Meu Deus,
Grato por ter acabado a campanha eleitoral. Se as próximas duas afinarem pelo mesmo - baixíssimo! - diapasão, importas-te de fazer copy e paste nas minhas costas? No caso de ser pedir muito à tua impolada omnipotência, estou pronto a colaborar, meto uns drunfos ou vários copos daquela droga legal alentejana, que não posso mencionar para não fazer publicidade. (E aqui socorro-me da tua não menos anunciada omnisciência...). Mas estes sound bytes ocos outra vez não, olha que me passo e legalizo um partido de voto em branco!
Sh, no pasa nada, just kidding. Se deixasse virgem o boletim, o meu velho escapulia-se pelas (tuas) traseiras e vinha-me puxar as orelhas. Lá estarei. A votar contra e não a favor, o que deixa um sabor amargo na boca...
sexta-feira, junho 05, 2009
terça-feira, junho 02, 2009
Na Baixa.
Experiência esotérica: uma sessão de autógrafos com os livros perdidos pelo caminho ou simplesmente atrasados:). O habitual desenrascanço português, "assine-me este, doutor". E eu dei comigo a assinar livros com fórmula curiosa, "um abraço para... e um pedido de desculpas a...", que os autores e Deus me perdoem!
Estava na Baixa à hora de jantar, coisa rara. As oportunidades devem ser aproveitadas, demandei o Buraco e os braços do Senhor Manuel, que me acolheu com ternura imerecida, há muito que lhe devia a visita. As recordações de meu Pai e da sua tertúlia. A gratidão devida - ensinaram-me a ouvir e conversar. (Ao que parece, vem a caminho placa na parede com os nomes dos convivas daqueles almoços ao Sábado.) O meu velho acariciando com o garfo o empadão - definido como prato favorito por já mastigado:) -, antes de brandir humor com tanto de afiado como de terno, os outros aceitavam o desafio com enorme gozo; eu aprendia. Aparentemente, nos intervalos da cavaqueira com o Senhor Manuel, jantei sozinho. Mas não é verdade, senti-lhes o aceno aprovador. Não a todos... Sou psi, as minhas paranóias moldam realidade e fantasmas, quase podia jurar ter ouvido a voz de meu Pai, gentil e firme, como sempre - "já não era sem tempo, meu filho". Com razão, mas a saudade transforma cada visita num prazer doloroso. Vocês sabem, não é?
Chegado a casa, assisti ao desespero de clientes de um Banco, exasperados por terem abusado da sua confiança e agora também da paciência. Salvo as devidas comparações, esses amargos de boca não me são desconhecidos. O último exemplo foi paradigmático de um determinado tipo de sociedade. Um senhor que nunca vira propôs-me um programa de televisão em nome de uma empresa chamada Capital Mix. A hipótese agradou-me e à Ana Mesquita, ao prazer da conversa juntava-se a habitual gentileza de Serralves, que punha jardins e exposições nas nossas mãos. Quanto a condições materiais, aceitei as propostas e ponto final.
Mergulhei no programa e abstraí de tudo o resto. Semana após semana ouvia dizer que o contrato seria assinado na seguinte. Foram passando... E chegámos à última gravação sem um euro pago ou papel assinado, as mulheres pensam melhor e mais rápido, a Ana foi transparente - "sem contrato não gravo". E um outro senhor chegou de Lisboa, nosso admirador de imediato confesso, não menos rápido a culpar terceiros, quartos e quintos pelo atraso do preto no branco, em punho um contrato ainda virgem mas já com uma adenda que atrasava os pagamentos, a Capital Mix era vítima e não algoz. Adenda aceite.
Primeiro pagamento sem problemas, segundo incompleto, inexistente o último. E as responsabilidades de novo distribuídas por quem sabíamos ter cumprido as suas. O que pacientemente salientei. Ainda recordo a resposta: "só lamento que outros não cumpram e seja eu a passar por mentiroso". Exausto, rendi-me à evidência e entreguei o caso ao meu advogado. Que gastou latim e cordialidade. Para receber silêncio em troca. Tribunal e mais silêncio. Acção ganha, como seria inevitável. Vocês adivinham o episódio seguinte da telenovela - tentativa de penhora, nada passível de ser penhorado... Passaram quinze meses e uns milhares de euros, destinados a pagar o meu trabalho, acoitaram-se em outros bolsos que não os meus.
Talvez sejam estes comportamentos a justificar triste frase - o mundo é dos espertos. Devo confessar que a palavra me parece... raquítica:(.
Vou repetir - salvo as devidas comparações!, porque vi pessoas desesperadas no ecrã e esse não é o meu caso. Desejo-lhes justiça. Mas talvez precisem também de sorte e influência política...
Estava na Baixa à hora de jantar, coisa rara. As oportunidades devem ser aproveitadas, demandei o Buraco e os braços do Senhor Manuel, que me acolheu com ternura imerecida, há muito que lhe devia a visita. As recordações de meu Pai e da sua tertúlia. A gratidão devida - ensinaram-me a ouvir e conversar. (Ao que parece, vem a caminho placa na parede com os nomes dos convivas daqueles almoços ao Sábado.) O meu velho acariciando com o garfo o empadão - definido como prato favorito por já mastigado:) -, antes de brandir humor com tanto de afiado como de terno, os outros aceitavam o desafio com enorme gozo; eu aprendia. Aparentemente, nos intervalos da cavaqueira com o Senhor Manuel, jantei sozinho. Mas não é verdade, senti-lhes o aceno aprovador. Não a todos... Sou psi, as minhas paranóias moldam realidade e fantasmas, quase podia jurar ter ouvido a voz de meu Pai, gentil e firme, como sempre - "já não era sem tempo, meu filho". Com razão, mas a saudade transforma cada visita num prazer doloroso. Vocês sabem, não é?
Chegado a casa, assisti ao desespero de clientes de um Banco, exasperados por terem abusado da sua confiança e agora também da paciência. Salvo as devidas comparações, esses amargos de boca não me são desconhecidos. O último exemplo foi paradigmático de um determinado tipo de sociedade. Um senhor que nunca vira propôs-me um programa de televisão em nome de uma empresa chamada Capital Mix. A hipótese agradou-me e à Ana Mesquita, ao prazer da conversa juntava-se a habitual gentileza de Serralves, que punha jardins e exposições nas nossas mãos. Quanto a condições materiais, aceitei as propostas e ponto final.
Mergulhei no programa e abstraí de tudo o resto. Semana após semana ouvia dizer que o contrato seria assinado na seguinte. Foram passando... E chegámos à última gravação sem um euro pago ou papel assinado, as mulheres pensam melhor e mais rápido, a Ana foi transparente - "sem contrato não gravo". E um outro senhor chegou de Lisboa, nosso admirador de imediato confesso, não menos rápido a culpar terceiros, quartos e quintos pelo atraso do preto no branco, em punho um contrato ainda virgem mas já com uma adenda que atrasava os pagamentos, a Capital Mix era vítima e não algoz. Adenda aceite.
Primeiro pagamento sem problemas, segundo incompleto, inexistente o último. E as responsabilidades de novo distribuídas por quem sabíamos ter cumprido as suas. O que pacientemente salientei. Ainda recordo a resposta: "só lamento que outros não cumpram e seja eu a passar por mentiroso". Exausto, rendi-me à evidência e entreguei o caso ao meu advogado. Que gastou latim e cordialidade. Para receber silêncio em troca. Tribunal e mais silêncio. Acção ganha, como seria inevitável. Vocês adivinham o episódio seguinte da telenovela - tentativa de penhora, nada passível de ser penhorado... Passaram quinze meses e uns milhares de euros, destinados a pagar o meu trabalho, acoitaram-se em outros bolsos que não os meus.
Talvez sejam estes comportamentos a justificar triste frase - o mundo é dos espertos. Devo confessar que a palavra me parece... raquítica:(.
Vou repetir - salvo as devidas comparações!, porque vi pessoas desesperadas no ecrã e esse não é o meu caso. Desejo-lhes justiça. Mas talvez precisem também de sorte e influência política...
sábado, maio 30, 2009
Sábado à noite.
Maria,
A vila em festa, o Vieirense subiu de divisão!!!!!!! Resultado - tive 15 pessoas na conferência:). Indubitável sinal de sageza, quem se interessa pela sexualidade dos gerontes quando pode gritar de alegria, abençoado por um sol cozinhado a trinta graus?
Maria de Belém Roseira demarcou-se do estilo trauliteiro da campanha do PS. (Tens razão, o mesmo partido que se vitimiza por qualquer referência ao caso Freeport...). A guarda pretoriana habitual caiu-lhe em cima. Presumo que já tenha colocado tão previsível facto no seu CV.
Os lagartos voltaram a Cantelães e amanhã chegam as crianças. Uma jornalista perguntou-me como tinha resistido ao vírus da política, sendo bisneto e filho de quem sou. Respondi-lhe que fiz política toda a vida, só recusei os antolhos interesseiros das juvenis manadas partidárias e os nacos distribuídos a certos independentes (?) pelos sucessivos Poderes.
A vila em festa, o Vieirense subiu de divisão!!!!!!! Resultado - tive 15 pessoas na conferência:). Indubitável sinal de sageza, quem se interessa pela sexualidade dos gerontes quando pode gritar de alegria, abençoado por um sol cozinhado a trinta graus?
Maria de Belém Roseira demarcou-se do estilo trauliteiro da campanha do PS. (Tens razão, o mesmo partido que se vitimiza por qualquer referência ao caso Freeport...). A guarda pretoriana habitual caiu-lhe em cima. Presumo que já tenha colocado tão previsível facto no seu CV.
Os lagartos voltaram a Cantelães e amanhã chegam as crianças. Uma jornalista perguntou-me como tinha resistido ao vírus da política, sendo bisneto e filho de quem sou. Respondi-lhe que fiz política toda a vida, só recusei os antolhos interesseiros das juvenis manadas partidárias e os nacos distribuídos a certos independentes (?) pelos sucessivos Poderes.
quarta-feira, maio 27, 2009
Quinta cedinho.
Maria,
Ontem segui um pouco dos trabalhos da Comissão sobre o BPN. Além de ajustes de contas e águas fora dos capotes, que me deixaram indiferente por já estar dessenssibilizado, houve um pormenor (?) de interesse - a prostatite, quando sujeita ao stress de tentar salvar um banco, evolui para cancro! Foi a primeira vez que não invejei um bocadinho os banqueiros...
Em relação a impostos, o PS, como de costume, cobre todas as frentes: Almeida Santos aceita-os ao nível mundial, Vital Moreira ao nível europeu, Elisa Ferreira é contra e José Sócrates não se pronuncia. No que à Educação Sexual diz respeito, foi procurado um consenso no partido e na sociedade, que desaguou numa verdadeira "descentralização" de responsabilidades.
Já na violência doméstica não há margem para enganos ou interpretações - continua de vento em popa:(.
Ontem segui um pouco dos trabalhos da Comissão sobre o BPN. Além de ajustes de contas e águas fora dos capotes, que me deixaram indiferente por já estar dessenssibilizado, houve um pormenor (?) de interesse - a prostatite, quando sujeita ao stress de tentar salvar um banco, evolui para cancro! Foi a primeira vez que não invejei um bocadinho os banqueiros...
Em relação a impostos, o PS, como de costume, cobre todas as frentes: Almeida Santos aceita-os ao nível mundial, Vital Moreira ao nível europeu, Elisa Ferreira é contra e José Sócrates não se pronuncia. No que à Educação Sexual diz respeito, foi procurado um consenso no partido e na sociedade, que desaguou numa verdadeira "descentralização" de responsabilidades.
Já na violência doméstica não há margem para enganos ou interpretações - continua de vento em popa:(.
domingo, maio 24, 2009
Domingo à noite.
E não se pode inventar um cargo para Quique? Como treinador, ontem vi mais do mesmo - uma equipa a demonstrar como (não) se defende, putos a correr e Aimar lamuriento, o trejeito de Quique em face do terceiro golo, a trair agradável surpresa, quando devia ter mexido há séculos. Bref, o homem não se entende com o futebol cá do jardim à beira-mar plantado. Mas é um sinhôri, carago! Responsável pelas relações internacionais? Supervisor da comunicação de todos os membros do clube com o exterior? Presidente da Casa do Benfica em Madrid? A sério: se partir, desejo-lhe tudo de bom; se ficar, que abra os olhinhos cobiçados pelas minhas amigas:).
A campanha para as europeias não promete ser muito excitante. Sócrates suado, Vital crispado, Rangel inchado, Manuela aliviada, o Bloco Central reage às sondagens. Nuno Melo esmaga do alto dos cartazes, Jerónimo pôe 85.000 na rua sem ser patrão, Louçã não larga o ombro de Portas, que a memória visual conta muito. A abstenção espera e - ou muito me engano! - encolhe os ombros antes de se espreguiçar...
A raposa não voltou:(.
A campanha para as europeias não promete ser muito excitante. Sócrates suado, Vital crispado, Rangel inchado, Manuela aliviada, o Bloco Central reage às sondagens. Nuno Melo esmaga do alto dos cartazes, Jerónimo pôe 85.000 na rua sem ser patrão, Louçã não larga o ombro de Portas, que a memória visual conta muito. A abstenção espera e - ou muito me engano! - encolhe os ombros antes de se espreguiçar...
A raposa não voltou:(.
quarta-feira, maio 20, 2009
Curiosa equivalência.
Preparo aulas. E tropeço numa comparação deliciosa:). Partindo da obra A Teoria dos Sentimentos Morais, de Adam Smith, em que - aparentemente, sou leigo na matéria... - ele sublinha a importância da capacidade de nos pormos no lugar do Outro, única forma de moderar a cupidez no mercado, Laqueur demonstra como a masturbação era condenada por também ir para além do "egoísmo e luxo permissíveis" numa sociedade burguesa que mergulhava nas delícias do consumo. A masturbação, como a especulação, não seria geradora de qualquer bem comum.
E digo para os meus botões - estaríamos bem melhor se alguns financeiros, portugueses e estrangeiros, se entregassem mais ao auto-erotismo e e menos à actividade bolsista...
E digo para os meus botões - estaríamos bem melhor se alguns financeiros, portugueses e estrangeiros, se entregassem mais ao auto-erotismo e e menos à actividade bolsista...
domingo, maio 17, 2009
Aqui entre nós, águias depenadas:).
1) O Benfica ganhou.
2) Jorge Jesus adivinhou a equipa adversária que ia jogar! Competência? Bruxedo? Ou milagre, como o nome parece indicar?:).
3) Quique manteve a elegância nas entrevistas - para não falar dos olhos que derretem todas as minhas amigas:) - e foi expulso. Devo admitir que depois da agressão sofrida por um jogador do Benfica, não sei o que disse, mas eu teria dito pior! Já a sua imagem sobre a época, deixou-me uma vez mais de boca aberta - um carro que avaria a cinco metros da meta????? A equipa nunca esteve perto da meta a nível exibicional e na classificação "durou" a crise outonal do Porto. E "exílios" como os de Cardozo e Urreta não têm explicação plausível.
4) Rui Costa, na minha opinião, cometeu um pecado (pouco) original - teve muita pressa. Quis ser campeão imediatamente e "meteu a cave" nas aquisições. Perdeu. Para satisfazer o treinador, sacrificou Diamantino e Chalana e fez mal, Quique pareceu um ET em muitos jogos do campeonato, sobretudo contra as equipas mais modestas (?). Veja-se os pontos perdidos contra quem agora se debate no fundo da tabela... É tempo de aprender e construir com bases sólidas. Seja quem for o treinador...
2) Jorge Jesus adivinhou a equipa adversária que ia jogar! Competência? Bruxedo? Ou milagre, como o nome parece indicar?:).
3) Quique manteve a elegância nas entrevistas - para não falar dos olhos que derretem todas as minhas amigas:) - e foi expulso. Devo admitir que depois da agressão sofrida por um jogador do Benfica, não sei o que disse, mas eu teria dito pior! Já a sua imagem sobre a época, deixou-me uma vez mais de boca aberta - um carro que avaria a cinco metros da meta????? A equipa nunca esteve perto da meta a nível exibicional e na classificação "durou" a crise outonal do Porto. E "exílios" como os de Cardozo e Urreta não têm explicação plausível.
4) Rui Costa, na minha opinião, cometeu um pecado (pouco) original - teve muita pressa. Quis ser campeão imediatamente e "meteu a cave" nas aquisições. Perdeu. Para satisfazer o treinador, sacrificou Diamantino e Chalana e fez mal, Quique pareceu um ET em muitos jogos do campeonato, sobretudo contra as equipas mais modestas (?). Veja-se os pontos perdidos contra quem agora se debate no fundo da tabela... É tempo de aprender e construir com bases sólidas. Seja quem for o treinador...
segunda-feira, maio 11, 2009
Breves.
Sábado à noite uma raposa passeava-se no relvado de Cantelães. Passear é um verbo infeliz. Sem perder a elegância, a bicha não conseguia esconder a sombra que carregava sob as costelas exibicionistas - fome pura e dura. Nem os holofotes lhe travaram a busca, focinho junto à relva. "Atrás dos grilos", disse o Zé. Uma raposa famélica na ribalta. À caça de grilos... Fui deitar-me com a sensação de ter presenciado uma alegoria sinistra aos tempos modernos.
Assisti a mais uma conferência de imprensa da ministra da Saúde. Eficaz, na minha opinião. Porque a senhora transmite uma sensação de timidez competente e genuína que a torna credível.
Parabéns aos murcónicos dragões:).
Assisti a mais uma conferência de imprensa da ministra da Saúde. Eficaz, na minha opinião. Porque a senhora transmite uma sensação de timidez competente e genuína que a torna credível.
Parabéns aos murcónicos dragões:).
terça-feira, maio 05, 2009
Ponto da situação sobre a gripe política:).
Maria,
Vital Moreira vitimiza-se por agressões quase físicas, Paulo Rangel por agressões verbais. O Bloco Central dos interesses nunca deixou de existir. Agora, além dos requebros diários perante a hipótese de uma aliança política escancarada, presenciamos um dueto digno da banda sonora de O Silêncio dos Inocentes.
Pensa bem antes de voltares...
Vital Moreira vitimiza-se por agressões quase físicas, Paulo Rangel por agressões verbais. O Bloco Central dos interesses nunca deixou de existir. Agora, além dos requebros diários perante a hipótese de uma aliança política escancarada, presenciamos um dueto digno da banda sonora de O Silêncio dos Inocentes.
Pensa bem antes de voltares...
quinta-feira, abril 30, 2009
Notas breves.
Maria,
Citando o velho Georgie - Here comes the sun:). E nem a pipa de trabalho à espera no fim-de-semana me impedirá de visitar a beira-rio e espojado num dos bancos meditar sobre a realidade do país:
1 - O Engenheiro Sócrates - não confundir com o visado no último sucesso dos Xutos... - pediu desculpa! O PS utilizou eleitoralmente criancinhas que só deviam ser utilizadas eleitoralmente pelo Governo. Presumo que o Secretário-Geral do Partido estava a pedir desculpa aos cachopos, às famílias e... ao Primeiro-Ministro!
2 - Os media tentam, solícitos, ajudar a cruzada de uma jovem que não consegue arrebanhar sócias para o seu clube de virgens. A solidão é tal que a moça já prescinde do cavalo branco e aceita que o príncipe encantado chegue de carro da mesma cor.
3 - Manuela Ferreira Leite aceita mas não aceita um Governo do Bloco Central. Há quem diga que o PS está no polo oposto: não aceita mas aceita.
4 - Um jogador de futebol do Real Madrid deu um pontapé num adversário, um soco noutro e insultou toda a equipa de arbitragem. Apanhou dez jogos. Pelo menos um responsável da Federação Portuguesa de Futebol - além do clube, claro! - considera o castigo exagerado. E é coerente, afinal a mesma Federação branqueou uma agressão do ex-seleccionador, nesse momento pouco inspirado pela Senhora de Fátima ou de Caravaggio.
5 - De uma forma insuportavelmente snob, o vírus da gripe suíno/mexicana ainda não se dignou a poisar em Portugal. Diz-se que confrontado pelo nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros respondeu, surpreso, ofendido e iberista, já ter polvilhado a Andaluzia.
6 - D. Nuno Álvares Pereira foi santificado por um milagre oftalmológico em Vila Franca de Xira. De forma não menos miraculosa, a inauguração da ressuscitada Praça Oliveira Salazar em Santa Comba calhou no dia 25 de Abril...
7 - O país continua parado em velocidade de cruzeiro. Com excepção do desemprego...
Citando o velho Georgie - Here comes the sun:). E nem a pipa de trabalho à espera no fim-de-semana me impedirá de visitar a beira-rio e espojado num dos bancos meditar sobre a realidade do país:
1 - O Engenheiro Sócrates - não confundir com o visado no último sucesso dos Xutos... - pediu desculpa! O PS utilizou eleitoralmente criancinhas que só deviam ser utilizadas eleitoralmente pelo Governo. Presumo que o Secretário-Geral do Partido estava a pedir desculpa aos cachopos, às famílias e... ao Primeiro-Ministro!
2 - Os media tentam, solícitos, ajudar a cruzada de uma jovem que não consegue arrebanhar sócias para o seu clube de virgens. A solidão é tal que a moça já prescinde do cavalo branco e aceita que o príncipe encantado chegue de carro da mesma cor.
3 - Manuela Ferreira Leite aceita mas não aceita um Governo do Bloco Central. Há quem diga que o PS está no polo oposto: não aceita mas aceita.
