentou que «a lei não deve e não pode» dar um papel ao progenitor «até porque os processos legais daí decorrentes colocariam em causa as razões e os prazos previstos numa nova lei», embora seja desejável uma decisão conjunta.
O movimento «Liberalização do Aborto? Não!» respondeu com interrogações: «Os homens não podem ser pais? Quereremos que a responsabilidade da decisão de criar um filho recaia totalmente, exclusivamente, sobre a mulher? (...) Onde estar ia então a igualdade entre sexos?».
O PCP, o BE e o PSD não responderam às perguntas enviadas pela agência Lusa, assim como os restantes onze movimentos que participam na campanha sobre a despenalização do aborto até às 10 semanas de gravidez. No total são 19 movimentos, cinco pelo «sim» e 14 pelo «não».
Lusa/SOL
Um...
É mentira que o sim signifique o aborto livre»
2007/01/28 10:17
PCP critica silêncio do «não» quando a licença de maternidade foi reduzida
O secretário-geral do PCP acusou sábado «as forças pró-não» no referendo do aborto de demagogia ao defenderem maior apoio à família, já que estiveram silenciosas quando a reforma do Código do Trabalho reduziu a licença de maternidade, escreve a Lusa.
«Onde estavam quando a reforma do Código do Trabalho promovida por Bagão Félix, ele próprio defensor do Não, veio reduzir a licença de maternidade e o carácter universal do abono? Não se ouviram os seus protestos», disse Jerónimo de Sousa.
Falando em Aveiro num jantar do PCP para defender o «Sim» no referendo sobre o aborto, o secretário-geral daquele partido justificou que o PCP, embora considere que a Assembleia da República é o órgão de soberania que tem legitimidade para alterar a lei penal, «não podia ficar de fora de uma batalha que foi sempre sua».
O líder do PCP salientou que Portugal é «dos pouquíssimos países europeus» que mantém a penalização do aborto, ignorando recomendações de organizações internacionais.
Acusou, por isso, os partidários do «Não» de «fazerem da União Europeia o seu modelo quando estão em causa os seus interesses, de serem do pelotão da frente quando se refere aos seus negócios, mas estarem no carro-vassoura no que respeita aos direitos das mulheres e dos trabalhadores».
«É mentira que o Sim no referendo signifique o aborto livre, ou o aborto a pedido e sem motivo. O que está em causa não é se somos a favor ou contra o aborto, é se se mantém a possibilidade da pena de prisão até três anos para as mulheres, a devassa da sua vida íntima, as investigações e os julgamentos», expôs.
Para Jerónimo de Sousa, o processo de Aveiro, em que mulheres foram condenadas a três anos de prisão, com pena suspensa, «deita por terra o argumento da seráfica complacência da Justiça» e a decisão de 11 de Fevereiro trata de «acabar com o ferrete do cadastro dessas mulheres».
«Não basta apoiar o 'Sim'. É preciso combater a abstenção, porque é um problema que, pela sua gravidade, não pode deixar ninguém indiferente», concluiu.
2007/01/28 10:17
PCP critica silêncio do «não» quando a licença de maternidade foi reduzida
O secretário-geral do PCP acusou sábado «as forças pró-não» no referendo do aborto de demagogia ao defenderem maior apoio à família, já que estiveram silenciosas quando a reforma do Código do Trabalho reduziu a licença de maternidade, escreve a Lusa.
«Onde estavam quando a reforma do Código do Trabalho promovida por Bagão Félix, ele próprio defensor do Não, veio reduzir a licença de maternidade e o carácter universal do abono? Não se ouviram os seus protestos», disse Jerónimo de Sousa.
Falando em Aveiro num jantar do PCP para defender o «Sim» no referendo sobre o aborto, o secretário-geral daquele partido justificou que o PCP, embora considere que a Assembleia da República é o órgão de soberania que tem legitimidade para alterar a lei penal, «não podia ficar de fora de uma batalha que foi sempre sua».
O líder do PCP salientou que Portugal é «dos pouquíssimos países europeus» que mantém a penalização do aborto, ignorando recomendações de organizações internacionais.
Acusou, por isso, os partidários do «Não» de «fazerem da União Europeia o seu modelo quando estão em causa os seus interesses, de serem do pelotão da frente quando se refere aos seus negócios, mas estarem no carro-vassoura no que respeita aos direitos das mulheres e dos trabalhadores».
«É mentira que o Sim no referendo signifique o aborto livre, ou o aborto a pedido e sem motivo. O que está em causa não é se somos a favor ou contra o aborto, é se se mantém a possibilidade da pena de prisão até três anos para as mulheres, a devassa da sua vida íntima, as investigações e os julgamentos», expôs.
Para Jerónimo de Sousa, o processo de Aveiro, em que mulheres foram condenadas a três anos de prisão, com pena suspensa, «deita por terra o argumento da seráfica complacência da Justiça» e a decisão de 11 de Fevereiro trata de «acabar com o ferrete do cadastro dessas mulheres».
«Não basta apoiar o 'Sim'. É preciso combater a abstenção, porque é um problema que, pela sua gravidade, não pode deixar ninguém indiferente», concluiu.
sexta-feira, janeiro 26, 2007
E outro.
Ana, 14 anos, morta pela 'boa' lei
Fernanda Cânciofernanda.m.cancio@dn.pt
A história passa-se no final de 2005. Uma adolescente de 14 anos entra no Hospital de Santa Maria com uma overdose de misoprostol, vulgo Citotec, o medicamento para o estômago liberalizado nos últimos cinco ou seis anos como método abortivo auto-induzido que resulta em inúmeras sobredosagens diagnosticadas nas urgências. Ana - chamemos-lhe Ana, é curto e serve - tomou 64 comprimidos. Remetida de um hospital de periferia, chega "já em choque" a Santa Maria, com "alterações vasculares importantes ao nível do tubo digestivo". Em bom português, a Ana está toda rebentada por dentro. A operação não a salva. Ana estava de 20 semanas. Mais dez que aquelas que a pergunta do referendo prevê e mais oito que as 12 previstas na lei em vigor para casos de "risco para saúde física ou psíquica da grávida". Talvez, se Ana tivesse tido a ideia e a coragem de, com ou sem os pais, ir a um hospital às dez semanas de gravidez, um médico compassivo lhe tivesse resolvido "o problema", considerando que a gravidez numa menina de 14 anos pode constituir um grave risco para a saúde. Nunca saberemos. O que se sabe é que a lei não abre excepções para meninas de 14 anos - mesmo se, aos 14 anos, nem sequer se é imputável criminalmente. O que se sabe é que a lei diz que toda a gravidez "normal" que não seja entendida como fruto de crime de violação deve ser levada a termo, com carácter de obrigatoriedade e sob ameaça de três anos de prisão. E que mesmo nos casos como o da Ana, cujo acto, pela idade da autora, estaria automaticamente despenalizado, a pena pode ser a morte. A morte por aborto, em 2005, por ausência de acesso a uma interrupção de gravidez médica e segura. É esta a lei "boa" que Marcelo Rebelo de Sousa descobriu agora. Esta ou aquela que o professor, na sua dominical cátedra mediática, imaginou em forma de "despenalização geral", sem limite no tempo de gestação, desde que "não seja a mulher a decidir". Quem decidiria, não se sabe, o professor não disse. Nem o que aconteceu à argumentação do sagrado valor da "vida intra-uterina", o tal valor que justifica a qualificação de "crime". Nem, tão-pouco, o que aconteceria às mulheres que decidissem interromper a gravidez sem caução "superior". Mas adivinha-se. Aconteceria o que acontece agora, exactamente: vergonha, clandestinidade, sofrimento, saúde arruinada e às vezes morte. É a pena que o professor Marcelo, que não quer "ver mulheres julgadas", lhes decreta. A pena de morte, sem julgamento.
Um contributo...