4 - Um jogador de futebol do Real Madrid deu um pontapé num adversário, um soco noutro e insultou toda a equipa de arbitragem. Apanhou dez jogos. Pelo menos um responsável da Federação Portuguesa de Futebol - além do clube, claro! - considera o castigo exagerado. E é coerente, afinal a mesma Federação branqueou uma agressão do ex-seleccionador, nesse momento pouco inspirado pela Senhora de Fátima ou de Caravaggio.
5 - De uma forma insuportavelmente snob, o vírus da gripe suíno/mexicana ainda não se dignou a poisar em Portugal. Diz-se que confrontado pelo nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros respondeu, surpreso, ofendido e iberista, já ter polvilhado a Andaluzia.
6 - D. Nuno Álvares Pereira foi santificado por um milagre oftalmológico em Vila Franca de Xira. De forma não menos miraculosa, a inauguração da ressuscitada Praça Oliveira Salazar em Santa Comba calhou no dia 25 de Abril...
7 - O país continua parado em velocidade de cruzeiro. Com excepção do desemprego...
terça-feira, abril 28, 2009
Confessionário.
Maria,
Que exagero! - "és o meu pecado:(".
Mas enfim, pelo menos aceita a cunha deste agnóstico e faz dele - e nele... - a tua penitência:).
Que exagero! - "és o meu pecado:(".
Mas enfim, pelo menos aceita a cunha deste agnóstico e faz dele - e nele... - a tua penitência:).
quinta-feira, abril 23, 2009
Dizem que é uma espécie de coerência:).
No mesmo dia, duas pessoas me referiram ter visto o Sexualidades na RTP-Memória por volta das duas da manhã. E eu sorri. Se é verdade, dezoito anos não chegaram para acabar o desterro em horário de filme pornográfico. Talvez se mostrasse mulheres nuas ou sentimentos em carne viva pudesse aspirar a um cantinho ao fim da tarde...
segunda-feira, abril 20, 2009
Infecciosos...
Mais uma sala, mais uma audiência, mais uma sessão, masi uma voltinha, como nos carros de choque da minha infância:). Mas esta em Arouca, com o Manel Sobrinho Simões a meu lado e dentro de mim a deliciosa confirmação de que continuamos a divertir-nos como garotos quando "actuamos" juntos. O resto do fim-de-semana passado à mesa e por montes e vales, "anda Vaz!", desafia o maroto, bem mais habituado aquelas andanças. E sobretudo o enorme privilégio de termos connosco os filhos, quase trinta anos depois de ali também nos juntarmos, tinham eles a idade dos netos que correm hoje pelo jardim. Os Vazes e os Simões vêm de longe e a continuidade da tribo está assegurada. Os dois patriarcas vêem-nos na primeira fila, segredando maroteiras acerca dos seus velhotes, e saboreiam a pacificação que permite um riso mais aberto do que nunca - a nossa cumplicidade contagiou-os:).
segunda-feira, abril 13, 2009
Como teria sido?
Maria,
Páscoa de agnóstico: texto esboçado, saudades de Cantelães, vingança no cabrito. Velho hábito de solitário, a televisão em fundo. A vida de um Cristo "adolescente", quase maroto perante o espanto provocado pelo seu poder. Dei comigo a pensar uma heresia - que pena ter aquele magnífico filho de um homem decidido ser necessário morrer para lavar um pecado transmitido geneticamente e que Agostinho amarraria ao sexo. Quão melhor teria sido vê-lo pregar durante longos anos o amor ao próximo, escutar as mulheres, expulsar os vendilhões; rir. Tê-lo-iam morto de qualquer maneira? Provavelmente. Mas ninguém o poderia invocar para defender uma visão do mundo baseada na culpa inata, no vale de lágrimas que conduz à beatitude post-mortem, nos milhares de páginas escritas por homens de negro assombrados pelo desejo do mundo nos seus conventos.
Preferia que tivesse vivido e não morrido por nós... Mas que sei eu?
Páscoa de agnóstico: texto esboçado, saudades de Cantelães, vingança no cabrito. Velho hábito de solitário, a televisão em fundo. A vida de um Cristo "adolescente", quase maroto perante o espanto provocado pelo seu poder. Dei comigo a pensar uma heresia - que pena ter aquele magnífico filho de um homem decidido ser necessário morrer para lavar um pecado transmitido geneticamente e que Agostinho amarraria ao sexo. Quão melhor teria sido vê-lo pregar durante longos anos o amor ao próximo, escutar as mulheres, expulsar os vendilhões; rir. Tê-lo-iam morto de qualquer maneira? Provavelmente. Mas ninguém o poderia invocar para defender uma visão do mundo baseada na culpa inata, no vale de lágrimas que conduz à beatitude post-mortem, nos milhares de páginas escritas por homens de negro assombrados pelo desejo do mundo nos seus conventos.
Preferia que tivesse vivido e não morrido por nós... Mas que sei eu?
terça-feira, abril 07, 2009
Fora das quatro linhas:).
A(lguma) lucidez é um vício doloroso. Aconteceu-me ao longo da vida suspirar pelas certezas de mecanismos de defesa psicológicos conseguidos. Mas lembro um dos meus professores, há mais de trinta anos: "A sublimação é um mecanismo de defesa. Socialmente aceite e útil, mas um mecanismo de defesa." Tomaria a liberdade de alargar o conceito: a eficácia ansiolítica de um processo psicológico não impede que traduza sempre uma desesperada, ainda que inconsciente, fuga aos espelhos. Quanto a mim, prefiro tentar sobreviver-lhes...
Com inveja, mas sem hipocrisia:).
Parabéns ao Futebol Clube do Porto, que merecia ter ganho o jogo. Como cresceu a equipa desde Outubro/Novembro! Que me seja permitido destacar Cissokho, o miúdo tornou-se um veterano em poucos meses. Na minha opinião, apenas Liverpool e Barcelona podem bater o FCP. Atendendo a que estão na outra metade do sorteio..., cheira a final que tresanda:).
segunda-feira, março 30, 2009
O seu a seu dono.
Hoje, um puto de 24 anos obrigou o número um do ténis mundial a jogar muito perto do seu melhor para o derrotar. Sem Ferraris vermelhos, fanfarronadas, barba crescida, frases do género "há quem tenha a lata de apontar o dedo aos jogadores da selecção", doutoramentos honoris causa, ordenados milionários, etc... Amanhã receio que seja remetido para a sombra do último putativo reforço do Benfica, o Congresso leonino ou o aportuguesamento da equipa do FCP. O rapaz é um dos 70 melhores jogadores do mundo, mesmo sem bandeiras nas janelas, caramba! Haverá vida em Portugal para lá do futebol?
quinta-feira, março 26, 2009
Che.
Benicio del Toro compôe um Che convincente. Como hipocondríaco - e paridinho... - espanto-me com a teimosia do guerrilheiro, capaz de manter em respeito o asmático. Partes da sua entrevista utilizada no filme são de uma actualidade indesmentível. O pequeno burguês que sempre fui, admira o homem que perseguiu a revolução sonhada noutras paragens e nesse processo encontrou a morte, mas abana a cabeça com amargura perante o regime instalado em Cuba. Entre a alienação capitalista e o socialismo traído não existirá nada?
segunda-feira, março 23, 2009
Extraordinário país!
Crise? Mas que crise?
Duas equipas fizeram um jogo paupérrimo; um árbitro coleccionou asneiras sob o ponto de vista disciplinar e cometeu um erro técnico grave; um jogador atirou a medalha ao chão e ofereceu-a ao ladrão do árbitro; um treinador descobre um novo significado para o mais conhecido gesto indicando gamanço da nossa praça; os dirigentes, alimentados pelos media, ocupam a boca de cena há 48 horas e tencionam continuar. Etc...
Crise? mas que crise?
Ainda a propósito de cinema: em 24 horas vi "O Leitor" e o "Quem quer ser Milionário?". Só encontro uma justificação para a chuva de óscares que se abateu sobre o segundo - o mercado indiano. Suponho que o próximo laureado seja chinês...
Duas equipas fizeram um jogo paupérrimo; um árbitro coleccionou asneiras sob o ponto de vista disciplinar e cometeu um erro técnico grave; um jogador atirou a medalha ao chão e ofereceu-a ao ladrão do árbitro; um treinador descobre um novo significado para o mais conhecido gesto indicando gamanço da nossa praça; os dirigentes, alimentados pelos media, ocupam a boca de cena há 48 horas e tencionam continuar. Etc...
Crise? mas que crise?
Ainda a propósito de cinema: em 24 horas vi "O Leitor" e o "Quem quer ser Milionário?". Só encontro uma justificação para a chuva de óscares que se abateu sobre o segundo - o mercado indiano. Suponho que o próximo laureado seja chinês...
sexta-feira, março 20, 2009
Abençoados 78!
O último Eastwood é esplendoroso. Dir-se-ia a Paixão de um Dirty Harry que descobre a sageza e os outros:).
terça-feira, março 17, 2009
Continuando...
Uma das coisas que me continuam a impressionar nos mais velhos é a triste "eficácia" com que muitos ainda fazem suas imagens alheias. Não há pides tão severos como os que acarretamos dentro de nós e sussurram "o sexo é para os jovens, não sejas ridículo(a), como te atreves a empregar palavras como namoro, paixão ou desejo para o que te vai dentro? Já é uma sorte que não te decretem tão perverso nos afectos como analfabeto na informática e inútil na memória! ".
domingo, março 15, 2009
Números degradantes.
Sexualidade e Envelhecimento é já a conferência mais escolhida do meu "menu". Admitindo que as rugas próprias - de corpo e alma... - tenham algo a ver com tal sucesso, a razão principal é evidente - mesmo a custo, a sociedade vai-se aceitando que não nos tornamos assexuados por decreto do B.I. Mas quando leio que 230.000 portugueses, sobretudo idosos, já devem nas farmácias ou pagam a prestações, receio dissertar sobre um artigo de luxo:(.
domingo, março 08, 2009
O imperdoável desleixo.
Três dias na Madeira, a convite do Congresso de Medicina Interna. Trataram-me como um príncipe em todo o lado - no Congresso, na Câmara, onde fiz uma conferência, na rádio, onde gravei O Amor é... para a semana. Antigos alunos pararam-me nos corredores - "sou do ano...", um velho amigo de adolescência desaguou no hotel e pusemos a conversa (quase) em dia, os médicos "a sério" fizeram-me sentir um deles:).
E no entanto... Tudo o resto perdeu importância, quando comparado ao enorme gozo de reencontrar o Mário Espiga de Macedo e o Manuel Sobrinho Simões. O Mário é meu amigo há 47 anos, o Manel "só" há 41, mas a correria em que sempre andamos torna os encontros portuenses tão improváveis como raros:(. Foi preciso estarmos os três em trabalho a uma hora e meia de voo!
Tais desleixos são imperdoáveis. Sobretudo em médicos, especialistas na precariedade, para variar trocámos notícias tristes acerca de gente amiga... Por isso os olhei com ternura culpada durante o jantar de sexta. Como se o carinho que me invadia trouxesse a responsabilidade de não permitir nunca mais desencontros preguiçosos de workaholics, privando-nos de gargalhadas como as madeirenses, tão espontâneas e imaculadas que o coração, incrédulo e divertido, fita o bilhete de identidade e aconselha-o a procurar ajuda médica por diagnóstico fácil - sofre de obsessão pelo tempo dos relógios.
E no entanto... Tudo o resto perdeu importância, quando comparado ao enorme gozo de reencontrar o Mário Espiga de Macedo e o Manuel Sobrinho Simões. O Mário é meu amigo há 47 anos, o Manel "só" há 41, mas a correria em que sempre andamos torna os encontros portuenses tão improváveis como raros:(. Foi preciso estarmos os três em trabalho a uma hora e meia de voo!
Tais desleixos são imperdoáveis. Sobretudo em médicos, especialistas na precariedade, para variar trocámos notícias tristes acerca de gente amiga... Por isso os olhei com ternura culpada durante o jantar de sexta. Como se o carinho que me invadia trouxesse a responsabilidade de não permitir nunca mais desencontros preguiçosos de workaholics, privando-nos de gargalhadas como as madeirenses, tão espontâneas e imaculadas que o coração, incrédulo e divertido, fita o bilhete de identidade e aconselha-o a procurar ajuda médica por diagnóstico fácil - sofre de obsessão pelo tempo dos relógios.
domingo, março 01, 2009
Trabalho e ecrã.
Maria,
Não fui para Cantelães. Conheces-me: a hipótese de levar à Madeira uma apresentação já preparada espicaçou esta culpabilidade judaico-cristã de agnóstico nostálgico; fiz outra. Mas com a televisão ligada...
O Congresso do PS fluiu como previsto. António José Seguro contribuiu para o debate estando presente, João Soares idem aspas; Manuel Alegre aceitou ser da Comissão de Honra, mas não pôs lá os pés; Vera Jardim levantou questões mais do que pertinentes e embrulhou-as num par de elogios, Ana Gomes surgiu no Eixo do Mal em 33 rotações no que às críticas habituais diz respeito, ambos ficaram a anos-luz da adjectivação ditirâmbica de outros... Resultado? Os grandes momentos de "heterodoxia" ficaram a dever-se a um delegado que nunca viu um galo apaixonar-se por outro galo, a outro que declamou versos dedicados à Dra. Edite Estrela - com a devida permissão da esposa! - e aos inevitáveis excursionistas, alguns dos quais responsabilizaram as televisões pelo apagão de Sábado á noite...
Lembrei-me de uma frase tua: "és cínico por convicção e ingénuo por fraqueza". Devo confessar que desde a separação ainda me irrita mais dar-te razão, mas... Imagina que fantasiei o enfado de Sócrates em face de tanto - como é a frase? - culto da personalidade. Eu sei, ele instiga-o e chama um figo às oportunidades de vitimização que lhe oferecem. Tenho pena, sabes? Nos últimos tempos o político vem-me desiludindo, na substância bastantes vezes, quase sempre na forma, sua ou dos "pretorianos" de serviço. Mas não deixei de gostar do homem.
A propósito, o duplo-padrão continua de boa saúde. Quando a Hillary se comoveu, não faltaram as vozes a dizerem que se tratava de manobra estratégica, Sócrates "abanou" e mesmo os comentadores mais agressivos se limitaram a estranhar a brecha na habitual armadura. Tivesse eu os últimos meses que lhe aterraram no colo e desconfio que me atribuiriam lugar cativo na Unidade Coronária! Mas tudo se paga, não me pareceu em boa forma. Os discursos foram medianos e a concentração do fogo sobre o Bloco de Esquerda um erro, na minha modesta opinião.
Como é evidente, Louçã capitalizou-o. Mas, para te falar com franqueza, não estou seguro que o Bloco perceba os perigos que se escondem por trás das generosas sondagens. Alegre não rompe, está bom de ver, por natureza e cálculo. O Bloco disputará com a abstenção uma larga fatia de eleitorado de esquerda, indisponível para decretar como únicas hipóteses a maioria absoluta do PS ou o caos neste jardim à beira-mar plantado. Mas se acontecer uma subida clara de votação no contexto de outra amuada maioria relativa do PS, os tempos de adolescência chegarão ao fim - ninguém exigirá ao Bloco alianças estruturadas, mas o apoio a medidas pontuais será cuidadosamente escrutinado. E se a imagem resultante do exame for a de uma oposição sistemática "porque sim", um ocaso à la PRD não é de excluir, há uma enorme diferença entre o voto reactivo e o consolidado.
P.S. À direita, como diria Remarque, nada de novo. Remarque? Margarida Rebelo Pinto? Dan Brown? Camões? Desculpa, mas depois de toda a discussão acerca da obra do Sartre que Pedro Passos Coelho leu (?) e com os sessenta anos ao virar da esquina, a memória parece cada vez mais traiçoeira:(.
Fica bem.
Não fui para Cantelães. Conheces-me: a hipótese de levar à Madeira uma apresentação já preparada espicaçou esta culpabilidade judaico-cristã de agnóstico nostálgico; fiz outra. Mas com a televisão ligada...
O Congresso do PS fluiu como previsto. António José Seguro contribuiu para o debate estando presente, João Soares idem aspas; Manuel Alegre aceitou ser da Comissão de Honra, mas não pôs lá os pés; Vera Jardim levantou questões mais do que pertinentes e embrulhou-as num par de elogios, Ana Gomes surgiu no Eixo do Mal em 33 rotações no que às críticas habituais diz respeito, ambos ficaram a anos-luz da adjectivação ditirâmbica de outros... Resultado? Os grandes momentos de "heterodoxia" ficaram a dever-se a um delegado que nunca viu um galo apaixonar-se por outro galo, a outro que declamou versos dedicados à Dra. Edite Estrela - com a devida permissão da esposa! - e aos inevitáveis excursionistas, alguns dos quais responsabilizaram as televisões pelo apagão de Sábado á noite...
Lembrei-me de uma frase tua: "és cínico por convicção e ingénuo por fraqueza". Devo confessar que desde a separação ainda me irrita mais dar-te razão, mas... Imagina que fantasiei o enfado de Sócrates em face de tanto - como é a frase? - culto da personalidade. Eu sei, ele instiga-o e chama um figo às oportunidades de vitimização que lhe oferecem. Tenho pena, sabes? Nos últimos tempos o político vem-me desiludindo, na substância bastantes vezes, quase sempre na forma, sua ou dos "pretorianos" de serviço. Mas não deixei de gostar do homem.
A propósito, o duplo-padrão continua de boa saúde. Quando a Hillary se comoveu, não faltaram as vozes a dizerem que se tratava de manobra estratégica, Sócrates "abanou" e mesmo os comentadores mais agressivos se limitaram a estranhar a brecha na habitual armadura. Tivesse eu os últimos meses que lhe aterraram no colo e desconfio que me atribuiriam lugar cativo na Unidade Coronária! Mas tudo se paga, não me pareceu em boa forma. Os discursos foram medianos e a concentração do fogo sobre o Bloco de Esquerda um erro, na minha modesta opinião.
Como é evidente, Louçã capitalizou-o. Mas, para te falar com franqueza, não estou seguro que o Bloco perceba os perigos que se escondem por trás das generosas sondagens. Alegre não rompe, está bom de ver, por natureza e cálculo. O Bloco disputará com a abstenção uma larga fatia de eleitorado de esquerda, indisponível para decretar como únicas hipóteses a maioria absoluta do PS ou o caos neste jardim à beira-mar plantado. Mas se acontecer uma subida clara de votação no contexto de outra amuada maioria relativa do PS, os tempos de adolescência chegarão ao fim - ninguém exigirá ao Bloco alianças estruturadas, mas o apoio a medidas pontuais será cuidadosamente escrutinado. E se a imagem resultante do exame for a de uma oposição sistemática "porque sim", um ocaso à la PRD não é de excluir, há uma enorme diferença entre o voto reactivo e o consolidado.
P.S. À direita, como diria Remarque, nada de novo. Remarque? Margarida Rebelo Pinto? Dan Brown? Camões? Desculpa, mas depois de toda a discussão acerca da obra do Sartre que Pedro Passos Coelho leu (?) e com os sessenta anos ao virar da esquina, a memória parece cada vez mais traiçoeira:(.
Fica bem.
segunda-feira, fevereiro 23, 2009
Breves.
Maria,
1 - 70.000 novos desempregados em Janeiro.
2 - 5.000 euros de multa por corrupção activa provada.
3 - Uma gentil menina perguntou-me se a borracha insuflável será a solução para o crescente isolamento sexual.
4 - Penn ganhou o Óscar e um crítico encontrou a expressão certa - ele dissolveu-se no personagem.
5 - A Elisa esteve bem na Alfândega, ao discurso de grande solidez que lhe conhecia juntou um sorriso de genuína comoção. Vai precisar de ambos... (A propósito: ao contrário do que gostavas de insinuar, o PM sempre teve por ela a maior admiração. Até pelo seu mau génio!)
6 - No top ten dos heróis americanos, Obama ultrapassou Jesus Cristo. Pobre Lennon, que foi crucificado por dizer que era mais conhecido...
7 - Em 24 horas uma graça ao Magalhães foi proibida, autorizada e satisfez todos os envolvidos pela publicidade que trouxe ao Carnaval de Torres. Acho bem, deve sair mais barato do que trazer estrelas de telenovelas. E contudo...
1 - 70.000 novos desempregados em Janeiro.
2 - 5.000 euros de multa por corrupção activa provada.
3 - Uma gentil menina perguntou-me se a borracha insuflável será a solução para o crescente isolamento sexual.
4 - Penn ganhou o Óscar e um crítico encontrou a expressão certa - ele dissolveu-se no personagem.
5 - A Elisa esteve bem na Alfândega, ao discurso de grande solidez que lhe conhecia juntou um sorriso de genuína comoção. Vai precisar de ambos... (A propósito: ao contrário do que gostavas de insinuar, o PM sempre teve por ela a maior admiração. Até pelo seu mau génio!)
6 - No top ten dos heróis americanos, Obama ultrapassou Jesus Cristo. Pobre Lennon, que foi crucificado por dizer que era mais conhecido...
7 - Em 24 horas uma graça ao Magalhães foi proibida, autorizada e satisfez todos os envolvidos pela publicidade que trouxe ao Carnaval de Torres. Acho bem, deve sair mais barato do que trazer estrelas de telenovelas. E contudo...
domingo, fevereiro 22, 2009
Da memória e outras raízes.
Frustração
Fútil viagem
de que restam
sílabas
que não latejam.
António Ramos Rosa, Estrias.
Fútil viagem
de que restam
sílabas
que não latejam.
António Ramos Rosa, Estrias.
segunda-feira, fevereiro 16, 2009
A desatenção.
So,
So you think you can tell
Heaven from Hell,Blue skies from pain
Can you tell a green fieldFrom a cold steel rail?