Muitas perguntas poucas respostas (2)
Maria José Nogueira Pinto Jurista
A prisão da mulher que aborta tornou-se, neste referendo, o ponto nevrálgico da exploração de uma frágil e fragmentada consciência colectiva. Quem é que quer ver as mulheres presas? A esta pergunta, cada um de nós precipita-se a olhar para dentro de si mesmo. E vê o quê? Vê essa mulher abandonada, entregue à sua sorte, desesperada. E que diz? Não, eu não quero que ela seja presa!Antes de nos deixarmos arrastar por este "círculo em expansão da compaixão moral" é obrigatório, por uma questão de honestidade intelectual, que se analise do quê e de quem estamos a falar.Na reflexão que este referendo exige de todos nós, convém lembrar que o aborto é um crime na exacta medida em que a vida humana é um valor essencial e o direito à vida a base de todos os outros. Destruir uma vida que tem todas as condições para prosseguir o seu ciclo natural de de-senvolvimento é uma violência muito superior à que possa sentir a mulher que aborta por um puro acto de voluntarismo, quando é julgada.Em todos os ordenamentos jurídicos o aborto é um crime precisamente porque a vida humana é um valor fundamental, incluindo, naturalmente, a vida humana intra-uterina. A lei de 1984 não afasta este princípio basilar, apenas tipifica situações excepcionais, casos-limite. E noutros países o que se pôs em causa foi a existência, ou não, de vida humana nas primeiras semanas de gestação. Questão eminentemente do domínio da ciência e não do direito. Sendo que o progresso científico, entretanto verificado, fez desaparecer a base empírica da oposição fundamental entre o ser nascido - visível e imediatamente presente na vida social - e o ser não nascido, inacessível e oculto.O ser humano não nascido aparece agora, e aparecerá no futuro, em contextos sociais cada vez mais extensos, como uma entidade ética e jurídica de per si.A primeira pergunta a exigir fortemente resposta é a de quantas mulheres foram julgadas em Portugal? E dessas, quantas foram condenadas? E dessas, quantas cumpriram pena de prisão?É que, enquanto um "sim" genérico e cego desvaloriza em absoluto o acto de abortar e elimina do nosso ordenamento jurídico o valor da vida humana até às dez semanas de gravidez, a ponderação, caso a caso, das concretas circunstâncias em que cada concreta mulher, ela e a sua condição, foi levada a abortar é o único caminho justo que distingue comportamentos assentes em puro laxismo irresponsável, pura leviandade (que numa sociedade responsável não devem merecer compaixão), das situações condicionadas por factores objectivos, que podem explicar uma atitude extrema. Este distinguo é da essência do sistema judicial e é uma das mais relevantes funções dos magistrados.Ao contrário do que alguns pensam, não há leis responsáveis para comportamentos irresponsáveis. Mas há sempre uma aplicação responsável da lei, e essa é a melhor garantia.É bom relembrar que o "sim", neste referendo, não contribuirá em nada para acalmar a consciência colectiva não só quanto à pobreza e solidão das mulheres que abortam, como também quanto à humilhação do julgamento ou da prisão. Podia até ser verdade se a pergunta que vai ser feita aos portugueses fosse outra... Mas não é. Com este "sim", às dez semanas e um dia, as mulheres que abortarem - na mesma pobres, na mesma abandonadas, na mesma humilhadas - podem ser presas.Nada aflige mais a minha condição feminina como ouvir e ver na televisão homens mediáticos a perorarem, com um conveniente ar e tom compungido, sobre as pobres mulheres que abortam, porque abortar é sempre mau, lembram, um trauma, já se sabe, mas paciência, o que é que se pode fazer?Como se na origem da gravidez não estivesse sempre um homem e na origem do aborto não estivesse quase sempre um homem que se demite, foge e abandona.E se a prática do aborto é sempre algo mau, doloroso e traumático para a mulher, e portanto não desejável, porquê apresentar a sua liberalização (afinal a mulher irremediavelmente entregue à sua sorte) como a melhor resposta que a sociedade lhe oferece, apresentada como uma conquista civilizacional?Finalmente, mas não menos relevantes, são as dúvidas que suscita a aplicação prática do "sim", caso ganhasse. É que uma lei cria direitos e gera legítimas expectativas quanto à sua aplicação. Como daria o Serviço Nacional de Saúde resposta a este novo direito? Com que meios? E em detrimento de que outros direitos em saúde?Sendo os recursos escassos, o "sim" vai legitimar a redistribuição desses recursos em nome de uma política pública paga com os nossos impostos. Vão cortar na prevenção do cancro da mama ou do colo do útero? Vão passar de quatro para oito anos a lista de espera para o tratamento da infertilidade? Vão deixar cair, ainda mais, as disposições da lei do planeamento familiar, cortando consultas, anticonceptivos gratuitos e informação e formação às mulheres? Vão reduzir os médicos de família? Vão desinvestir nos doentes crónicos? Vão fechar os olhos às doenças neuro-degenerativas que afligem crescentemente os idosos? Vão fechar serviços de Saúde dificultando mais o acesso dos cidadãos? Como vai o Ministério da Saúde pagar a contratualização de clínicas privadas no caso, já dado como certo pelo ministro, de o SNS não ter capacidade de atendimento?É a estas perguntas que é urgente dar resposta. Ficamos à espera.
quinta-feira, janeiro 25, 2007
A falta de bom senso dos "especialistas"...