A smile from a veil?Do you think you can tell?
Did they get you to tradeYour heroes for ghosts?
Hot ashes for trees?Hot air for a cool breeze?
Cold comfort for change?Did you exchange
A walk on part in the warFor a lead role in a cage?
How I wish, how I wish you were here
We're just two lost soulsSwimming in a fish bowl,Year after year,
Running over the same old ground.What have we found?
The same old fears
Wish you were here
Maria,
Uma vez mandaste o poema. Sem uma palavra tua como legenda ou bala ... E eu, cheio de fúria injusta e culpa honesta, aterrado por me ver ao espelho na triste doçura de canção favorita, parti e ceguei. Ou ao contrário... Certo é que me escapou um pormenor singular - o plural!
"We're just...". Acossado, soltei garras e velas, sem perceber que nunca abandonaras o navio, era também dos teus medos que falavas.
Aquele plural, mais a alma em que não acredito, o aquário claustrofóbico e os anos em sessão contínua poderiam ter-nos mantido juntos, se este umbigo medroso não me hipnotizasse:(.
De acordo, Maria, "os mesmos velhos medos...". Acredita, por favor, desejo de todo o coração que não seja hoje o caso. Por a vida em geral e um amor em particular terem estilhaçado os que te assombravam. Os meus? Wish they were gone...
So you think you can tell
Heaven from Hell,Blue skies from pain
Can you tell a green fieldFrom a cold steel rail?
A smile from a veil?Do you think you can tell?
Did they get you to tradeYour heroes for ghosts?
Hot ashes for trees?Hot air for a cool breeze?
Cold comfort for change?Did you exchange
A walk on part in the warFor a lead role in a cage?
How I wish, how I wish you were here
We're just two lost soulsSwimming in a fish bowl,Year after year,
Running over the same old ground.What have we found?
The same old fears
Wish you were here
Maria,
Uma vez mandaste o poema. Sem uma palavra tua como legenda ou bala ... E eu, cheio de fúria injusta e culpa honesta, aterrado por me ver ao espelho na triste doçura de canção favorita, parti e ceguei. Ou ao contrário... Certo é que me escapou um pormenor singular - o plural!
"We're just...". Acossado, soltei garras e velas, sem perceber que nunca abandonaras o navio, era também dos teus medos que falavas.
Aquele plural, mais a alma em que não acredito, o aquário claustrofóbico e os anos em sessão contínua poderiam ter-nos mantido juntos, se este umbigo medroso não me hipnotizasse:(.
De acordo, Maria, "os mesmos velhos medos...". Acredita, por favor, desejo de todo o coração que não seja hoje o caso. Por a vida em geral e um amor em particular terem estilhaçado os que te assombravam. Os meus? Wish they were gone...
quarta-feira, fevereiro 11, 2009
TVC3.
James Dean. A Leste do Paraíso. E uma frase de Tyrone Power sobre ele: "Teve sorte, morreu sem conhecer o declínio". Talvez. Eu lembro-o com mais ternura do que a opulenta Marylin e os seus Kennedys e DiMaggio. "Too fast to live, too young to die", cantavam os Eagles.
Demasiado rebelde para não ser lembrado com saudade neste mundo cinzentão, digo eu...
Demasiado rebelde para não ser lembrado com saudade neste mundo cinzentão, digo eu...
terça-feira, fevereiro 10, 2009
Milk...
... é um tributo magnificente ao homem e à luta. E no entanto..., com os seus "perigos". Já ouvi os elogios ditirâmbicos - e merecidos... - ao desempenho de Penn desaguarem no horror pelo que ainda podia acontecer "naquele tempo", afinal "só passaram trinta anos".
Tenho más notícias, péssimas notícias!, para as nossas alvas consciências - uma nórdica lésbica no Poder não assegura a Primavera da aceitação, sobra caminho por andar:(.
Tenho más notícias, péssimas notícias!, para as nossas alvas consciências - uma nórdica lésbica no Poder não assegura a Primavera da aceitação, sobra caminho por andar:(.
sexta-feira, fevereiro 06, 2009
Soltas.
Maria,
Notícias da nossa querida parvónia:
1 - O senhor Stanley Ho teve prejuízos na ordem dos 90%. Resultado catastrófico - passou da posição 89 para a 113 na lista dos mais ricos do mundo. Um dia destes está na sopa dos pobres:(.
2 - Trabalhadores da Amorim foram despedidos. Notícia de alguns jornais: o português mais rico também despede. Acho incrível que estes trabalhadores manchem assim uma reputação!
3 - O Augusto Santos Silva entusiasmou-se e disse que gostava de malhar na Oposição. Depois explicou que era uma questão de contexto. A todo o momento se espera um esclarecimento sobre os locais em que utilizaria os verbos zurzir e debater...
4 - Manuel Alegre desancou-o - não sei se o verbo é o correcto... - e Augusto Santos Silva declarou-se um pigmeu perante ele.
5 - Aproveitando este bom ambiente no PS, o PSD apressou-se a ultrapassá-lo na descida nas sondagens. Há quem diga que o Dr. Luís Filipe Menezes se verá obrigado - mais uma vez... - a romper o silêncio que jurara depois da sua demissão.
6 - Surpreendentemente, o CDS prepara-se para apoiar Santana Lopes na corrida por Lisboa. As más línguas dizem que, para compensar esse afastamento de uma rigorosa equidistância, o Dr. Paulo Portas só pôe uma condição para se aliar a um Governo PS minoritário - ser convidado.
7 - Vamos ter chips nos carros, mas ainda não é público quem vai lucrar com a decisão.
8 - Afinal parece que toda a gente no universo BPN conhecia a existência do Banco Insular. Talvez até aquele senhor que em Novembro declarou na televisão que não era um homem rico e depois afirmou que detinha seis milhões de euros em acções...
9 - Está frio.
10 - Sinto-me frio. E não é do frio...
Notícias da nossa querida parvónia:
1 - O senhor Stanley Ho teve prejuízos na ordem dos 90%. Resultado catastrófico - passou da posição 89 para a 113 na lista dos mais ricos do mundo. Um dia destes está na sopa dos pobres:(.
2 - Trabalhadores da Amorim foram despedidos. Notícia de alguns jornais: o português mais rico também despede. Acho incrível que estes trabalhadores manchem assim uma reputação!
3 - O Augusto Santos Silva entusiasmou-se e disse que gostava de malhar na Oposição. Depois explicou que era uma questão de contexto. A todo o momento se espera um esclarecimento sobre os locais em que utilizaria os verbos zurzir e debater...
4 - Manuel Alegre desancou-o - não sei se o verbo é o correcto... - e Augusto Santos Silva declarou-se um pigmeu perante ele.
5 - Aproveitando este bom ambiente no PS, o PSD apressou-se a ultrapassá-lo na descida nas sondagens. Há quem diga que o Dr. Luís Filipe Menezes se verá obrigado - mais uma vez... - a romper o silêncio que jurara depois da sua demissão.
6 - Surpreendentemente, o CDS prepara-se para apoiar Santana Lopes na corrida por Lisboa. As más línguas dizem que, para compensar esse afastamento de uma rigorosa equidistância, o Dr. Paulo Portas só pôe uma condição para se aliar a um Governo PS minoritário - ser convidado.
7 - Vamos ter chips nos carros, mas ainda não é público quem vai lucrar com a decisão.
8 - Afinal parece que toda a gente no universo BPN conhecia a existência do Banco Insular. Talvez até aquele senhor que em Novembro declarou na televisão que não era um homem rico e depois afirmou que detinha seis milhões de euros em acções...
9 - Está frio.
10 - Sinto-me frio. E não é do frio...
segunda-feira, fevereiro 02, 2009
Boa noite.
Maria,
O teu riso. E a insegurança que me tomava na alvorada de nós - "de que te ris?". O olhar severo, ao arrepio da voz, perigosamente doce - "de prazer, Júlio, de prazer. Não te agrada?". A vergonha macha, eu fantasiava gemidos e esgares hollywoodescos em resposta a uma arte que sabia não dominar. Mas o riso..., o riso surpreendia-me, de tão humilhante para ego frágil; "com outros era melhor...".
"Agrada e muito!". O teu sorriso, cavalgando o meu rubor. Sabias; perdoavas; e esse corpo em arco, anunciando de novo a gargalhada, espasmódica e não solitária, porque a ela se juntava...
Se continuo não consigo adormecer:(.
Boa noite, querida.
O teu riso. E a insegurança que me tomava na alvorada de nós - "de que te ris?". O olhar severo, ao arrepio da voz, perigosamente doce - "de prazer, Júlio, de prazer. Não te agrada?". A vergonha macha, eu fantasiava gemidos e esgares hollywoodescos em resposta a uma arte que sabia não dominar. Mas o riso..., o riso surpreendia-me, de tão humilhante para ego frágil; "com outros era melhor...".
"Agrada e muito!". O teu sorriso, cavalgando o meu rubor. Sabias; perdoavas; e esse corpo em arco, anunciando de novo a gargalhada, espasmódica e não solitária, porque a ela se juntava...
Se continuo não consigo adormecer:(.
Boa noite, querida.
terça-feira, janeiro 27, 2009
Boa noite.
Maria,
O cansaço, como a doença e a velhice, tem o condão de pôr a vida em perspectiva. (Talvez por com elas partilhar uma certa melancolia distanciada). Por isso me quedo a desejar-te, baixo-relevo cravado no silêncio da casa. E dos dois sou eu o fantasma precário, assombrando a tua memória, granítica por eterna. Como o amor...
O cansaço, como a doença e a velhice, tem o condão de pôr a vida em perspectiva. (Talvez por com elas partilhar uma certa melancolia distanciada). Por isso me quedo a desejar-te, baixo-relevo cravado no silêncio da casa. E dos dois sou eu o fantasma precário, assombrando a tua memória, granítica por eterna. Como o amor...
domingo, janeiro 18, 2009
Feliz aniversário, Eugénio!
Os joelhos
Considerai os joelhos com doçura:
vereis a noite arder mas não queimar
a boca onde beijo a beijo foi acesa.
Considerai os joelhos com doçura:
vereis a noite arder mas não queimar
a boca onde beijo a beijo foi acesa.
quarta-feira, janeiro 14, 2009
Se bem me lembro, S.Francisco de Assis falava do "irmão lobo", mas não neste registo:(.
Cardeal Patriarca alerta jovens portuguesas para «montes de sarilhos» de casarem com muçulmanos
O Cardeal Patriarca de Lisboa surpreendeu na noite de terça-feira o auditório do Casino da Figueira da Foz ao advertir as jovens portuguesas para o «monte de sarilhos» de se casarem com muçulmanos
Falando na tertúlia «125 minutos com Fátima Campos Ferreira», que decorreu no Casino da Figueira da Foz, D. José Policarpo deixou um conselho às jovens portuguesas quanto a eventuais relações amorosas com muçulmanos, afirmando: «Cautela com os amores. Pensem duas vezes em casar com um muçulmano, pensem muito seriamente, é meter-se num monte de sarilhos que nem Alá sabe onde é que acabam».
Questionado por Fátima Campos Ferreira se não estava a ser intolerante perante a questão do casamento das jovens com muçulmanos, D. José Policarpo disse que não.
«Se eu sei que uma jovem europeia de formação cristã, a primeira vez que vai para o país deles é sujeita ao regime das mulheres muçulmanas, imagine-se lá» , ripostou D. José Policarpo à jornalista e anfitriã da tertúlia, manifestando conhecer «casos dramáticos» que, no entanto, não especificou.
Na sua intervenção, o Cardeal Patriarca de Lisboa considerou «muito difícil» o diálogo com os muçulmanos em Portugal, observando que o diálogo serve para a comunidade muçulmana demarcar os seus espaços num país maioritariamente católico.
«Só é possível dialogar com quem quer dialogar, por exemplo com os nossos irmãos muçulmanos o diálogo é muito difícil» , disse D. José Policarpo durante a tertúlia.
Respondendo a uma pergunta da anfitriã sobre se o diálogo inter-religioso em Portugal tem estado bem acautelado, o Cardeal Patriarca sublinhou que, no caso da comunidade muçulmana, «estão-se a dar os primeiros passos».
«Mas é muito difícil porque eles não admitem sequer [encarar a crítica de que pensam] que a verdade deles é única e é toda» , sustentou.
Sublinhou ainda que o diálogo serve para os muçulmanos, num país maioritariamente católico, «como fazem os lobos na floresta, demarcarem os seus espaços e terem os espaços que eu lhes respeito».
Mais tarde, quase no final de mais de duas horas de conversa e respondendo, na altura, a uma pergunta da assistência sobre a presença muçulmana na Europa, lembrou que a comunidade muçulmana de Lisboa representa cerca de 100 mil fiéis «centrados à volta de três grandes mesquitas» e definindo as relações com o Patriarcado como «habitualmente boas e muito simpáticas».
No entanto, e noutro registo, alertou para a necessidade de existir «respeito e conhecimento» sobre a religião muçulmana enquanto "primeira atitude fundamental" para o diálogo.
«Nós somos muito ignorantes, queremos dialogar com muçulmanos e não gastámos uma hora da nossa vida a perceber o que é que eles são. Quem é que em Portugal já leu o Alcorão?» , inquiriu.
«Se queremos dialogar com muçulmanos temos de saber o bê-a-bá da sua compreensão da vida, da sua fé. Portanto, a primeira coisa é conhecer melhor, respeitar» , acrescentou D. José Policarpo.
Outra atitude a praticar na relação com os muçulmanos, sublinhou o Cardeal Patriarca é «não ser ingénuo», afirmação que ilustrou com a visão que alegadamente possuem de que o sítio onde se reúnem para rezar «fica sempre deles».
«Os muçulmanos têm uma visão na sua religião que o sítio onde se reúnem para rezar fica na posse deles, é o sítio onde Alá se encontrou com eles portanto mais ninguém pode rezar naquele sítio» , disse D. José Policarpo.
Lembrou, a propósito, um «problema sério» ocorrido na Catedral de Colónia, na Alemanha, cedida pelo Cardeal da cidade à comunidade muçulmana local para uma cerimónia no Ramadão.
«Depois consideravam a Catedral posse deles, foi preciso a intervenção da polícia para resolver aquilo (...) Não sejamos ingénuos na maneira de trabalhar com eles» , argumentou.
Lusa / SOL
O Cardeal Patriarca de Lisboa surpreendeu na noite de terça-feira o auditório do Casino da Figueira da Foz ao advertir as jovens portuguesas para o «monte de sarilhos» de se casarem com muçulmanos
Falando na tertúlia «125 minutos com Fátima Campos Ferreira», que decorreu no Casino da Figueira da Foz, D. José Policarpo deixou um conselho às jovens portuguesas quanto a eventuais relações amorosas com muçulmanos, afirmando: «Cautela com os amores. Pensem duas vezes em casar com um muçulmano, pensem muito seriamente, é meter-se num monte de sarilhos que nem Alá sabe onde é que acabam».
Questionado por Fátima Campos Ferreira se não estava a ser intolerante perante a questão do casamento das jovens com muçulmanos, D. José Policarpo disse que não.
«Se eu sei que uma jovem europeia de formação cristã, a primeira vez que vai para o país deles é sujeita ao regime das mulheres muçulmanas, imagine-se lá» , ripostou D. José Policarpo à jornalista e anfitriã da tertúlia, manifestando conhecer «casos dramáticos» que, no entanto, não especificou.
Na sua intervenção, o Cardeal Patriarca de Lisboa considerou «muito difícil» o diálogo com os muçulmanos em Portugal, observando que o diálogo serve para a comunidade muçulmana demarcar os seus espaços num país maioritariamente católico.
«Só é possível dialogar com quem quer dialogar, por exemplo com os nossos irmãos muçulmanos o diálogo é muito difícil» , disse D. José Policarpo durante a tertúlia.
Respondendo a uma pergunta da anfitriã sobre se o diálogo inter-religioso em Portugal tem estado bem acautelado, o Cardeal Patriarca sublinhou que, no caso da comunidade muçulmana, «estão-se a dar os primeiros passos».
«Mas é muito difícil porque eles não admitem sequer [encarar a crítica de que pensam] que a verdade deles é única e é toda» , sustentou.
Sublinhou ainda que o diálogo serve para os muçulmanos, num país maioritariamente católico, «como fazem os lobos na floresta, demarcarem os seus espaços e terem os espaços que eu lhes respeito».
Mais tarde, quase no final de mais de duas horas de conversa e respondendo, na altura, a uma pergunta da assistência sobre a presença muçulmana na Europa, lembrou que a comunidade muçulmana de Lisboa representa cerca de 100 mil fiéis «centrados à volta de três grandes mesquitas» e definindo as relações com o Patriarcado como «habitualmente boas e muito simpáticas».
No entanto, e noutro registo, alertou para a necessidade de existir «respeito e conhecimento» sobre a religião muçulmana enquanto "primeira atitude fundamental" para o diálogo.
«Nós somos muito ignorantes, queremos dialogar com muçulmanos e não gastámos uma hora da nossa vida a perceber o que é que eles são. Quem é que em Portugal já leu o Alcorão?» , inquiriu.
«Se queremos dialogar com muçulmanos temos de saber o bê-a-bá da sua compreensão da vida, da sua fé. Portanto, a primeira coisa é conhecer melhor, respeitar» , acrescentou D. José Policarpo.
Outra atitude a praticar na relação com os muçulmanos, sublinhou o Cardeal Patriarca é «não ser ingénuo», afirmação que ilustrou com a visão que alegadamente possuem de que o sítio onde se reúnem para rezar «fica sempre deles».
«Os muçulmanos têm uma visão na sua religião que o sítio onde se reúnem para rezar fica na posse deles, é o sítio onde Alá se encontrou com eles portanto mais ninguém pode rezar naquele sítio» , disse D. José Policarpo.
Lembrou, a propósito, um «problema sério» ocorrido na Catedral de Colónia, na Alemanha, cedida pelo Cardeal da cidade à comunidade muçulmana local para uma cerimónia no Ramadão.
«Depois consideravam a Catedral posse deles, foi preciso a intervenção da polícia para resolver aquilo (...) Não sejamos ingénuos na maneira de trabalhar com eles» , argumentou.
Lusa / SOL
segunda-feira, janeiro 12, 2009
Crianças em fundo branco.
Maria,
O sofá do corredor gozando o sol aberto, alheio ao frio que reinava para lá do vidro, mas se via desafiado, mesmo portas afora, pelo gozo dos miúdos. Os cães, filosoficamente enroscados junto a mim, a sesta preguiçosa nem um pouco impressionada pelos caprichos meteorológicos. Cantelães vestida de um branco único de tão espesso, imagina que me abraçava os tornozelos! O livro cambaleante nas minhas mãos, sem remorso contagiadas pela modorra canina. O pensamento em nevoenta roda livre - o silêncio morno e aconchegado de aquário é herança tua. Que me obrigaste a cultivar o ócio tribal até reconhecer a evidência - morrer é não parar.
O sofá do corredor gozando o sol aberto, alheio ao frio que reinava para lá do vidro, mas se via desafiado, mesmo portas afora, pelo gozo dos miúdos. Os cães, filosoficamente enroscados junto a mim, a sesta preguiçosa nem um pouco impressionada pelos caprichos meteorológicos. Cantelães vestida de um branco único de tão espesso, imagina que me abraçava os tornozelos! O livro cambaleante nas minhas mãos, sem remorso contagiadas pela modorra canina. O pensamento em nevoenta roda livre - o silêncio morno e aconchegado de aquário é herança tua. Que me obrigaste a cultivar o ócio tribal até reconhecer a evidência - morrer é não parar.
terça-feira, janeiro 06, 2009
De partida.
Maria,
A estrada. O nervoso miudinho, há trinta e sete anos que entra nos anfiteatros empoleirado no meu ombro. E contudo... Antigamente deixava-os a tricotar dúvidas monótonas: gostaram?; aprenderam alguma coisa?; fui simples e não simplista? Hoje, o público mais severo acoita-se dentro de mim. Acontece terminar uma conferência e ouvir, espantado, elogios. Pois não perceberam - como eu! - que discurso e pensamento avançavam (?) aos solavancos?
Quando estavas e ficavas... Eu dizia não me apetecer partir e buscava esse colo, ao mesmo tempo maternal e excitante. O sorriso; a mão à solta pelos meus cabelos; o beijo na testa, que fugi aos meus lábios, ansiosos por atraso, desculpa de última hora, recuo, desfazer do saco que tu supervisionavas para eu não me passear disfarçado de mendigo.
"Quando voltares, para mim e para o Porto...", dizias. E eu apontava à estrada, calando o ciúme pelo arquitecto que te arrastava a asa quando me sabia ausente e não só, eu forçado a admitir que fosses tu minha filha e to aconselharia em vez de mim, péssimo partido e duvidoso amante; impróprio para consumo, até em sociedade que nele se lança de olhos fechados e carteiras escancaradas.
Espero que a A1 me devolva ao Porto. Mas sei que me receberá de braços abertos e sobrolho franzido, "e ela?". Porque sempre me vê partir com a firme convicção de que a única boa razão para o deixar és tu - disposta, por fim, a regressar. E como não duvida do teu amor, volta ao granítico cinzento com a certeza de quem é o culpado do vosso divórcio. É verdade, conheço-te. Saia eu da cidade - ou em definitivo da tua cabeça... - e voltarás.
Quase me apetece buscar refúgio em Gaia, diluir-me na paisagem, sacar dos binóculos e esperar. Pois não fazem assim os amantes das aves?
A estrada. O nervoso miudinho, há trinta e sete anos que entra nos anfiteatros empoleirado no meu ombro. E contudo... Antigamente deixava-os a tricotar dúvidas monótonas: gostaram?; aprenderam alguma coisa?; fui simples e não simplista? Hoje, o público mais severo acoita-se dentro de mim. Acontece terminar uma conferência e ouvir, espantado, elogios. Pois não perceberam - como eu! - que discurso e pensamento avançavam (?) aos solavancos?
Quando estavas e ficavas... Eu dizia não me apetecer partir e buscava esse colo, ao mesmo tempo maternal e excitante. O sorriso; a mão à solta pelos meus cabelos; o beijo na testa, que fugi aos meus lábios, ansiosos por atraso, desculpa de última hora, recuo, desfazer do saco que tu supervisionavas para eu não me passear disfarçado de mendigo.
"Quando voltares, para mim e para o Porto...", dizias. E eu apontava à estrada, calando o ciúme pelo arquitecto que te arrastava a asa quando me sabia ausente e não só, eu forçado a admitir que fosses tu minha filha e to aconselharia em vez de mim, péssimo partido e duvidoso amante; impróprio para consumo, até em sociedade que nele se lança de olhos fechados e carteiras escancaradas.
Espero que a A1 me devolva ao Porto. Mas sei que me receberá de braços abertos e sobrolho franzido, "e ela?". Porque sempre me vê partir com a firme convicção de que a única boa razão para o deixar és tu - disposta, por fim, a regressar. E como não duvida do teu amor, volta ao granítico cinzento com a certeza de quem é o culpado do vosso divórcio. É verdade, conheço-te. Saia eu da cidade - ou em definitivo da tua cabeça... - e voltarás.
Quase me apetece buscar refúgio em Gaia, diluir-me na paisagem, sacar dos binóculos e esperar. Pois não fazem assim os amantes das aves?
quarta-feira, dezembro 31, 2008
Circular personalizada.
Gente,
Confesso que não me dou bem com alegrias, decisões ou rituais de passagem com data marcada:). Mas é sempre boa altura para vos desejar 365 dias de luz. Mesmo que literal ou alegoricamente vacilante, como a do meu Porto:). Um abraço grato a todos!
Confesso que não me dou bem com alegrias, decisões ou rituais de passagem com data marcada:). Mas é sempre boa altura para vos desejar 365 dias de luz. Mesmo que literal ou alegoricamente vacilante, como a do meu Porto:). Um abraço grato a todos!
quinta-feira, dezembro 25, 2008
A Alucinada Família.
Maria,
O estalar da madeira no silêncio da casa, que me acolheu sem perguntas na ressaca de mais um Natal. A mesa que se espreguiça, para meu espanto. As cadeiras multiplicam-se nas margens dela. Apago a televisão, desligo o computador e espero, não acredito em caprichos da mobília sem objectivo ou lugares vazios para a eternidade. Não foi preciso esperar tanto...
Minha Mãe à cabeceira. Um sorriso doce na minha direcção, antes de sondar as frinchas da porta em busca de correntes de ar assassinas. O gesto de satisfeita aprovação. Um último relance em volta, o aquecedor já crepita, "Júlio, querido, podes vir sentar-te".
O meu Velho e a sua lendária elegância: casaco, gravata, colete, botões de punho, vinco das calças, a risca intransigente que lhe separa os belos cabelos brancos. "Obrigado, Maria". (Também a trata assim...). O afecto menos pacífico do que o de minha Mãe, somos amantes circunspectos, os dedos afloram-me o rosto quase a medo e correm para o refúgio do dela, que todo se ilumina. Assim, lado a lado, sem um gesto, transformam o mundo em redor num gigantesco armazém de adereços inúteis.
Ou talvez não... Minha Avó chega por sua vez. O genro saúda-a com graça carinhosa, "ah, a Rainha Mãe". Ela desafia-o com a arrogância divertida que a trouxe de uma viuvez próxima da miséria aos camarins dos teatros em que a filha cantava e ele as conheceu; a paixão foi a dois, mas o casamento a três. Observa-me cuidadosamente, se parecer magro ou triste ficarei em maus lençóis!, o menino dela ofende-a se não irradiar felicidade.
Os outros... O segundo marido de minha Avó, ensinou-me a fazer palavras cruzadas e a ver um homem que chora sem vergonha, mansamente; o Pierre, olha para o caos reinante e abana a cabeça, o melhor amigo é um caso perdido; o Zé Gabriel, a mão gulosa avança para o leitor de CDs e recua, a minha toma o seu lugar, sem música não ficará.
E os outros depois dos outros! Os meus Avós paternos, o Rui Alcobia, George Harrison, John Lennon, Zeca Afonso, Ballester..., a mesa, de tão longa, não permite que os reconheça sem viagem longa. Mais tarde. Agora ocupo a outra cabeceira e espero.
Meus Pais fazem um sinal, tão entrelaçado como os corpos de Fred Astaire e Ginger Rogers, e o Natal começa, Maria, a realidade é a velhice da imaginação! Repara no lugar vazio a meu lado, querida, espera por ti.
E eles também...:).
O estalar da madeira no silêncio da casa, que me acolheu sem perguntas na ressaca de mais um Natal. A mesa que se espreguiça, para meu espanto. As cadeiras multiplicam-se nas margens dela. Apago a televisão, desligo o computador e espero, não acredito em caprichos da mobília sem objectivo ou lugares vazios para a eternidade. Não foi preciso esperar tanto...
Minha Mãe à cabeceira. Um sorriso doce na minha direcção, antes de sondar as frinchas da porta em busca de correntes de ar assassinas. O gesto de satisfeita aprovação. Um último relance em volta, o aquecedor já crepita, "Júlio, querido, podes vir sentar-te".
O meu Velho e a sua lendária elegância: casaco, gravata, colete, botões de punho, vinco das calças, a risca intransigente que lhe separa os belos cabelos brancos. "Obrigado, Maria". (Também a trata assim...). O afecto menos pacífico do que o de minha Mãe, somos amantes circunspectos, os dedos afloram-me o rosto quase a medo e correm para o refúgio do dela, que todo se ilumina. Assim, lado a lado, sem um gesto, transformam o mundo em redor num gigantesco armazém de adereços inúteis.
Ou talvez não... Minha Avó chega por sua vez. O genro saúda-a com graça carinhosa, "ah, a Rainha Mãe". Ela desafia-o com a arrogância divertida que a trouxe de uma viuvez próxima da miséria aos camarins dos teatros em que a filha cantava e ele as conheceu; a paixão foi a dois, mas o casamento a três. Observa-me cuidadosamente, se parecer magro ou triste ficarei em maus lençóis!, o menino dela ofende-a se não irradiar felicidade.
Os outros... O segundo marido de minha Avó, ensinou-me a fazer palavras cruzadas e a ver um homem que chora sem vergonha, mansamente; o Pierre, olha para o caos reinante e abana a cabeça, o melhor amigo é um caso perdido; o Zé Gabriel, a mão gulosa avança para o leitor de CDs e recua, a minha toma o seu lugar, sem música não ficará.
E os outros depois dos outros! Os meus Avós paternos, o Rui Alcobia, George Harrison, John Lennon, Zeca Afonso, Ballester..., a mesa, de tão longa, não permite que os reconheça sem viagem longa. Mais tarde. Agora ocupo a outra cabeceira e espero.
Meus Pais fazem um sinal, tão entrelaçado como os corpos de Fred Astaire e Ginger Rogers, e o Natal começa, Maria, a realidade é a velhice da imaginação! Repara no lugar vazio a meu lado, querida, espera por ti.
E eles também...:).
sábado, dezembro 20, 2008
Domingo à noite.
Maria,
A severidade risonha que eu amava, por o ralhete já esconder o afago e o "nem penses" o "porque esperas?":).
Cheguei de Cantelães e saboreei uma vez mais Mystic River. Tudo o que me rodeia desagua em ti... O bar, os amigos, o comentário de alguém, "adorei As Pontes de Madison County". O meu vício pelos consensos fáceis e as frases feitas por outros - "É o último dos grandes". Aquele sorriso com que me fazias sentir um puto superficial, o meu amuo, o esquecimento. E um outro filme do velho Clint, a minha provocação, "mais um silêncio snob, querida?". E tu, manipulando a minha frase -´"É o único dos grandes que se tornou grande". Tinhas razão, claro, ambos o pressentíramos, extasiados, depois de ver o espantoso e inesperado Bird. O homem passou para trás da câmara e deixou de ser um ícone, "entreteve-se" a realizar obras-primas. Como Mystic River: uma história, a narração, os actores e o absurdo da vida, quem precisa de efeitos especiais?
A severidade risonha que eu amava. Este desejo apressado, a cumplicidade obediente do comando. O sobrolho franzido, "terás reparado que estava a ver o filme?". E a minha resposta, digna de uma daquelas vozes mecânicas que anunciam os pacotes da TVCabo: "Não há problema, estão sempre a repetir". O teu riso maroto, a voz já misturada com o meu pescoço, "és capaz de fazer o mesmo?".
O sim da minha paixão adolescente:).
A prece humilde do meu corpo envelhecido...
A severidade risonha que eu amava, por o ralhete já esconder o afago e o "nem penses" o "porque esperas?":).
Cheguei de Cantelães e saboreei uma vez mais Mystic River. Tudo o que me rodeia desagua em ti... O bar, os amigos, o comentário de alguém, "adorei As Pontes de Madison County". O meu vício pelos consensos fáceis e as frases feitas por outros - "É o último dos grandes". Aquele sorriso com que me fazias sentir um puto superficial, o meu amuo, o esquecimento. E um outro filme do velho Clint, a minha provocação, "mais um silêncio snob, querida?". E tu, manipulando a minha frase -´"É o único dos grandes que se tornou grande". Tinhas razão, claro, ambos o pressentíramos, extasiados, depois de ver o espantoso e inesperado Bird. O homem passou para trás da câmara e deixou de ser um ícone, "entreteve-se" a realizar obras-primas. Como Mystic River: uma história, a narração, os actores e o absurdo da vida, quem precisa de efeitos especiais?
A severidade risonha que eu amava. Este desejo apressado, a cumplicidade obediente do comando. O sobrolho franzido, "terás reparado que estava a ver o filme?". E a minha resposta, digna de uma daquelas vozes mecânicas que anunciam os pacotes da TVCabo: "Não há problema, estão sempre a repetir". O teu riso maroto, a voz já misturada com o meu pescoço, "és capaz de fazer o mesmo?".
O sim da minha paixão adolescente:).
A prece humilde do meu corpo envelhecido...
terça-feira, dezembro 16, 2008
A dois tempos.
Maria,
Quando escrevia a um cinzentão qualquer, teclado e mãos revoltaram-se e meia-resposta desarvorou. Conheces a minha assinalável ignorância tecnológica, não culpei azar ou praga divina, seguramente premi ao de leve teclas que deram o tiro de partida. A funda humilhação; o medo à flor da pele - que declínio cerebral acelerado espreita por entre dedos trôpegos?
Como sempre, o olhar na direcção da tua ausência, em busca de auxílio. (Pareço católico órfão, rezando a nicho de onde fugiu um dos burocratas nascidos da explosão demográfica de santidade, cujo epicentro se situa no Vaticano.) E a pintura canhestra de cenário mais doce para os factos, ambos sabemos como dependem do contexto.
Alucinei-te. Recebendo, no princípio de nós, mail meu. Titilante e desafiador, essa cabecinha ordenada em batalha clandestina com o coração, mais atento à sabedoria epidérmica e menos ao espartilho da geometria racional. Os dedos trémulos, aflorando teclado e desejo, seria injusto crucificá-los pelo deslize. Os minutos de reflexão; as mulheres conhecem os lapsos freudianos desde a eternidade, não precisaram da auto-análise do estóico senhor vienense, que não rejeitou a cigarrilha quando o cancro explodiu, sabia que o amor é um assassino em potência, e no entanto merecedor de grata amnistia.
A decisão. As palavras rápidas, de tão evidentes, a declaração, não de princípios, seguramente de interesses:). O último relance, medroso e aliviado, " que se dane, é verdade, espero que a mereça". Send... As luzes apagadas, o corpo desperto, o sono à espera de uma última interrogação, que ameaça invadir os sonhos - amanhã é mais um dia ou "o" dia?
A minha resposta. O fim do princípio, diria Churchill. A seguir vieram sangue, suor e lágrimas. Mas não só, Maria, não só:).
Quando escrevia a um cinzentão qualquer, teclado e mãos revoltaram-se e meia-resposta desarvorou. Conheces a minha assinalável ignorância tecnológica, não culpei azar ou praga divina, seguramente premi ao de leve teclas que deram o tiro de partida. A funda humilhação; o medo à flor da pele - que declínio cerebral acelerado espreita por entre dedos trôpegos?
Como sempre, o olhar na direcção da tua ausência, em busca de auxílio. (Pareço católico órfão, rezando a nicho de onde fugiu um dos burocratas nascidos da explosão demográfica de santidade, cujo epicentro se situa no Vaticano.) E a pintura canhestra de cenário mais doce para os factos, ambos sabemos como dependem do contexto.
Alucinei-te. Recebendo, no princípio de nós, mail meu. Titilante e desafiador, essa cabecinha ordenada em batalha clandestina com o coração, mais atento à sabedoria epidérmica e menos ao espartilho da geometria racional. Os dedos trémulos, aflorando teclado e desejo, seria injusto crucificá-los pelo deslize. Os minutos de reflexão; as mulheres conhecem os lapsos freudianos desde a eternidade, não precisaram da auto-análise do estóico senhor vienense, que não rejeitou a cigarrilha quando o cancro explodiu, sabia que o amor é um assassino em potência, e no entanto merecedor de grata amnistia.
A decisão. As palavras rápidas, de tão evidentes, a declaração, não de princípios, seguramente de interesses:). O último relance, medroso e aliviado, " que se dane, é verdade, espero que a mereça". Send... As luzes apagadas, o corpo desperto, o sono à espera de uma última interrogação, que ameaça invadir os sonhos - amanhã é mais um dia ou "o" dia?
A minha resposta. O fim do princípio, diria Churchill. A seguir vieram sangue, suor e lágrimas. Mas não só, Maria, não só:).
domingo, dezembro 14, 2008
Domingo.
Maria,
O baptizado correu bem. Um frio de rachar, tiveram de aquecer a água para o pimpolho:). A satisfação de reencontrar o Padre Baptista em forma. Leitura escolhida - o famoso "Deixai vir a mim as criancinhas". O vício da associação livre e as Confissões de Santo Agostinho pelas tortuosas veredas do meu espírito. A opinião pouco lisonjeira sobre os mesmos putos e a sua alegada inocência, não passariam de adultos em miniatura, com os defeitos inerentes. A triste interpretação da frase de Jesus... Lembras-te do que uma vez contei? Um padre amigo, mente brilhante, sorriso amarelado nos lábios - "Santo Agostinho fez-nos muito mal:(". E eu, que o li menos do que devia, arrisco dizer que a luta contra os seus demónios era titânica e infectou-lhe a visão de Deus, Paraíso e Mundo.
Pronto, já me calei. Imagino-te, severa, a corrigir-me, do alto da Fé que não partilho. Pronto, já me calei. Mas não, caramba!, ainda deixo uma pequena provocação - adoraria ter sido o teu pecado original:).
O baptizado correu bem. Um frio de rachar, tiveram de aquecer a água para o pimpolho:). A satisfação de reencontrar o Padre Baptista em forma. Leitura escolhida - o famoso "Deixai vir a mim as criancinhas". O vício da associação livre e as Confissões de Santo Agostinho pelas tortuosas veredas do meu espírito. A opinião pouco lisonjeira sobre os mesmos putos e a sua alegada inocência, não passariam de adultos em miniatura, com os defeitos inerentes. A triste interpretação da frase de Jesus... Lembras-te do que uma vez contei? Um padre amigo, mente brilhante, sorriso amarelado nos lábios - "Santo Agostinho fez-nos muito mal:(". E eu, que o li menos do que devia, arrisco dizer que a luta contra os seus demónios era titânica e infectou-lhe a visão de Deus, Paraíso e Mundo.
Pronto, já me calei. Imagino-te, severa, a corrigir-me, do alto da Fé que não partilho. Pronto, já me calei. Mas não, caramba!, ainda deixo uma pequena provocação - adoraria ter sido o teu pecado original:).
sexta-feira, dezembro 12, 2008
O beijo que vinha do frio.
Maria,
A Mãe sobreviveu a outra ida à Urgência. Análises normais, espírito no céu republicano em que o seu amor a espera há anos. É curioso como sempre te escondi o que vos unia. E não falo de traços de personalidade rebuscados ou construídos pelo meu Édipo, ansioso por não deixar vago de realidade o seu lugar. Falo de tiques, ademanes, gestos prosaicos que vos tornam gémeas, como se o papel vegetal da minha adolescência tivesse ressuscitado. O beijo de esquimó, por exemplo. Quando me presenteaste com esse equivalente antropológico - e gelado... - de um honesto, apaixonado e húmido "french kiss" (esta parolice nacional...), fiquei espantado, ela fazia o mesmo! E ria do meu incómodo, nunca lera Freud ou Lacan, e do Vaticano apreciava a Pietà e a fé dos homens. Nunca to disse, mas descia para os teus lábios com um vagar excitado e temeroso, imaginava-te as mãos cravadas no meu peito, o olhar escandalizado e a sua legenda - "como te atreves?". Daí o suspiro de alívio que calava quando a tua boca se abria à maroteira da minha e do seu arauto, esta língua que tantos com menos direito do que tu decretaram afiada e intrometida:). Tu não, limitavas-te (?) a acolhê-la e a despir-lhe a paixão do frenesim. Até me afastares o rosto para melhor o ver. E sorridente me desafiares para o degrau seguinte, "vem".
A Mãe sobreviveu a outra ida à Urgência. Análises normais, espírito no céu republicano em que o seu amor a espera há anos. É curioso como sempre te escondi o que vos unia. E não falo de traços de personalidade rebuscados ou construídos pelo meu Édipo, ansioso por não deixar vago de realidade o seu lugar. Falo de tiques, ademanes, gestos prosaicos que vos tornam gémeas, como se o papel vegetal da minha adolescência tivesse ressuscitado. O beijo de esquimó, por exemplo. Quando me presenteaste com esse equivalente antropológico - e gelado... - de um honesto, apaixonado e húmido "french kiss" (esta parolice nacional...), fiquei espantado, ela fazia o mesmo! E ria do meu incómodo, nunca lera Freud ou Lacan, e do Vaticano apreciava a Pietà e a fé dos homens. Nunca to disse, mas descia para os teus lábios com um vagar excitado e temeroso, imaginava-te as mãos cravadas no meu peito, o olhar escandalizado e a sua legenda - "como te atreves?". Daí o suspiro de alívio que calava quando a tua boca se abria à maroteira da minha e do seu arauto, esta língua que tantos com menos direito do que tu decretaram afiada e intrometida:). Tu não, limitavas-te (?) a acolhê-la e a despir-lhe a paixão do frenesim. Até me afastares o rosto para melhor o ver. E sorridente me desafiares para o degrau seguinte, "vem".
segunda-feira, dezembro 08, 2008
Baiona.
Maria,
Regressei a Baiona depois de longa ausência. Sou suspeito, quem resiste a confirmar profecias próprias?, mas quase rosnei ao espelho, "eu tinha avisado...". A sombra do Pierre por todo o lado: ancoradouro, Jaquevi, Mosquito, a marginal. Os olhos azuis risonhos, o branco ruborizado da face, o loiro cabelo nórdico, a barriga desafiante; o abraço de urso. As saudades que tenho dele... Egoísta, vejo-as desaguar nas de ti. O silêncio compreensivo; a mão pelos meus cabelos; o braço rodeando-me a cintura, e sem alarde ao leme, como te poderia recusar brisa e velas? Esse corpo à flor do meu, numa gentil mas firme avidez. O embaraço que te diverte. E o tropeço nas palavras que o agrava, "deixa-me, chata". O riso de quem despe a ordem e abraça o apelo - "Nem penses". Nem pensar... Fazer-te a vontade, Maria, e apenas sentir. Ainda e sempre as saudades do Pierre, mas sobre o pano de fundo do desejo de ti.
Regressei a Baiona depois de longa ausência. Sou suspeito, quem resiste a confirmar profecias próprias?, mas quase rosnei ao espelho, "eu tinha avisado...". A sombra do Pierre por todo o lado: ancoradouro, Jaquevi, Mosquito, a marginal. Os olhos azuis risonhos, o branco ruborizado da face, o loiro cabelo nórdico, a barriga desafiante; o abraço de urso. As saudades que tenho dele... Egoísta, vejo-as desaguar nas de ti. O silêncio compreensivo; a mão pelos meus cabelos; o braço rodeando-me a cintura, e sem alarde ao leme, como te poderia recusar brisa e velas? Esse corpo à flor do meu, numa gentil mas firme avidez. O embaraço que te diverte. E o tropeço nas palavras que o agrava, "deixa-me, chata". O riso de quem despe a ordem e abraça o apelo - "Nem penses". Nem pensar... Fazer-te a vontade, Maria, e apenas sentir. Ainda e sempre as saudades do Pierre, mas sobre o pano de fundo do desejo de ti.
terça-feira, dezembro 02, 2008
A neve.