As quecas do papá... Jornalista rubencarvalho@mail.telepac.pt
O inquérito sobre a sua vida familiar realizado junto de vários milhares de crianças e jovens das escolas portuguesas levanta problemas de vária índole, embora todo eles de gravidade.Sem, em rigor, ser possível estabelecer uma hierarquia de importância (a que Jorge de Sena seguramente chamaria uma hierarquia do disparate…), citemos em primeiro lugar o facto de um número evidentemente apreciável de adultos, presumivelmente preparados académica e tecnicamente, ter elaborado, estudado, aprovado, decidido distribuir, distribuído e preparar-se para "estudar" um questionário onde se pede a crianças que avaliem o comportamento sexual dos pais!Se toda esta trapalhada tivesse partido de uma única luminária, ainda se poderia admitir que de loucos está o mundo cheio - e ninguém tinha dado por isso. Mas é evidente que aquele trabalho resultou da elaboração de uma "equipa", do juízo de "especialistas", da aprovação de "responsáveis" - e não houve no meio desta multidão uma centelha de bom senso que dissesse, com a tranquilidade de revelar a nudez do rei, que tudo aquilo era um ignóbil absurdo.E quando se utiliza o adjectivo ignóbil não se está apenas a pensar no problema entre o pedagógico e o moral de interrogar jovens sobre tais temáticas aplicadas aos seus familiares, mas a um outro aspecto tão ou mais relevante: é o incentivo ao voyeurismo aqui sugerido, a par e passo com um comportamento de observador de intimidades que roça a espionagens policiesca, coerentemente acompanhado com o incentivo a julgamentos moralista numa situação de natural carência de referentes inerente à idade.O que se passa na escola é, por definição, escolar. Tudo o que se passa na escola é (pelo menos, deverá ser) educativo: aquilo que, como conhecimento, é transmitido, mas igualmente comportamentos, padrões, formas de relacionamento - enfim, tudo o que, em terminologia que fez época e talvez devesse continuar a fazer, prepara os jovens para a vida.Temos então que, no entender destas luminárias, se deve transmitir nas escolas às crianças este padrão de espionagem dos seus próximos e, à luz dos mais que duvidosos padrões da ideologia dominante, sugerir-lhe juízos e avaliações comportamentais.Tudo isto para que uns fulanos façam - umas estatísticas! Não é preciso, já se constatou a assustadora percentagem de patetas...
O inquérito sobre a sua vida familiar realizado junto de vários milhares de crianças e jovens das escolas portuguesas levanta problemas de vária índole, embora todo eles de gravidade.Sem, em rigor, ser possível estabelecer uma hierarquia de importância (a que Jorge de Sena seguramente chamaria uma hierarquia do disparate…), citemos em primeiro lugar o facto de um número evidentemente apreciável de adultos, presumivelmente preparados académica e tecnicamente, ter elaborado, estudado, aprovado, decidido distribuir, distribuído e preparar-se para "estudar" um questionário onde se pede a crianças que avaliem o comportamento sexual dos pais!Se toda esta trapalhada tivesse partido de uma única luminária, ainda se poderia admitir que de loucos está o mundo cheio - e ninguém tinha dado por isso. Mas é evidente que aquele trabalho resultou da elaboração de uma "equipa", do juízo de "especialistas", da aprovação de "responsáveis" - e não houve no meio desta multidão uma centelha de bom senso que dissesse, com a tranquilidade de revelar a nudez do rei, que tudo aquilo era um ignóbil absurdo.E quando se utiliza o adjectivo ignóbil não se está apenas a pensar no problema entre o pedagógico e o moral de interrogar jovens sobre tais temáticas aplicadas aos seus familiares, mas a um outro aspecto tão ou mais relevante: é o incentivo ao voyeurismo aqui sugerido, a par e passo com um comportamento de observador de intimidades que roça a espionagens policiesca, coerentemente acompanhado com o incentivo a julgamentos moralista numa situação de natural carência de referentes inerente à idade.O que se passa na escola é, por definição, escolar. Tudo o que se passa na escola é (pelo menos, deverá ser) educativo: aquilo que, como conhecimento, é transmitido, mas igualmente comportamentos, padrões, formas de relacionamento - enfim, tudo o que, em terminologia que fez época e talvez devesse continuar a fazer, prepara os jovens para a vida.Temos então que, no entender destas luminárias, se deve transmitir nas escolas às crianças este padrão de espionagem dos seus próximos e, à luz dos mais que duvidosos padrões da ideologia dominante, sugerir-lhe juízos e avaliações comportamentais.Tudo isto para que uns fulanos façam - umas estatísticas! Não é preciso, já se constatou a assustadora percentagem de patetas...
quarta-feira, janeiro 24, 2007
Homenagem.
Oliveira Marques foi um grande historiador, um homem bom e um amigo dos Machado Vaz. Espero que esteja algures em amena cavaqueira com meu Pai.
Mais um depoimento.
Bispo de Viseu votaria sim se...
2007/01/24 09:58
Bastava que a pergunta do referendo fosse diferente e questionasse sobre a despenalização da mulher que recorre ao aborto. Nesse caso, D. Ilídio Leandro votaria «sim» «sem contradição nenhuma». Até porque, explica, ninguém o faz «por leviandade», são «vítimas da sociedade»
O Bispo de Viseu, D.Ilídio Leandro, declarou terça-feira em Viseu que votaria «sim» se o que estivesse em causa no referendo de 11 de Fevereiro fosse a despenalização da mulher que pratica o aborto. E sublinhou que quando uma mulher recorre ao aborto não o faz «por leviandade», é uma «vítima da sociedade».
«Sem contradição nenhuma votaria sim», disse o bispo num debate sobre a Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG) realizado terça-feira na Escola Superior de Educação de Viseu.
D.Ilídio Leandro falava no debate enquanto defensor do «Não» no referendo do próximo dia 11 de Fevereiro, que coloca a seguinte pergunta: «Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?».
O Bispo Ilídio Leandro, em declarações difundidas pela rádio Noar, de Viseu, considerou que «ninguém vai para o aborto por vontade própria ou por leviandade» e que a mulher «é uma vítima da sociedade e não alguém que promove a prática do aborto».
O Bispo de Viseu disse ainda que no dia seguinte ao referendo sobre a despenalização do aborto, a Diocese de Viseu «vai anunciar algo para ajudar nos casos e situações atentatórias de degradação humana».
A Igreja Católica, maioritária em Portugal, é frontalmente contra a liberalização da interrupção voluntária da gravidez (IVG), que vai ser sujeita a referendo nacional a 11 de Fevereiro.
2007/01/24 09:58
Bastava que a pergunta do referendo fosse diferente e questionasse sobre a despenalização da mulher que recorre ao aborto. Nesse caso, D. Ilídio Leandro votaria «sim» «sem contradição nenhuma». Até porque, explica, ninguém o faz «por leviandade», são «vítimas da sociedade»
O Bispo de Viseu, D.Ilídio Leandro, declarou terça-feira em Viseu que votaria «sim» se o que estivesse em causa no referendo de 11 de Fevereiro fosse a despenalização da mulher que pratica o aborto. E sublinhou que quando uma mulher recorre ao aborto não o faz «por leviandade», é uma «vítima da sociedade».
«Sem contradição nenhuma votaria sim», disse o bispo num debate sobre a Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG) realizado terça-feira na Escola Superior de Educação de Viseu.
D.Ilídio Leandro falava no debate enquanto defensor do «Não» no referendo do próximo dia 11 de Fevereiro, que coloca a seguinte pergunta: «Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?».
O Bispo Ilídio Leandro, em declarações difundidas pela rádio Noar, de Viseu, considerou que «ninguém vai para o aborto por vontade própria ou por leviandade» e que a mulher «é uma vítima da sociedade e não alguém que promove a prática do aborto».
O Bispo de Viseu disse ainda que no dia seguinte ao referendo sobre a despenalização do aborto, a Diocese de Viseu «vai anunciar algo para ajudar nos casos e situações atentatórias de degradação humana».
A Igreja Católica, maioritária em Portugal, é frontalmente contra a liberalização da interrupção voluntária da gravidez (IVG), que vai ser sujeita a referendo nacional a 11 de Fevereiro.
terça-feira, janeiro 23, 2007
17.000...