Maria,
A Casa do Vale coberta de neve como nunca a vira. Ainda mal refeito do encantamento, já a grossa chuva branca recomeçava a tombar. E com ela ramos no caminho, a "viagem" até à estrada principal devolveu-me à atmosfera das aventuras dos Cinco:). Depois chegaram os miúdos, numa algazarra de feliz surpresa que contagiou a cadela, sempre mais sociável com eles, sabe-se lá os adultos que conheceu... Vê-los partir foi doloroso, a casa mergulhou num sossego diferente do que os acolhera; melancólico. Na manhã seguinte, o sol. Que derreteu a neve, excepto nos recantos a coberto das árvores mais agasalhadas. E num local de todo improvável, solitário no meio do terreno, sem creme ou sombra a protegê-lo do calor friorento do meio-dia - o tecto da casinha dos miúdos, à janela da qual o Tiago me vende hamburgers imaginados a preços de usurário empedernido. Imaginei-te o sorriso indulgente, perante a minha dúvida "científica" - pensar com o coração, dizias, pensar com o coração e sentir, para depois compreender. Pedi ajuda à tua fotografia, essa procuradora da ausência. Tinhas razão, querida, o erro era meu e do mundo a preto e branco que abrigo e me abriga. E tu colorias, quando... Deixa, voltemos à neve, que resistia à lógica, aristotélica ou outra. Porque nada tinha contra o sol, mas ainda guardava - e preferia! - a esperança de toda se derreter à carícia do extraordinário calor vital dos miúdos regressados:).
A Casa do Vale coberta de neve como nunca a vira. Ainda mal refeito do encantamento, já a grossa chuva branca recomeçava a tombar. E com ela ramos no caminho, a "viagem" até à estrada principal devolveu-me à atmosfera das aventuras dos Cinco:). Depois chegaram os miúdos, numa algazarra de feliz surpresa que contagiou a cadela, sempre mais sociável com eles, sabe-se lá os adultos que conheceu... Vê-los partir foi doloroso, a casa mergulhou num sossego diferente do que os acolhera; melancólico. Na manhã seguinte, o sol. Que derreteu a neve, excepto nos recantos a coberto das árvores mais agasalhadas. E num local de todo improvável, solitário no meio do terreno, sem creme ou sombra a protegê-lo do calor friorento do meio-dia - o tecto da casinha dos miúdos, à janela da qual o Tiago me vende hamburgers imaginados a preços de usurário empedernido. Imaginei-te o sorriso indulgente, perante a minha dúvida "científica" - pensar com o coração, dizias, pensar com o coração e sentir, para depois compreender. Pedi ajuda à tua fotografia, essa procuradora da ausência. Tinhas razão, querida, o erro era meu e do mundo a preto e branco que abrigo e me abriga. E tu colorias, quando... Deixa, voltemos à neve, que resistia à lógica, aristotélica ou outra. Porque nada tinha contra o sol, mas ainda guardava - e preferia! - a esperança de toda se derreter à carícia do extraordinário calor vital dos miúdos regressados:).
domingo, novembro 30, 2008
Bloqueado pela neve em Cantelães, chega uma velharia pel Net:).
Que há-de ser de nós
Júlio Machado Vaz, Novembro 1991
Como todos os que passaram pelo divã, recebo as coincidências com grunhidos de suspeita. Entendamo-nos: a Alda de Sousa (que me pediu a prosa) parece-me inocente, a culpa, existindo, só pode refugiar-se algures do meu pescoço para cima. Porque lá estranho é, um tipo senta-se para escrever um artigo sobre Sexualidade e repara que faz 41 anos e pôs no Compacto o "Que há-de ser de nós" do Sérgio Godinho. Cheira a esturro. Não se trata da sensação de envelhecimento, mas precisamente da sua ausência, a cada aniversário verifico ser mais radical o divórcio entre ácido úrico e colesterol por um lado e a cabeça por outro. Aqueles, paulatinos, sobem para valores respeitáveis, fronteiriços, de meia-idade; ela peca por arrogância e vive fora do tempo. À espera.
Existem razões para isso, o bilhete de identidade não traduz o percurso único de um ser homogéneo, como podem ser três da tarde na profissão e dez da manhã na Sexualidade?
Não falo de sexo, esse é um velho companheiro de sonhos apetitosos e camas desfeitas, espreitando por cima do ombro maroto do desejo. Estimo-o muito. Deus e/ou a testosterona permitam que não se canse das minhas birras e vá habitar alguém menos insuportável, mas os anos corroeram o triângulo. Eu, o Desejo e o Sexo, era tudo tão simples! Na cabeça, claro, só adultos esquecidos falam de adolescência cor de rosa, mas quando penso em mim há vinte e cinco anos lembro-me das boas livrarias—uma prateleira para cada tema. Assim era eu. Amor, Felicidade e Justiça, as grandes palavras que nos tornam infelizes, escrevia Joyce. O sexo, com letra pequena por força de uma educação conservadora tanto mais eficaz quanto sugerida e não imposta, o sexo, dizia eu, baloiçava entre amores verdadeiros, logo justificativos, e outros falsos, falsos, mas que passavam por idóneos, não fosse a ideia do prazer pelo prazer aflorar à superfície.
Procurar a intimidade
E depois um tipo cresce ou simplesmente envelhece. Um orgasmo é um orgasmo e já não chega, as fronteiras entre Paixão, Amor e Ternura vão-se esbatendo, a ligação erótica recusa as grades da cama ou dos bancos de trás dos automóveis e invade a sala, reclamando livros conversados ou discos velhos ouvidos por entre candeeiros mortos; a gente fica assim, cúmplice, espreitando as pessoas do prédio em frente, a vida em contraluz. Ganapos que se recusam a açoites merecidos, jantares aquecidos por atrasados, estiradores vazios de inspiração, um ou outro afago mais brejeiro, quem nos imagina aqui no escuro, à espreita? A armadilha es«á pronta, mas não para eles. Para nós.
Na realidade, de supetão ou laboriosamente ao longo dos anos, vão-se abrindo portas e olhos, deslizou-se da paixão pelo outro e pelo amor para a busca de algo bem mais megalómano – a intimidade. Também no sexo, como é evidente. O antes e o depois recusam a tirania do durante e as fantasias eróticas de um tacteiam as do outro, porque não existe pior vergonha que a de não explorar o amor com alguém de quem se gosta. Que não chega, resmunga o diabito que se nos enrosca nas entranhas. Pronto a admitir que a felicidade não existe, reivindica fascínios subtis que resistam ao quotidiano, a esses computadores, bichas e panelas que subtilmente vão empurrando o amor para o sábado à noite.
Recomeçar ao microfone
E contudo, nem sempre é fácil acreditar que a vida começa aos quarenta. Falta-nos a disponibilidade, tão preocupados estamos em sobreviver, espremidos entre uma geração que enfrenta a morte e outra morta por viver. Nessa agitação frenética, as pausas, nossas, parecem quase inacreditáveis, culpadas.
«O Sexo dos Anjos» tornou-se, para mim, num desses momentos em que, como diz Woody Allen, consigo por um breve instante focar a Vida.
Impossível, dir-me-ão, como se pode retomar o fôlego em associação livre com um público do outro lado do microfone? Parece estranho, eu sei. No início havia tensão no ar, a ideia tinha sido do Aurélio e preocupava-me a hipótese de o deixar ficar mal. Depois vieram as cartas e os telefonemas e eu comecei a fazer menos chavetas e a deixar-me ir. Às vezes arrependo-me quando ouço o programa, noto as repetições, os fios soltos, as oportunidades falhadas. Para falar com franqueza não me arrependo... arrepio-me! Mas o «Sexo dos Anjos» não pretende ser uma sucessão de aulas, mas de conversas sobre isto e aquilo, até Sexualidade. Hoje em dia entro no estúdio quase com alívio e arrisco-me a dizer que o Aurélio e o Zé Gabriel também, somos amigos. O público... quando se passa muitos anos na clínica quase se pensa que o nosso mundo ficou aprisionado entre quatro paredes, por isso o programa foi uma lufada de ar fresco. As pessoas sugerem, perguntam, criticam e um tipo sente-se vivo, em movimento. Em questão também. Por vezes dizem que me exponho demasiado e eu sorrio; a opinião dos outros interessa-me, mas não me assusta (vantagens da idade). É em mim que está o perigo.
Só a gravação dura uma hora, a cabeça está-se nas tintas para noticiários e compromissos comerciais, a associação livre tem o mau hábito de nos conduzir a temas presos, enrolados na garganta. Que há-de ser de nós? Os versos do Sérgio, estes sobretudo, fascinam-me. Ansiar corpos ausentes, o mais longo beijo, o fogo e a chuva na voz... quem dá aos poetas o direito de tratar por tu o amor? E assim, muitas vezes, abro a porta da Rádio Nova fechado para balanço, sentindo que o tempo foge enquanto falo do amor dos outros.
Ir à ribeira
Receio que não seja este o tom adequado para um jornal como o COMBATE, mas Ferré disse um dia que a revolução na cabeça deveria, obrigatoriamente, preceder a da rua. Sou um burguês típico - o meu (pequeno) ardor revolucionário não sobreviveu à Universidade. Na minha profissão, ao menor descuido, esquece-se a Sociedade e raramente se ultrapassa o nível do casal ou da família. Em Sexologia, não perguntando, quase nunca distingo um tipo de direita de um de esquerda, um religioso de um ateu. Ouço-os. E os lutos por fazer sucedem-se a ódios temporários, a falta de desejo disfarça-se de enxaqueca, choro e riso sacodem os mesmos ombros. Aqui e ali, por competência ou sorte (e que me importa?), as coisas correm bem e faz-se de novo luz em olhos baços. Porta fechada, o cliente seguinte atrasado, perco-me através da janela no cinzento do meu Porto. Que é também o do Sérgio. Estarei velho ou sábio? Ajudo os outros a viver ou sobrevivo através deles? Há quanto tempo não vou à Ribeira ao fim da tarde, não-sozinho, mas fascinado por um riso?
Coincidências. Muitas. O Compacto programado para repetir a mesma música até à (minha) exaustão, a zaragata dos miúdos ao telefone gritando feliz aniversário, o PARA SEMPRE do Vergílio brilhando negro entre os Kunderas vestidos de branco sujo, o silêncio que paira para lá da voz do Sérgio. Que há-de ser de nós?
Júlio Machado Vaz, Novembro 1991
Como todos os que passaram pelo divã, recebo as coincidências com grunhidos de suspeita. Entendamo-nos: a Alda de Sousa (que me pediu a prosa) parece-me inocente, a culpa, existindo, só pode refugiar-se algures do meu pescoço para cima. Porque lá estranho é, um tipo senta-se para escrever um artigo sobre Sexualidade e repara que faz 41 anos e pôs no Compacto o "Que há-de ser de nós" do Sérgio Godinho. Cheira a esturro. Não se trata da sensação de envelhecimento, mas precisamente da sua ausência, a cada aniversário verifico ser mais radical o divórcio entre ácido úrico e colesterol por um lado e a cabeça por outro. Aqueles, paulatinos, sobem para valores respeitáveis, fronteiriços, de meia-idade; ela peca por arrogância e vive fora do tempo. À espera.
Existem razões para isso, o bilhete de identidade não traduz o percurso único de um ser homogéneo, como podem ser três da tarde na profissão e dez da manhã na Sexualidade?
Não falo de sexo, esse é um velho companheiro de sonhos apetitosos e camas desfeitas, espreitando por cima do ombro maroto do desejo. Estimo-o muito. Deus e/ou a testosterona permitam que não se canse das minhas birras e vá habitar alguém menos insuportável, mas os anos corroeram o triângulo. Eu, o Desejo e o Sexo, era tudo tão simples! Na cabeça, claro, só adultos esquecidos falam de adolescência cor de rosa, mas quando penso em mim há vinte e cinco anos lembro-me das boas livrarias—uma prateleira para cada tema. Assim era eu. Amor, Felicidade e Justiça, as grandes palavras que nos tornam infelizes, escrevia Joyce. O sexo, com letra pequena por força de uma educação conservadora tanto mais eficaz quanto sugerida e não imposta, o sexo, dizia eu, baloiçava entre amores verdadeiros, logo justificativos, e outros falsos, falsos, mas que passavam por idóneos, não fosse a ideia do prazer pelo prazer aflorar à superfície.
Procurar a intimidade
E depois um tipo cresce ou simplesmente envelhece. Um orgasmo é um orgasmo e já não chega, as fronteiras entre Paixão, Amor e Ternura vão-se esbatendo, a ligação erótica recusa as grades da cama ou dos bancos de trás dos automóveis e invade a sala, reclamando livros conversados ou discos velhos ouvidos por entre candeeiros mortos; a gente fica assim, cúmplice, espreitando as pessoas do prédio em frente, a vida em contraluz. Ganapos que se recusam a açoites merecidos, jantares aquecidos por atrasados, estiradores vazios de inspiração, um ou outro afago mais brejeiro, quem nos imagina aqui no escuro, à espreita? A armadilha es«á pronta, mas não para eles. Para nós.
Na realidade, de supetão ou laboriosamente ao longo dos anos, vão-se abrindo portas e olhos, deslizou-se da paixão pelo outro e pelo amor para a busca de algo bem mais megalómano – a intimidade. Também no sexo, como é evidente. O antes e o depois recusam a tirania do durante e as fantasias eróticas de um tacteiam as do outro, porque não existe pior vergonha que a de não explorar o amor com alguém de quem se gosta. Que não chega, resmunga o diabito que se nos enrosca nas entranhas. Pronto a admitir que a felicidade não existe, reivindica fascínios subtis que resistam ao quotidiano, a esses computadores, bichas e panelas que subtilmente vão empurrando o amor para o sábado à noite.
Recomeçar ao microfone
E contudo, nem sempre é fácil acreditar que a vida começa aos quarenta. Falta-nos a disponibilidade, tão preocupados estamos em sobreviver, espremidos entre uma geração que enfrenta a morte e outra morta por viver. Nessa agitação frenética, as pausas, nossas, parecem quase inacreditáveis, culpadas.
«O Sexo dos Anjos» tornou-se, para mim, num desses momentos em que, como diz Woody Allen, consigo por um breve instante focar a Vida.
Impossível, dir-me-ão, como se pode retomar o fôlego em associação livre com um público do outro lado do microfone? Parece estranho, eu sei. No início havia tensão no ar, a ideia tinha sido do Aurélio e preocupava-me a hipótese de o deixar ficar mal. Depois vieram as cartas e os telefonemas e eu comecei a fazer menos chavetas e a deixar-me ir. Às vezes arrependo-me quando ouço o programa, noto as repetições, os fios soltos, as oportunidades falhadas. Para falar com franqueza não me arrependo... arrepio-me! Mas o «Sexo dos Anjos» não pretende ser uma sucessão de aulas, mas de conversas sobre isto e aquilo, até Sexualidade. Hoje em dia entro no estúdio quase com alívio e arrisco-me a dizer que o Aurélio e o Zé Gabriel também, somos amigos. O público... quando se passa muitos anos na clínica quase se pensa que o nosso mundo ficou aprisionado entre quatro paredes, por isso o programa foi uma lufada de ar fresco. As pessoas sugerem, perguntam, criticam e um tipo sente-se vivo, em movimento. Em questão também. Por vezes dizem que me exponho demasiado e eu sorrio; a opinião dos outros interessa-me, mas não me assusta (vantagens da idade). É em mim que está o perigo.
Só a gravação dura uma hora, a cabeça está-se nas tintas para noticiários e compromissos comerciais, a associação livre tem o mau hábito de nos conduzir a temas presos, enrolados na garganta. Que há-de ser de nós? Os versos do Sérgio, estes sobretudo, fascinam-me. Ansiar corpos ausentes, o mais longo beijo, o fogo e a chuva na voz... quem dá aos poetas o direito de tratar por tu o amor? E assim, muitas vezes, abro a porta da Rádio Nova fechado para balanço, sentindo que o tempo foge enquanto falo do amor dos outros.
Ir à ribeira
Receio que não seja este o tom adequado para um jornal como o COMBATE, mas Ferré disse um dia que a revolução na cabeça deveria, obrigatoriamente, preceder a da rua. Sou um burguês típico - o meu (pequeno) ardor revolucionário não sobreviveu à Universidade. Na minha profissão, ao menor descuido, esquece-se a Sociedade e raramente se ultrapassa o nível do casal ou da família. Em Sexologia, não perguntando, quase nunca distingo um tipo de direita de um de esquerda, um religioso de um ateu. Ouço-os. E os lutos por fazer sucedem-se a ódios temporários, a falta de desejo disfarça-se de enxaqueca, choro e riso sacodem os mesmos ombros. Aqui e ali, por competência ou sorte (e que me importa?), as coisas correm bem e faz-se de novo luz em olhos baços. Porta fechada, o cliente seguinte atrasado, perco-me através da janela no cinzento do meu Porto. Que é também o do Sérgio. Estarei velho ou sábio? Ajudo os outros a viver ou sobrevivo através deles? Há quanto tempo não vou à Ribeira ao fim da tarde, não-sozinho, mas fascinado por um riso?
Coincidências. Muitas. O Compacto programado para repetir a mesma música até à (minha) exaustão, a zaragata dos miúdos ao telefone gritando feliz aniversário, o PARA SEMPRE do Vergílio brilhando negro entre os Kunderas vestidos de branco sujo, o silêncio que paira para lá da voz do Sérgio. Que há-de ser de nós?
terça-feira, novembro 25, 2008
O tipo que os selvagens dos meus netos adoram:).
Ontem à noite os Machado Vaz partiram em romaria a dar um abraço ao Octávio Cunha, que apresentava o seu último livro na Árvore. Belo jantar no Uma Rosa nas Virtudes, o prazer de tropeçar numa sala... à cunha:). E sobretudo pela criançada, alegremente desprezando toques de recolher para dar beijos repenicados num grande amigo disfarçado de competentíssimo pediatra. O Octávio é um homem bom e cidadão exemplar. Por isso me dão tanto gozo as suas visitas a Cantelães, as palavras apaziguadas de dois homens para lá da curva da vida não ferem a magnífica e silenciosa moldura natural. Ambos já vivemos o suficiente para lhe dar o justo valor...
sexta-feira, novembro 21, 2008
O episódio mais recente da saga educativa.
A conferência de imprensa que se seguiu ao Conselho de Ministros não trouxe o inesperado. Como aqui todos previmos, o Governo recuou sem recuar; a Ministra avaliou a avaliação e não reagiu às pressões; o espírito de diálogo é absoluto, etc, etc... Nada tendo de pessoal contra a Senhora, foi desconfortável assistir à deglutição de alguns sapos, mas a verdade é que a sua completa inabilidade política tornou este degrau obrigatório (seria ingénuo empregar a palavra desfecho...). Porque além de defender - e impor... - as suas legítimas opiniões sobre metodologias de avaliação, um Ministro deve ser capaz de fazer política. Não me refiro a nenhum exercício de hipocrisia ou contorcionismo de coluna vertebral, é necessária a atenção ao Outro e a pacificação narcísica que permitem auscultar os diversos agentes, esgrimir argumentos, reanalisar os próprios à luz dos que não tinham sido contemplados e decidir com firmeza, mas sem rigidez dogmática. Penso que uma das dificuldades de todo este processo reside na evidente crispação relacional da Ministra, bem evidente nos diálogos (?) mantidos com os jornalistas que a confrontem com realidades diversas da que anuncia e embala.
Para mim, houve apenas um momento de verdadeiro interesse no episódio. Pedro Silva Pereira iniciou-o num registo compreensível - dado o tema, microfones, holofotes e perguntas destinavam-se à Ministra da Educação. E contudo... Mal a Política veio à baila, ei-lo que se lança na "tradução" da laboriosa - e entrecortada por vários papeizinhos! - intervenção da Ministra. Em três penadas, tudo foi explicitado, com enorme clareza e eficácia televisiva. Objectivamente quase cruel, o seu gesto era necessário. E confirmou a ideia que sempre me invade quando o escuto - Silva Pereira é a Eminência bem pouco parda deste Governo. A placidez da postura corporal e os decibéis recatados do discurso emolduram neurónios muito, muito rápidos. E peritos - imagine-se! -em redução de danos:).
Enfim, delírios de psi...
Para mim, houve apenas um momento de verdadeiro interesse no episódio. Pedro Silva Pereira iniciou-o num registo compreensível - dado o tema, microfones, holofotes e perguntas destinavam-se à Ministra da Educação. E contudo... Mal a Política veio à baila, ei-lo que se lança na "tradução" da laboriosa - e entrecortada por vários papeizinhos! - intervenção da Ministra. Em três penadas, tudo foi explicitado, com enorme clareza e eficácia televisiva. Objectivamente quase cruel, o seu gesto era necessário. E confirmou a ideia que sempre me invade quando o escuto - Silva Pereira é a Eminência bem pouco parda deste Governo. A placidez da postura corporal e os decibéis recatados do discurso emolduram neurónios muito, muito rápidos. E peritos - imagine-se! -em redução de danos:).
Enfim, delírios de psi...
terça-feira, novembro 18, 2008
Ya lo veremos.
Segui com atenção a entrevista de Elisa Ferreira ao Porto Canal. Nas últimas autárquicas votei Francisco Assis, mas não escondi que a preferia como candidata. Talvez o seja agora. Estou de acordo? Sim. Optimista? Não. Razões? Eis algumas: pelo andar da carruagem, a oportunidade punitiva - e lúdica... - para zurzir o Governo nas autárquicas será aproveitada pelo eleitorado até ao osso; a atitude exterior comatosa do PS portuense, aliada a entusiastas lutas intestinas, transformaram a honestidade do Dr. Rui Rio, a sua distanciação do futebol e desconfiança das elites culturais em trunfos mais do que suficientes para o tornarem favorito, se candidato (acredito que o será, embora algumas afirmações extraordinárias da Dra. Manuela Ferreira Leite pareçam destinadas a forçá-lo a antecipar os timings no que à liderança do partido diz respeito); segundo leio nos jornais, o PS, na prática, está mais ocupado em contemplar, horrorizado, o que pode ser um remake de Famalicão em Matosinhos do que em mobilizar-se para vencer no Porto; mesmo que eu esteja enganado, seria necessário que estabelecesse pontes com cidadãos, movimentos e partidos, sem reservas mentais ou exigências hegemónicas; deseja fazê-lo?; alberga protagonistas credíveis que num tal processo não deixem a candidata a falar sozinha e obrigada a equilíbrios precários e "provas de lealdade"?
Elisa Ferreira é uma boa candidata. Dar-lhe-ão hipótese de corporizar uma boa candidatura? Não sei. Mas duvido...
Elisa Ferreira é uma boa candidata. Dar-lhe-ão hipótese de corporizar uma boa candidatura? Não sei. Mas duvido...
segunda-feira, novembro 17, 2008
Gentileza do Luís!
"Nada deve ser mais importante nem mais desejável (…) do que preservar a boa disposição dos professores (…). É nisso que reside o maior segredo do bom funcionamento das escolas (…)."
"Com amargura de espírito, os professores não poderão prestar um bom serviço, nem responder convenientemente às [suas] obrigações."
Recomenda-se a todos os professores um dia de repouso semanal: "A solicitude por parte dos superiores anima muito os súbditos e reconforta-os no trabalho."
"Quando um professor desempenha o seu ministério com zelo e diligência, não seja esse o pretexto para o sobrecarregar ainda mais e o manter por mais tempo naquele encargo. De outro modo os professores começarão a desempenhar os seus deveres com mais indiferença e negligência, para que não lhes suceda o mesmo."
Incentivar e valorizar a sua produção literária: porque "a honra eleva as artes."
"Em meses alternados, pelo menos, o reitor deverá chamar os professores (…) e perguntar-lhes-á, com benevolência, se lhes falta alguma coisa, se algo os impede de avançar nos estudos e outras coisas do género. Isto se aplique não só com todos os professores em geral, nas reuniões habituais, mas também com cada um em particular, a fim de que o reitor possa dar-lhes mais livremente sinais da sua benevolência, e eles próprios possam confessar as suas necessidades, com maior liberdade e confiança. Todas estas coisas concorrem grandemente para o amor e a união dos mestres com o seu superior. Além disso, o superior tem assim possibilidade de fazer com maior proveito algum reparo aos professores, se disso houver necessidade."
"I. 22. Para as letras, preparem-se professores de excelência
Para conservar (…) um bom nível de conhecimento de letras e de humanidades, e para assegurar como que uma escola de mestres, o provincial deverá garantir a existência de pelo menos dois ou três indivíduos que se distingam notoriamente em matéria de letras e de eloquência. Para que assim seja, alguns dos que revelarem maior aptidão ou inclinação para estes estudos serão designados pelo provincial para se dedicarem imediatamente àquelas matérias – desde que já possuam, nas restantes disciplinas, uma formação que se considere adequada. Com o seu trabalho e dedicação, poder-se-á manter e perpetuar como que uma espécie de viveiro para uma estirpe de bons professores.
II. 20. Manter o entusiasmo dos professores
O reitor terá o cuidado de estimular o entusiasmo dos professores com diligência e com religiosa afeição. Evite que eles sejam demasiado sobrecarregados pelos trabalhos domésticos."
Ratio Studiorum da Companhia de Jesus (1599).
P.S. A tentativa de redução de danos já começou: simplex para a avaliação, legislação ao Domingo, muita, muita abertura, flexibilidade, recados de um PS dentro do PS que não desdenharia o papel de mediador... Receio que seja tarde - vai haver vencedores e vencidos, mesmo com a habitual oratória cosmética que se seguirá.
"Com amargura de espírito, os professores não poderão prestar um bom serviço, nem responder convenientemente às [suas] obrigações."
Recomenda-se a todos os professores um dia de repouso semanal: "A solicitude por parte dos superiores anima muito os súbditos e reconforta-os no trabalho."
"Quando um professor desempenha o seu ministério com zelo e diligência, não seja esse o pretexto para o sobrecarregar ainda mais e o manter por mais tempo naquele encargo. De outro modo os professores começarão a desempenhar os seus deveres com mais indiferença e negligência, para que não lhes suceda o mesmo."
Incentivar e valorizar a sua produção literária: porque "a honra eleva as artes."
"Em meses alternados, pelo menos, o reitor deverá chamar os professores (…) e perguntar-lhes-á, com benevolência, se lhes falta alguma coisa, se algo os impede de avançar nos estudos e outras coisas do género. Isto se aplique não só com todos os professores em geral, nas reuniões habituais, mas também com cada um em particular, a fim de que o reitor possa dar-lhes mais livremente sinais da sua benevolência, e eles próprios possam confessar as suas necessidades, com maior liberdade e confiança. Todas estas coisas concorrem grandemente para o amor e a união dos mestres com o seu superior. Além disso, o superior tem assim possibilidade de fazer com maior proveito algum reparo aos professores, se disso houver necessidade."
"I. 22. Para as letras, preparem-se professores de excelência
Para conservar (…) um bom nível de conhecimento de letras e de humanidades, e para assegurar como que uma escola de mestres, o provincial deverá garantir a existência de pelo menos dois ou três indivíduos que se distingam notoriamente em matéria de letras e de eloquência. Para que assim seja, alguns dos que revelarem maior aptidão ou inclinação para estes estudos serão designados pelo provincial para se dedicarem imediatamente àquelas matérias – desde que já possuam, nas restantes disciplinas, uma formação que se considere adequada. Com o seu trabalho e dedicação, poder-se-á manter e perpetuar como que uma espécie de viveiro para uma estirpe de bons professores.
II. 20. Manter o entusiasmo dos professores
O reitor terá o cuidado de estimular o entusiasmo dos professores com diligência e com religiosa afeição. Evite que eles sejam demasiado sobrecarregados pelos trabalhos domésticos."
Ratio Studiorum da Companhia de Jesus (1599).
P.S. A tentativa de redução de danos já começou: simplex para a avaliação, legislação ao Domingo, muita, muita abertura, flexibilidade, recados de um PS dentro do PS que não desdenharia o papel de mediador... Receio que seja tarde - vai haver vencedores e vencidos, mesmo com a habitual oratória cosmética que se seguirá.
quinta-feira, novembro 13, 2008
O amigo madeirense.
Fecho os olhos e deleito-me - Sócrates entra em casa, desfaz o nó da gravata, tira o casaco que ainda não é da marca Obama e vê o noticiário. Da pérola do Atlântico jorra o maná: avaliação instantânea e governamental dos professores e curso intensivo sobre como degradar a Democracia na Assembleia Regional. Quando o sempre vociferante e pletórico Jardim surge no ecrã, Sócrates não resiste e levanta o polegar na sua direcção, "porreiro, pá!". Mas a gratidão sentida é para ser mostrada! Ei-lo que pousa, enlevado, o Magalhães 1 no colo e surge o mail - "Meu caro Alberto...".
E não seria justo, digo eu? O homem permite que o meio-sorriso de Vitalino Canas emoldure a pergunta "cândida" - é este o modelo que o PSD...? Rumo ao grand final da maioria dos comentadores, "o silêncio de Manuela Ferreira Leite acerca da assembleia Regional da Madeira é atroador e mina a sua autoridade moral". Devo confessar que o não esperava, embalei a esperança de a ver quebrar a cumplicidade, longa e deprimente, com todos os caprichos e dislates do "ganhador insular", que salvará o PSD nacional quando lho solicitarem por unanimidade e aclamação.
Como devo confessar que, num registo diverso, também esperava mais de Cavaco Silva. Não duvido que assista, arrepiado, à última traquinice de quem o apelidou de Senhor Silva; não duvido que no recato dos gabinetes pressione; não duvido sequer da eficácia de tal pressão. Mas quando atropelos desta gravidade são cometidos, espero do Presidente palavras serenas e firmes, bastar-me-ia qualquer coisa como "a legalidade democrática deve ser restabelecida o mais depressa possível".
Eu sei, fui sábio por não ter enveredado pela política:). Institucionalizada!..., pois é política o que fazemos no Murcon.
E não seria justo, digo eu? O homem permite que o meio-sorriso de Vitalino Canas emoldure a pergunta "cândida" - é este o modelo que o PSD...? Rumo ao grand final da maioria dos comentadores, "o silêncio de Manuela Ferreira Leite acerca da assembleia Regional da Madeira é atroador e mina a sua autoridade moral". Devo confessar que o não esperava, embalei a esperança de a ver quebrar a cumplicidade, longa e deprimente, com todos os caprichos e dislates do "ganhador insular", que salvará o PSD nacional quando lho solicitarem por unanimidade e aclamação.
Como devo confessar que, num registo diverso, também esperava mais de Cavaco Silva. Não duvido que assista, arrepiado, à última traquinice de quem o apelidou de Senhor Silva; não duvido que no recato dos gabinetes pressione; não duvido sequer da eficácia de tal pressão. Mas quando atropelos desta gravidade são cometidos, espero do Presidente palavras serenas e firmes, bastar-me-ia qualquer coisa como "a legalidade democrática deve ser restabelecida o mais depressa possível".
Eu sei, fui sábio por não ter enveredado pela política:). Institucionalizada!..., pois é política o que fazemos no Murcon.
quarta-feira, novembro 12, 2008
As "desculpas".
Primeiro foi no carro - quase juro ter pressentido um sabor a triunfo na voz do locutor, "a Ministra pediu desculpa aos professores". Depois foi o rodapé, em marcha lenta para a minha esquerda, a jurar que o ramo de oliveira estivera presente na Assembleia da República, ao arrepio da reportagem. Da qual eu não precisava, assisti em directo. Quando alguém se "desculpa" pelo incómodo provocado aos docentes, acrescentando ser ele necessário em nome dos alunos, do País e da Escola, não estende a mão aberta e sim o indicador ex-cathedra. Os professores são definidos como quem apenas se preocupa com o seu bem-estar e ignora a rapaziada que devia justificar-lhes a existência profissional, a Instituição formativa que deles depende, a Mãe Pátria, no futuro liderada pelos mesmos que agora desleixam. Pedido de desculpas? Credo!, foi uma pífia tentativa de bofetada de luva encardida:).
Dou comigo soterrado por consciências tranquilas. Fátima Felgueiras, Victor Constâncio, Bruno Paixão, Manuel Pinho, Maria de Lurdes Rodrigues, John McCain - essa também! - e mais trinta e cinco mil personagens não encontram razões para vasculharem espelhos interiores. Seja. Mas em verdade vos digo - nem sequer exijo um pecador arrependido, já absolveria um que embalasse dúvidas, esses pormaiores que nos tornam humanos...
Dou comigo soterrado por consciências tranquilas. Fátima Felgueiras, Victor Constâncio, Bruno Paixão, Manuel Pinho, Maria de Lurdes Rodrigues, John McCain - essa também! - e mais trinta e cinco mil personagens não encontram razões para vasculharem espelhos interiores. Seja. Mas em verdade vos digo - nem sequer exijo um pecador arrependido, já absolveria um que embalasse dúvidas, esses pormaiores que nos tornam humanos...
segunda-feira, novembro 10, 2008
Perguntas soltas...
É possível que 120.000 pessoas se deixem manipular? Ou simplesmente desejem evitar qualquer forma de avaliação? Os professores que ouço no consultório mentem? A culpa é minha, incapaz de lhes diagnosticar os delírios? Manuela Ferreira Leite, cuja eleição aqui saudei pela credibilidade que assegurava, não diz uma palavra acerca do último Carnaval na Madeira e "mergulha" no autocarro número 701 da manifestação na véspera à noite? Um partido que se reclama socialista pode suportar uma lufa-lufa na Assembleia da República, alegadamente para modificar o sentido de voto de alguns dos seus deputados?
sexta-feira, novembro 07, 2008
E se ele for apenas Clark Kent?
As expectativas em face de Obama já ultrapassaram o registo da idealização, mergulhando numa hipnose messiânica. O despertar vai ser duro... Felizmente existirá alternativa para os desiludidos na próxima eleição: uma Sarah Palin que acreditava ser África um país e a África do Sul parte dele! Provavelmente no extremo norte...:).
quarta-feira, novembro 05, 2008
Vou dormir.
Pensamento (mórbido) de quem viu cair dois Kennedys e Luther King - Obama já ganhou, esperemos que se mantenha vivo...
sábado, outubro 25, 2008
Olhares.
Quase todos os professores com muita "estrada" vos dirão o mesmo - os críticos mais severos acoitam-se dentro de nós. Porque os anos ensinaram rotinas que maquilham a falta de inspiração e o consequente triste debitar da matéria, sem chama que desperte a curiosidade dos alunos. Mas aula acabada, espelhos íntimos não mentem - fomos medíocres e não medianos. E no entanto... Quinta-Feira, durante o Curso que ministro em Serralves, vi aparecer um dos meus filhos. E ao gosto da sua visita deu a mão um receio agudo de o desiludir. Bautista, como tantas vezes aqui lembrei, aponta a obscenidade de um filho morrer antes dos pais, mas além desse "drama absoluto" existem outros, comezinhos - sentem uma ponta de orgulho ao ouvir-nos?; desejariam voltar se constassem na pauta?; dirão um dia que "era bom aprender com o velho"? A lenda familiar responderá um dia a essas perguntas. Quando a minha presença e a gentileza deles já não influenciarem as respostas:).
domingo, outubro 19, 2008
Um homem que sempre fala de aceitação:).
"Para o Cardeal Carlo M. Martini, a Igreja deve trabalhar no desenvolvimento de uma nova cultura da sexualidade e da relação, pois esta encíclica (Humanae Vitae) é, em parte, responsável por muitos já não tomarem a sério a Igreja como interlocutora ou como mestra. Aos jovens dos países ocidentais, já quase não lhes passa pela cabeça recorrer a representantes da Igreja para os consultar sobre questões de planificação familiar ou de sexualidade. Muitas pessoas afastaram-se da Igreja e a Igreja afastou-se dos seres humanos. Ficou muito prejudicada com esta atitude.
Este Cardeal deseja uma nova encíclica, na qual o magistério diga algo de positivo sobre a sexualidade. Ele próprio faz sugestões e aponta um método de diálogo para que, nesse documento, não sejam dadas respostas a perguntas que não existem.
No Dia das Missões, é importante ter presente a advertência de Jesus: não adianta percorrer mar e terra só para fazer prosélitos. É preciso, antes de mais, fazer da Igreja um lugar habitável para mulheres e homens, jovens e adultos, sejam eles hetero ou homossexuais. Toda a realidade humana é ambígua. A sexualidade também é terra de evangelização."
Frei Bento Domingues, Público, 08/10/19.
Este Cardeal deseja uma nova encíclica, na qual o magistério diga algo de positivo sobre a sexualidade. Ele próprio faz sugestões e aponta um método de diálogo para que, nesse documento, não sejam dadas respostas a perguntas que não existem.
No Dia das Missões, é importante ter presente a advertência de Jesus: não adianta percorrer mar e terra só para fazer prosélitos. É preciso, antes de mais, fazer da Igreja um lugar habitável para mulheres e homens, jovens e adultos, sejam eles hetero ou homossexuais. Toda a realidade humana é ambígua. A sexualidade também é terra de evangelização."
Frei Bento Domingues, Público, 08/10/19.
segunda-feira, outubro 13, 2008
Um homem rigoroso.
Morreu assim - envelope na mão, sorriso nos lábios, recém-arrancados aos dela. Que não chamou ninguém. Ou sequer as lágrimas, há muito previstas... O som do papel rasgado, em pano de fundo o zumbido da tecnologia médica, alheia ao aparecimento da linha isoeléctrica nos visores. O cartão de visita, amarelecido e privilegiado, ele nunca os usara. Dizia que os clientes mais jovens levavam os seus contactos nos telemóveis e os da velha guarda em guardanapos dos tascos favoritos de Matosinhos. A data; sublinhada - trinta anos atrás... E o texto: "Minha querida, é chegado o momento para fazer e gabar - com rigor inatacável! - uma profecia arriscada: serei feliz contigo para sempre."
Ela sorriu. Não seria o tempo que lhe restava, opulento ou anémico, a impedi-la de o dizer, que se danasse o rigor (mortis) - "Eu também, amor". E regressou aos lábios dele.
Ela sorriu. Não seria o tempo que lhe restava, opulento ou anémico, a impedi-la de o dizer, que se danasse o rigor (mortis) - "Eu também, amor". E regressou aos lábios dele.
sexta-feira, outubro 10, 2008
A politicazinha...
SEM CUJO CONCURSO Fernanda Câncio
Nos últimos 26 anos, em Portugal, os homossexuais passaram de criminosos (até 1982) a deficientes e doentes mentais (até 1999), para verem em 2001 reconhecida a igualdade na união de facto e em 2004 especificamente interdita, na Constituição, a sua discriminação. Poucas lutas pela igualdade na lei foram tão rápidas nas suas conquistas. Falta a última batalha, a do casamento. E quem se indigna com o facto de até há muito pouco tempo um homossexual ter sido na lei portuguesa um criminoso e um doente não pode ignorar que a proibição do casamento é resquício disso.Hoje vai-se votar o casamento das pessoas do mesmo sexo no parlamento. É um dia histórico. Mas o partido da maioria vai votar contra, alegando que não está a votar contra o casamento das pessoas do mesmo sexo mas contra "o oportunismo do BE e de Os Verdes". Entendamo-nos: é claro que BE e Verdes querem entalar o PS. É também claro que o PS correu a entalar-se. Se crê na sua justificação, o PS só podia abster- -se, dizendo: "Não podemos votar a favor por não nos considerarmos mandatados eleitoralmente para tal, mas pela mesma razão não podemos votar contra." Vota contra, porém, alegando "juízo de oportunidade", enquanto o presidente da bancada, Alberto Martins, assegura ser não só a favor do casamento das pessoas do mesmo sexo como ver nele uma questão de "direitos fundamentais". Martins e companhia votam, portanto, contra a Constituição. E contra todos os cidadãos cujo direito à igualdade é prejudicado pelo não acesso ao casamento. E esta hecatombe de princípios para quê? Para ensinar o BE e os Verdes a respeitar o PS, "sem cujo concurso dificilmente uma alteração deste tipo jamais se fará". É uma justificação tão boa como as outras, as do costume: "O assunto não é prioritário"; "O País tem tantos problemas, o mundo está numa crise económica, o que é que isso interessa?"; "Já não se pode ouvir falar disso"; "Não houve ainda debate suficiente". Lógico, não? Não houve debate suficiente mas já não se pode ouvir falar disso. Durante uma crise económica não se pode falar de direitos das pessoas (falar de direitos das pessoas deve prejudicar a resolução das crises económicas). E, o mais lógico de tudo: se estamos a falar de homossexuais, como é que isto pode ser prioritário? Pois é. O nada prioritário tema do casamento das pessoas do mesmo sexo está em debate na sociedade portuguesa desde as legislativas de 2005, foi focado nas presidenciais de 2006 e é periodicamente tema de colunas de opinião. Causa discussão acesa no partido da maioria. Mas não mereceu até hoje um único grande debate no horário nobre das TV portuguesas. Nem o Prós e Contras, do canal público, lhe pegou. Se não é prioritário não dá debate, se não é debatido não se torna prioritário. Podia ser a lógica da batata, mas é mesmo a da fobia. Tão fóbica e pouco lógica que, mesmo "sem ampla discussão", 42% dos portugueses - segundo sondagem da Católica - já são a favor do casamento das pessoas do mesmo sexo. Não é ainda a maioria, não; é só grande parte do eleitorado do PS. Oooops.
Jornalista - fernanda.m.cancio@dn.pt
Nos últimos 26 anos, em Portugal, os homossexuais passaram de criminosos (até 1982) a deficientes e doentes mentais (até 1999), para verem em 2001 reconhecida a igualdade na união de facto e em 2004 especificamente interdita, na Constituição, a sua discriminação. Poucas lutas pela igualdade na lei foram tão rápidas nas suas conquistas. Falta a última batalha, a do casamento. E quem se indigna com o facto de até há muito pouco tempo um homossexual ter sido na lei portuguesa um criminoso e um doente não pode ignorar que a proibição do casamento é resquício disso.Hoje vai-se votar o casamento das pessoas do mesmo sexo no parlamento. É um dia histórico. Mas o partido da maioria vai votar contra, alegando que não está a votar contra o casamento das pessoas do mesmo sexo mas contra "o oportunismo do BE e de Os Verdes". Entendamo-nos: é claro que BE e Verdes querem entalar o PS. É também claro que o PS correu a entalar-se. Se crê na sua justificação, o PS só podia abster- -se, dizendo: "Não podemos votar a favor por não nos considerarmos mandatados eleitoralmente para tal, mas pela mesma razão não podemos votar contra." Vota contra, porém, alegando "juízo de oportunidade", enquanto o presidente da bancada, Alberto Martins, assegura ser não só a favor do casamento das pessoas do mesmo sexo como ver nele uma questão de "direitos fundamentais". Martins e companhia votam, portanto, contra a Constituição. E contra todos os cidadãos cujo direito à igualdade é prejudicado pelo não acesso ao casamento. E esta hecatombe de princípios para quê? Para ensinar o BE e os Verdes a respeitar o PS, "sem cujo concurso dificilmente uma alteração deste tipo jamais se fará". É uma justificação tão boa como as outras, as do costume: "O assunto não é prioritário"; "O País tem tantos problemas, o mundo está numa crise económica, o que é que isso interessa?"; "Já não se pode ouvir falar disso"; "Não houve ainda debate suficiente". Lógico, não? Não houve debate suficiente mas já não se pode ouvir falar disso. Durante uma crise económica não se pode falar de direitos das pessoas (falar de direitos das pessoas deve prejudicar a resolução das crises económicas). E, o mais lógico de tudo: se estamos a falar de homossexuais, como é que isto pode ser prioritário? Pois é. O nada prioritário tema do casamento das pessoas do mesmo sexo está em debate na sociedade portuguesa desde as legislativas de 2005, foi focado nas presidenciais de 2006 e é periodicamente tema de colunas de opinião. Causa discussão acesa no partido da maioria. Mas não mereceu até hoje um único grande debate no horário nobre das TV portuguesas. Nem o Prós e Contras, do canal público, lhe pegou. Se não é prioritário não dá debate, se não é debatido não se torna prioritário. Podia ser a lógica da batata, mas é mesmo a da fobia. Tão fóbica e pouco lógica que, mesmo "sem ampla discussão", 42% dos portugueses - segundo sondagem da Católica - já são a favor do casamento das pessoas do mesmo sexo. Não é ainda a maioria, não; é só grande parte do eleitorado do PS. Oooops.