Uma "pandemia evitável" que alimenta "um negócio obsceno" Fernando Madaíl
O aborto clandestino, defende Maria de Belém Roseira, "não é um problema de ordem pública, mas um problema de saúde pública". A deputada do PS até cita o título de um artigo publicado, em Novembro, na conhecida revista médica The Lancet, onde se definia aquele fenómeno como sendo, em países menos desenvolvidos, "a pandemia evitável".Ao apresentar, ontem, em Lisboa, o livro História do Aborto (Ed. 70), da autoria de Giulia Galeotti, para o qual escreveu o prefácio, a ex- -ministra da Saúde considera que se juntam, neste domínio, questões sociais, de saúde pública e jurídicas.Lembrando que as organizações internacionais fizeram sempre projecções sobre o aborto clandestino em Portugal, a defensora do "sim" recordava que o estudo que a Assembleia da República pretendeu lançar, ainda no tempo do Governo de Durão Barroso, era "tão complexo e profundo" que acabou por ter custos que exigiam um concurso público internacional - e, ainda hoje, está por iniciar. Neste momento, há o estudo da Associação Portuguesa para o Planeamento da Família, que teve uma "amostra representativa" e cujos resultados nos "interpelam de uma maneira brutal", revelando que se praticam cerca de 17 mil abortos por ano no nosso país.No entendimento da deputada, é a actual "solução legal que está a dar alimento a um negócio obsceno" como é o aborto clandestino. E, criticando vários aspectos da actual legislação, a ex-ministra refere que a lei só é aplicada às classes mais desfavorecidas ("ninguém consegue aplicar o Código Penal às portuguesas que abortam no estrangeiro"), só atinge uma parte dos intervenientes ("nenhuma mulher engravida sozinha") e só se aplica de vez em quando ("nada corrói mais um Estado de direito do que uma legislação criminal que não é aplicada").Admitindo que o aborto "não é nem nunca pode ser método de planeamento familiar", Maria de Belém considera que a melhor forma de debelar o "flagelo" é retirá-lo da clandestinidade. Até porque, conclui, no sistema de saúde será possível "identificar as mulheres que não querem abortar e estão a ser coagidas" pelo companheiro ou pelos pais.
O aborto clandestino, defende Maria de Belém Roseira, "não é um problema de ordem pública, mas um problema de saúde pública". A deputada do PS até cita o título de um artigo publicado, em Novembro, na conhecida revista médica The Lancet, onde se definia aquele fenómeno como sendo, em países menos desenvolvidos, "a pandemia evitável".Ao apresentar, ontem, em Lisboa, o livro História do Aborto (Ed. 70), da autoria de Giulia Galeotti, para o qual escreveu o prefácio, a ex- -ministra da Saúde considera que se juntam, neste domínio, questões sociais, de saúde pública e jurídicas.Lembrando que as organizações internacionais fizeram sempre projecções sobre o aborto clandestino em Portugal, a defensora do "sim" recordava que o estudo que a Assembleia da República pretendeu lançar, ainda no tempo do Governo de Durão Barroso, era "tão complexo e profundo" que acabou por ter custos que exigiam um concurso público internacional - e, ainda hoje, está por iniciar. Neste momento, há o estudo da Associação Portuguesa para o Planeamento da Família, que teve uma "amostra representativa" e cujos resultados nos "interpelam de uma maneira brutal", revelando que se praticam cerca de 17 mil abortos por ano no nosso país.No entendimento da deputada, é a actual "solução legal que está a dar alimento a um negócio obsceno" como é o aborto clandestino. E, criticando vários aspectos da actual legislação, a ex-ministra refere que a lei só é aplicada às classes mais desfavorecidas ("ninguém consegue aplicar o Código Penal às portuguesas que abortam no estrangeiro"), só atinge uma parte dos intervenientes ("nenhuma mulher engravida sozinha") e só se aplica de vez em quando ("nada corrói mais um Estado de direito do que uma legislação criminal que não é aplicada").Admitindo que o aborto "não é nem nunca pode ser método de planeamento familiar", Maria de Belém considera que a melhor forma de debelar o "flagelo" é retirá-lo da clandestinidade. Até porque, conclui, no sistema de saúde será possível "identificar as mulheres que não querem abortar e estão a ser coagidas" pelo companheiro ou pelos pais.
Subscrever:
Mensagens (Atom)