Jornalista - fernanda.m.cancio@dn.pt
sexta-feira, outubro 03, 2008
Melancolia.
A ausência de liberdade de voto na bancada do PS, no que ao casamento de homossexuais diz respeito, não me surpreendeu, o que é triste e preocupante. Admitamos que ela existia, qual seria o resultado prático? Uns votariam contra por convicção; outros por considerarem necessário um debate social prévio - posição que respeito - e o tema não constar do programa do partido na campanha eleitoral; outros por saberem que "lá em cima" esperavam que o fizessem; outros refugiar-se-iam na abstenção; e outros votariam a favor. Alguém acredita que o projecto de lei passaria? Assim, nem sequer por razões da famosa real politik a decisão se justifica. Quanto a "não andar a reboque de ninguém" é um argumento inacreditável, pressupõe não apoiar as boas - ou más! - ideias dos outros pela simples razão de virem..., dos outros! Estranho conceito de democracia:(.
Para alguém da minha geração, foi especialmente doloroso ver Alberto Martins como rosto e voz do processo, pela sua importância no imaginário de tantos universitários. Das catacumbas da minha lúcida cobardia, consegui às vezes imaginar-me capaz de pedir com ele a palavra, para escândalo horrorizado e fugitivo de um Presidente da República filho da mais despudorada batota eleitoral; mas recuava perante a simples evocação das consequências, era do contra dentro dos limites do meu comodismo burguês. Ficou a admiração grata pelo seu acto, pois não se tratou de simples gesto.
Por isso busco refúgio pobre na convicção de que, passados quarenta anos, este episódio lhe deixa um sabor amargo em boca e memória. E reforço outra, que norteou ao longo de uma vida a minha intervenção política e cívica - nunca poderia ser um homem de partido. Considero obscena a disciplina de voto em matérias como esta, a lealdade não pode viver à custa do suicídio da consciência.
Para alguém da minha geração, foi especialmente doloroso ver Alberto Martins como rosto e voz do processo, pela sua importância no imaginário de tantos universitários. Das catacumbas da minha lúcida cobardia, consegui às vezes imaginar-me capaz de pedir com ele a palavra, para escândalo horrorizado e fugitivo de um Presidente da República filho da mais despudorada batota eleitoral; mas recuava perante a simples evocação das consequências, era do contra dentro dos limites do meu comodismo burguês. Ficou a admiração grata pelo seu acto, pois não se tratou de simples gesto.
Por isso busco refúgio pobre na convicção de que, passados quarenta anos, este episódio lhe deixa um sabor amargo em boca e memória. E reforço outra, que norteou ao longo de uma vida a minha intervenção política e cívica - nunca poderia ser um homem de partido. Considero obscena a disciplina de voto em matérias como esta, a lealdade não pode viver à custa do suicídio da consciência.
quinta-feira, setembro 25, 2008
Outono.
Dois dias, dois velórios. Em ambos a dor era adulta e o alívio criança. Porque as pessoas viram os seus amores em longo sofrimento, sobreviventes de naufrágios próprios. E perguntaram vezes sem conta quando acabaria o obsceno esmaecer das tintas fortes da vida que os obrigava a procurar o outro na memória e não no destroço à frente deles, incapaz até de ordem disfarçada de súplica - "vai, não quero que me vejas e lembres assim". Apetece contrariar o louco sedento de glória nas areias de Alcácer-Quibir, e rosnar um exorcismo disfarçado de prece - morrer sim mas depressa! Para que nenhuma caricatura sombria estilhace as recordações dos que tiveram a surpreendente gentileza de me acompanhar.
sábado, setembro 13, 2008
Num bá a Susana dar-me um arraial de purrada, caragu!
Comentário iluminado ou epílogo definitivo à saga paixão/amor? Credo, gente, vocês são piores do que os revoltosos da Bounty! Mas sempre vos digo uma coisa - a paixão é sobrevalorizada (apesar do carinho que dedico às memórias dela...). Mas toda aquela adrenalina, pelo menos no meu caso, tem algo de nevoento e frenético que impede a cadência paulatina do erotismo e as surpresas que o outro - e não a sua imagem... - nos reserva. Por isso vos digo, nada na manga - como Fiorentino Ariza em O Amor nos Tempos de Cólera e o mais anónimo personagem do autocarro das oito da manhã, mergulhei na paixão, mesmo quando a pressenti funesta:). Mas os melhores momentos passei-os nas mãos da ternura erotizada, que nos transforma os olhos em fendas suaves, acolhedoras para o ondular de alguém; o cérebro em vidente preguiçoso, que antecipa riso e espasmo com o mesmo prazer; o sexo em fogo puro e duro..., mas que compreende o gozo da espera e acolhe, sem amuo, o "mais logo" sussurrado em voz rouca.
quarta-feira, setembro 03, 2008
O admirável mundo novo.
A imprensa fazendo eco de outra descoberta "biologizante" - certos perfis genéticos tornariam os "seus" homens mais capazes de se manterem numa relação afectiva. Já conhecia os estudos sobre roedores que deram origem a esta linha de investigação. (E chamo a atenção da Sociedade Protectora dos Animais para a cruel transformação dum D. Juan felpudo em obsessivo monogâmico com uma injecção:)!). No fim do texto, lá vem o reconhecimento da especificidade dos humanos, bichos de cultura. Mas o artigo recordou-me a famosa desculpa do libertino em As Ligações Perigosas - não consigo impedir-me (ou coisa que o valha). Esta vertigem biológica, a não existir cautela, poderá justificar uma ainda maior patologização e medicalização dos comportamentos. E permitir respostas como "desculpa, querida, eu não queria meter o pé, mas estes meus diabólicos genes:(".
Hum, Júlio, não deixa de ser tentador...
P.S. Não foi esquecimento, não - das mulheres, nem palavra, os homens são mais sensíveis à vasopressina. Mas cheira-me que o genótipo delas vai sair com tendência para a monogamia:).
Hum, Júlio, não deixa de ser tentador...
P.S. Não foi esquecimento, não - das mulheres, nem palavra, os homens são mais sensíveis à vasopressina. Mas cheira-me que o genótipo delas vai sair com tendência para a monogamia:).
quinta-feira, agosto 21, 2008
Das brumas da memória:). Sem hino...
Confesso que não me lembro muito bem das Pontes de Madison County. Das brumas saem as ditas, que achei belíssimas, o meu querido Clint, último e fiel depositário de um certo cinema e tipo de actor, o desempenho intocável de Meryl e a sua mão crispada na porta de um automóvel. O fulcro da questão é o habitual... - deixar ou não um amor tranquilo por uma paixão avassaladora. Em trinta anos de profissão ouvi descrever as duas decisões e os trajectos subsequentes. Há quem fique por cobardia, pelos outros, por considerar que a paixão não resistirá ao quotidiano e um dia se assemelhará ao afecto deixado para trás. Há quem descubra não estar talhado(a) para a vida de casal, embora tenha pressionado o outro para o (a) seguir. Muitos dos julgamentos de valor a que assistimos partem do pressuposto que viver a paixão à custa de tudo o resto é quase uma "obrigação ética". Não concordo e a História também não. Acho perfeitamente legítimo resistir às consequências práticas de uma paixão e aos 58 já percebi que somos muito injustos para o amor tranquilo, chegamos a confundi-lo com monotonia e desistência! No caso do filme, gostaria apenas de acrescentar algo - compreendo o artifício narrativo de deixar o caso "em testamento" aos filhos. Na vida real parece-me um erro. Se tivesse escolhido ficar no quadro familiar, preservá-lo-ia post mortem, não vejo a vantagem de comprometer a fantasia harmónica da ninhada. Pelo contrário, teria muito medo que sentissem a revelação como a prova de que, admitindo-o ou não, eu teria sido infeliz durante anos, desistindo da "verdadeira felicidade por causa deles". Não, teria sido uma decisão minha, ponto final. E seria felicidade? Não serão as Pontes mais um exemplo da tradição ocidental de considerar perfeitos apenas os amores interrompidos por morte ou distância? Acho que ficam pontas - ou pontes?:) - suficientes para uma boa cavaqueira!
quinta-feira, agosto 14, 2008
Sessão nocturna.
O carteiro de Pablo Neruda pela enésima vez:). O privilégio concedido a - e merecido por! - Philippe Noiret: juntar esta obra-prima ao Cinema Paradiso. A tristeza que a morte prematura do extraordinário actor que deu vida ao homem simples "infectado" pelo vírus da poesia me provocou. O desconforto que o filme alimenta - há quem viva com demasiada ligeireza a influência que teve... na vida de outros! E esqueça cartas prometidas, pensamentos jurados, gratidão devida. Pode acontecer a todos, mas não é raro encontrar tal "doença" nos que falam muito do e para o povo, mas ligam pouco às pessoas de carne e osso.
quarta-feira, agosto 13, 2008
Balanço provisório, que as férias ainda não terminaram!
O balanço da Sardenha é muito positivo. E contudo o primeiro dia fez-me temer o pior, os aeroportos em Agosto batem-se ombro a ombro com a Santa Inquisição! As duas horas e meia de espera em Fiumicino transformaram-se em cinco e vocês conhecem os terminais de voos internos... - para além da multidão enlatada, a "banda sonora" de anúncios era enlouquecedora, resisti pondo o IPod no máximo e pedindo perdão a Mozart, Neil Young, Callas, REM e outros amigos íntimos:). Depois de aterrar em Olbia esperámos umas míseras duas horas para levantar o carro! Quando meti a chave na porta do quarto já ia à espera de beliches, velas de cabeceira, bolor no mini-bar, latrina ao ar livre e quatro irlandeses bebidos e estentóreos na varanda:(. As baixas expectativas trazem pela mão as boas surpresas, a partir daí tudo melhorou e o único momento stressante foi o passado numa farmácia a tentar convencer o "patrão da lancha" a dar-me um antibiótico para o Gaspar sem receita. Valeu-me o Octávio Cunha, que me ia dando dicas para a minha miserável e untuosa argumentação pelo telemóvel. Foi bom, mas chegar a Cantelães, hum... Crianças e cães correm pelo jardim e o tempo melhorou o suficiente para tornar a piscina tentadora. Mas cá dentro, clandestina e psicopata, uma parte de mim segreda-me que do óptimo passaria à perfeição se declarasse avariado o sinistro Disney Channel:).
terça-feira, agosto 05, 2008
Ponto da situação.
Até agora, a Sardenha bate a Grécia aos pontos - mais perto, areia em vez de pedregulhos na praia, menos confusão e um relvado quase até ao mar! A viagem foi atribulada, cinco horas de suplício em Roma, mais duas para levantar o carro, menos mal que a bagagem não seguiu para alguma ilha do Pacífico... A enseada não é poiso de celebridades ou papparazzi e há no hotel um aroma a empresa familiar muito agradável. Dos "habitués", os meus favoritos são dois inglesinhos apaixonados que, solenemente, emborcam uma garrafa antes de irem para a mesa e aí chegados..., pedem a carta de vinhos!:). Quanto a mim, decretei não entender uma palavra de italiano e só falo inglês. Resultado da maroteira - já fui cumprimentado no restaurante pelos meus progressos na língua de Petrarca e da sua Laura. Até depois, maralhal.
quinta-feira, julho 31, 2008
Ai as entrevistas pelo telefone...:).
Antes de ser trucidado, passo a corrigir um lapso freudiano de uma gentil jornalista do Portugal Diário: eu citei alguém que afirmou estar o principal órgão sexual entre as orelhas, não entre as pernas:))))).
quarta-feira, julho 30, 2008
E ainda não começaram!
Pequim 2008: China vai censurar Internet utilizada pelos media estrangeiros
30.07.2008 - 10h26 Lusa
A China vai censurar a Internet utilizada pelos media estrangeiros durante os Jogos Olímpicos de Pequim, indicou hoje um responsável do comité de organização, recuando numa promessa de garantir liberdade total aos media durante o evento."Durante os Jogos Olímpicos, vamos fornecer um acesso à Internet suficiente para os jornalistas", indicou Sun Weide, porta-voz do comité de organização dos Jogos Olímpicos. A mesma fonte confirmou que os jornalistas não terão acesso a páginas ou sites contendo informações sobre o movimento espiritual Falungong, que é proibido na China. De acordo com a mesma fonte, que não adiantou pormenores, haverá outros sites que não estarão acessíveis à imprensa. Os jornalistas que trabalham no principal centro reservado à imprensa durante os Jogos Olímpicos queixaram-se de não poder aceder aos sites da organização Amnistia Internacional, da BBC, da rádio alemã Deutsche Welle, bem como dos jornais de Hong-Kong "Apple Daily", e de Taiwan, "Liberty Times". "A nossa promessa era que os jornalistas pudessem dispor de Internet para o seu trabalho durante os Jogos Olímpicos. E nós concedemos acesso suficiente para isso", acrescentou Sun. No entanto, o comité de organização dos Jogos Olímpicos, sob pressão do Comité Olímpico Internacional (COI), prometeu um acesso completo à Internet para os milhares de jornalistas na China durante o evento, entre 8 e 24 de Agosto. Proibido desde 1999 por Pequim, o movimento Falungong reivindica 100 milhões de seguidores, 70 milhões dos quais na China.
P.S. Talvez faça pensar os que defendem que o Desporto nada tem a ver com Política. Só se for com a real politik...
30.07.2008 - 10h26 Lusa
A China vai censurar a Internet utilizada pelos media estrangeiros durante os Jogos Olímpicos de Pequim, indicou hoje um responsável do comité de organização, recuando numa promessa de garantir liberdade total aos media durante o evento."Durante os Jogos Olímpicos, vamos fornecer um acesso à Internet suficiente para os jornalistas", indicou Sun Weide, porta-voz do comité de organização dos Jogos Olímpicos. A mesma fonte confirmou que os jornalistas não terão acesso a páginas ou sites contendo informações sobre o movimento espiritual Falungong, que é proibido na China. De acordo com a mesma fonte, que não adiantou pormenores, haverá outros sites que não estarão acessíveis à imprensa. Os jornalistas que trabalham no principal centro reservado à imprensa durante os Jogos Olímpicos queixaram-se de não poder aceder aos sites da organização Amnistia Internacional, da BBC, da rádio alemã Deutsche Welle, bem como dos jornais de Hong-Kong "Apple Daily", e de Taiwan, "Liberty Times". "A nossa promessa era que os jornalistas pudessem dispor de Internet para o seu trabalho durante os Jogos Olímpicos. E nós concedemos acesso suficiente para isso", acrescentou Sun. No entanto, o comité de organização dos Jogos Olímpicos, sob pressão do Comité Olímpico Internacional (COI), prometeu um acesso completo à Internet para os milhares de jornalistas na China durante o evento, entre 8 e 24 de Agosto. Proibido desde 1999 por Pequim, o movimento Falungong reivindica 100 milhões de seguidores, 70 milhões dos quais na China.
P.S. Talvez faça pensar os que defendem que o Desporto nada tem a ver com Política. Só se for com a real politik...
sábado, julho 26, 2008
Generalada:).
jfr,
Tem razão, diversifiquei de tal modo a minha vida profissional que acho estar a coberto de "ressacas".
ni,
A escrita não arranca. Como sabe, não me considero um escritor, mas se pelo menos as palavras não dançam, prefiro sentar-me a ver as cadelas brincando no relvado de Cantelães ao som de Van Morrison.
Jorge,
Cada vez mais as minhas viagens são interiores. Nunca pior, ao preço que a vida está...
Manuel e Roc,
Tive de aceitar penalização...
Silent wings,
Era a brincar, não observei aumento sensível nos níveis habituais de preguiça.
Olhar,
Prefiro o meu tinto ao fds.
Thora,
Apesar de penalizado financeiramente, dou-lhe razão, tenho perfeita consciência de pertencer a uma elite favorecida, mas olhe que não só em comparação com os operários, meu velho, a classe média vai-se esboroando implacavelmente.
Filó,
Exactamente, e não falo dos alunos...
Aquiles,
Um mero jantarzito no Godinho...
Lobices,
O abraço solidário de sempre.
Ti,
Nada pode repetir o gozo de O Sexo dos Anjos.
Guilherme,
Esses recibos não têm a cor da esperança, mas da vergonha de uma sociedade.
Laura,
Sete meses não é assim tão pouco tempo...
Tiago,
Não se preocupe, a Constança Paul é uma óptima professora! Quanto a mim, a rotina era a seguinte: 200 alunos inscritos, 170 só querendo passar no exame e trinta com quem me dava um gozo do caraças "alucinar" nas aulas, embora Sociologia Médica devesse ser ensinada no último ano do Curso.
Anfitrite,
O professor Mário Andrea é uma delícia. Quanto à compra a que se refere, devo ser honesto: sempre distraído, nem soube de tal possibilidade quando existiu, pelo que não posso garantir que não tivesse aproveitado.
Tem razão, diversifiquei de tal modo a minha vida profissional que acho estar a coberto de "ressacas".
ni,
A escrita não arranca. Como sabe, não me considero um escritor, mas se pelo menos as palavras não dançam, prefiro sentar-me a ver as cadelas brincando no relvado de Cantelães ao som de Van Morrison.
Jorge,
Cada vez mais as minhas viagens são interiores. Nunca pior, ao preço que a vida está...
Manuel e Roc,
Tive de aceitar penalização...
Silent wings,
Era a brincar, não observei aumento sensível nos níveis habituais de preguiça.
Olhar,
Prefiro o meu tinto ao fds.
Thora,
Apesar de penalizado financeiramente, dou-lhe razão, tenho perfeita consciência de pertencer a uma elite favorecida, mas olhe que não só em comparação com os operários, meu velho, a classe média vai-se esboroando implacavelmente.
Filó,
Exactamente, e não falo dos alunos...
Aquiles,
Um mero jantarzito no Godinho...
Lobices,
O abraço solidário de sempre.
Ti,
Nada pode repetir o gozo de O Sexo dos Anjos.
Guilherme,
Esses recibos não têm a cor da esperança, mas da vergonha de uma sociedade.
Laura,
Sete meses não é assim tão pouco tempo...
Tiago,
Não se preocupe, a Constança Paul é uma óptima professora! Quanto a mim, a rotina era a seguinte: 200 alunos inscritos, 170 só querendo passar no exame e trinta com quem me dava um gozo do caraças "alucinar" nas aulas, embora Sociologia Médica devesse ser ensinada no último ano do Curso.
Anfitrite,
O professor Mário Andrea é uma delícia. Quanto à compra a que se refere, devo ser honesto: sempre distraído, nem soube de tal possibilidade quando existiu, pelo que não posso garantir que não tivesse aproveitado.
quinta-feira, julho 17, 2008
Comunicado.
Informo a nação murcónica da chegada de uma carta da CGA que confirma a minha passagem à reforma. De imediato senti uma quebra imensa de energia vital, pelo que solicito aos visitantes do blog a devida compreensão por eventuais erros, omissões e outros sinais de declínio pós-traumático. Snif:(.
domingo, julho 13, 2008
Long may he run!
Um concerto esplendoroso de Neil Young, coroado com uma versão alucinante de A Day in the Life dos Beatles!:). Este homem acompanha-me há quarenta anos e eu faltei a um encontro em Paredes de Coura. Paguei essa dívida e regresso ao Porto com outra maior - duas horas enternecidas por tanta energia eléctrica e doçura unplugged. E um velho verso irrompe nos meus neurónios, ainda a abarrotar de adrenalina - rock'n'roll will never die.
sexta-feira, julho 11, 2008
Sexta à noite.
Maria,
Comecei a preparar o Curso para Serralves em Outubro. E à medida que tirava notas, pressentia a ressurreição do teu sofá preferido. O sorriso irónico - "Mas meu querido, a reforma ainda não chegou e já assumes outros compromissos? Para onde fugiram o gozar a vida e a escrita preguiçosa?". Conheces tão bem a resposta, querida. Reformado ou não, sou um professor. E Serralves é uma oportunidade única... de aprender:). Sabes que cheguei à História através da Sexualidade, logo, as lacunas são enormes. Basta que um(a) profissional esteja na assistência e poderei preencher algumas, aos 58 já digo "não sei" com uma tranquilidade a meio-caminho entre a sageza e a psicopatia. E depois, é tão bom reler a Ilíada! E angustiante... Temos um novo IPhone e as pessoas fazem bicha para o adquirir, a santificada Ingrid confessa que no lugar do Zidane também teria cabeceado o defesa italiano, a Igreja Católica declara que a ordenação de mulheres para o bispado dificulta o diálogo com os Anglicanos, etc, etc... Perdemos ambição pelo caminho. Desconfio que se cá voltasse, Homero escreveria discursos para autarcas em campanha, salientando as vantagens de mais uma rotunda:(. A gargalhada - "Júlio, tu não existes." E não será em parte por tua culpa, querida?
Comecei a preparar o Curso para Serralves em Outubro. E à medida que tirava notas, pressentia a ressurreição do teu sofá preferido. O sorriso irónico - "Mas meu querido, a reforma ainda não chegou e já assumes outros compromissos? Para onde fugiram o gozar a vida e a escrita preguiçosa?". Conheces tão bem a resposta, querida. Reformado ou não, sou um professor. E Serralves é uma oportunidade única... de aprender:). Sabes que cheguei à História através da Sexualidade, logo, as lacunas são enormes. Basta que um(a) profissional esteja na assistência e poderei preencher algumas, aos 58 já digo "não sei" com uma tranquilidade a meio-caminho entre a sageza e a psicopatia. E depois, é tão bom reler a Ilíada! E angustiante... Temos um novo IPhone e as pessoas fazem bicha para o adquirir, a santificada Ingrid confessa que no lugar do Zidane também teria cabeceado o defesa italiano, a Igreja Católica declara que a ordenação de mulheres para o bispado dificulta o diálogo com os Anglicanos, etc, etc... Perdemos ambição pelo caminho. Desconfio que se cá voltasse, Homero escreveria discursos para autarcas em campanha, salientando as vantagens de mais uma rotunda:(. A gargalhada - "Júlio, tu não existes." E não será em parte por tua culpa, querida?
terça-feira, julho 08, 2008
Pronto, tudo explicado!:).
Amor de paixão acaba depois de um ano, diz estudo
Um estudo realizado na Universidade de Pavia, na Itália, aponta que o amor de paixão dura pouco mais que um ano. Os pesquisadores descobriram que uma substância cerebral chamada de neurotrofina é a responsável pelas mudanças no comportamento dos casais, segundo a BBC.
Com a realização de estudos sobre relacionamentos longos e curtos, constatou-se que os níveis da proteína, responsável pelas primeiras exaltações do sentimento, como a euforia e a dependência que surgem logo no início de uma relação, baixam depois de certo tempo. Foram analisados 58 homens e mulheres entre 18 e 31 anos, nos quais verificou-se as alterações dos níveis dessa substância cerebral.
Os cientistas observaram indivíduos que haviam recém-iniciado um namoro - nos quais os níveis da proteína estavam elevados. Um ano depois, nas 39 pessoas que ainda estavam juntas, a quantidade da substância do cérebro havia diminuído.
Para um dos autores do estudo, Pierluigi Politi, a descoberta não indica que as pessoas deixam de estar apaixonadas, mas que o sentimento se tornou um tanto "estável". "O amor romântico parece ter acabado após algum tempo", declarou afirmando que novos estudos sobre o tema ainda serão realizados.
Um estudo realizado na Universidade de Pavia, na Itália, aponta que o amor de paixão dura pouco mais que um ano. Os pesquisadores descobriram que uma substância cerebral chamada de neurotrofina é a responsável pelas mudanças no comportamento dos casais, segundo a BBC.
Com a realização de estudos sobre relacionamentos longos e curtos, constatou-se que os níveis da proteína, responsável pelas primeiras exaltações do sentimento, como a euforia e a dependência que surgem logo no início de uma relação, baixam depois de certo tempo. Foram analisados 58 homens e mulheres entre 18 e 31 anos, nos quais verificou-se as alterações dos níveis dessa substância cerebral.
Os cientistas observaram indivíduos que haviam recém-iniciado um namoro - nos quais os níveis da proteína estavam elevados. Um ano depois, nas 39 pessoas que ainda estavam juntas, a quantidade da substância do cérebro havia diminuído.
Para um dos autores do estudo, Pierluigi Politi, a descoberta não indica que as pessoas deixam de estar apaixonadas, mas que o sentimento se tornou um tanto "estável". "O amor romântico parece ter acabado após algum tempo", declarou afirmando que novos estudos sobre o tema ainda serão realizados.
sexta-feira, julho 04, 2008
Bom fds!
A Andorinha citava a opinião de MFL sobre o casamento. Estou a salvo de acusação de tiro ao alvo, defendi neste espaço a sua eleição para credibilizar a política portuguesa - sendo zurzido por alguns:) - e gostosamente revelei que nos ligam laços quase familiares. A visão procriativa do casamento finou-se com a "invenção" e generalização do casamento por amor. Claro que a ganapada continua a ter direito de cidade, mas apenas se desejada, a instituição passou a abrigar um projecto de vida e felicidade em comum que pode não a contemplar de início ou dela desistir. Na minha opinião, a tendência é irreversível, pois aos fundamentos do casamento juntaram-se variadas razões que contribuem para a baixa de natalidade. A opinião é, por isso, legítima, e contudo já perdeu contacto com a realidade sociológica. O casamento gay, no quadro actual de privilégio da dimensão afectiva, será apenas combatido por razões morais, travestidas ou não. Conscientemente ou não...
sábado, junho 28, 2008
O costume...
Ontem fui recebido como amigo e conterrâneo na E/B de Vieira do Minho. Tão importante como a conversa mantida com a assistência foi ouvir a descrição das inicitiativas levadas a cabo por técnicos, professores, pais e alunos. Admiráveis, mas - como de costume... - dependentes do suor, carolice e solidariedade das pessoas. Não pode ser:(. O Estado continua a refugiar-se em directivas vagas e declarações redondas. É preciso apoiar, estruturar, enquadrar. De modo a que eu não ouça frase angustiada - "até 2009 está assegurado, depois...". Porque alguém se vai embora, as condições objectivas deixam de existir, o cansaço derruba quem trabalha fora de horas, etc... E pensar que a lei de Educação Sexual é de 1984!
quinta-feira, junho 26, 2008
Muito adequado ao mundo em que vivemos.
"Os que sobrevivem neste ofício são os que têm prioridades e não princípios."
Carlos Ruiz Zafón - O Jogo do Anjo.
Carlos Ruiz Zafón - O Jogo do Anjo.
domingo, junho 22, 2008
Entre buzinadelas e morteiros.
Barcelona em festa! Merecida, Espanha jogou bastante melhor do que uma calculista Itália. E eu partilho da alegria, sempre me senti em casa neste país. Mas valha a verdade que em particular na Galiza e na Catalunha, mas hoje não é noite para dar largas à minha costela autonómica:).
quarta-feira, junho 18, 2008
Em território "daliniano".
Não é raro os meus alunos sublinharem a frequência de slides de Dalí nas aulas. É verdade. E no entanto nunca "atravesso" as obras, o personagem por trás delas é-me antipático, na sua obsessão com a mais longa obra a que se dedicou - a própria imagem. Cadaquès, Port Lligat, Creus, o pano de fundo de muitos quadros está ali, na costa retalhada com fúria, que se abre para um mar plácido. Não é o caso dos meus favoritos - A Tentação de Santo António e A Persistência da Memória. No primeiro, imagina-se mal como fé e cruz poderão proteger a virtude de um simples homem contra elefantes aracnídeos que se preparam para o soterrar por baixo de prazeres de carne e espírito; no segundo, os relógios, a quem entregámos o privilégio de substituir Estações, Sol e Lua na marcação da cadência do tempo, "escorrem", flácidos, para o chão. A memória não é do reino deles...
sábado, junho 14, 2008
Sénanque.
A Abadia ainda não estava rodeada por aquela espantosa mancha azul de lavanda:(. Mas na missa do meio-dia respirava-se uma paz ecuménica, que me trouxe a atmosfera do velho colégio João de Deus. No fim, os monges correram a igreja cumprimentando as pessoas com um sorriso afectuoso na mão e nada mais, perguntar é muitas vezes o primeiro passo para dividir. Eu, que nunca o faço, respondi ao apelo do livro de mensagens e escrevi o óbvio - obrigado pela serenidade. Vim-me embora a pensar que a vertigem do poder temporal foi uma armadilha terrível para certa Igreja, que nunca se libertou da sua nostalgia. Erro crasso, as palavras e vidas destes homens lembram-nos bem melhor que o sonho de Cristo era possível.
segunda-feira, junho 09, 2008
À sombra dos Alpilles.
Mesmo carrancudo, o céu da Provença continua a derramar uma luz inigualável. Pego no jornal e leio que o Presidente da Câmara de Paris, Bertrand Delanoë, preconiza um aumento dos impostos à Total, cujos dirigentes se enchem de dinheiro enquanto a crise se agrava. Sugere uma fiscalidade "mais agressiva" para as grandes companhias. Parece impossível, ninguém lhe explicou as quase inexistentes margens de lucro delas?:(. Esta mania de fazer os ricos participarem nos custos da crise... Ainda me lembro de um slogan arrepiante!: eles que a pagassem. Há gente capaz das ideias mais absurdas, postas na prática assassinariam a ordem social como a conhecemos - lógica: bancos e grandes empresas necessitam de sossego para produzirem riqueza, posteriormente distribuída com justiça por todos nós. Quem duvida disto é um cínico sem esperança ou perdão!
quinta-feira, junho 05, 2008
Entre o hemiciclo e a rua.
Em Abril, Fora-de-Lei escreveu que a eleição de Manuela Ferreira Leite convinha ao PM, porque seria quase uma "garantia" da concentração do voto útil de esquerda no PS. O argumento era válido e recordei-o hoje, enquanto assistia ao debate sobre a moção de censura apresentada pelo CDS/PP. Curiosamente, com a sensação de que a cabeça do Engenheiro Sócrates se debruçava mais sobre as 200.000 pessoas que desaguaram nas ruas de Lisboa. Não basta dizer que os números não são preocupantes, apenas as ideias, ou catalogar de "conservadoras" outras esquerdas. Penso que os portugueses, na sua esmagadora maioria, já estão para lá do voto útil. Se este Governo for incapaz de - ao menos... - diluir a imagem de cumplicidade com o evidente agravamento do fosso entre classes à custa da média, o voto de protesto será inevitável. De protesto e pressão quanto a coligações ou simples entendimentos pontuais!, um bloco central em 2009 só engrossaria as manifestações...
terça-feira, junho 03, 2008
Montalegre.
No fim-de-semana fui ao Congresso de Clínica Geral em Montalegre. Mesa deliciosamente assassina, braços abertos, colegas de curso, jovens do secundário com risos francos. Não me arrependi por chegar a Cantelães com 24 horas de atraso. A Clínica Geral é a fiel depositária de uma longa tradição de Medicina de cabeceira, holística, artesanal, quase fraterna. E reconhece a extraordinária importância das super-especialidades sem cair na esparrela que trazem à arreata, fazer de nós simples técnicos de saúde, eruditos no que a determinados órgãos diz respeito, tantas vezes a anos-luz de distância da humanidade para lá deles - palpáveis, científicos, a preto e branco. Mortíferos mas ingénuos...
quinta-feira, maio 29, 2008
A decisão.
Maria,
Outra enxaqueca. Sabes como as estranho, durante a vida coleccionei maleitas sem uma dor de cabeça. O hipocondríaco franze o sobrolho, o psi aponta a coincidência - decidi hoje voltar a escrever. Em Julho; em Cantelães. O pensamento já chegaria para me angustiar, achei sinceramente que não o voltaria a fazer. Acontece que me sinto tentado a escrever-nos o avesso - um amor à prova de bala, distância e morte. E portanto insinuar, através da ficção, que não amámos bem no real. Será que a cabeça me dói para poupar o coração?
Outra enxaqueca. Sabes como as estranho, durante a vida coleccionei maleitas sem uma dor de cabeça. O hipocondríaco franze o sobrolho, o psi aponta a coincidência - decidi hoje voltar a escrever. Em Julho; em Cantelães. O pensamento já chegaria para me angustiar, achei sinceramente que não o voltaria a fazer. Acontece que me sinto tentado a escrever-nos o avesso - um amor à prova de bala, distância e morte. E portanto insinuar, através da ficção, que não amámos bem no real. Será que a cabeça me dói para poupar o coração?
domingo, maio 25, 2008
Domingo à noite.
Fim-de-semana "cosy" no refúgio dos Sobrinho Simões em Âncora. A longa amizade cúmplice. As saudades das proles respectivas afogadas em recordações sorridentes, quarenta anos depois falamos dos filhos deles, de netos! Expedição punitiva às tapas da Casa da Abuela na outra margem do rio, com os inevitáveis protestos da colite. Aceitei fazer no Outono um Curso sobre Sexualidade e Civilização Ocidental em Serralves. Lá se vai o descanso da reforma... E contudo, é para mim uma estratégia imperativa de sobrevivência - preciso de meditar o sexo como produto cultural através de espaço e tempo, para não enjoar o exibicionismo acéfalo que hoje nos enfiam goela abaixo.
quarta-feira, maio 21, 2008
domingo, maio 18, 2008
A aculturação da anatomia:).
Olhar para peito de homem não é crime, diz Justiça britânica
Tribunal disse que peito de homem não constiui 'parte privada'
Olhar para o peito de um homem é perfeitamente legal, mas não para o de uma mulher, segundo uma decisão do Tribunal de Apelação britânico nesta semana sobre o que constitui voyeurismo.
Segundo o julgamento, apenas os seios de uma mulher podem ser considerados "partes privadas".
O tribunal fez a distinção ao reverter a condenação por voyeurismo de um homem que filmou secretamente um outro homem enquanto ele tomava banho, de calção, em uma piscina.
Kevin Bassett, de 44 anos, havia sido condenado a ficar 18 meses sob supervisão, mas apelou da decisão dizendo que o suposto crime não poderia se enquadrar em nenhuma categoria prevista pelo 2003 Sexual Offences Act.
A legislação diz que partes privadas, como peitos ("breasts", em inglês), devem ser expostas durante um ato de voyeurismo.
Na decisão desta quinta-feira, o Tribunal de Apelação disse que a intenção dos legisladores britânicos, ao aprovar a lei, era que a expressão se referisse apenas aos seios de uma mulher e não ao peito de um homem.
Tribunal disse que peito de homem não constiui 'parte privada'
Olhar para o peito de um homem é perfeitamente legal, mas não para o de uma mulher, segundo uma decisão do Tribunal de Apelação britânico nesta semana sobre o que constitui voyeurismo.
Segundo o julgamento, apenas os seios de uma mulher podem ser considerados "partes privadas".
O tribunal fez a distinção ao reverter a condenação por voyeurismo de um homem que filmou secretamente um outro homem enquanto ele tomava banho, de calção, em uma piscina.
Kevin Bassett, de 44 anos, havia sido condenado a ficar 18 meses sob supervisão, mas apelou da decisão dizendo que o suposto crime não poderia se enquadrar em nenhuma categoria prevista pelo 2003 Sexual Offences Act.
A legislação diz que partes privadas, como peitos ("breasts", em inglês), devem ser expostas durante um ato de voyeurismo.
Na decisão desta quinta-feira, o Tribunal de Apelação disse que a intenção dos legisladores britânicos, ao aprovar a lei, era que a expressão se referisse apenas aos seios de uma mulher e não ao peito de um homem.
quarta-feira, maio 14, 2008
Também eu!
Violência Doméstica
APAV ‘perplexa’ com declarações do bastonário dos Advogados
A presidente da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) disse hoje ter ficado «perplexa» com as declarações do bastonário da Ordem dos Advogados, que terça-feira defendeu que a violência doméstica não devia ser crime público
O bastonário Marinho e Pinto disse terça-feira no parlamento que a violência doméstica não deveria ser crime público, porque inviabiliza a desistência do processo, caso a vítima o deseje, notícia hoje a imprensa.
«Lamento que Marinho e Pinto, enquanto bastonário da Ordem dos Advogados, manifeste esta opinião» , disse hoje a presidente da APAV, Joana Marques Vidal, adiantando ter ficado «perplexa» com as declarações.
A presidente da APAV referiu que o fenómeno da violência doméstica é «extremamente grave e que o número de casos tem aumentado», acrescentando que a categorização destes actos como crime público está «sedimentado na sociedade» e que «quase de não vale a pena voltar a discutir o assunto».
«O crime público (para os casos de violência doméstica) está interiorizado na comunidade e é sem dúvida um instrumento muito importante para que haja uma noção clara na comunidade de como aqueles comportamentos, atitudes e agressões são inadmissíveis» , frisou.
Para a presidente da APAV «é fundamental que (o crime nos casos de violência doméstica) continue e que seja público».
Joana Marques Vidal esclareceu também que o novo Código do Processo Penal - em vigor desde Setembro último - permite a suspensão provisória do processo a pedido da vítima.
«No caso de as vítimas se arrependerem há mecanismos (na lei) que permitem alguma margem de manobra» para que o processo não chegue a julgamento, explicou.
A responsável pela APAV afirmou, sem conseguir quantificar, existirem vários casos de vítimas de agressões que evitam fazer queixa às autoridades e outras que, em determinado momento, as querem retirar.
Lusa / SOL
P.S. Tristemente "deliciosas" são as expressões encontradas pelo Senhor Bastonário para descrever as leis que, como é óbvio, se aplicam aos dois sexos (e a percentagem de queixas por parte de homens já não é negligenciável): "há nelas uma espécie de feminismo impenitente...; a vítima não quer justiça - quer vingança".
Quase apetece falar de machismo impenitente:).
APAV ‘perplexa’ com declarações do bastonário dos Advogados
A presidente da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) disse hoje ter ficado «perplexa» com as declarações do bastonário da Ordem dos Advogados, que terça-feira defendeu que a violência doméstica não devia ser crime público
O bastonário Marinho e Pinto disse terça-feira no parlamento que a violência doméstica não deveria ser crime público, porque inviabiliza a desistência do processo, caso a vítima o deseje, notícia hoje a imprensa.
«Lamento que Marinho e Pinto, enquanto bastonário da Ordem dos Advogados, manifeste esta opinião» , disse hoje a presidente da APAV, Joana Marques Vidal, adiantando ter ficado «perplexa» com as declarações.
A presidente da APAV referiu que o fenómeno da violência doméstica é «extremamente grave e que o número de casos tem aumentado», acrescentando que a categorização destes actos como crime público está «sedimentado na sociedade» e que «quase de não vale a pena voltar a discutir o assunto».
«O crime público (para os casos de violência doméstica) está interiorizado na comunidade e é sem dúvida um instrumento muito importante para que haja uma noção clara na comunidade de como aqueles comportamentos, atitudes e agressões são inadmissíveis» , frisou.
Para a presidente da APAV «é fundamental que (o crime nos casos de violência doméstica) continue e que seja público».
Joana Marques Vidal esclareceu também que o novo Código do Processo Penal - em vigor desde Setembro último - permite a suspensão provisória do processo a pedido da vítima.
«No caso de as vítimas se arrependerem há mecanismos (na lei) que permitem alguma margem de manobra» para que o processo não chegue a julgamento, explicou.
A responsável pela APAV afirmou, sem conseguir quantificar, existirem vários casos de vítimas de agressões que evitam fazer queixa às autoridades e outras que, em determinado momento, as querem retirar.
Lusa / SOL
P.S. Tristemente "deliciosas" são as expressões encontradas pelo Senhor Bastonário para descrever as leis que, como é óbvio, se aplicam aos dois sexos (e a percentagem de queixas por parte de homens já não é negligenciável): "há nelas uma espécie de feminismo impenitente...; a vítima não quer justiça - quer vingança".
Quase apetece falar de machismo impenitente:).
sexta-feira, maio 09, 2008
Um país de analfabetos malévolos!
Leio, ouço e pasmo - um país inteiro afirmando que o Primeiro-Ministro cometeu uma gaffe no debate parlamentar de ontem. De acordo com essa versão - ingénua, ignorante ou malévola... -, o Engenheiro Sócrates teria afirmado existirem razões para censurar o Governo, mas não as apontadas pelo PCP, assim traindo e revelando a verdade, aferrolhada nos seus neurónios e escondida do povo português. Lamentável interpretação:(. Os factos são outros, e admiráveis! Fontes geralmente bem informadas asseguraram-me que o Primeiro-Ministro já entregou ao Dr.Alberto Martins a lista das razões que justificam uma moção de censura adulta, eficaz, DE-FI-NI-TI-VA. O grupo parlamentar do PS apresentará a sua própria moção de censura, que será aprovada, se necessário, apenas com os votos do PS, atendendo à falta de honestidade intelectual de toda a Oposição, capaz de votar contra por mero despeito perante tal prova de desapego ao poder. O Presidente da República tentará demover o Primeiro-Ministro, com o tacto que tão bons resultados obteve no recente diálogo com o Dr. Alberto João Jardim, mas falhará. Serão convocadas eleições e o povo português, sábio e apreciador da auto-crítica, dará ao PS um resultado inovador: uma super-maioria absoluta! Existe até a possibilidade de a Assembleia da República ser constituída apenas por deputados do PS e pelo Dr.Francisco Louçã, este por intercessão do próprio Primeiro-Ministro.
terça-feira, maio 06, 2008
Chefiar ou liderar?
Alguém me criticava hoje por chefiar de forma demasiado "protectora". Por mero acaso, liderei a minha primeira equipa muito cedo, com 33/34. E nunca consegui mudar de estilo - bato-me até à exaustão por quem junta a lealdade à competência. Valeu a pena, as desilusões jamais chegaram aos calcanhares de experiências de solidariedade reconfortantes. Há mais de vinte anos, um velho amigo interrogava, maroto, um dos meus estagiários - "e está satisfeito por trabalhar com ele?". "Estou", respondeu o recém-dr, "nunca nos exige mais do que a si próprio". Foi o melhor elogio que já recebi, mesmo que se tratasse de piedosa ou investidora mentira destinada aos meus ouvidos:).
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